2017-11-06





Antunes Ferreira
Ladislau saiu da oficina com um carrinho de mão coberto com um pano cinzento. Há pouco o Movimento dos Capitães tinha cantado vitória; pela cidade o povo saía à rua batia palmas, enchia as ruas de Lisboa, nas mãos cravos vermelhos 
e nos canos das espingardasgritava Liberdade! No Largo do Carmo apinhado de gente, Sousa Tavares, o Tareco, com um megafone na mão como se fora o comandante civil da multidão eufórica, protagonizava o entusiasmo louco dos Portugueses, no alto do coreto que ali havia (e ainda há).

O herói Salgueiro Maia


Salgueiro Maia, vindo do Terreiro o Paço, posicionara-se diante do quartel da Guarda Republicana e das ruínas do convento do Carmo, tentara aceitar a rendição de Marcelo Caetano e de outros ministros da ditadura imposta pelo Salazar que se tinham refugiado no quartel. Mas o pulha do Marcelo dissera-lhe que queria um gajo de categoria, porque não se renderia a um apenas capitão. Salgueiro ainda pensou em ir-lhe às trombas, mas pensando melhor mandou buscar o Spínola pois o monóculo dava-lhe um ar de diplomata ou de nobre.

Maia resignou-se. Finalmente o Marcelo e parte da sua quadrilha saíram numa chaimite muito encolhidinhos, mais parecendo sardinhas em lata mas em tomate. Diz-se que foi aí que apareceu a expressão com tomates ou sem tomates aplicada aos homens; disse-se depois que o mais acagaçado era o Silva Cunha, mais tarde recuperado pela jovem democracia que ainda usava fraldas descartáveis.

Sem legenda


Nessa altura abundavam os vira-casacas, mas usando apenas uns miseráveis casacos, alguns dos quais em segunda mão e aí começou a falência do Anahory. Advertência: isto é uma interpretação pessoal e abusiva pois que uma data tão importante que até deu feriado como o Dia da Liberdade que o Passos Coelho e sobretudo o Portas por falta de tomates em especial o segundo, não conseguiram abolir. A troica ficou muito fod, … oops, chateada pela desobediência (que nunca mais se verificou) à Autoridade, digo Austeridade, 
Autoridade, oops, austeridade
ameaçando que se ela não fosse cumprida não viriam mais os carcanhóis emprestados com juros muito grandes, pelo FMI e pelo BCE (alguém tinha de lucrar…com a negociata, aliás muito “bondosa” e “amistosa”) 

Ai aguentam, aguentam


Foi o tempo do PREC. A História tem que lhe diga e embora eufótica deu muitas dores de cotov…, perdão, deu muitas dificuldades aos portugas (é bem certo o rifão quando o mar na rocha quem se lixa é o mexilhão) que foram apertando o cinto embora o (fdp, por extenso filho da puta) do Ulrich tenha ladrado “ai aguentam, aguentam) com o miserável propósito de achincalhar os cidadãos vítimas da austeridade. Aí, sim, umas galhetas bem dadas, só se perdendo desgraçadamente as que caim no chão.

As estórias da História são muitas, umas boas, outras dramáticas, ainda outras medíocres, que se podem enumerar, delas fazer percentagens, retirar lições e ilações que por vezes são até mesmo mentiras e fantasias que mais tarde serão descobertas e por isso terem finais desagradáveis. Porém as estórias podem ser contadas com e por seu turno há que ter em conta com rigor que História merece e exige; estórias há muitas – a História é única em cada país.

Já basta de considerandos e adversativas; voltemos então ao nosso Ladislau com o seu carrinho de mão coberto por um pano cinzento. Para não se ver o que levava? Gato escondido com o rabo de fora… O tipo lá ia andando com o apetrecho carrinhal. Só parou numa tasca para comer uns caracóis e dois copos de três; não tinha tomado o pequeno-almoço e começavam os intestinos a dar horas: Poças, um homem não é feito de pau aliás é muito diferente de um homem com o pau-feito…
Bate-sola



Depois de confortado, Ladislau retomou o andar com o carrinho, etc. Mas lembrou-se que tinha de ir ao sapateiro pois deixara uns sapatos para substituir as solas porque estas já estavam muito gastas e já até um dos pares tinha um buraco. Tinha dois pares de chancas e um estava a usa-los e outro… no bate-sola. Pedira ao artífice que pusesse meias-solas.  Por isso desviou o caminho par ir busca-los e se calhar deixava os que usava e calçava os outros. Com a austeridade, um gajo tinha de se desenrascar.

O sapateiro nem lhe levou muita guita, fez-lhe um bom preço que aliás o Ladislau contara por alto e saíra-lhe uma pechincha. E já que estava no sapateiro decidiu passar pela casa duma prima que vivia precisamente no primeiro andar por cima da loja. Tinha todo o tempo do Mundo e o destinatário do que levava no carrinho de mão, etc. trabalhava à noite pois era padeiro e objecto que ele usava só o usava nos-de-semana na casa do campo. Mordomias de padeiro… e sempre lhe ia dar umas carcaças pois era um gajo fixe.

Simone assumia as suas rugas


Assim fez. Já com os pães bem cozidos e depois de dar à língua com o panificador voltou a caminhar. Ia assobiando o “Sol de Inverno” que a Simone cheia de rugas continuava a cantar. Gostava dela porque assumia as suas rugas, não as disfarçava com maquilhagem, muito menos com o “maravilhoso ácido glicólico” muito publicitado em todos os médios desde os jornais e revistas, nos rádios e nas televisões e agora na Internet e nas redes sociais.

Sentinela bem acordado...


Para chegar ao destino do cavalheiro que tinha encomendado o objecto que ia tapado com o pano cinzento, tinha de passar por diante do Quartel Geral da cidade. E aí se deu o drama. Drama? Sim senhor. A sentinela (bem acordada) ao portão de armas chamou-o. Relembro que se estava no PREC e as suspeitas eram mais do que as quotidianas. Ó camarada o que é que leva nesse carrinho. “Adivinho” que são armas para os reaccionários. Ora diga lá meu menino se são ou não são.

É áá…gu…gu…a…a. Com quem então é agua … Ó chico esperto!. Julgas que eu sou um anjinho, sem asas…Eu não enfio barretes!... Vem ali para dentro do quartel e vais ver com quem te meteste!!! E assim aconteceu, veio o oficial de dia, o sargento de guarda e vários magalas e deram-lhe um enxurro de porrada de ficar um chapéu dum pobre. Depois com o Ladislau cheio de hematomas e uma perna ao peito; em fim destaparam o que ia no carrinho de mão. Era uma bomba de tirar água! I Ladislau estava mudo e quedolambendo as feridas como se fora um cão

bomba de água
Ó meu camelo desculpa lá; podias dizer logo de entrada que era uma bomba de tirar água e safavas-te deste arraial de cacetada… E oficial de dia continou a falar com o gajo que levava uma coisa que, afinal, era uma mera bomba de água, muito vulgar há uns tempos atrás, normalmente são eléctricas. E o oficial continuava: Reacionário? Mas és um pobre diabo amarrotado. E o Ladislau que era gago. Sse eu..eu..diss…esse…se qu..ee ee.raa uma..a bom..bomba já nem d..dizzi-ia áa..gua…aa.