2019-01-06


  

VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN – FIM





Prazo de validade
Antunes Ferreira

Lá em baixo no rio passava um navio de cruzeiros imponente nas suas muitas toneladas de arqueação a caminho do Atlântico enquanto o Armando e eu estávamos sentados junto ao Adamastor no Miradouro de Santa Catarina. Era um tarde encalorada nem sequer corria uma brisa por leve que fosse, um Agosto inclemente, pensava para comigo que seria muito bom ter um ar condicionado individual. E quem sabe, se no futuro?

Tinham ficado para trás funerais, cemitérios e quejandos em tamanha quantidade que não havia basta! que bastasse. Talvez a roda da desgraça que desandara para nós pois saíra do seu eixo natural invertesse agora o delírio que dela se apossara. Esperança… A esperança é sempre a última a morrer, dizem por aí, e já era tempo de ela começar a rodar normalmente de forma a seguirmos em frente sem grandes sobressaltos.
Os gráficos não mentiam

Haviam partido num trote infame a Maria Rita, o Gilbertinho, a Elena, a velha Miquelina, o Olegário, a nossa mãe Fátima e até o coronel Marques Fialho para não enumerar os avós diversos já falecidos anteriormente. A empresa conseguira ultrapassar o enorme obstáculo do misterioso ataque informático e singrava normalmente, aliás crescia sustentadamente como diziam os economistas incluindo eu. Os tios Miguel e Jaime, o David e eu próprio  continuávamos ao leme e as coisas corriam sobre esferas-chips. Todos os gráficos assim o indicavam e a confiança no mercado era a prova concludente de que seguíamos no caminho correcto. Ao menos valia-nos isso como consolo perante tantas contrariedades.

Um céu pintado de azul limpíssimo sem uma única nuvem branca com um sol esplendoroso colado ao centro parecendo revoltear-se e dardejando ultras violetas (lembrando-me o que alegadamente acontecera em Fátima após as ditas aparições…) tornara-se opressivo e obrigava a camisa a colar-se ao corpo. Foi então que disse ao Armando: “Tenho andado com a Mariela já há uns meses…”

O horrendo massacre do cemitério de Santa Cruz

O meu irmão como que acordou de um sono profundo:  “A Mariela? A dos computadores? A timorense?” E eu: “Ela mesma, sem tirar nem pôr, uma mulher porreira, profissional excelente, simpática, bem disposta e como quase todas as timorenses e católica praticante. Aliás, já me contou, tinha oito anos quando se deu o criminoso massacre no cemitério de Santa Cruz em Díli, no qual entre os quase quatrocentos mortos vítimas dos disparos das tropas indianas se contavam dos irmãos e um primo dela! Se tudo der para o certo e estamos a ver que vai dar mais dia menos dia pensamos no casório…”

Armando olhou-me um tanto entre o admirado e o espantado: “Mas é mesmo assim? Pois muito me contas. E antes que acrescentes mais alguma coisa quero dizer-te que da tua vida sabes tu, mas que no que me toca acho que deves seguir o que o teu coração manda e se é para o teu bem e, obviamente, também para ela, que sejam muito felizes e que tenham um futuro muito risonho. Ambos bem o merecem pois, depois do que me acabas de dizer também já teve o seu quinhão de sofrimento. Por isso meu querido irmão os meus parabéns e venha de lá um abração!”

O amplexo foi longo e apertado. Tínhamos ido a pé partindo do largo do Camões subindo a Rua de Santa Catarina cavaqueando de salto em salto e de tema em tema e agora tínhamo-nos fixado na questão do meu arranjo com a Mariela. Por isso naturalmente saltou à estacada a luta da Fretilin pela independência de Timor Lorosae, e pelos seus principais intervenientes e lutadores desde o Xanana Gusmão até ao Ramos Horta passando pelo Mari Alkatiri, pelo Carrascalão, pelo Matan Ruak, pelos Guterres e não esquecendo o bispo Ximenes Belo.

Então o Armando tinha lembrado um célebre episódio ocorrido na II Guerra Mundial aquando da invasão japonesa de Timor então dividida em duas colónias uma parte portuguesa e outra holandesa. A ilha era defendida por forças aliadas, inglesas, australianas e dos Países Baixos, apoiadas por voluntários portugueses (timorenses) ainda que, frisara o meu irmão, o nosso país fora neutral e rindo-se “por mérito do Salazar que o tinha rogado à Virgem de Fátima…”

O régulo Dom Aleixo

“Sabias, Frederico Foi aí que ficou nas páginas da nossa História um herói chamado Aleixo Corte-Real que era um régulo e comandava os timorenses, mais conhecido por Dom Aleixo, o qual não se rendeu contrariamente ao qua aconteceu aos militares aliados e foi fuzilado envolvendo-se na bandeira de Portugal!” Disse-lhe que não sabia, mas que tinha a noção perfeita de que um dia em que um homem não aprendia alguma coisa não era dia muito menos era homem.

Já o sol se punha bronzeando o astro quando regressámos a casa. Junto do portão do prédio parámos e o meu irmão voltou-se para mim: “Meu querido Frederico quando olho para ti recordo-me como se fosse hoje do dia em que chegaste com a nossa mãe Fátima e o pai Gilberto nos avisou que tu eras diferente mas também eras igual a nós. Na altura dou-te a minha palavra de honra que não percebi a charada. Fui percebendo-a aos poucos, enquanto os anos iam passando. E agora tenho a certeza de ter chegado à conclusão: tu não és igual – és melhor.”

