2023-02-26

 


Uma moldura dourada

 

*Do campo à construção civil

 

Antunes Ferreira

Ná, amanhar a terra não era pra ele essa era que era essa e que viesse o mais pintado dizer-lhe o contrário, passar-lhe as mãos pelo lombo, segredar-lhe aos ouvidos falinhas mansas e logo veria qual a resposta que receberia. Porra! Seria o menos agreste porque a alternativa rondaria termos que fariam corar um árbitro de futebol objecto de calorosos insultos dos espectadores do estádio quando marcara um penalti contra os donos da cada no último minuto do prolongamento de sete minutos.

 

Silvério dos Santos Segismundo, para os amigos o Triple Esse, herdara dos pais – falecidos num desastre de avião quando iam passar férias a Punta Cana, na altura da aterragem, só se conseguiram identificar pelos registos dentários – umas leiras de terreno a atirar para o grandote onde vicejava uma cevada dística, outras com macieiras, pereiras, figueiras e até diospireiros e ainda uns vinhedos.


 

Porém, desde criança que nada daquilo lhe despertava o menor interesse para grande consternação dos pais Manuel e Palmira Segismundo que não viam nele nem o sucessor das terras que iam comprando aos vizinhos para aumentar o pecúlio, nem muito menos, o filho, aliás único, disposto a dar-lhes – pelo menos e não era pedir muito  - um neto que perdurasse o nome da família.

 

Silvério era o que se pode dizer um farrista nato. Dormia de dia e vivia de noite. Moças era um vai-e-vem delas, loiras, morena, assim-assim, mas todas a puxar para a brincadeira, nenhuma apontada pra a igreja ou quando muito para o registo civil. Despiam-se naturalmente, faziam o que lhes dava na real gana, o Silvério era um gajo fixe, pagava uns copos, usava camisinha, tudo bem.

 

Feito o funeral com o que supostamente restava dos corpos, o Três Esses pôs-se em campo para se desfazer das propriedades o mais brevemente possível. Na vila sede das terras encontrou vários interessados e em pouco tempo realizou negócio. Juntou os seus pertences meteu tudo numa mala de rodinhas e num saco de mão, despediu-se de quem bem entendeu e ala para Lisboa, no intuito de começar uma vida nova.

 

Habilitações não eram muitas apenas completara os doze anos do ensino elementar e não estava interessado em abrir um estabelecimento pois não se achava interessado (nem tinha queda) para o comércio. Depois de arrendar um andar na Alta de Lisboa – talvez viesse a comprar um outro mais espaçoso, dependendo da forma como a vida lhe correria – entrou em contacto com um primo (afastado) de seu nome Julião Matias Moreira, da mesma aldeia e que também viera tentar nova vida na capital.

 

A pandemia tinha aparentemente passado já não se usava a maldita máscara e foi de cara descoberta que se encontraram num restaurante para almoçar e trocar opiniões. Julião estava bem na vida dedicara-se à construção civil e conseguira ultrapassar a Covid 19 sem grandes danos ainda que nem tudo tivesse sido rosas “e como sabes Silvério todas as rosas têm espinhos…” Mas, enfim, com muitos despedimentos à mistura, o imbróglio podia ter sido muito mais fodido!”




 

Conversa puxa conversa e o recém chegado deu por si a propor ao primo se não lhe calharia bem  entrada de umas massas para aumentar o capital da empesa que passaria a ser uma sociedade. Julião achou muito interessante a proposta do primo e ficou de a estudar juntamente com os seus advogado e contabilista, depois de ter conhecimento do montante em euros que o Silvério estava disposto a colocar.

 

Combinaram um jantar com todos presentes e as opiniões foram no sentido de que a concretização da ideia tinha pés par andar. Restava saber qual a situação da “Sempre a Construir” – a empresa do Julião – em termos financeiros pois uma coisa era a palavra do proprietário, outra eram os papéis da firma, os dos bancos com os quais ela trabalhava, enfim qual a situação no mercado e finalmente se se chegasse a bom porto qual a posição que o Silvério assumiria.

