2018-05-05



Do smartfone à sogra

Antunes Ferreira
Manuel Assunção Pires e Francisco Pinto Galvão eram amigos desde o jardim-de-infância e percorreram ambos uma vida plana, sem sobressaltos, incolor, inodora como qualquer gás inocente que se preza, nada dos infames Mostarda da Grande Guerra ou Zyklon B da II Guerra Mundial e como já não havia colónias nem tinha ido à tropa. Um percurso escolar sem altos voos tranquilo décimo segundo ano e chega. Chegou.

Sem legenda


Para ser mais exacto quase não chegou. Os tempos do dueto Passos Portas que, pasme-se, conseguiram ser piores do que a famigerada troica originaram que os empregos de ambos tivessem isso pró galheiro. O Pires trabalhava numa empresa de transportes em Porto Alto como encarregado do escritório e o Galvão tinha a meias com um cunhado uma ourivesaria em Coimbra. De repente catrapus, caiu dos céus aos trambolhões a crise.

Ambas as ocupações foram-se à viola e para ajudar à guitarrada a Matilde e a Cláudia esposas amantíssimas de cada um viram-se também no desemprego. Duas cavadelas, quatro minhocas mailas cinco crias, três do Pires e da Matilde, dois do Galvão e da Cláudia. Bonito serviço. Poupanças – que é delas? Mesmo assim, poucas. Mas os euros estavam cada vez mais caros e sobretudo mais raros. Subsídio de Desemprego para os homens. Mas de braços caídos? Ná, não é vida. Os catraios todos os dias comem – e de que maneira, caramba! E já agora, os progenitores também.

Olhe que dois...


Pais e sogros ou já tinha sido eliminados dos cadernos eleitorais ou teimavam em prolongar os respectivos prazos de validade. Estes não os podiam ajudar, tomavam eles que os ajudassem, as reformas que não eram nada de especial mesmo assim tinham torpedeadas pelos submarinos do senhor Portas. A “dupla futura/ex PAF” fora capaz de executar o impensável: cortar nas pensões de reforma. Talvez tivessem os dois protagonistas de tal crime pensado enviar o caso para o Guiness World Records. Mas não o fizerem, acagaçaram-se.

Uma tarde em Almada consultavam o Custo Justo na Secção Emprego como todos os dias faziam, além de enviar currículos aos montões para tudo o que lhes parecia ser possível e o Galvão soltou a língua: Ó Manel tenho andado a matutar que… E o Pires: Cuidado Chico, não matutes muito, c’ ainda gastas o córtex… Ó pá deixa-te de tretas, pedíamos um empréstimo.

Porém o crédito é muito difícil de obter e o Manel Pires estava numa de negação enquanto o Chico Galvão, muito pelo contrário defendia o velho princípio de enquanto há vida há esperança. Havia o Microcrédito que podia ser utilizado para criar uma PME cujo capital seria de cem mil euros para o que seria apenas necessário um fiador e podiam contar com a ajuda do IECP. No dia seguinte iniciaram o estudo do assunto começando pelo objectivo da empresa que pretendiam criar.

O Chico Galvão desde miúdo que tinha o hobby das miniaturas tão pormenorizadas quanto lhe fosse possível. Delas passou ao fabrico próprio e aos 16 anos já mexia em tecnologia informática. Mas era apenas um passatempo para as horas livres. Agora, desempregado, por que não criar uma PME nesse campo, um cluster. Da gestão encarregar-se-ia o Manel Pires que se sentia capaz de mexer em dinheiros e começou a aprender o que era a bitcoin e como usá-la.

Melhor pensado, melhor feito. Arrancaram com a Galpicoin – tecnologias de ponta com a Matilde e a Cláudia a completar a equipa e a Internet a publicitar: Galpicoin – nascemos e estamos cá para ajudar. As duas famílias moravam em dois apartamentos do mesmo prédio em Cruz de Pau; conseguiram um espaço para instalar a empresa na sobreloja dum outro prédio quase em frente daquele onde habitavam. Perfeito. Para ir a Lisboa tinham o comboio da Fertagus sempre que era necessário. E o primeiro objectivo foi a recuperação de smartfones.

Catorze milhões de smartfones...