Fiquei calado e o mano respeitou o meu silêncio. Um pensamento, um só, tomou conta do meu cérebro e levei-o até ao elevador. Nós os “mongolóides”, como muitos desgraçadamente nos chamam, temos um prazo de validade curto. Estava absolutamente certo de que já tinha ultrapassado o meu. E depois?
(Fim)

2018-12-23


Natal

e torrão
de Alicante

Antunes Ferreira
Nesta época festiva peço-vos autorização para vos contar um segredo pessoal. Conto com a vossa aceitação. No entanto se me derem uma nega – conto na mesma!

Natal para mim está sempre, mas sempre, associado a torrão de Alicante. Presumo que quando isto lerem estejam de imediato a chamar-me vendido a nuestros vecinos e consequentemente miserável traidor. Livrem-se e livrem-me disso. Não mereço tal epíteto, bem pelo contrário. E se querem que vos diga já fui europeísta convicto – mas hoje,  de todo, não apoio a (des)União Europeia. Ponto final, parágrafo.

A Nau Catrineta por Fausto


Explico. Tal como a Nau Catrineta esta é uma estória de pasmar e para a contar tão correctamente quanto me é possível recorro a alguns resquícios de memória infantil   quiçá alojada no hipocampo  mas principalmente a episódios que me foram contados por diversas pessoas relacionadas com o evento que vos conto. Fontes seguras? Quiçá? Mas desde já advirto que não poria as mãos no fogo, porque há sempre que estar prevenido contra qualquer greve bombeiral ou seja dos soldados da paz, expressão calina muito em uso.

Não conheci os meus avós paternos já falecidos quando nasci, ao contrário dos maternos; eram eles originários da plebe, ou seja de modestas origens quer a minha avó Maria da Ascensão, quer o meu avô Braz Faria Antunes. Ela camponesa, ele pastor, depois soldado e a seguir guarda-fiscal. Mas o que é facto é que foi subindo na carreira e chegou a tenente.

Era o Senhor Tenente da Guarda Fiscal sediada em Portalegre, quando eu o conheci, tinha uns bigodes brancos encerados e retorcidos, cabeleira branca, olhos azuis, ia ao pálio nas procissões, era a quarta figura em importância na hierarquia da cidade e da Província, um homem honrado, honesto, vertical, figura distinta, toda a cidade o conhecia e respeitava.

A minha avó Maria desempenhava as importantíssimas funções de dona de casa, criara quatro filhos e duas filhas e fazia uma aletria doce de cinco estrelas além de outras iguarias, de acordo com as tais fontes fidedignas era tão boa cozinheira como doceira, enfim um mimo. Natural da Aldeia da Ponte, beiroa, raiana, enquanto o meu avô nascera em Montalvão no Alto Alentejo.

Pirolitos com os seus berlindes


No Natal enquanto os dois eram vivos, a família Antunes e os respectivos adjacentes iam até Portalegre onde na Rua de Infantaria 22, número 4 viviam os patriarcas, em frente da casa havia uma fábrica de pirolitos e sempre que uma garrafa rebentava ao receber o gás a malta ia a correr apanhar o berlinde. Entrava-se pelo primeiro andar ao nível da rua onde ficavam os quartos e descia-se por uma escada em madeira para a cozinha enorme a sala de jantar. Atrás havia um quintalão com três figueiras, um diospireiro, uma pereira, duas macieiras, uma romãzeira e horta bem como um galinheiro e a segunda retrete lá no fundo. A primeira ficava no primeiro andar.

No dia 24 de 1947, tinha eu seis anos, pela manhã, o avô Braz levou-me pela mão até ao Jardim da Corredoura onde alguns feirantes montavam uns balcões para vender produtos natalícios. Era uma espécie de pequena feira. E lá estava um homem de chapéu de palha com uma botija de gás enchendo balões que vendia aos gaiatos. O meu avô comprou-me um e recomendou: “Riquinho mete o teu dedinho nesta argolinha que fiz no cordel do balão senão ele foge!”

Parece que já nessa altura não ligava peva ao que diziam era um puto danado, não meti o “dedinho na argolinha do cordel” e foi um ar que lhe deu – ao balão que foi pelos ares qual Cape Canaveral de fancaria por antecipação. O avô Braz contou depois que eu berrava que nem vitelo desmamado e o malandro do homem de chapéu de palha e etc. já tinha seguido viagem pelo que balões nicles.

Memorial de José Duro

Em desespero de causa e para ver se me calava o Senhor Tenente da Guarda Fiscal levou-me a um banco junto ao memorial do poeta ultrarromântico José Duro, portalegrense de cepa, onde duas espanholas de Badajoz vendiam túrron de Alicante que traziam em enormes rodas como se fossem mós de moinho donde cortavam fatias. E foi a roer o bendito torrão que voltei a casa todo pimpão sem uma única lágrima ao canto dos olhos. E digam lá se tenho ou não razão quando afirmo alto e bom som que sempre associo Natal com torrão de Alicante. Et voilà.

