Um remate fenomenal
*Sporting
eliminou o Arsenal em Londres
Antunes Ferreira
Sentado no meu sofá preparei-me para uma verdadeira
“degola de inocentes” porque no habitual derrotismo português o meu
sportinguismo estava pelas ruas da amargura depois do empate de 2-2 no estádio
de Alvalade frente ao Arsenal – o líder da lPremier League inglesa, considerada
a melhor do Mundo.
Como não posso beber o meu uísque preferido, o Bushmills
– nem qualquer outro por via dos medicamentos que tomo quotidianamente, muni-me
de um ice. Tea sem açúcar, estendi as pernas e só não me benzi pois como
costumo dizer e escrever fui católico, mas curei-me. Os dados estavam lançados
e veríamos o que “aquilo” ia dar. Felicidade – nem pensar.
O jogo começou com o Arsenal – aliás como lhe competia – a
tentar resolver a partida tão depressa quanto possível, mas pelo que estava a
ver, o meu Sporting estava no relvado do Emirates Stadium decidido a vender
cara a possível. E previsível derrota. Os comandados de Ruben Amorim traziam
bem estudada a tática para dificultar ao máximo os gunners (para quem
não saiba é o nome no jargão futebolístico dado aos jogadores arsenalistas).
Mas – há sempre uma miserável adversativa para dar cabo da
ilusão que se apossara do assistente cada vez mais admirado da prestação dos
leões – eis que ao minuto 19 um tal Granit Xhaka, um suíço de má memória para
as equipas lusitanas arrancou um remate indefensável em recarga com a baliza
aberta depois de Adán ter rechaçado um primeiro remate. Estamos feitos pensei
para com os meus botões. O resultado “agregated” entre Lisboa e Londres
era 3-2.
O futebolista comemorou o tento com um gesto de escárnio
agitando os dedos da mão direita apoiados no nariz como que gozando
antecipadamente com os lusos irremediavelmente eliminados. E, na verdade tudo
indicava que assim iria acontecer. O Arsenal estava na mó de cima e o Sporting
parecia muito abalado. Mas não era bem assim. Os verde-e-brancos não atiraram
com a toalha ao chão.
O intervalo chegou e eu mudei de canal para ver um pouco de policial e desanuviar. No fundo, não me restava uma esperança fundada, mas às vezes, enquanto o diabo esfrega um olho… Regresso à transmissão da partida e noto – ou penso notar – que os jogadores leoninos vêm com um ânimo de antes quebrar que torcer. Boa, penso, atitude não lhes falta – o que lhes falta são golos...
Batendo-se com denodo e pundonor os leões não davam
mostras de inferioridade perante os líderes do campeonato inglês. E de repente,
o espanto: do meio-campo, aproveitando um ressalto da bola feito por Paulinho,
Pedro Gonçalves entrou para a história do futebol português e quiçá para o
europeu. Levantou a cabeça e percebeu que o guarda-redes do Arsenal, Aaron Ramsdale, estava adiantado em relação à baliza e
aplicou um remate inacreditável que resultou num golo fantástico! Fenomenal! Estava
feito o empate, Da partida e da eliminatória. Eu nem queria acreditar. Mas era
mesmo assim.
Depois foi o arrastar dos noventa minutos mais
uns quatro de ajuste e o resultado não se alterava. Eu sofria, nunca tendo
pensado anteriormente que tal me aconteceria. Recorreu-se então ao prolongamento
de mais trinta minutos e ninguém conseguia acertar nas balizas. Só restava a
lotaria dos penaltis.
Cinco para cada lado como estipula a norma. Os
quatro primeiros quer do lado do Arsenal – por sorteio o primeiro a rematar –
quer do Sporting resultaram em golos. Porém ao quinto, Gabriel Martinelli
atirou por forma a permitir a defesa de Adán! Que, de resto, tinha feito um
jogo extraordinário defendendo tudo o que era possível e até o “impossível”… Faltava
o quinto do Sporting. Eu já estava de pé quando Nuno Santos arrancou para a
bola e com um chuto certeiro eliminou o Arsenal no Emirates Stadium! Hurra! Ultra!! Como escreveu o “Mais futebol”
há mais de vinte anos que os ingleses não ganham um troféu europeu.
Esta crónica foge ao habitual, mas o meu
sportinguismo justifica a alteração. Pelo menos do meu ponto de vista, No
momento em que escrevo este texto já se sabe que nas meias finais o Sporting
irá defrontar a Juventus. Um novo desafio, um outro obstáculo que terá de ser
ultrapassado se os leões quiserem chegar à final e – quem sabe, no desporto-rei
tudo é possível? – ganhar a competição europeia.
Mas aqui entra um factor que não pode ser ignorado: as previsões. Ninguém – nem mesmo a
Pitonisa de Delfos – se atreveria a antever o resultado registado no Emirates
Stadium. As apostas iam todas no sentido da vitória do clube treinado por Mikel Arteta. Por isso, depois do empate em Alvalade (2-2), tudo se
inclinava para um resultado na segunda mão que ditasse o afastamento dos
lisboetas.
Ficou
célebre nos
anais do futebol a frase do jogador João Pinto do Futebol Clube do Porto quando
lhe pediram para fazer uma previsão duma determinada partida. “Previsões..
só no fim do jogo…”