Por incrível que pareça em Portugal, que tem cerca de nove milhões de sujeitos, existem quase… quinze milhões de telemóveis! Donde muitos desses bicos usam os aparelhos telefónicos móveis e portáteis e sem fios sem lhes causar grandes danos, mas ainda ou também muitos milhares, centenas de milhas que não lhes dão muitos carinhos. Donde a escolha dos dois sócios parecia mais ou menos acertada. E felizmente foi. A Galpicoin singrou. Passado um ano já tinha oito trabalhadores e o capital passara a ser de 500 euros.

E não vale a pena continuar a descrever o que ainda continuava a verificar-se. Apenas uns apontamentos. As duas famílias mudaram-se para vivendas na Mata da Marinha e o seu nível de vida correspondeu a essa mudança, a empresa tinha novas instalações onde já havia vinte empregados e a facturação era impressionante. Um verdadeiro aumento exponencial.

Por uma tarde de Verão Manuel Pires e Francisco Galvão depois de uma partida de ténis com uns amigos no court da vivenda do primeiro estavam bebericando uns uísques e uns gins bebida que estava na moda quando uma das empregadas com um ar convenientemente pesaroso veio dar a notícia que acabara de saber por telefonema que a mãe da Senhor Dona Cláudia acabara de falecer.

Já no velório...


Já no velório, surgiriam as habituais conversas e as sacramentais piadas e anedotas sobre as sogras. Chico Galvão dissera que a Dona Madalena fora uma sogra bué fixe, não se metia na vida do casal e até gostava dele, tratava-o como um filho. O engenheiro Martinho que era um amigalhaço contou então que a propósito de sogras, qual é o maior azar dum homem? E perante o franzir da testa dos que o rodeavam saiu-se com a resposta é ter uma sogra chamada Esperança que é sempre a última a morrer. As gargalhadas foram contidas – sempre era um velório.

2018-04-18






Sabes o que é

um cromeleque?



Antunes Ferreira
(Uma advertência prévia nunca fez mal a ninguém
 antes pelo contrário e por isso ela aqui fica.
Quando comecei a dar os primeiros
passos no jornalismo mais precisamente 
no “falecido” Diário Ilustrado, o Victor da Cunha Rêgo
, um dos maiores Jornalistas que conheci,
 que muito me ensinou e com quem tive
 o prazer, o privilégio e a honra de trabalhar
 deu-me uma das principais regras da redacção
 de uma notícia, de um artigo,
de um comentário, enfim de um
texto – nunca se faz um título interrogativo.
Caramba, mas este acabei de o fazer!
Privilégios da velhice? Que desculpa mais esfarrapada…)


Desde miúdo que gosto de histórias aos quadradinhos como então se dizia e continuo a dizer; aos cinco anos já sabia ler, tinha aprendido pela Cartilha Maternal o João de Deus com a minha prima Queta que tinha doze anos e era esperta como um figo (nunca percebi o porquê de um fruto da figueira ser esperto…) e por isso o meu Pai, além de comprar o Diário de Notícias e o República também adquiria o Mosquito para mim. E A Bola que era semanária.

Foi “vicio” que me ficou até hoje e que confesso com muito prazer. Quando atingi a maioridade a 20 de Setembro de 1958, por emancipação, iria no ano seguinte falecer o meu Pai, um Homem de Bem, honesto, simples, tímido, profissionalmente um gigante que ainda hoje guardo com respeito saudade e admiração. E entretanto, porque eramos uma família da média burguesia a pouca massa de que dispúnhamos foi-se acabando e eu, o filho mais velho dos sete irmãos que eramos comecei a trabalhar e estudar na faculdade de Direito de Lisboa.
Obelix

E dos poucos tostões com que tinha de me desenrascar uns quantos eram para comprar a revista francesa Pilote de histórias aos quadradinhos. Nela apareceram já em 1959 dois heróis que me acompanham até hoje, pois tenho a colecção completa deles – Astérix e Obelix.  Este último um produtor, transportador e distribuidor de menires, gozando da super-força devida à poção mágica criada pelo druida Panoramix, pois quando puto caíra no caldeirão onde este preparava a mistela.