  

2018-12-21



Chove. É Dia de Natal

Família Real britânica 1852
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.



E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Alta burguesia Lisboa 1879


Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' 



2018-12-16


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 24

 Maldito

o toro
verdadeiro
assassino!






Antunes Ferreira
Era uma sexta-feira, 13 negra como um tição e eu tentava encontrar antes do mais explicação para o azar que costuma ser associado à data. E estava a pensar qual teria sido a sua origem. Alguns diziam que esta ligada ao cristianismo pois a última ceia de Jesus com os seus 12 discípulos resultava em 13 à mesa e era uma sexta-feira. Outros ligavam-na a uma história de origem nórdica, onde o deus Odin teria realizado um banquete e convidara outras doze divindades. Loki, deus da discórdia e do fogo, que não teria sido convidado para reunião, ao ficar ao saber do banquete, armou uma confusão que terminou com a morte de um dos convidados. Diz a superstição que um encontro com 13 pessoas sempre termina em tragédia. E caindo a sexta-feira, nem pensar quanto mais falar.
 O facto é que a anterior semana tivera todos os ingredientes para se devastadora e só de a recordar ficava muito transtornado e com pele de galinha enquanto suores frios me percorriam e na testa perlavam-me gotas de ansiedade. Costumar dizer-se que depois da tempestade vem a bonança, mas esta não a descortinava e se viesse não seria tão depressa quanto pretendia. Mas afinal o que acontecera? Algo terrível por certo para me causar tão grande comoção. No entanto pressagiava que esta que ia começar não seria melhor e resmoneava o porquê desse pessimismo. Tal como na antiguidade o grego Pytheas que descobrira o Sol da meia-noite fora considerado um mentiroso também eu receava que o que antevia fosse uma hedionda falsidade – mas que afinal se viria a revelar uma verdade cruenta! 
 Cada dia que passava era menos um na contagem decrescente para o Natal e embora os ânimos familiares não estivessem muito inclinados para festas, o 24/25 de Dezembro era sempre especial, tínhamos o hábito de há muito arreigado de juntar à mesa os familiares mais próximos numa convivência que era mais uma comunhão que metia Missa do Galo. À consoada era imprescindível o bacalhau com batatas, couves e ovos cozidos e os fritos da época, coscorões, rabanadas, filhoses, frutos secos e coisas dessas. Para o almoço do dia 25 não podia faltar o peru recheado com uma receita sagrada e “secreta” da Avó Maria do Rosário que ela deixara por testamento à nossa mãe. Naturalmente fazia-se o Presépio e a Árvore de Natal. E, óbvio, havia as prendas.
 
Árvores de Natal
"verdadeiras"
Uma prática repetida ano após ano era usar uma árvore verdadeira, um abeto nórdico nada de plástico como os que se vendiam nas grandes superfícies, nas lojas dos chineses, por toda a parte. Falcatruas embelezadas. Havia quem utilizasse pinheiros mansos mas não era a mesma coisa. Na Quinta dos Anjos, que o tio Miguel possuía ali junto a Seia há muitos, muitos, muitíssimos anos, talvez mais de um século, tinham sido plantados abetos que se davam bem com o clima. E logo que chegava o Natal, o meu pai ia lá com uma camioneta da tropa cortar um e trazia-o para a nossa casa onde era enfeitado com todos os requintes. Normalmente levava dois soldados para o ajudar.
 O mano Armando tomara o encargo, mas agora já não dispunha dos militares e portanto deslocou-se no seu automóvel lá no domingo 15 acompanhado da Maria Rita e do Gilbertinho que parecia ter entrado nos eixos. Os tios Miguel e Jaime seguiam atrás deles numa carrinha de caia aberta para trazer a árvore. Eu tinha ficado em Lisboa pois contava ir visitar a Elena que piorava dia após dia, o que viria a acontecer, aliás sem grande resultado pois a minha mulher continuava amorfa, sem qualquer tipo de reacção tive a certeza de que não me conheceu pois não me ligou nenhuma. Se amarfanhado fora, devastado vinha.
 Já em casa e porque fazia bastante frio – o Instituto Português do Mar e da Atmosfera previa temperaturas muito baixas, queda de neve nas terras altas e possivelmente na zona litoral centro… – acendi a lareira enquanto pensava para com os meus botões que seria muito giro que nevasse em Lisboa. Foi precisamente nessa altura que tocou o meu smartfone e mal atendi logo percebi que acontecera coisa gravíssima. Era o tio Jaime:
É terrível, é horrível!
Frederico, se estás em pé senta-te já! Aconteceu uma grande desgraça, a tua cunhada Maria Rita e o teu sobrinho Gilberto acabam de falecer! É terrível, é horrível! Tens de aguentar e para já não digas nada à tua mãe, ou antes vai preparando-a diz-lhe que aconteceu um enorme desastre na estrada e por enquanto foi o que pudeste saber através de um telefonema que acabaste de receber. Daqui a pouco sigo para casa e então vou tentar explicar a tragédia! E por enquanto por favor não me perguntes mais nada!”

