PASSO A PASSO

2016-09-08




Antunes Ferreira

C
orria o ano de 1952. Cassiano Furtado trabalhava numa agência de publicidade ali ao Bairro Alto quase ao lado da primeira sede do “Diário de Notícias na Rua dos Calafates. Nada de propaganda que isso era do foro do SNI. Era redactor de primeira, fazia equipa com o desenhador Marques Monteiro e o chefe chamava-se Joaquim Olegário também proprietário da empresa que começara a dar os primeiros passos por volta dos anos quarentas.


C
omo morava na rua dos Fanqueiros palmilhava da casa até aos Restauradores onde apanha o elevador da Glória que passava em frente da Casa do Ardina. Depois era tudo à pata, que segundo ele, era um bom exercício de “ginástica”, pois durante quase todo o dia apenas gastava o fundo da cadeira de sumapau… Ali, começava logo a dar ao dedo porque as coisas não caíam do céu aos trambolhões e também porque o Senhor Olegário não era para graças muito menos para madraços.


Lajos Biro e a sua caneta



O
 caso, se assim se podia chamar, ocorreu no dia em que comprara uma caneta esferográfica Biro, coisa maravilhosa descoberta por um revisor húngaro com o mesmo nome e que recentemente chegara a Portugal. Levara-a para a agência e a malta rodeara-o, parecia a adoração do menino Jesus no presépio pelos pastores, suas ovelhas e os três Reis Magos - mas sem estrela. Na verdade, não se pode ter tudo.


A
 primeira colega do ”posso experimentar?” foi a Matilde, uma morena de pôr os olhos em bico a um cidadão integrado no regime, repudiando o comunismo e bom chefe de família. Era toda ela chicha distribuída em conformidade, com as curvas no seu devido lugar – e que lugar! Comparável à Vénus de Milo, mas com braços. Obviamente podia - “com todo o prazer” Mal fizera uns riscos, “é giro, a tinta não faz borrões”, foi uma catadupa de experimentadores, “vocês dão-me cabo da tinta que está no tubinho!” Deram.  Mas aplaudiram.
es fe ro grá fi ca...



V
eio ver o motivo da balbúrdia e das salvas de palmas o Senhor Olegário “que se passa aqui? Temos revolução contra o Salazar ou saiu o primeiro prémio da lotaria ao Senhor Cassiano?” Este explicou que fora por mor da sua caneta esferográfica acabada de comprar e acabada a tinta. “Que raio de merda é uma caneta insfográfica?” Não era bem assim. Furtado: “Senhor Olegário, com as minhas desculpas, mas é – e silabando – es fe ro grá fi ca…”   O chefão resfolegou qual locomotiva a vapor. “P’stá claro esfero coisa” E retirou-se para o seu gabinete com o ar digno que utilizava quotidianamente.


C
assiano deu um saltinho à Baixa e, pelo sim pelo não, comprou um tubinho (com tinta) ao que o empregado da papelaria o informou “e uma recarga e é melhor levar duas; são dois mil e quinhentos” Obviamente comprou duas, nunca fiando na gente da agência que por gastar tanta tinta, mais parecia uma agência funerária, salvo seja, do que publicitária.


A Força do Destino estúdio da Rádio Graça 



A
s campanhas em que trabalhavam – o texto já está pronto? Olhe que a impressora está à espera – estavam distribuídas por três redactores com outros dois a jogar nas reservas, dois fotógrafos, quatro desenhadores e dois revisores, mais três dactilografas e o groom Pinguinhas, além do Senhor Olegário. Os clientes eram muitos e diversos; pudera, era a melhor no mercado… E ainda havia a rádio mas isso eram outros quinhentos mal réis. Cassiano, em frente do Telefunken não faltava a uma audição da “Força do Destino” a que os brincalhões chamavam a “Força do Intestino” onde a heroína era coxinha, mas só no microfone… Um dia quando os fãs a esperavam à porta do Rádio Graça para a conhecerem e pedirem autógrafos, deram-lhe um enxurro de porrada porque a moça afinal não mancava…
Sem legenda



O
 Rodrigues tinha a seu cargo o Omo lava mais branco, a Singer e o leite Milo; o Assumpção (ele escrevia assim com a sua caneta de tinta permanente) debruçava-se sobre a Binaca põe os seus dentes a brilhar, o Palmolive, a Regina e a Tabaqueira; por seu turno o Fosquinhas (embora fosse Vicente toda a gente o tratava assim…) amantizava-se com o sabonete Lux, que tinha a Amália Rodrigues a afirmar convictamente eu uso o sabonete Lux, a Mocar com o Peugeot 203 cabriolet e o detergente Rinso, a alegria do lar.


D
e reserva estavam o Guedes e o Inácio, para quando fossem necessários em futuras campanhas para a Farinha 33 – a Amparo era da concorrência bem como os Rebuçados Peitorais do Dr. Centazzi e o Vick Vaporub – o yoghurt Veneza, a saúde à sua mesa, o Vim para lavar melhor, o Sveltor que emagrecia sem regimes especiais, sem tomar nada pela boca”, os fogões da Fábrica Portugal e os cafés da Mariazinha, lotes para todos os gostos.


P
orém na agência havia um desejo comum, ansioso e, muito pior, constante. Era uma ansiedade; o “inimigo” abichara o Fiat 128, o Toyota acabado de chegar do Japão e que vinha para ficar, o Tide, a brancura no seu lar, o não se estafe compre um DAF o primeiro carro com mudanças automáticas, a Lambretta, até choras para andar de Lambretta a pasta medicinal Couto, o Gibson o frigorífico de bom tom, que dura toda a vida e o mais cobiçado e invejado: a Mocar com o Volkswagen, o carro da família. Porém nunca mais chegava o ditoso dia em se verificariam as mudanças. Safa!
Brasileira do Rossio



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assiano, nos curtos intervalos da labuta ia à Brasileira do Rossio tomar uma bica com cheirinho de Mosca e ver as meninas que passeavam mirando e farejando as montras da Rua Augusta. E foi então que ali conheceu a Madalena com quem veio a casar na igreja de São Sebastião da Pedreira. Ela vinha esplendorosa, com vestido de noiva alvo, bouquet de flores de laranjeira e com uma barriga de sete meses. Sem qualquer publicidade.  Evidentemente.

(Pesquisa do autor)