Aqui chegado tenho de explicar o porquê desta introdução ”quadriculada”. Pouca gente sabe, mas Portugal tem monumentos pré-históricos em pedra muito mais antigos do que o Stonehenge, na Inglaterra. Na verdade, são alguns dos monumentos megalíticos mais antigos da Europa. O megalitismo trata dos monumentos megalíticos, construções monumentais milenares, com base em grandes blocos de pedras, que pesavam toneladas.

Alguns dos exemplos mais antigos de monumentos megalíticos surgiram na costa do Oceano Atlântico, na Europa, entre a Escandinávia e a Península Ibérica. Particularmente, no Algarve e Alentejo, em Portugal. A conversa que mantive com o Gonçalo Pereira Rosa – e que levou ao último artigo deste blogue – levou-me à leitura do National Geographic de Março, onde ele publicou o artigo/editorial intitulado Reviver o passado no Cromeleque dos Almendres.

Recomendar a leitura dele seria despiciendo pois j
National Geographic edição portuguesa
á disse no texto atrás referido quem é o Gonçalo. Mas sugerir uma visita ao monumento megalítico isso sim; fazê-lo é realmente reviver o passado mas um passado com toneladas de peso – porque as pedras que constituem o cromeleque são mesmo grandes. A história da sua descoberta tem muitas estórias e azares pelo meio. Foi em 1964 que o pastor António Gardunhas encontrou uma grandes pedras no sítio das Pedras Talhas (o nome vernáculo do local situado na antiga freguesia de Guadalupe ente Évora e Montemor-o-Novo).

Socorrendo-me dos documentos existentes, nomeadamente dólmenes ou antas, mamoas, cromeleques, grutas artificiais, menires e tolos inseridos no contexto da arte megalítica no nosso país foi-me possível chegar a uma totalidade de cerca de trezentos. É obra. E nada nos diz que não haja mais por descobrir. Mas se se voltar à totalidade constatar-se-á que só no distrito de Évora existem (até à data) 55 obras de arte megalíticas.

Para concluir este trabalho sem quais quer pretensões académicas, apenas informativas e muito resumidas aqui ficam algumas características dos principais monumentos megalíticos, a saber.


Menir, também denominado perafita, é um monumento pré-histórico de pedra, cravado verticalmente no solo às vezes de tamanho bem elevado.

Cromeleque, é o conjunto de diversos menires dispostos em um ou vários círculos em elipses, em rectângulos, em semicículo ou ainda estruturas mais complexas.  
O termo está praticamente obsoleto em arqueologia, mas permanece em uso como uma expressão coloquial. Trata-se de monumentos da pré-história, estando associados ao culto dos astros e da natureza, sendo considerados um local de rituais religiosos e de encontro tribal. A grande maioria dos cromeleques existentes em Portugal encontra-se em encostas expostas a nascente-sul.


Dólmen da Orca


O dólmen caracteriza-se por ter uma câmara de forma poligonal ou circular utilizada como espaço sepulcral. A câmara dolménica era construída com grandes pedras verticais que sustentam uma grande laje horizontal de cobertura. As grandes pedras em posição vertical, denominadas esteios ou ortósmos, são em número variável entre seis e nove. A laje horizontal é designada chapéu, mesa ou tampa. Existem câmaras dolménicas que chegam a ter a altura de seis metros. Quando a superfície da câmara dolménica não supera o metro quadrado, considera-se que é um monumento megalítico denominado cista.
  
Ao que tudo indica, os dólmenes apresentavam-se outrora sempre encobertos por um montículo artificial de terra, geralmente revestidos por uma couraça de pequenas pedras imbricadas, formando aquilo que se designa por mamoa


Tolo,  designa um edifício circular, seja um monumento religioso, templo ou sepultura. Na pré-história os tolos eram constituídos por uma câmara circular, com uma abertura para um corredor, e uma cúpula. A cúpula era formada por lajes de xisto sobrepostas, eventualmente com uma coluna ao centro para a sustentar.

Fica aqui concluído este modesto contributo para o esclarecimento dos que acompanham o nosso blogue que continua a tentar ser de todos para todos.