A mãe Fátima quando me aproximei dela disse-me logo que eu vinha com cara de caso e pediu-me para não lhe esconder nada porque alguma coisa tinha acontecido e pelo que lia nas minhas faces era ocorrência gravíssima. (Como é que as mães pressentem que algo mal se passa com os filhos? Sexto sentido maternal?)  Perante isto não tinha outra alternativa senão proceder como o tio Miguel me recomendara, mas ela não foi nisso. “Frederico, as consequências desse desastre devem ter sido calamitosas. De tanto sofrer ao longo da minha vida fui-me habituando às piores notícias. Houve mortes e feridos?”

Não podia refugiar-me no talvez ou no nim, por isso tive de optar pela verdade respondendo-lhe pela afirmativa mas era preciso esperar tão pacientemente quanto fosse possível pelos esclarecimentos que depois o tio Miguel, tal como me prometera nos iria dar. Entrementes telefonei ao David e ao Olegário tendo-os posto ao corrente do que já sabia. Duas horas depois chegou o tio Jaime, pois o tio Miguel ficara no local do acidente para prestar declarações às autoridades e acompanhar as diligências que estavam a decorrer. Tinham comparecido os Bombeiros Voluntários de Seia com um desencarcerador, o INEM, uma VMER, a Guarda Republicana e depois um magistrado do Ministério Público.

Mas que se passara e como se encontravam os ocupantes da viatura sinistrada? – era a pergunta que todos nós fazíamos ao mesmo tempo embaralhando o pobre tio Jaime que já de si vinha engasgado, pelo que pediu “Por favor fale um de cada vez, senão não consigo dizer nada!...”  Amansados um tanto, acalmados não, como seria possível? Ele passou a relatar tão pausadamente quanto lhe foi possível: “Íamos a subir para Seia, o Armando à frente e nós atrás e tudo ia nos conformes. Adiante do Armando ia um camião carregadíssimo de toros de madeira quiçá de pinho ou de eucalipto, mas muito grossos. De repente vimos espantados o camião dar uma guinada talvez para escapar de outra viatura, a mim pareceu-me uma VAN, não garanto, já caíra a noite e chovia muito.”


Espalhando-se pela estrada!...

Expectantes quase nem respirávamos, o que mais me impressionava era a aparente serenidade e conformação da mãe e ele prosseguia: “Os toros talvez mal presos, sabe-se lá, soltaram-se e disparam-se quais projécteis para trás enquanto outros se espalhavam pela estrada num trovão medonho! Um deles entrou pelo para-brisas do carro do Armando levou tudo à frente e ficou atravessando o automóvel saindo pelo vidro traseiro. Maldito toro verdadeiro assassino! A Maria Rita que naturalmente ia no lugar do pendura e o Gilbertinho que ia no banco traseiro, mesmo atrás dela nem souberam que tinham morrido. Foi melhor assim, Deus me perdoe, ao menos não sofreram para morrer…”

Não me consegui conter: “E o Armando?” O tio Jaime pôs as mãos em jeito de oração: “Graças a Deus ainda existem milagres e este foi um deles. Do tremendo impacto, mas graças ao airbag pelo que o médico da VMER disse após a primeira observação no local tinha umas costelas partidas bem como os dois braços e uma perna, além de muitas equimoses mas tudo recuperável. Revelou ainda que o tratamento iria levar o seu tempo, deveria precisar de uma ou duas operações, mas o diagnóstico definitivo só o poderiam fazer no Hospital de Santa Maria para onde seria transportado pelo INEM e que ele o acompanharia na ambulância.”

Dei por mim a matutar enraivecido e dorido: Mas que raio de Deus é este, dando de barato que exista, se nem a festa do nascimento do Seu Filho permite que seja comemorada sem problemas?
(Continua)

 






2018-12-07

VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 20


Antunes Ferreira
O reverso da moeda é quase sempre o negativo e por isso o mais difícil de mostrar; mas o prometido é sempre devido e eu Frederico Saraiva Mendes tinha-me perguntado se deveria começar pelo que de bom acontecera ou pelo contrário pelo mau. Tinha escolhido a primeira premissa  cabia-me então o odioso. Mas, já lá iríamos. Tínhamos de ir por partes porque a encomenda é tamanha que não me permitia avanços desmesurados porque há sempre pedras que parecem nascer nos caminhos que se seguem e é sempre mais fácil e empolgante subir do que cair, sobretudo de escantilhão.

A empresa seguia à bolina manobrada de forma segura comigo ao leme  e o David como piloto, o tio Jaime  encarregado das relações públicas e o Olegário dos contactos com os clientes e os novos para quem passaríamos a trabalhar. Os resultados eram por isso muito satisfatórios e fechadas as contas do primeiro exercício o saldo foi interessante e não teria sido mesmo positivo se não tivesse sido o montante que tínhamos investido no início da actividade. Mesmo assim ficámos satisfeitos e fizemos uma pequena comemoração.

Mas debaixo dos pés se levantam os trabalhos e nesse caso aconteceu o impensável. Não há bela sem senão. O Olegário começou a emagrecer, a definhar e na dava muito cansado. Dizia que era uma gripe muito forte, mas não tinha febre. Ficámos todos preocupados, principalmente e como natural o David. O meu primo iniciou a via sacra de médico para médico de exame em exame e a dada altura surgiram suspeitas de algo grave estava a acontecer. E estava. Estava com SIDA, a terrível síndrome da imunodeficiência adquirida que como se sabe é uma doença do sistema imunológico humano causada pelo virus de imunodeficiência humana (VIH), normalmente transmitida por via sexual mas também por outras acções.

