2018-06-08



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE (3)

Aprender a biberonar …

Antunes Ferreira

Antes que a minha mãe começasse a falar atalhei eu com grande espanto dela bem como da tia Elsa, atirando de cabeça erguida do alto dos meus dez anos que vira e ouvira todas a tremenda cena da madrugada explicando-lhes como isso acontecera tim por tim e quanto mais desbobinava tão sereno quanto me era possível mais as duas esbugalhavam os olhos. Podia lá ser… Podia. Infelizmente podia.

Desde que era miúdo quer a mamã quer a titi me tratavam por Mandinho num tom carinhoso e em jeito de bebé, petit nom que fora adoptado por mais gente lá em casa como por exemplo a Genoveva que era a nossa cozinheira há milhentos anos e que já fazia parte da família e da mobília, a Rita, a criada de casa, para tudo que já estava connosco mesmo antes de eu nascer e o meu primo Olegário que viera de Condeixa para estudar medicina e vivia na nossa casa.

Pois bem, nessa altura as duas levantaram-se e vieram sentaram-se uma de cada lado de mim – eu estava no maple maior – e abraçaram-me e a mãe disse-me baixinho, com as lágrimas a correr pelas faces tal como a tia Elsa. Meu querido Armando Manuel a partir de hoje és o homem da casa… E ficaram as duas a soluçar agarradas a mim. Perguntei então muito admirado Essa agora, e então o Olegário?

Foi a tia Ela quem respondeu: Querido Armando com tamanha responsabilidade que acabas de receber deves começar agora mesmo a entender o que é a vida para o bem e para o mal. E eu cada vez mais assarapantado, mas… O Olegário vai sair aqui de casa na semana que vem pois vai morar com o namorado, mas por favor não digas nada disto a ninguém. Estava siderado.
 
...Com o namorado???
Namorado? A tia não se enganou? Os homens têm namoradas, não têm namorados. Foi a vez da mamã intervir: Ficas a saber meu filho que nem todos somos iguais; há homens que gostam de homens, bem como há mulheres que gostam de mulheres, são coisas da Natureza, há quem diga que é doença, mas eu não acredito nasce-se assim, não há nada a fazer mas é uma vergonha por isso não se fala nisso e até é proibido não só pela Igreja, mas pela política se se é descoberto até se pode ser preso.

Tinha a cabeça completamente virada do avesso. Tanta descoberta ao mesmo tempo para mim, Armando Manuel da Costa Saraiva Mendes a caminho dos dez anos era demais. Seria capaz de aguentar tudo aquilo que me esperava? E antes de tudo o que seria que viria? O que me aguardava? O que o destino que iria proporcionar? Mas – haveria destino? Ou era tudo um pesadelo que estava a viver ainda por cima acordado? Que mal tinha feito para me encontrar em tal demoníaca situação?

Foi então que vindo do quarto da mamã – do casal pelos visto já fora – veio o som do balido miudinho do Frederico, está na hora de mamar, até já passa, disse a tia Elsa que acrescentou, graças a Deus tenho tudo preparado para a mamada e foi buscar o biberão que estava a “nadar” em água fervida, preparou o leite e foi amamentar o bebé seguida por mim, vais apendendo a fazê-lo disse-me ela com um sorriso maroto. E com uma gargalhada, vais aprender a biberonar…

Sem legenda

Na manhã seguinte a mãe levou-nos ao colégio e lá chegados fui com ela falar com a directora ao gabinete desta. A Dr.ª Margarida foi posta ao corrente da situação e como já por diversas vezes tinha acontecido elogiou-me e disse que me considerava além de bom aluno e bem comportado um rapaz atilado e de cabeça no seu lugar e ainda que estava convencida que pese embora a minha idade seria capaz de desempenhar a enorme e difícil tarefa que me era cometida a partir de então.

Mais acrescentou que o colégio faria o que lhe fosse possível para me ajudar e ela própria também porque eu ia precisar de todo o apoio para ir defrontando todas as dificuldades que se me deparassem. Ente a família e a escola tinha de ser assim. E prometi a mim próprio que não me deixaria ficar mal bem como faria o mesmo para com quem me rodeava. Estava dado o primeiro passo numa maratona em que se transformara a minha vida.

O primeiro objectivo era sem margem de quaisquer dúvidas o acompanhamento cuidadoso e atento do Frederico. O puto continuava a ser pachola sempre muito simpático, dado e risonho de tal forma que nos fazia esquecer a sua deficiência. Mas já se notavam que os seus braços eram mais curtos que os normais num bebé da sua idade, os olhos permaneciam achinesados e as rugas marcavam-lhe a testa que de resto era curta.  