2018-03-31



Um exemplo de jornalismo
Ó Gonçalo
anda daí

Antunes Ferreira
Um gajo bué fixe. Modernice que define bem – na modestíssima opinião de quem se atreve a usá-la – o cidadão em causa que é o Gonçalo Pereira Rosa um Homem que, salvo as devidas proporções e situações é comparável ao bacalhau pois em vez das mil e uma maneiras de preparar este, ele usa e abusa dos ofícios e correlativos. É um fartote.

Conhecemo-nos no ano passado e encontrámo-nos na “Flor do Lumiar”, uma pastelaria/padaria, a duzentos/trezentos metros de minha casa, o convite fora do Gonçalo pois dissera-me por telefonema que gostaria de me entrevistar sobre uma conversa/entrevista que eu tivera com o Lech Walesa em Gdansk quando ali me deslocara em serviço ao Diário de Notícias de Lisboa de que era então o Chefe da Redacção adjunto.

Mal nos sentámos senti que tinha sido “vítima de uma faísca eléctrica” e que, na verdade era o imediato e instantâneo começo de uma empatia que logo depois se transformava em Amizade, entre o Gonçalo e eu. Não eramos, claro, irmãos gémeos, mas eramos almas fémeas (se é que as almas existem…, dúvida essa que também com partilhamos, porra, que é demais!)
 
Sem legenda
A entrevista correu muitíssimo bem, antes dela eu estava um tanto abismado pois normalmente quem as fazia era eu, e só por duas vezes sujeitos impolutos (uma dos quais “sujeita”) tinham tido a pachorra de me aturar durante umas horas para esmiuçar um episódio de um passado mais ou menos intraduzível. No final, o rapaz não esteve com meias medidas: prantou-a no seu livro intitulado O Inspector da PIDE que Morreu Duas Vezes.

De resto o meu amigo Pereira Rosa já tinha publicado em 2015 Parem as Máquinas e em 2016 A Gripe e o Naufrágio. Ora muito bem, chegou a altura de contar um tanto resumidamente quem é este Senhor de seu nome Gonçalo Pereira da Rosa, jornalista dos quatro costados, também escritor, pesquisador, professor universitário, director da edição portuguesa da National Geographic e não sei que mais… Daí a comparação espúria inicial com o bacalhau.

Começou a ser jornalista em 1994 em jornais desportivos, revistas semanais e mensais e como acima se menciona desde 2001 na National Geographic. Diz com um ar de chalaça que comprovou aquilo que Raul Brandão disse em tempos: as Redacções atraem os doidos como a luz atrai as falenas, irremediavelmente. Aliás cita o Baptista-Bastos que escreveu em Os Deuses Absurdos que as redacções são armazéns de loucos donos de um império consumido todos os dias, cabouqueiros de um edifício que todos os dias colapsa.

 
Com Baptista-Bastos
O rapaz como também antes apontei é catedrático de Jornalismo na Universidade Católica desde 2008 e diz ele “ensina os meninos e meninas a respeitarem os jornalistas que os precederam. Gente como António Enes, Emídio Navarro e Mariano de Carvalho no século XIX, um esgrimia com o floreste, o outro com o varapau e o terceiro a soco ou a pontapé. Gente como Artur Portela, Joaquim Manso, Norberto Lopes ou Norberto Araújo, que esgravataram ideias e prosa apesar da Censura. Ou gente como eu (sem modéstia agradeço a referência), o António Valdemar ou o Luís Alberto Ferreira que ousaram bater-se por exclusivos quando as administrações só queriam saber de contas.

Abri aqui um parênteses para mencionar outros excelentes jornalistas com os quais tive o prazer e a honra de trabalhar desde o inigualável Mário Zambujal (que criou um estilo muito próprio na literatura portuguesa actual a partir do espantoso e delicioso Crónica dos Bons Malandros) até aos Já falecidos Raul Rêgo e Cunha Rêgo, passando pelo também desaparecido Càceres Monteiro, Ferreira Fernandes, Adelino Gomes Joaquim Furtado Manuel António Pina (Falecido) e tantos outros, entre os quais ainda acrescento as minhas queridas Alice Vieira e Maria Antónia Pala, o Carlos Pinto Coelho, o João Aguiar, ambos também também incluídos no número dos mortos e o Fernando Dacosta.
 
