PASSO A PASSO

2016-10-12

Uma nova versão


  
Antunes Ferreira

W
enceslau – com W, como o pai impusera que ficasse registado na Conservatória do Registo Civil (o que não fora fácil) e no registo do baptizado na igreja de Santo Ulpiano (onde a disputa com o pároco quase chegara a vias de facto, mas, enfim, acabou-se em paz santa – andava a ler o “Triunfo dos Porcos” em inglês “Animal Farm” que o mister George Orwell tinha escrito no Reino Unido, hoje (des)Unido e publicado em 1945. (Wiwa a Vikipédia! Olá, parece-me que estou a trocar os W pelos V)

O
 nosso herói – porque Wenceslau Martinho Sequeira Samuel e Santos era sapador bombeiro e já salvara das chamas dois velhos/idosos, duas idosas/velhas, um senhor em cadeirinha de rodas, um cão pequinês pequeno, um gato Burmese (com pedigree, bom para ter em casa, de acordo com o catálogo de animais caseiros) dois canários, um papagaio que dizia olá, croc, está um calor fo..rmidável, croc, um cágado, e um prato que dizia Vista Alegre, talvez o item mais importante. Não admira, portanto, o rótulo que lhe tinha colocado: herói. Ponto.
...a escada Nagirus


P
orém o salvamento mais complexo e mais demorado fora um de uma menininha de 19 anos que vivia num quinto andar à Graça e que no calor ígneo até perdera o pijama, a tadinha. Não fora demorado, fora demoradíssimo descer a Magirus com a Emilinha ao colo, fora ela quem lho disse, e ainda conseguir apontar o número do seu telefone que ela lhe dera (para mais tarde lhe agradecer), muito agarradinha a ele, por ter acrofobia e explicar-lhe que era o medo das alturas   – e por isso já recebera duas medalhas de mérito municipal, Os cauteleiros é que a sabiam toda quando apregoavam há dias de sorte. Uns dias depois comprovou-o quando a Emilinha lhe agradeceu em casa dela. Sem fogo mas calorosamente. Pudera, ele era ou não era sapador-bombeiro? Donde, um herói verdadeiro.
 
O Grande Irmão controla-te
R
etome-se a narrativa inopinadamente interrompida, acontece, o nosso herói Wenceslau andava a ler o livro acima citado. Gostava de letras arrumadas em linhas e doseadas em parágrafos e desde que lera o “1984” apaixonara-se por Orwell e sobretudo pelo “Big Brother is Watching You” que era mais ou menos o Josef Stalin, mais conhecido pelo Zé do Bigodes vigiando toda a malta. Tudo indica que este não gostasse muito nem do livro nem da alcunha. Feitios.

S
amuel e Santos era casado com a dona Ernestina, parteira de profissão (cada vez há menos) e cantora de inspiração, pois fazia parte do coro da igreja onde casara com o Wenceslau, com W (mais um berbicacho com o oficiante, mas os dois centilitros de água benta e os cem escudos da época originaram que a bênção nupcial fora dada para os bons e para os maus momentos) e tinham três filhas. Bem tinham tentado encomendar uma pilinha, até tinham recorrido à bruxa da Arrentela, que não há santa como ela, mas népia.

A
ntes de continuar com a estória do nosso herói abro aqui uma parentética para resumir sinteticamente o “Triunfo dos Porcos”, o que parece tarefa relativamente simples – mas não é. Adiante. O mister Jones, proprietário duma quinta (farm) descuidou-se e deu pouca comida aos animais que lá existiam, o que não era invulgar. Porém desta feita, isto originou uma revolta capitaneada pelos porcos. Quem havia de dizer? Pelos porcos? Era um verdadeiro chiqueiro! Caramba! Os animais ganharam. Logo expulsaram os humanos que juraram vingança. Os bichos marimbaram-se, desataram a laborar grunhindo que nem porcos sem recibos verdes e em breve a quinta estava um brinquinho desses de pôr num altar e até elaboraram os sete mandamentos que passariam a reger a comunidade de todos os animais/condóminos:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais
.

...mas uns são mais iguais...

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O
s humanos tentaram retomar a fazenda, mas falham ignobilmente, face à determinação dos animais. Perante isso estes modificam os sete mandamentos…
4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros.


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E
nquanto os cabecilhas comemoravam a vitória da revolução, os outros animais trabalhavam arduamente em troca de míseras rações. Ao que se assistia era um arremedo grotesco da sociedade humana, pois os agricultores vizinhos passaram a integrar as comemorações. E assim nesta visão confusa, os animais já não conseguiam distinguir os porcos dos homens. (Fim da parentética). Uma breve anotação: há especialistas que referem que isto também se aplica aos políticos, aos banqueiros e aos eclesiásticos numa promiscuidade intolerável, mas que infelizmente existe. O autor, qual Pôncio Pilatos, lava daí as suas níveas mãos e diz que que nem sim não, muito menos talvez, antes pelo contrário, quem sabe se.
 
E foi pescar

W
enceslau estava a meio da obra e também já não sabia com quantos andava se com dois pés, se com quatro. De uma coisa tinha a certeza: não estava bêbado. Nem sequer bebera uma chávena de chá verde que na publicidade dizem que emagrece; emagrece o tanas. O pobre, desanimado, deixou-se de tais leituras e das consequentes confusões. Comprou uma cana de pesca com carreto – cinco estrelas - que lhe custou a bagatela de 147 euros e 7 cêntimos c/IVA, mais linha, anzois, iscos e saco para o material bem como rede para apanhar o pescado o que resultou em mais 38, 79 € igualmente c/IVA: Morra Marta, morra farta. E foi para a Zambujeira do Mar,

C
om a Ernestina, está claro; as três raparigas para condizer, deram-lhe três negas. Porque uma tinha combinado ir com o namorado ao Oceanário (pois?) a outra tinha de fazer um trabalho para a faculdade (tá bem, dêxa???) e a terceira ia a casa duma colega para ver uns vídeos muto fixes (ora bem?!?) Na Zambujeira, diga-se, não pescou nem um mísero cachucho. Nem sequer um jaquinzinho. Entretanto a caríssima metade ia lendo a Caras onde vinha que o Mexia voltara a voltar à cama com a Guta e outros dramas existenciais que lhe originaram uma pena do caraças e até alguns soluços. Pior só a Inês de Castro. Cruel. O Pedro.
 
Venha mais outra...
D

ecidiram então ir até ao bar emborcar umas bejecas (ele) e uma coca cola Zero (ela). Como o tempo aconselhava já ia na sexta quando a mulher disse para parar, “olha que ainda apanhas a GêNêRê e tens de soprar no balão e levas uns pontos a descontar na carta...” “Qual quê? Eu não estou bêbado. Ó amigo, venha mais outra estupidamente gelada!”  Como dizia o outro para o irmão encharcado em álcool até ao tutano “tu é que bebes e eu é que tremo”. Não digam nada: o tipo não sabia que tinha Parkinson…