 

Tudo se resolveu – e a bem. As construções (que, aliás, nunca tinham estado totalmente paradas) recomeçaram e em breve retomaram a actividade em força. Silvério descobrira pela primeira vez na vida, que estava no que gostava de fazer e era vê-lo todos os dias nas obras falando com os capatazes, convivendo com os pedreiros, estucadores, carpinteiros pintores e até com os serventes.

 

Os resultados foram-se sucedendo num crescendo cada vez melhor e a sociedade ia de vento em popa; os bancos avançavam com os avales aos empréstimos e a carteira de títulos engordava a olhos vistos, os fornecedores dos materiais de construção não punham quaisquer reticências na entrega atempada de tijolos, de cimento, de vara de aço, de tudo o que era necessário para erguer um novo edifício de uma recente urbanização.

 


A divulgação das actividades da empresa carecia de alguém que percebesse do assunto e portanto o Silvério, através de um cliente, entrou em contacto com uma agência de publicidade a “Estamos na Onda” onde conheceu a responsável pelos assuntos referentes à construção civil, uma morena de 26 anos, divorciada, com todas as curvas no devido lugar, um par de pernas de fazer parar o trânsito a um cego e outro par mais acima, sum usar sutiã. E que nádegas! Dois meio hemisférios redondinhos e firmas! E quanto a palminho de cara, Deus e os pais dela tinham acertado em cheio!

 

Chamava-se a joia Madalena Figueiredo Ramalho, era licenciada pela Universidade Lusíada e livre como um passarinho saído da gaiola. Combinaram um almoço de trabalho para se darem a conhecer e ele explicar-lhe o que pretendia da agência e, em especial dela. O repasto decorreu no melhor dos mundos e ficou logo aprazado um novo encontro para a Lena (ela preferia que ele assim lhe chamasse) lhe apresentar um plano d trabalho.

 

Ora acontecia que Silvério na sequência dos encontros com potenciais associados começou a pensar que a sociedade com o primo Julião andava por bons caminhos mas que ele podia bem assumir uma empresa própria que lhe rendesse mais dividendos. E numa das reuniões com  a Lena expôs-lhe a sua ideia – e para espanto ela achou-a com pés para andar. Daí a uma conversa com o sócio que resultou numa separação amigável tanto mais que o Silvério, homem de palavra assegurou que não roubaria quaisquer clientes à sociedade.

 

Desta maneira Silvério tratou de avançar com a ideia no que foi ajudado pela Lena. Esta, face às novas solicitações, deixou a agência de publicidade para se dedicar à instalação do novo empreendimento. Julião percebeu a jogada e aceitou-a, tanto mais que o sócio lhe prometia que não roubaria quaisquer clientes. E Silvério era homem de uma só face, honesto e cumpridor. Os encontros entre Silvério e Lena deixaram de ser esporádicos – passaram a ser quotidianos. Dos planos de trabalho, dos almoços a dois, de repente estavam o apartamento do Silvério na cama.

 


Noites tórridas de pele contra pele, tal como tinham vindo ao Mundo – mas obviamente mais crescidos. Ela revelava-se um portento e ele acompanhava-a no desvario que se prolongava pela madrugada. Lena mudara-se para o apartamento do Silvério e entre as caricias empolgantes iam empurrando a nova empresa que em boa hora nascera pois os resultados estavam à vista.   

 

O escritório rapidamente se alargou com a entrada de novos colaboradores a quem os proprietários pagavam acima da média do mercado e proporcionavam regalias para os manter satisfeitos e com bons resultados. Já Silvério e Lena pensavam em abrir uma delegação no Porto e talvez noutras cidades do país, quiçá meso na Madeira e nos Açores.

 

Pensavam em ter filhos, mas para já não, o trabalho ocupava-os os dias e as noites eram um hino ao amor galopante, descobrindo-se cada vez mais, havia sempre uma novidade sensual, e quando no fim de mais um corpo a corpo, suados, estendidos na cama, lado a lado, tocando beijos e tocando-se nos pontos mais sensíveis eram a imagem da satisfação sexual e emotiva.