Sangue infectado na Malásia
Ora a fidelidade entre os dois amantes não podia ser posta em causa. Veio entretanto a descobrir-se que fora uma transfusão de sangue a que ele se sujeitara na Malásia onde tivera de baixar a um hospital por ter sofrido um ataque de malária. O hospital negou que tivesse sangue contaminado, mas passados tantos meses e a tamanha  distância como seria possível provar que assim tinha sido? Felizmente que no nosso país que foi considerado pela Organização Mundial de Saúde um caso exemplar neste domínio o meu primo começou logo a ser tratado e ainda continuava a sê-lo.

E que dizer da adopção que a Maria Rita e o Armando  finalmente concretizaram? O sonho que almejaram durante anos tornara-se realidade palpável, o bebé passou a fazer parte da vida deles – e que parte!  – submergindo tudo o que os rodeava, qual eucalipto engolindo a vegetação inerme sugando-lhe a água e assassinando-lhe as raízes. O miúdo fora baptizado com o nome do avô Gilberto e desde que chegara a casa infernizava-lhes as noites. Eu bem os avisava para não o passearem ao colo pelo quarto, mas respondiam sempre que o coitadinho se não tivesse miminhos então quando os haveria de ter? Quando for para a tropa?

Jarra da Vista Alegre

Depois de rolar no berço o puto sentou-se e começou logo a deitar para o chão os brinquedos que pejavam o chão da cama com grade para onde fora transferido. Mas o maior gosto dele era partir tudo, berloque ou urso de peluche que lhe  chegasse às mãozitas rezassem-lhe pela alma  pois eram tiro e queda.  Puseram-no no chão e aí é que foram elas. Primeiro a rastejar, depois a gatinhar objecto onde deitasse a mão era certo e sabido trás e menos uma jarra de loiça de Vista Alegre, um candeeiro indiano em forma de Buda que o tio Jaime trouxera de Damão, uma caixa chinesa com uma bailarina que dançava ao som duma música aliás chata – canecos, vassoura, pá do lixo. E o pior é que o gaiato gostava de fazer mal.

E os papás/avós babosos deixem brincar o menino. Partiu o quê? Há de vir mais. Só a graça que ele encontra nessa brincadeira nos enche de alegria… E eu pensava para mim, não fora o diabo tecê-las umas palmadas no rabo seriam um bom remédio e um aviso: assim o gajo já não mexia onde não podia mexer e não partia o que não podia partir. Mas isso era eu que não era pai e nunca o poderia ser. Se o fosse os filhos fiariam mais fino. O Bertinho (detesto diminutivos, para mim era sempre o Gilberto) tinha mau feitio mesmo quando catraio de fraldas. Mal sabia que este presságio estava correcto!

Sem legenda


Foi um dilúvio de lágrimas sem arca nem Noé quando o seu menino foi para creche e depois para o Jardim de Infância. A Maria Rita e a avó Maria de Fátima encarregaram-se de abastecer as glândulas lacrimais e destapa-las em quantidades inauditas… E logo começaram os problemas, Nos primeiros dias o meu irmão ia busca-lo e a coisa corria bem. Mas passada uma semana a directora pediu-lhe para no dia seguinte vir preparado para falar com ela. Assim aconteceu e fui uma conversa complicada. O Gilberto, nos seus quase quatro anos era uma criança problemática, começou a Dr.ª Josefina Martins.

Armando estava muito abananado quando me contava o funesto encontro com ela pois que tinha passado por momentos muito difíceis ao ouvir o que a Senhora tinha para lhe dizer e até que ficara envergonhado face às afirmações que ouvia. Explicou-me. A directora começara por lhe pedir desculpa pelo incómodo que lhe causara com o pedido de ali se deslocar mas não havia outra maneira de colocar o problema porque era daqueles que não se podiam tratar pelo telefone.

“Compreendes Frederico que logo ali eu arrebitei as orelhas e fiquei de pé atrás; mas que raio de começo de conversa… O que se seguiria? Tás a ver a minha inquietação?” Óbvio que estava, por isso nem precisei de lhe dizer para continuar porque o meu irmão não se detivera.  “Sr. Coronel, o vosso filho é um miúdo muito inteligente, muito esperto, mas infelizmente também é de muito mau feitio. E por favor, não me interrompa. Eu sou muito frontal, sou pão, pão, queijo, queijo, e tenho de lhe dizer isto, o Gilberto é vingativo, é agressivo, é implicativo, é autoritário!”

Levara doze pontos!


Eu, Frederico Saraiva Mendes, só pude perguntar-lhe se ela dera exemplos do que apontara, ao que o Armando fez que sim com a cabeça e indicou que o filho/neto por dá cá aquela palha ou mesmo sem qualquer motivo batia nos outros putos, mordia-os, arranhava-os, rasgava-lhes os cadernos e os desenhos, borrava-os, riscava-os com tamanha ferocidade que chegava a rasgar o papel! E não contente com isso fora ao armário onde se guardavam os materiais de limpeza e com um pau de vassoura agredira uma menina na cabeça de tal forma que ela tivera de ser levada ao hospital onde levara doze pontos!