Esperavam-me anos encrencados porque tinha de o seguir, talvez a Leonor quando mais crescida me desse uma mãozinha, tinha a certeza disso, qual talvez qual carapuça, além, claro, da mamã e da tia Elsa bem como das avós Virgínia e Matilde, os avôs já tinham falecido e naturalmente quem o seguiria na saúde seria o tio Jacinto, que era médico pediatra e irmão do meu pai que não se importaria do caminho ínvio que as relações do casal tinham tomado.

O que se passava com o padre?


Financeiramente não havia problemas pois além do ordenado da mamã e com a tia Elsa a tomar conta da nossa casa tínhamos os rendimentos de prédios e propriedades no Alentejo pois a família era abastada. Já a insinuação sobre o padre Jaime era um berbicacho. Mas a tia dois dias depois desta cegada informou-me que ia pôr-me ao corrente do que na verdade se passava e para já que sossegasse pois não era nada com a mamã.

Posto isto voltámos à normalidade no colégio e do dia-a-dia. E foi então que a tia Elsa me chamou de parte para conversarmos sobre o coadjutor da nossa paróquia.
(Continua)


  

2018-05-31

É DIFÍCIL TER UM IRMÃO MONGOLÓIDE (2) 




Antunes Ferreira
No fim-de-semana a tia Elsa tinha tudo arranjado para receber a mamã e o neófito – foi assim que ela me ensinou a dizer – que deviam chegar antes do almoço. Como ela não podia dar o peito ao Frederico pois tinha os bicos dos peitos pouco salientes já se tinham comprado umas duas latas grandes de leite em pó Nido da Nestlé para ser dado em biberão.

O maninho ia ficar no quarto dos pais num berço em madeira polida torneada que já vinha da avó Natália passara  para o Henrique, o primogénito em seguida para a mãe Maria de Fátima e depois para a mana Elsa, mana mais nova e o “inquilino” seguinte fora eu, quatro anos mais tarde a Leonor e agora o Frederico. Era mais uma cama pois tinha dormido nela até que chegara a Leonor ou seja aos meus quatro anos. Sempre pensei que era uma espécie de jaula como as do jardim zoológico só que sem grades por cima…
 
Carrinho de bebé
O enxoval estava um mimo. Para o baptizado o novo mano ia usar o fato/vestido que eu usara e para cúmulo da minha felicidade o padrinho seria eu. Nem queria acreditar. De resto e seguindo as determinações paternas no meu caderno de encargos constava ainda motorista do carrinho do bebé, mas sem carta de condução e lavar-lhe a chupeta sempre que ela caía no chão. Aliás o Frederico era um puto porreiro quase nem chorava e se o fazia mais parecia um miado de gatinho perdido da sua ninhada.

Mas o melhor de tudo eram os ensinamentos que a tia Elsa me fornecia sobre as “técnicas” de lidar com a criança. Era ela que lhe dava banho, depois de caído o cordão umbilical, também lhe mudava as fraldas, dava o biberão, apanhava a chupeta quando ela caía no chão e outras ao mesmo tempo que me ia ensinando depois de eu chegar do colégio. Sempre comigo a assistir, para ver, dizia ela como São Tomé... E além disso ainda me proporcionava tempo para brincar.

Porém não havia só obrigações; tinha a vantagem de ser o primogénito, um quarto só para mim ao lado do dos meus pais. E certa noite, quando me levantei para ir à casa de banho a fim de fazer chichi ouvi um barulho de discussão que vinha do quarto do casal. Fiquei alarmado. Nunca tal acontecera ou, pelo menos, ouvira. Sem fazer ruído sentei-me no chão e encostei o ouvido à porta. Sabia que era feio mas a curiosidade venceu. E pior, espreitei pela fechadura, os candeeiros das mesinhas de cabeceira estavam acesos e os pais discutiam num tom acentuado que ia aumentando de volume. A mãe sentada na cama e o pai andando para cá e para lá.

Consegui descortinar que o berço estava vazio e logo ouvi a explicação “Pelo sim pelo não, a Elsa levou o menino para o quarto dela para podermos elevar a voz se for necessário. É que pela primeira vez tenho de te dizer que a desgraça que nos aconteceu é por culpa tua!” O meu pai abriu muito os olhos e retorquiu num brado “Minha??? Porra!!!” Fiquei estarrecido pois nunca ouvira dizer tal palavra na nossa casa.