Neandertal
Gonçalo define-se: é esquerdista incorrigível, sportinguista sem remissão (daí a a segunda entrevista que acaba de me fazer sobre o grande presidente que foi João Rocha cujo nome foi dado ao pavilhão velha aspiração de nós, os leões), ateu e casado. E para finalizar a conversa que durou até quase ao jantar e durante a qual cometi um gravíssimo pecado (não lhe ofereci algo para beber!), mea culpa, Gonçalo ainda somou que segundo um teste de ADN do National Geographic, descobriu que tem 1,9% de material genético comum com os Neandertais. E remata com uma bomba. A sua mulher, quando sabe das figuras que ele faz no futebol diz que deve ser engano: é capaz de ser mais!

2018-03-18




De Luto
Durante três dias suspendo a publicação d’ A Nossa Travessa pelo motivo de eu e a minha família estarmos de luto, pois faleceu no sábado o meu irmão Braz Manuel Antunes Ferreira, com 72 anos, vitima de um cancro na próstata que se tinha expandido a vários órgãos através de metáteses.
Hoje pelas 11 horas será cremado no cemitério de Barcarena.

Henrique Antunes Ferreira 



2018-03-05



Crime no Hipermercado

Antunes Ferreira

Na fila à minha frente estavam cinco pessoas a primeira das quais, um senhor gordo, de barriga proeminente de cerveja, acabava de meter dois euros na ranhura da máquina distribuidora de alimentos, plin, baixou e apanhou na gaveta principal uma garrafa de Água das Pedras e trins o troco na gaveta mais pequena. Seguiu-se uma jovem que transportava um carrinho de bebé com a pequena cobertura levantada, lá fora chovia, um rapaz preto de capuz, uma senhora já entradote com óculos e eu.

Era uma média-superfície Continente de Telheiras onde habitualmente a Raquel e eu íamos às sextas-feiras fazer as compras semanais. Mas dessa feita tínhamos ido ao domingo, era o terceiro dia antes do Natal e naturalmente o que motivava eram… grinaldas, muitos anúncios coloridos, e saldos natalícios, toneladas de brinquedos, muitos dos quais electrónicos,
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Pais Natais insufláveis etc. não faltavam numa policrómica eufórica. Até as meninas e os rapazes das caixas (tchac, tchac, tchac das registadoras de etiquetas de barras) usavam os tradicionais barretes do Pai Natal. Nos corredores diante da frente das caixas havia uns marmanjos disfarçados de Pai Natal, com barbas de fios de plástico e barrigas de almofadas…
A algazarra tinha-se estabelecido around the clock misturando-se o ruido das pessoas com os sons díspares das campainhas, sinetas, e peques badaladas dos instrumentos mais diversos que por ali havia. Uma cacofonia álacre(*) envolve a massa dos cidadãos sejam vendedores sejam compradores, novos ou velhos, adultos ou crianças, enquanto o assalto às gôndolas onde estão colocados os mais diversos produtos tentam ser descarnadas sem sucesso, pois os repositores numa roda-viva vão preenchendo esse tentativa  desanimada.   

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Como música de fundo soa o clássico
Jingle bells, jingle bells, jingle all the way
Oh, what fun it is to ride in a one horse open sleigh
Ladies and gentlemen
I give you the jingle bass
Merry Christmas!!!!!!

á temos o carrinho (devia ser chamado 
carrão tal era o “recheio” dele) com um montão de compras e 
algum brinquedo, mas sobretudo vales de compras para a 
descendência, os netos já têm, o João, 12, o Rodrigo e o Xavier, 9, 
o Vicente 6 e a Madalena, 4, os pais vão receber livros quer eles quer as respectivas mulheres gostam de ler e para mim e para a Raquel… o segredo é a alma do negócio…

Quando cheguei caixa, há duas senhoras à minha frente que vão tagarelando em voz baixa mas suficiente para ser ouvida. 
Dizia uma para a outra, Senhora dona  Matilde soube daquela 
desgraça que aqui aconteceu há duas semanas? A outra senhora,
por certo alentejana respondeu-lhe: Atão nã havera de saberi? Foi 
uma pobrezinha duma menina
Caixa 
 duma caixa que levou um tiro mesmo no mêo do pêto dado por
um filho da puta que trazia na na mão esquerda trazia uma garrafa de uísque daquelas das mais caras e ainda por cima fanada! 