Daí que ela directora não via outra saída se não os pais retirarem o Gilberto do Jardim Escola “voluntariamente”; a não ser assim passariam pela vergonha da criança ser expulsa pelos motivos que ela acabava de lhe apresentar. O que seria uma escandaleira! “Não tive outro remédio, Frederico. Agora, o maior problema é, antes de tudo, contar à Maria Rita, à mãe e à família mais chegada o que se está a passar. Depois procurar uma nova instituição para o colocar. Estou fodido!” Quis perguntar-lhe – o que para mim parecia o mais importante – como iria proceder como o Gilberto. Mas, para quê? Já sabia que tudo ficaria em águas de bacalhau!
(Continua)


2018-12-01


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 19

Mas   
não é
burro!

Antunes Ferreira
Quando se lança um dado num pano verde há seis hipóteses para quem o joga, mas quando um árbitro atira uma moeda ao ar apenas existem duas que vão ditar a sorte do lado do campo em que cada equipa vai começar e quem vai dar o pontapé de saída. A sorte e o azar são os componentes que enformam a vida dos animais e não há com o escolhê-los – é como ter dentro de um saco opaco nove bolas negras e apenas uma branca e metendo uma mão nele tirar a branca é a sorte ou sacar uma das nove negras e é o azar.

Se acontece um novo coração bater num peito antigo não se trata apenas de um transplante à maneira pioneira de  Grote-Schuur, porque nem todos somos um  Christian Barnard – e felizmente que não. Pode arrancar-se o músculo cardíaco para substitui-lo por outro porque se arrancou uma esperança e em especial a ânsia de viver. Nada portanto nos prende à terra, nada nos impede de flutuar num espaço incolor, intangível, inodoro, intemporal porque já nem sabemos se somos o que somos ou o que pensamos que somos.

Tomo as rédeas da quadriga


Tomei então as rédeas a quadriga da saga onde era o protagonista pois o meu irmão Armando mais a Maria Rita andavam numa fona com a chegada do pimpolho, os arranjos lá em casa com o quarto dele, a decoração, num etc. de tirar o fôlego ao melhor maratonista queniano. Por certo reconhecerão que o estilo é um tanto diferente, mas como hão há dois homens iguais também não os há quanto à escrita, salvo quando acontece o plágio…  Mas para que se entenda o que acontecera há que rebobinar para se chegar a 2016 ano em que o azar bateu a sorte e por larga margem. Daí que tenha perguntado a quem ainda se sacrificava a ler esta saga se era preferível que começasse pelas boas coisas ou pelas más. E como não tinha ouvido respostas decidi iniciar-me pelas positivas. o interregno até ia decorrendo bem. Do Brasil vinham boas notícias, a Leonor dera à luz um neófito e o Patrick tinha vindo a Portugal e conseguira das Fundações Gulbenkian e Champalimaud fundos avultados para construir um hospital para apoio aos índios Guarani Kaoiwa e as obras já tinham começado numa parceria com a FUNAI e Brasília.


Sem legenda
Por outro lado, quando tínhamos regressado da Malásia havíamos decidido fazer um stopover  Pelo Brasil a fim de visitar a missão dos voluntários onde ficámos encantados com tudo o que vimos. Dali trouxe um jabuti-piranga,
um pequeno cágado cuja carapaça e escamas das patas são vermelhas para dar como recordação à Elena cujo estado ia-se agravando. À nossa chegada ficou contentíssima e começou a bater palmas e passou a chamar ao animal “meu filho”. Entretanto, cerca de rês meses depois quando fui visitá-la não me conheceu. Ia lá duas vezes por semana. Voltei no dia seguinte acompanhado do tio Miguel. Não nos ligou. O médico residente em conversa connosco confidenciou-nos que era Alzheimer no princípio. Não queria acreditar – mas era.



Para além dessa desgraça que me consumia tudo o resto que me dizia respeito parecia rolar sobre esferas e era o meu refúgio e terapêutica ocupacional. E assim, avançara numa ideia que me assaltara – criar uma empresa, ter uma organização por mim modelada sentir-me como Deus estendendo o Seu dedo para o Adão assim criando o homem reproduzido na obra-prima de Michelangelo, o fresco pintado no tecto da Capela Sistina do Vaticano. Para tanto comprei um andar antigo ali ao Príncipe Real remodelei-o para nele instalar o gabinete de consultadoria informática que seria a minha empresa. Estávamos em 2016 e era a altura ideal para tal empreendimento. Admiti o pessoal que entendi necessário para fazer uma PME, equipei-o com os instrumentos mais modernos – e começámos a trabalhar.

A obra-prima de Michelangelo


Aí contou a família e de que maneira, sobretudo com os seus conhecimentos para além do apoio moral e pessoal. Capital não era problema. Éramos abastados, e eu tinha o suficiente para arcar com as despesas inerentes ao investimento. Por isso os clientes tinham vindo chegando, o volume de negócios aumentava paulatinamente tivera que aumentar o espaço. Para tal tinha proposto ao senhorio, um senhor já bastante idoso comprar-lhe o prédio a pronto, sem recurso a crédito bancário nem a prestações. O Dr. José Figueiredo, viúvo, consultou o casal de filhos e aceitou a proposta. Escritura no notário e ponto final.