 
Será verdade?


“Sim, sim, tu foste o culpado, com a mania de tropa de quereres ter mais um filho que seguisse a carreira militar já que o Armando não tem queda para isso e sabias muito bem que para mim com 37 anos a gravidez era de risco!!! E o Dr. Fontes bem alertou para o perigo,” Estava de vez o caldo entornado, Mas haveria mais. “Maria de Fátima (o pai Gilberto tratava a mamã por Fatinha…) com tal acusação cortaste a ponte que ainda nos ligava. Vou deixar-me de fingimentos. Mas também te quero dizer nas trombas que não gosto de ser corno e o puto não deve ser meu mas do teu amante o padre Júlio com quem andas a foder que nem uma vaca com cio… És uma puta! Eu já desconfiava! Falsa beata! Rata de sacristia!!!!” E como a mamã se tivesse levantado com os olhos esbugalhados de espanto o pai levou a mão direita atrás e deu-lhe duas chapadas com tal violência que a atirou sobre a cama!  

Para mim já bastava. Levantei-me num salto silencioso e entrei no meu quarto fechando de imediato a porta muito devagarinho. Mas ainda ouvi o pai bater com estrondo a porta do quarto deles. Abandonara o quarto com uma ultima ameaça “Nunca mais aqui entro!!!!” Meti-me na cama e não conseguia adormecer por mais que fechasse os olhos. Pelo que tinha escutado eu também fora parte da causa da doença do Frederico. Estava amaldiçoado e tinha de expiar esse pecado que por certo era quase mortal. Mas que berbicacho.

De manhã como era habitual o pai levou-nos ao colégio no carro dele mas durante o caminho foi-nos alertando que durante uns meses que não sabia quantos tinha de ausentar-se para o estrangeiro e por isso não podia transportar-nos “mas, certamente a vossa mãe pode fazê-lo usando o carro dela” e reparei que ele acentuara o possessivo. Estava o caldo esturrado, ou como dizia a Lucinda, que era a nossa cozinheira, tinha chegado o bispo ao fundo da panela.

...dormia sossegadinho



Quando voltamos do colégio o Frederico dormia sossegadinho e a mãe mais a tia Elsa chamaram-me à sala de estar. Enquanto a Leonor ficava no quarto dela a brincar às donas de casa com uma amiga a Rosinha filha dos nossos vizinhos e amigos Fonsecas. “Armando senta-te aqui ao pé de nós pois temos de conversar é um assunto muito sério mas desde já te digo que não fizeste nada de mal. Porém, a partir de hoje…”
(Continua)


2018-05-26



Tal como tinha informado e baseado na
nossa querida Amiga Elvira Carvalho
começo hoje a publicar uma séria de textos de
ficção sobre a doença de Down ou seja o
mongolismo
A acção decorre no século passado e
O tema é delicado mas infelizmente
afecta muitas famílias.

É difícil viver

com um irmão
mongoloide

Antunes Ferreira
Tinha nove anos quando nasceu o meu irmão Frederico. Lembro-me vagamente de quatro anos antes quando a minha mãe deu à luz a minha irmã Leonor ter havido uma grande festa lá em casa, até o pai Gilberto abriu uma garrafa de champanhe do verdadeiro, no rótulo tinha champagne e o pai disse que era francês.

Mas na tarde do dia 8 de Agosto do ano de 1959 quando o pai voltou da maternidade trazia um rosto fechado completamente diferente. A avó Lurdes tinha-nos avisado que graças a Deus já nascera um novo mano, no entanto arvorara um sorriso doce, um sorriso que só ela sabia usar, mesmo nas horas mais difíceis. 

A tia Elsa, irmã da mãe, fora buscar-nos ao colégio Valsassina e quando lhe perguntara se já nascera o bebé e se era menino ou menina respondera-me que quando saíra de casa ainda nada se sabia. Depois foi o que aconteceu e que já contei e fiquei com uma grande suspeita: ali havia coisa. O que seria? Em vez de risos e festas, rostos carregados e desanimados.

 
Sem legenda
Quando nos sentámos à mesa para jantar o meu pai que como sempre ocupava a cabeceira da mesa uniu as mãos inclinou a cabeça e começou a rezar Pai nosso que estais nos Céus… e nós fomos respondendo até ao amém final. Estava a família toda reunida excepto a mãe ainda na maternidade, a tia Elsa, a Leonor na cadeirinha de criança, a avó Lurdes, o primo Olegário que andava em Direito e morava lá em casa pois os pais viviam em Celorico de Basto e eu.