Logo que descemos à garagem e saímos com destino a casa no rádio a cantando  o  Manuel Freire a Pedra Filosofal que adoramos:
 Eles não sabem que o sonho 
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
Manuel Freire
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre (*)e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

(*) Palavra que também consta da "Pedra Filosofal" 





2018-03-04

Minha querida Terezinha

Passou um ano e eu sem te te ver, uma tristeza se me apossou e não me deixa que a largue. Eu não acredito em nenhum Deus, mas sim na Amizade e ela uniu-nos. Basta isso para neste dia te recordar
Henrique

2018-02-18

A Roda dos carretos





Antunes Ferreira


O cajado de sobreiro 

seguro pelas mãos nodosas serve-

lhe de apoio  enquanto sentado 

num bando de madeira, mirando o

horizonte infindo  e pensando 

nos ciclistas. Mestre Jacinto tem 83

anos, foi  corticeiro, hoje não faz nada, apenas recebe um auxílio 

da Misericórdia de Beja, uns míseros quinhentos paus, tudo o que 

lhe resta é a memória. Como esta agora, a dos ciclistas. Já não tem

pernas para os ver passar à bêra da estrada por isso fica pensando

que os está vendo curvados cobre o volante dobrando a curva da

Cortegaça que é sempre a subir. 


E vai recordando. Vai práí uns bons cinquentas e tais anos, tinha 

ele vinte e seis, ou seriam vinte e sete? e já tinha quatro catraias e 

dois moços tinha ido vê-los  passar exactamente naquela curva, o 

Trindade um lagartão de merda ia à frente do pelotão, de resto o 

gajo ia ganhara volta era o ano de mil novecentos e trinta e

quatro, uma porra, pois ele, Jacinto Marques Milhariço era, sempre

fora do Benfica,  valia-lhe o Nicolau, águia dos quatro costados, 

um gigante que ganhara três voltas, enquanto o magricelas do 
Nicolau e Trindade eram amigos

Trindade só ganhara duas! Mas, valias-

lhes isso: eram da mesma terra, o Cartaxo 

eram amigos.


Ah, bons tempos eram aqueles, os anos trintas, a sua Guida, 

dera-he oito rebentos, cinco miúdas e três ganapos, agora todos 

fora do monte, menos a Judite que ali ficara para tia solteirona para 

o acompanhar, não fazia cá falta nenhuma. O Maneli fora-se à tropa

para Lisboa e por lá ficara diziam-lhe que era padêro, nunca mais 

voltara, o Jacinto viera só três vezes, estava estabelecido de

 merceeiro em Mafra, que ele nem sabia onde ficava, e os outros 

andavam por aí espalhados, só soubera que a Lurdes estava de 

porteira em Paris da França e a Maria da Luz era criada na Suíça.  


O padre Francisco prior da freguesia de Beringel (ele não 

gostava mesmo nada de padres nem de igrejas até de papas e

quejandos) mas o gajo contava-lhe  estórias do arco-da-velha que o

entretinham por exemplo sobre o ciclismo. Para o que lhe havia de 

dar. O padreca sentado ao borralho (vinha visitá-lo pela entrada da 

noite e ele mais a Judie ficavam a ouvi-lo) e começa normalmente 

assim: que tinha lido na biblioteca e explicava que a bicicleta era 

um “bicho” que alguns escritores diziam que tinha sido inventado

por um senhor italiano, Leonardo da Vinci,
Leonardo da Vinci
um 

homem dos sete-ofícios, que vivera nos anos 

de 1440 a 1500 mais coisa menos coisa e que 

pintara um quadro chamado Gioconda.



Enfim, o sacerdote sabia muito e perante o espanto dele e da 

filha, de boca aberta, o cura dissera que voltaria no dia seguinte 

para explicar tudo, o que, de facto,  acontecera. Acrescentara, que 

outras pessoas estavam envolvidas na história do ciclismo. Na 

Alemanha, em 1680, o senhor Stephan Farffler, construtor de

relógios, projectou e construiu umas cadeiras de rodas que 

avançavam com manivelas mexidas às mãos e depois um  tal barão

von Drais, também alemão, foi considerado o verdadeiro inventor

da bicicleta.  O padre Francisco contava a história “a galope”

noite apos noite e eles escutavam-no percebendo-o cada vez

melhor.