 

Por essa altura decidiram que o T3 já não satisfazia as suas necessidades. Precisavam de dar encontros com amigos, clientes e potenciais compradores de casas em urbanizações em que se tinham especializado. Donde decidiram mandar construir uma vivenda grande com três pisos, garagem para quatro viaturas, piscina e até court de ténis. Só o salão dava para 50 (por extenso cinquenta) pessoas.

 

O miminho da mansão – pois com tal dimensão e atributos como se lhe havia de chamar? – era a casa de banho do quarto do casal uma suite toda em mármor branco e preto, com a sanita e o bidé em porcelana Roca e todas as ferragens desde as torneiras até ao chuveiro (à parte) em metal dourado. Com jacúzi incorporado, naturalmente e com o chuveiro em diversas opções. Uma maravilha.

 


Decidiram – ainda que faltassem uns pequenos arranjos, nada de especial – passar a primeira noite em casa para fruir dela com uma noite de loucura desenfreada, sem regras nem limitações Mal pensavam para o que lhes estava guardado. O próprio Silvério dava uns toques aqui e ali. Quando chegou à casa de banho decidiu pintar de dourado o assento e o tampo da sanita para condizer com os metais. E assim meteu mãos à obra. Ainda acabava de pintar o aro da sanita r deixava-o secar e por isso pegou na lata de tinta e no pincel e dirigiu-se à garagem onde tinha montado uma mini oficina.

 

Nisto tocou o telefone fixo, ou melhor uma das extensões que havia pela casa. Atendeu: era um fornecedor de materiais de construção com o qual iniciou uma longa conversa. Entretanto a Lena preparava uma campanha sobre a abertura da futura delegação na cidade invicta. E, como aliás era hábito dela, o local mais recolhido e sossegado era a casa de banho. De resto era domingo e ninguém a iria incomodar.

 

Sentada calmamente na sanita, depois de fazer um xixi começou a ler os apontamentos que tinha com ela e de tal modo se embrenhou no tema que os minutos foram passando enquanto ela de esferográfica i anotando na margem das folhas novas ideias e corrigindo outras. Sentia-se bem consigo mesmo e o trabalho corria-lhe às mil maravilhas.

 

Porém quando pôs um ponto final nas laudas de papel e ia levantar-se não conseguiu fazê-lo. Ó diabo, estava colada pela tinta dourada ao aro da sanita. Bem se esforçou para se levantar, mas nada. Chamou pelo Silvério, porém este agarrado ao telefone e ainda por cima na garagem não a ouvia. Só meia hora depois e após muitos gritos ele apareceu e espavorecido tentou levantá-la da sanita. Debalde.

 

Silvério tentou desenrascar-se, foi buscar uma chave de parafusos, desenroscou o aro da sanita e levou cuidadosamente pela mão a sua Lena para o quarto do casal e disse-lhe para se deitar de barriga para baixo enquanto ele ia tomar as necessárias providências para resolver o berbicacho. Foi ela que lhe lembrou que no frigorífico duplo da cozinha estava preso com um imã um anúncio/aviso distribuído pelas caixas dos correios.

 

Rezava assim: “Manuel Varandas. Vai a casa com deslocações pagas sete dias por semana. Encarrega-se de assuntos diversos desde reparações de electrodomésticos até instalações eléctricas, alvenaria, canalizações e outros. Contactos: Dois números de telefone, um fixo, outro telemóvel”. Silvério ligou-lhe e disse-lhe que o assunto era delicado, pouco dado para falar ao telefone e que pagaria o que fosse necessário para que o homem viesse o mais rapidamente possível.



 

“Dentro de uma hora, o mais tardar, estou aí.” E o prometido foi cumprido. Levado ao quarto do casal o Varandas perante o quadro que se lhe deparava disse para o Silvério: “O senhor vai desculpar-me o comentário. Concordo que o traseiro é muito interessante; mas daí a emoldurá-lo acho um tanto exagerado…”