Foi então que o pai anunciou com um ar um tanto solene e meio sisudo que já tínhamos um novo irmão mas que por vontade de Deus nosso Senhor nascera um pouco diferente porém devíamos amá-lo, tratá-lo, acompanhá-lo e ajudá-lo em tudo o que ele necessitasse e virando-se para mim dissera-me que eu sendo o primogénito tinha de ser o primeiro a tomar conta dele, bem como toda a família. Não perguntei porquê, mas fiquei a matutar no assunto.

Quando me fui deitar e antes de me encomendar ao meu Anjo da Guarda o pai veio aconchegar-me o lençol e o cobertor de Verão e disse-me: Armando o teu novo irmão vai chamar-se Frederico que era o nome do teu avô materno casado com a avó Lurdes, um homem de bem como sabes. Tens de honrar o nome e cuidar com a maior atenção o Frederico porque ele precisa de ti em especial. Claro que lhe respondi com um sim imediato. Ele afagou-me o cabelo, deu-me um beijo, apagou a luz eu virei-me para o lado e tentei dormir. Levei mais tempo do que habitualmente. O que se passaria?

Dois dias depois fui com a tia Elsa no carro do pai à maternidade ver a mãe e o bebé e qual foi o meu espanto quando vi que ele tinha o aspecto de ser mais ou menos achinesado e bastante enrugado. A mamã que me conhecia muito bem – era o seu primogénito – disse-me num tom suave mas meio magoado que não me preocupasse porque Nosso Senhor tinha decidido que o Frederico teria esse ar mas era igual aos outros meninos tinha corpo e alma como todos.

Claro que sorri e para não restar quaisquer dúvidas dei um beijinho levemente no meu maninho, fiz-lhe uma festinha sob o olhar embevecido da mamã, papá e da tia Elsa. No entanto tenho de confessar que por dentro estava muito atrapalhado. Por que razão Jesus nos dera um Frederico diferente? Que pecado por certo mortal teria acontecido para tamanho castigo? Numa família profundamente católica aprendera que Deus que era só bondade e misericórdia. Que se passara?
 
Capitão
Na volta para a casa vinha a pensar que o pai que era capitão engenheiro se calhar tinha-se enganado nalguns cálculos e originado um grande desastre com muitos mortos e feridos. Mas nunca ouvira falar nisso. Não, ali havia coisa e coisa muito complicada. A tia Elsa eu vinha sentada no lugar o morto (nunca percebera qual o motivo porque um falecido tinha sempre o lugar ao lado do condutor) virou-se para trás Ó Armandinho vens muito calado, vens a pensar na morte da bezerra? Não percebi Na morte de quem?

Pela primeira vez nesse dia vi e ouvi os dois soltarem umas gargalhadas, curtas embora, mas risonhas, e ela explicou o que a expressão queria dizer. Depois, a curta viagem prosseguiu em tom soturno. Arrumado o carro quase em frente do prédio onde morávamos subimos ao segundo esquerdo e os três fomos para a sala de estar. Foi aí que comecei a entender o que se estava a passar.

A tia Elsa era enfermeira, trabalhara no Hospital de São José mas dera baixa e estava em casa. Tinha estudado para ser médica mas acontecera qualquer coisa e desistira e fora para enfermeira. Era ela que explicava o sucedido. O Frederico tinha nascido com a doença de Down que é a trissomia 21, uma condição cromossómica causada por um cromossoma extra no par 21. Crianças e jovens portadores da síndrome têm características físicas semelhantes e estão sujeitos a algumas doenças.
 
Características da Doença de Down
Embora apresentem deficiências intelectuais e de aprendizagem, são pessoas com personalidade única, que estabelecem boa comunicação e também são sensíveis e interessantes. Quase sempre o “grau” de acometimento dos sintomas é inversamente proporcional ao estímulo dado a essas crianças durante a infância.

Não tinha percebido tudo e então ela trocou por miúdos a que dissera explicando o que eram os cromossomas e quantos havia habitualmente. Perguntei-lhe se havia tratamento para a doença e a tia Elsa disse-me que sendo genética – e genética (que vem do grego geno; fazer nascer) é a especialidade da biologia que estuda os genes, a hereditariedade e a variação dos organismos e a forma como estes transmitem as características biológicas de geração para geração.