Celerífero


Desenhou e construiu um brinquedo a que chamou 

celerífero, que depois foi desenvolvido pelo Conde de Sivrac em 

1780. O celerífero fora construído em madeira com duas rodas e 

destinava-se apenas a tracção utilizando-se apenas os pés enquanto

“velocipedista” se colocava na viga de madeira. Drais instalou

nele um sistema de direcção – o guidão – que permitia fazer curvas

e com isto manter o equilíbrio da bicicleta quando em movimento

 e também um rudimentar sistema de travagem.


O sucesso foi enorme, Drais fez a patente do invento; mas, 

todo o bem se acaba. Depois de ter apresentado o seu invento em 

Paris e outras capitais europeias e de ter completado o trajecto 

Baden-Paris, o produto não consegui tornar-se popular e o barão 

foi ridicularizado e faliu. Mas estava-se em pleno século das 

revoluções industriais e científicas como foi o século XIX, e por 

melhorada. Poucos anos se passaram, após o registo de Drais, e 

veículo foi apresentado com uma estrutura de ferro e também 

recebeu uma sela, melhorando em resistência e conforto. No dia 20 

de Abril de 1829 aconteceu a primeira  competição que se tem 

conhecimento utilizando-se o veículo de duas rodas da época. 

Neste dia, competiram 26 draisianas percorrendo 5 quilómetros 

dentro da cidade de Munique.

Rodas desiguais


Note-se que os velocípedes do início 

da segunda metade do século XIX tinham 

os pedais fixos ao eixo da roda da frente 

que era, portanto,  simultaneamente motora

 e directriz. A velocidade de deslocamento dependia 

exclusivamente da aceleração rotativa dos pedais e o desejo de 

obter maior rendimento levou os construtores procurar um 

recurso que favorecesse a acção  mecânica do velocipedista. A 

solução mais fácil foi o aumento do diâmetro da roda motora,

levando ao aparecimento, em 1874, da "grande bi" ou "biciclo", 

com rodas desiguais, ou seja, uma que atingia um diâmetro de um 

metro e meio e a de trás reduzida ao mínimo necessário para 

garantir o equilíbrio.


A partir da década de 1870, os progressos foram rápidos e 

consecutivos. Em 1877 os pedais passaram a funcionar na base do 

quadro, presos a uma engrenagem dentada que uma corrente ligava 

ao eixo da roda traseira por intermédio doutra engrenagem de 

menor número de dentes (um sistema on-line de transmissão), 

assegurando assim, a multiplicação variável conforme as 

dimensões relativas das duas engrenagens, a roda de carretos..


Em 1890 aparecia, na Inglaterra, um aparelho chamado 

"cripto", cujas principais alterações consistiam na presença de 

rolamentos sobre esferas nos pedais e na aplicação de câmaras-de-

ar às rodas, pois antes, as rodas dos velocípedes não passavam de 

aro metálico ou de madeira, recoberto, em sua periferia, de 

borracha maciça destinada a amortecer os choques e ressaltos nos 

acidentes do caminho. A roda tubular em borracha com uma 

"alma" contendo ar comprimido foi uma invenção do 

veterinário escocês Dunlop.

Trindade

Ti Jacinto levanta-se, está na hora da janta,

na aldeia, ouvem- se na aldeia os sinos a dobrar, 

encaminha-se a passos pesados para a casa térrea e 

continua a recordar aquela vez em que Trindade 

teve um furo e ao descer da bicicleta para tirar a bomba para 

encher o pneu, os outros que o perseguiam caíram todos em cima 

dele e da bicicleta e os papalvos que assistiam à chegada na meta 

desataram a rir em gargalhadas altas, loucas e roucas! Os 

parvalhões! As bestas! Os filhos da puta!!!. Quem dera que fossem

eles a levar com os ciclistas em cima e que lhes partissem os 

cornos! Felizmente não houve vítimas.