PASSO A PASSO

2016-09-28









Os homens são comunistas até que enriqueçam,
feministas até que se casem e
ateus até que o avião comece a cair



Antunes Ferreira
G
abriel Jerónimo vivia solitário numa vivenda situada em rua sem movimento apreciável nos arredores duma cidade sem importância com 37.653 habitantes de acordo com o último Censo. Somente tinha a senhora Carlota, que lhe limpava a casa, passava a ferro e fazia uns pratos duas vezes por semana. Coisas triviais que se podiam guardar no frigorífico. A residência que estava ao seu lado esquerdo era habitada por um casal de velhotes reformados: ele fora comandante de um lugre bacalhoeiro, era o Capitão Semedo e a Senhora trabalhara no Ministério da Educação, secretária eterna dos subsecretários de Estado que por lá iam desfilando. De seu nome Dona Ester.



F
eitas as apresentações, correram uns bem agradáveis anos - hoje o rapaz almoçava com eles, depois de umas semanas era ele que os convidava para jantar, um Porto e um jogo de xadrez que o capitão ganhava quase sempre… Segue-se que um dia o Gabriel, (34 anos, apessoado, cabelo em crista à moda, solteiríssimo, ateu, sócio do Belenenses (ainda os havia, como no tempo dos dinossauros), filiado no PAICG, Partido Incontestável dos Compinchas do Garrafão, proto-comunista, trabalhador do Sindicato de Barbeiros, Cabeleireiros, Unissexos & Afins), plantado à janela que dava para a rua, ou melhor para o pequeno jardim onde tinha rosas, malmequeres, jarros, cravos e etc., viu chegar um camião do Galamas em frente da casa adjacente (em boa verdade e correctamente política devia ser região autónoma, mas para uma habitação não dava muito jeito.)

De ferro em punho



D
eixou a janela. voltou-se para a senhora Carlota que de ferro em punho passava cheia de brio uma camisa azul de colarinho branco, olá, temos mudança. E ela, suspendendo a delicada operação, "ouvi dizer no minimercado que eles vão viver pró campo onde têm umas coisitas dos aforros que foram amealhando..." "Boa", retorquiu o Gabriel, que era vagamente comunista, como atrás disse, aliás sem grande convicção, "agora vamos ver quem será o novo inquilino". "Ó senhor doutor (não era, mas ficava-lhe bem) não ponha o carro à frente dos bois. Quem vier virá e verá". Santa filosofia, ainda que um tanto reles e jobiana paciência a da senhora Carlota.



N
em sequer foi uma angústia o que o apoquentou nos dias seguintes; foi apenas um leve desassossego, nada de grave, se o Pessoa tinha escrito um livro com tal título, por que bulas não havia ele, Gabriel, de não o ter? O quem viria, passou para quem virá? No sindicato não confessou o que quer que fosse ainda que o Santos da Contabilidade comentasse com ironia q.b., "aqui anda mosca", ao que ele respondera "nem mosca nem moscardo muito menos varejeira. E ponto final, parágrafo. Vai gozar com a tua tia que não canta mas assobia…"



A
s coisas são o que são e não há volta a dar-lhes; para uns é o destino, para outros o fado. No fundo a mesmíssima merda. Para filosofias ainda por cima ranhosas e baratas já bastava a senhora Carlota, E por Carlota, tenho de lhe dizer que as camisolas interiores estão a ser tão mal passadas que até parecem um bife da Portugália escolhido pelo cliente a solicitação do empregado de mesa: bem, mal ou meio passado? Camisas, calças e casacos – impecáveis. Boxers assim-assim; mas as camisolas interiores…
De novo mudanças



V
oltou para casa a resmonear e zás! De novo um camião de mudanças e uns tipos a acarretar móveis, frigorífico, fogão, esquentador e outras frioleiras e cama de casal. Olá temos parelha quiçá casadinha de fresco, sei lá se em lua de mel, as mobílias são novinhas em folha. Estava Gabriel nestas cogitações quando saiu da casa uma visão estonteante, admirável, fulgurante, espampanante. Uma garota daquelas levava-o ao altar em três fósforos! Era jovem para trezentos e trinta e três assobios, no mínimo. O consorte devia vir atrás – mas não veio. Com sorte estava. Veio sim uma gaja de óculos e aparelho nos dentes com ar desmazelado que se encostou à nova e gentil vizinha, poisando-lhe o braço nos ombros. Suspeito..



O
lá menina, penso que é a minha nova vizinha, estou encantado de a ver e conhecer, o meu nome é Gabriel, sou solteiro e…, o meu é Julieta, o prazer é todo meu, vivo com a minha Gracinha, sabe, amamo-nos e muito, somos mulheres, chamam-nos fufas mas não ligamos e vamo-nos carsar. Oxalá sejamos boas vizinhas, os homens só atrapalham... Com certeza, não seja por isso, se precisarem de alguma coisa, sei lá um raminho de salsa, é só baterem à minha porta…

O pecado mora ao lado


E

 Gabriel entrou em casa - descoroçado. Caramba, que situação. Ele a pensar num sim e afinal saíra-lhe um não. Pior do que o Euromilhões. Ele jogava todas as semanas e saiam-lhe sempre cruzinhas, O Ezequiel da tabacaria, jornais diários e revistas nacionais e estrangeiras sempre actualizadas incluindo a Hola que a malta tuga dizia Ola e não Olá que era a forma correcta usada pelos espanhóis. Ganda galo, ao lado com duas galinhas. Boas amigas, na cama. Só fêmeas. Até a senhora Carlota. Ainda se fosse a Marilyn Monroe; mas não era. O pecado morava ao lado, mas era outro – o pecado.