Fiquei um pouco mais esclarecido e a tia disse-me que ia conversar mais comigo sobre o assunto o que mereceu a concordância do meu pai. Estava então a caminho a ligação profunda que se iria estabelecer entre o Frederico e eu. E de que irei dando conta no próxima texto
(Continua)

2018-05-05



Do smartfone à sogra

Antunes Ferreira
Manuel Assunção Pires e Francisco Pinto Galvão eram amigos desde o jardim-de-infância e percorreram ambos uma vida plana, sem sobressaltos, incolor, inodora como qualquer gás inocente que se preza, nada dos infames Mostarda da Grande Guerra ou Zyklon B da II Guerra Mundial e como já não havia colónias nem tinha ido à tropa. Um percurso escolar sem altos voos tranquilo décimo segundo ano e chega. Chegou.

Sem legenda


Para ser mais exacto quase não chegou. Os tempos do dueto Passos Portas que, pasme-se, conseguiram ser piores do que a famigerada troica originaram que os empregos de ambos tivessem isso pró galheiro. O Pires trabalhava numa empresa de transportes em Porto Alto como encarregado do escritório e o Galvão tinha a meias com um cunhado uma ourivesaria em Coimbra. De repente catrapus, caiu dos céus aos trambolhões a crise.

Ambas as ocupações foram-se à viola e para ajudar à guitarrada a Matilde e a Cláudia esposas amantíssimas de cada um viram-se também no desemprego. Duas cavadelas, quatro minhocas mailas cinco crias, três do Pires e da Matilde, dois do Galvão e da Cláudia. Bonito serviço. Poupanças – que é delas? Mesmo assim, poucas. Mas os euros estavam cada vez mais caros e sobretudo mais raros. Subsídio de Desemprego para os homens. Mas de braços caídos? Ná, não é vida. Os catraios todos os dias comem – e de que maneira, caramba! E já agora, os progenitores também.

Olhe que dois...


Pais e sogros ou já tinha sido eliminados dos cadernos eleitorais ou teimavam em prolongar os respectivos prazos de validade. Estes não os podiam ajudar, tomavam eles que os ajudassem, as reformas que não eram nada de especial mesmo assim tinham torpedeadas pelos submarinos do senhor Portas. A “dupla futura/ex PAF” fora capaz de executar o impensável: cortar nas pensões de reforma. Talvez tivessem os dois protagonistas de tal crime pensado enviar o caso para o Guiness World Records. Mas não o fizerem, acagaçaram-se.

Uma tarde em Almada consultavam o Custo Justo na Secção Emprego como todos os dias faziam, além de enviar currículos aos montões para tudo o que lhes parecia ser possível e o Galvão soltou a língua: Ó Manel tenho andado a matutar que… E o Pires: Cuidado Chico, não matutes muito, c’ ainda gastas o córtex… Ó pá deixa-te de tretas, pedíamos um empréstimo.

Porém o crédito é muito difícil de obter e o Manel Pires estava numa de negação enquanto o Chico Galvão, muito pelo contrário defendia o velho princípio de enquanto há vida há esperança. Havia o Microcrédito que podia ser utilizado para criar uma PME cujo capital seria de cem mil euros para o que seria apenas necessário um fiador e podiam contar com a ajuda do IECP. No dia seguinte iniciaram o estudo do assunto começando pelo objectivo da empresa que pretendiam criar.

O Chico Galvão desde miúdo que tinha o hobby das miniaturas tão pormenorizadas quanto lhe fosse possível. Delas passou ao fabrico próprio e aos 16 anos já mexia em tecnologia informática. Mas era apenas um passatempo para as horas livres. Agora, desempregado, por que não criar uma PME nesse campo, um cluster. Da gestão encarregar-se-ia o Manel Pires que se sentia capaz de mexer em dinheiros e começou a aprender o que era a bitcoin e como usá-la.

Melhor pensado, melhor feito. Arrancaram com a Galpicoin – tecnologias de ponta com a Matilde e a Cláudia a completar a equipa e a Internet a publicitar: Galpicoin – nascemos e estamos cá para ajudar. As duas famílias moravam em dois apartamentos do mesmo prédio em Cruz de Pau; conseguiram um espaço para instalar a empresa na sobreloja dum outro prédio quase em frente daquele onde habitavam. Perfeito. Para ir a Lisboa tinham o comboio da Fertagus sempre que era necessário. E o primeiro objectivo foi a recuperação de smartfones.

Catorze milhões de smartfones...