Mas antes de começarem as obras para a restauração e remodelação do imóvel reunimo-nos os quatro “machos” e as duas “fêmeas” para fazer o ponto da situação. Sobre a mesa estavam umas quantas ideias que após uma larga, frutuosa e amigável discussão decidimos pôr em prática. O prédio tinha quatro andares e cave. Esta seria destruída para ser feito um parque de estacionamento para as viaturas que utilizávamos – as nossas e as dos trabalhadores que connosco colaboravam. No rés-do-chão ficaria a recepção dos três escritórios que ali ficariam sedeados: o consultório/clínica do tio Miguel com mais três colegas de diferentes especialidades  incluindo um dentista. Este ocuparia o resto do rés-do-chão  e o primeiro-andar.

António Silva em "Sonhar é Fácil"


No segundo estabeleceriam o Armando e o tio Jaime uma agência de prestação de serviços de marketing e publicidade que este há muito tempo pretendia criar pois depois de abandonar o sacerdócio era a isso que se dedicara e com bastante sucesso, tinha de o reconhecer. O Armando declara-se farto de processos, tribunais, providências cautelares e quejandos e dissera que uns pareceres jurídicos ainda vá lá… Finalmente nos dois restantes eram os meus “domínios”. E com que orgulho antevia o que iria realizar. Todos temos o direito de sonhar, eu bem me lembrava de ver na RTP Memória o “Sonhar é Fácil” um filme de Perdigão Queiroga em 1951 como esse monstro sagrado do teatro e do cinema português chamado António Silva.

Foram quase dois anos e obras depois de mais de sete meses de aprovação pela Câmara Municipal do projecto que apresentei. Mas quando elas terminaram eu estava ufano e orgulhoso da obra feita e (por que não dizê-lo?) vaidoso… No dia da inauguração com a devida pompa e circunstância  enquanto recebia os inúmeros convidados ia ouvindo  os comentários que se trocavam “quem havia de dizer que o Frederico Saraiva Mendes com tamanha deficiência haveria de chegar onde chegou…”. Mas também ouvi o David que passara a trabalhar na “nossa”  agência, saltar que nem um boneco de Carnaval de dentro de uma caixa de embrulho e de surpresa. “Pois sim, ele é deficiente mas não é burro!”


(Continua)




   

2018-11-24



 VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR
DE SÍNDROME DE DOWN - 18


 O baptizado

do pimpolho
e o kilt
escocês

Antunes Ferreira
Estávamos a começar a habituar-nos a ter um novo habitante em casa e já se encontrava preparado o baptizado do pimpolho. O Frederico era o mais entusiasmado desde que fora “entronizado” como padrinho e nome escolhido fora Gilberto em homenagem ao nosso pai. O mano encarregara-se a ele próprio de elaborar a lista de convidados que  queria ser extensa e nós íamos tentando travá-lo sem grande sucesso tenho de o dizer porque argumentava que se tratava do primeiro afilhado e quanto ao orçamento o limite era o… que ele quisesse pois as despesas correriam por conta dele!

Mas o padrinho abriu totalmente os cordões à bolsa dele pois convidou à sua custa o padre amigo do tio Jaime que vivia em Roma pois ele leccionava no Pontifício Colégio Português para vir oficiar o baptismo do neófito. O que aconteceu com pompa e circunstância na Igreja de Nossa Senhora de Fátima onde eu também recebera a água santa. Refiro num aparte bem disposto que o Frederico sussurrou para o sacerdote: “Cuidado, não me afogue o afilhado…” Ouvi e por pouco não soltei uma boa gargalhada! Na festa que se seguiu que decorreu no salão que a paróquia tinha criado para eventos desse tipo em parceria durante uns dois com o restaurante Gôndola e contou com um conhecido conjunto musical para a abrilhantar tinham sido mais de cem os convidados.

No dia seguinte começara a maratona no lar-doce-lar do bambino. Eram os banhos, as mudanças de fraldas, a s esterilizações dos biberons, toda uma panóplia novidade a caminho da rotina em que o novel padrinho todo ancho dava uma mãozinha e que jeito que ele tinha até a pegar no bebé e ao vê-lo nesses preparos eu ficava a matutar na pena que tinha de ele não poder ser pai nem mesmo de adoptar porque a Elena piorava a olhos vistos. Donde não tinha condições para o fazer. Por isso o baptizado era um lenitivo para a dor do meu irmão.

CR no Manchester United
e a primeira Bota de Oiro


Neste ínterim recebi um e-mail de Glasgow que me deixou espantado: era do já major-general Robert MacSpencer, escocês, que enquanto coronel tinha sido adido militar na embaixada do Reino Unido em Portugal e com o qual na minha qualidade de oficial do Exército me encontrara. E logo descobríramos que tínhamos muitas afinidades entre as quais éramos fãs do Manchester United e do Cristiano Ronaldo e quando putos verdadeiros adoradores dos insubstituíveis Beatles e outras coisas mais.


Ele a esposa Mary Anne tinham passado a ser nossos convidados para fins-de-semana no nosso monte em Aljustrel e a convite deles tínhamos passado duas semanas na casa de campo que tinham a 12 milhas (como eles usavam…) de Glasgow. Como ele se tinha passado a interessar pela história do nosso país numa das nossas conversas retive uma afirmação que não resisto a registar: “It is extraordinary and fascinating how such a small country has achieved such great results in its History!”