Por incrível que pareça em Portugal, que tem cerca de nove milhões de sujeitos, existem quase… quinze milhões de telemóveis! Donde muitos desses bicos usam os aparelhos telefónicos móveis e portáteis e sem fios sem lhes causar grandes danos, mas ainda ou também muitos milhares, centenas de milhas que não lhes dão muitos carinhos. Donde a escolha dos dois sócios parecia mais ou menos acertada. E felizmente foi. A Galpicoin singrou. Passado um ano já tinha oito trabalhadores e o capital passara a ser de 500 euros.

E não vale a pena continuar a descrever o que ainda continuava a verificar-se. Apenas uns apontamentos. As duas famílias mudaram-se para vivendas na Mata da Marinha e o seu nível de vida correspondeu a essa mudança, a empresa tinha novas instalações onde já havia vinte empregados e a facturação era impressionante. Um verdadeiro aumento exponencial.

Por uma tarde de Verão Manuel Pires e Francisco Galvão depois de uma partida de ténis com uns amigos no court da vivenda do primeiro estavam bebericando uns uísques e uns gins bebida que estava na moda quando uma das empregadas com um ar convenientemente pesaroso veio dar a notícia que acabara de saber por telefonema que a mãe da Senhor Dona Cláudia acabara de falecer.

Já no velório...


Já no velório, surgiriam as habituais conversas e as sacramentais piadas e anedotas sobre as sogras. Chico Galvão dissera que a Dona Madalena fora uma sogra bué fixe, não se metia na vida do casal e até gostava dele, tratava-o como um filho. O engenheiro Martinho que era um amigalhaço contou então que a propósito de sogras, qual é o maior azar dum homem? E perante o franzir da testa dos que o rodeavam saiu-se com a resposta é ter uma sogra chamada Esperança que é sempre a última a morrer. As gargalhadas foram contidas – sempre era um velório.

2018-04-18






Sabes o que é

um cromeleque?



Antunes Ferreira
(Uma advertência prévia nunca fez mal a ninguém
 antes pelo contrário e por isso ela aqui fica.
Quando comecei a dar os primeiros
passos no jornalismo mais precisamente 
no “falecido” Diário Ilustrado, o Victor da Cunha Rêgo
, um dos maiores Jornalistas que conheci,
 que muito me ensinou e com quem tive
 o prazer, o privilégio e a honra de trabalhar
 deu-me uma das principais regras da redacção
 de uma notícia, de um artigo,
de um comentário, enfim de um
texto – nunca se faz um título interrogativo.
Caramba, mas este acabei de o fazer!
Privilégios da velhice? Que desculpa mais esfarrapada…)


Desde miúdo que gosto de histórias aos quadradinhos como então se dizia e continuo a dizer; aos cinco anos já sabia ler, tinha aprendido pela Cartilha Maternal o João de Deus com a minha prima Queta que tinha doze anos e era esperta como um figo (nunca percebi o porquê de um fruto da figueira ser esperto…) e por isso o meu Pai, além de comprar o Diário de Notícias e o República também adquiria o Mosquito para mim. E A Bola que era semanária.

Foi “vicio” que me ficou até hoje e que confesso com muito prazer. Quando atingi a maioridade a 20 de Setembro de 1958, por emancipação, iria no ano seguinte falecer o meu Pai, um Homem de Bem, honesto, simples, tímido, profissionalmente um gigante que ainda hoje guardo com respeito saudade e admiração. E entretanto, porque eramos uma família da média burguesia a pouca massa de que dispúnhamos foi-se acabando e eu, o filho mais velho dos sete irmãos que eramos comecei a trabalhar e estudar na faculdade de Direito de Lisboa.
Obelix

E dos poucos tostões com que tinha de me desenrascar uns quantos eram para comprar a revista francesa Pilote de histórias aos quadradinhos. Nela apareceram já em 1959 dois heróis que me acompanham até hoje, pois tenho a colecção completa deles – Astérix e Obelix.  Este último um produtor, transportador e distribuidor de menires, gozando da super-força devida à poção mágica criada pelo druida Panoramix, pois quando puto caíra no caldeirão onde este preparava a mistela.

Aqui chegado tenho de explicar o porquê desta introdução ”quadriculada”. Pouca gente sabe, mas Portugal tem monumentos pré-históricos em pedra muito mais antigos do que o Stonehenge, na Inglaterra. Na verdade, são alguns dos monumentos megalíticos mais antigos da Europa. O megalitismo trata dos monumentos megalíticos, construções monumentais milenares, com base em grandes blocos de pedras, que pesavam toneladas.

Alguns dos exemplos mais antigos de monumentos megalíticos surgiram na costa do Oceano Atlântico, na Europa, entre a Escandinávia e a Península Ibérica. Particularmente, no Algarve e Alentejo, em Portugal. A conversa que mantive com o Gonçalo Pereira Rosa – e que levou ao último artigo deste blogue – levou-me à leitura do National Geographic de Março, onde ele publicou o artigo/editorial intitulado Reviver o passado no Cromeleque dos Almendres.

Recomendar a leitura dele seria despiciendo pois j
National Geographic edição portuguesa
á disse no texto atrás referido quem é o Gonçalo. Mas sugerir uma visita ao monumento megalítico isso sim; fazê-lo é realmente reviver o passado mas um passado com toneladas de peso – porque as pedras que constituem o cromeleque são mesmo grandes. A história da sua descoberta tem muitas estórias e azares pelo meio. Foi em 1964 que o pastor António Gardunhas encontrou uma grandes pedras no sítio das Pedras Talhas (o nome vernáculo do local situado na antiga freguesia de Guadalupe ente Évora e Montemor-o-Novo).

Socorrendo-me dos documentos existentes, nomeadamente dólmenes ou antas, mamoas, cromeleques, grutas artificiais, menires e tolos inseridos no contexto da arte megalítica no nosso país foi-me possível chegar a uma totalidade de cerca de trezentos. É obra. E nada nos diz que não haja mais por descobrir. Mas se se voltar à totalidade constatar-se-á que só no distrito de Évora existem (até à data) 55 obras de arte megalíticas.

Para concluir este trabalho sem quais quer pretensões académicas, apenas informativas e muito resumidas aqui ficam algumas características dos principais monumentos megalíticos, a saber.


Menir, também denominado perafita, é um monumento pré-histórico de pedra, cravado verticalmente no solo às vezes de tamanho bem elevado.

Cromeleque, é o conjunto de diversos menires dispostos em um ou vários círculos em elipses, em rectângulos, em semicículo ou ainda estruturas mais complexas.  
O termo está praticamente obsoleto em arqueologia, mas permanece em uso como uma expressão coloquial. Trata-se de monumentos da pré-história, estando associados ao culto dos astros e da natureza, sendo considerados um local de rituais religiosos e de encontro tribal. A grande maioria dos cromeleques existentes em Portugal encontra-se em encostas expostas a nascente-sul.


Dólmen da Orca


O dólmen caracteriza-se por ter uma câmara de forma poligonal ou circular utilizada como espaço sepulcral. A câmara dolménica era construída com grandes pedras verticais que sustentam uma grande laje horizontal de cobertura. As grandes pedras em posição vertical, denominadas esteios ou ortósmos, são em número variável entre seis e nove. A laje horizontal é designada chapéu, mesa ou tampa. Existem câmaras dolménicas que chegam a ter a altura de seis metros. Quando a superfície da câmara dolménica não supera o metro quadrado, considera-se que é um monumento megalítico denominado cista.
  
Ao que tudo indica, os dólmenes apresentavam-se outrora sempre encobertos por um montículo artificial de terra, geralmente revestidos por uma couraça de pequenas pedras imbricadas, formando aquilo que se designa por mamoa


Tolo,  designa um edifício circular, seja um monumento religioso, templo ou sepultura. Na pré-história os tolos eram constituídos por uma câmara circular, com uma abertura para um corredor, e uma cúpula. A cúpula era formada por lajes de xisto sobrepostas, eventualmente com uma coluna ao centro para a sustentar.

Fica aqui concluído este modesto contributo para o esclarecimento dos que acompanham o nosso blogue que continua a tentar ser de todos para todos.

2018-03-31



Um exemplo de jornalismo
Ó Gonçalo
anda daí

Antunes Ferreira
Um gajo bué fixe. Modernice que define bem – na modestíssima opinião de quem se atreve a usá-la – o cidadão em causa que é o Gonçalo Pereira Rosa um Homem que, salvo as devidas proporções e situações é comparável ao bacalhau pois em vez das mil e uma maneiras de preparar este, ele usa e abusa dos ofícios e correlativos. É um fartote.

Conhecemo-nos no ano passado e encontrámo-nos na “Flor do Lumiar”, uma pastelaria/padaria, a duzentos/trezentos metros de minha casa, o convite fora do Gonçalo pois dissera-me por telefonema que gostaria de me entrevistar sobre uma conversa/entrevista que eu tivera com o Lech Walesa em Gdansk quando ali me deslocara em serviço ao Diário de Notícias de Lisboa de que era então o Chefe da Redacção adjunto.