Noutra altura quando abordávamos os sessenta anos do domínio espanhol em Portugal sob o reinado dos três Filipes que lhe contei a maior parte do que fora a Guerra da Independência em que a mais velha aliança europeia, a luso-inglesa, continuava a funcionar em pleno e que na verdade ela não começara de facto quando rei era o D. João I, pois já na conquista de Lisboa, o nosso primeiro monarca, D. Afonso Henriques tinha sido auxiliado por cruzados ingleses que se dirigiam à Terra Santa e aqui aportaram.

Sandwich e... sanduíche

Mais ainda. A aliança não se esgotara nesses tempos pois persistiu durante séculos e ainda vigorava ainda que com altos e baixos e na altura recordo-me bem até afirmei: “mal comparado, como todos os matrimónios…” do que resultou uma galhofa de criar bicho. Já que estávamos em ambiente de boa disposição e risota disse-lhe que uma figura importante para Portugal no que respeitou à guerra contra Espanha, mais uma, de vinte e sete anos (1648-1668) na sequência da reconquista da nossa independência, fora o conde de Sandwich, que juntamente com sir Richard Southwell ambos embaixadores da Inglaterra o primeiro em Madrid e o segundo em Lisboa que assinaram o tratado de paz que pôs fim ao conflito. E de novo saíram à estacada as gargalhadas quando lhe contei que então se dizia que de Espanha a única coisa boa que viera era a… sanduíche.   

Pois o e-mail rezava: 
“Dear Armando
Mary Anne, and I myself we want to invite you and Maria Rita to spend a few days with us in our new villa in Stirling on the outskirts of Glasgow. You do not need anything else, just buy your plane tickets and we'll be waiting for you at the airport. From there we are on our own. Há ha ha.
Big hug
Robert”

Tive de telefonar ao camarada e acertámos a data da nossa vista explicando-lhe o que nos acabara de acontecer com o Gilberto júnior e por isso depois da adaptação durante dois, três meses seguiríamos, o que viria a acontecer. E além disso perguntei-lhe se não o chatearia se levássemos o Frederico que ele conhecera ali em Lisboa, ao que ele acedeu “it’s my pleasure”. O puto ficou aos cuidados da nossa mãe e da tia Elsa – já tão ocupada com a prole dela, mas sempre disponível – e assim sossegados chegámos a Heathrow e ali ficámos porque o Robert queria levar-nos à Real Academia Militar de Sandhurst da qual ele era segundo comandante surpresa que ele me queria fazer, ou melhor nos queria fazer.

O Frederico exultava! Herdara do nosso pai o feitio militar e sabia quase tudo sobre a célebre academia onde andara muita celebridade a começar por Winston Churchill, passando pelo rei Abdullha da Jordânia e na altura já o príncipe William, duque de Cambridge a frequentara.  Na manhã do dia seguinte à nossa chegada deslocámo-nos à instituição onde Robert preparraa um exercício de fogos reais para nós presenciarmos. Fazia um frio que nem vos conto e por isso foram-nos distribuídas mantas para colocarmos sobre os joelhos. De resto e por indicação do Roberto já íamos bem agasalhados.

Atacando e defendendo


O exercício foi um verdadeiro espectáculo com os cadetes atacando e defendo vários objectivos  e utilizando o armamento mais moderno e sofisticado, mostrando bem o grau de preparação deles. Estávamos todos entusiasmados, mas o Frederico deleitado estava nas suas sete quintas, enquanto o director de instrução, o coronel Mark Rodrigues Reynolds ia explicando num português correcto o desenrolar dos acontecimentos. Ele quando nos fora apresentado informara que a sua mãe era portuguesa de Angola, negra, daí ser mulato e falar a nossa língua.

Almoçámos no refeitório dos oficiais onde o Robert nos apresentou a todos os que ali comiam e em seguida assistimos a um filme sobre a história da Royal Military Academy Sandhurst – RMAS. A Academia abriu suas portas em 1947, para substituir o então Royal Military College (RMC) nas suas instalações  em Sandhurst. Na verdade a tradição no Reino Unido tem um peso enorme como já todos sabíamos.

Mas a Escócia –  que é um país – essa, pode dizer-se que talvez a tenha maior identidade e cultura próprias e até aos dias de hoje. Glasgow. Sendo a segunda cidade escocesa, a capital é Edimburgo, e a maior do país, a mais industrializada e com a população mais elevada. Os escoceses são conhecidos em todo o Mundo devido ao seu inconfundível kilt o traje nacional sobre o qual e contam muitas anedotas. O Frederico contou uma que fez toda a gente partir a rir: 

Ena pai, tantos kilts e gaitas de foles

O Senhor general não se importa que eu conte uma piada sobre escoceses? Nós também o fazemos com os alentejanos e a nossa família é do Alentejo…” O Richard sorriu amplamente e disse que estivesse à vontade, que estava habitua do e não se chateava. E o meu mano, com cara de anjinho: “Muita gente diz que o kilt parece um sino. Sabia senhor general?” Este acenou com a cabeça que sim. “Então o que usa um escocês por baixo do kilt? Não sabem? É o… badalo!” Para quê mencionar as gargalhadas colectivas. Nem na sala dos espelhos duma Feira Popular.