Mal nos sentámos senti que tinha sido “vítima de uma faísca eléctrica” e que, na verdade era o imediato e instantâneo começo de uma empatia que logo depois se transformava em Amizade, entre o Gonçalo e eu. Não eramos, claro, irmãos gémeos, mas eramos almas fémeas (se é que as almas existem…, dúvida essa que também com partilhamos, porra, que é demais!)
 
Sem legenda
A entrevista correu muitíssimo bem, antes dela eu estava um tanto abismado pois normalmente quem as fazia era eu, e só por duas vezes sujeitos impolutos (uma dos quais “sujeita”) tinham tido a pachorra de me aturar durante umas horas para esmiuçar um episódio de um passado mais ou menos intraduzível. No final, o rapaz não esteve com meias medidas: prantou-a no seu livro intitulado O Inspector da PIDE que Morreu Duas Vezes.

De resto o meu amigo Pereira Rosa já tinha publicado em 2015 Parem as Máquinas e em 2016 A Gripe e o Naufrágio. Ora muito bem, chegou a altura de contar um tanto resumidamente quem é este Senhor de seu nome Gonçalo Pereira da Rosa, jornalista dos quatro costados, também escritor, pesquisador, professor universitário, director da edição portuguesa da National Geographic e não sei que mais… Daí a comparação espúria inicial com o bacalhau.

Começou a ser jornalista em 1994 em jornais desportivos, revistas semanais e mensais e como acima se menciona desde 2001 na National Geographic. Diz com um ar de chalaça que comprovou aquilo que Raul Brandão disse em tempos: as Redacções atraem os doidos como a luz atrai as falenas, irremediavelmente. Aliás cita o Baptista-Bastos que escreveu em Os Deuses Absurdos que as redacções são armazéns de loucos donos de um império consumido todos os dias, cabouqueiros de um edifício que todos os dias colapsa.

 
Com Baptista-Bastos
O rapaz como também antes apontei é catedrático de Jornalismo na Universidade Católica desde 2008 e diz ele “ensina os meninos e meninas a respeitarem os jornalistas que os precederam. Gente como António Enes, Emídio Navarro e Mariano de Carvalho no século XIX, um esgrimia com o floreste, o outro com o varapau e o terceiro a soco ou a pontapé. Gente como Artur Portela, Joaquim Manso, Norberto Lopes ou Norberto Araújo, que esgravataram ideias e prosa apesar da Censura. Ou gente como eu (sem modéstia agradeço a referência), o António Valdemar ou o Luís Alberto Ferreira que ousaram bater-se por exclusivos quando as administrações só queriam saber de contas.

Abri aqui um parênteses para mencionar outros excelentes jornalistas com os quais tive o prazer e a honra de trabalhar desde o inigualável Mário Zambujal (que criou um estilo muito próprio na literatura portuguesa actual a partir do espantoso e delicioso Crónica dos Bons Malandros) até aos Já falecidos Raul Rêgo e Cunha Rêgo, passando pelo também desaparecido Càceres Monteiro, Ferreira Fernandes, Adelino Gomes Joaquim Furtado Manuel António Pina (Falecido) e tantos outros, entre os quais ainda acrescento as minhas queridas Alice Vieira e Maria Antónia Pala, o Carlos Pinto Coelho, o João Aguiar, ambos também também incluídos no número dos mortos e o Fernando Dacosta.
 
Neandertal
Gonçalo define-se: é esquerdista incorrigível, sportinguista sem remissão (daí a a segunda entrevista que acaba de me fazer sobre o grande presidente que foi João Rocha cujo nome foi dado ao pavilhão velha aspiração de nós, os leões), ateu e casado. E para finalizar a conversa que durou até quase ao jantar e durante a qual cometi um gravíssimo pecado (não lhe ofereci algo para beber!), mea culpa, Gonçalo ainda somou que segundo um teste de ADN do National Geographic, descobriu que tem 1,9% de material genético comum com os Neandertais. E remata com uma bomba. A sua mulher, quando sabe das figuras que ele faz no futebol diz que deve ser engano: é capaz de ser mais!

2018-03-18




De Luto
Durante três dias suspendo a publicação d’ A Nossa Travessa pelo motivo de eu e a minha família estarmos de luto, pois faleceu no sábado o meu irmão Braz Manuel Antunes Ferreira, com 72 anos, vitima de um cancro na próstata que se tinha expandido a vários órgãos através de metáteses.
Hoje pelas 11 horas será cremado no cemitério de Barcarena.

Henrique Antunes Ferreira