2022-11-24

 

Este testicul..., u+s texticulo é sobre a minha família

E só o publico porque lhe acho graça.

Os tempos eram outros, as mentalidades

 Também não afinavam pelo actual  diapasão.

Enfim ele aqui fica.

 Espero que não me batam…

 

 



Maternidade em Luanda

 

*O bebé ainda não estava pronto

 

Antunes Ferreira

Controvérsia em família moderada. Já tínhamos dois rebentos, o Miguel e Paulo, putos de quatro e quase dois anos, nascidos em Lisboa na Clinica de São Miguel do Professor Doutor Castro Caldas por recomendação do primo da Raquel o goês também Professor Mário Cordeiro e tudo tinha corrido sobre esferas.

 

Agora em Luanda de novo gravidíssima reuniram-se em nossa (alugada) casa as minhas  cunhados e o meu cunhado Mário (o Luís e a Maria Alice estudavam em Lisboa) para discutir o nome  da menina que iria nascer. O único discordante era eu: estava absolutamente convencido que viria mis um moço – o que motivava enérgicos protestos e recriminações da distinta assembleia. A esta só faltavam os auspícios dos deuses romanos familiares os Larae familiriae.

 




Para que não me acusem de partidarismo ou de ocultação de dados que poderiam levar à conclusão de que estava a favorecer a minha posição faço já uma chamada de atenção bipartida. Primeiro: os meus sogros estavam em Moçâmedes onde como funcionário das Alfândegas Ultramarinas fora colocado como director respeitando o Estado a sua posição em Goa e o casal tinha levado consigo a fila mais nova Belinha.

 

Segundo: os árduos defensores da feminilidade da nascitura (???) tinham apoios substanciais à tese deles. Veja-se, A minha mãe, que morava num apartamento na avenida dos Combatentes, tinha um “truque” consistindo numa fórmula misteriosa em que entrava a idade da grávida, a data da concepção (mais ou menos) e mais uns pozinhos; tudo conjugado: tiro e queda – uma menina.

 


A nossa lavadeira Miquelina (mais preta – como então e dizia – não podia ser) invocando um quimbanda que estava em contacto espiritual com um santo semelhante do Brasil pusera-lhe a questão e obtivera umas rezas para o efeito. Resultado: uma moça fora de quaisquer dúvidas. O Ju, meu irmão mis novo, caçador de fim-de-semana na mata, até atirando a elefante recebera do camarada com quem ia atirar outra certeza baseada não sabia em que conhecimento; mas lá que era uma donzela, jurava p’las cinco chagas de Cristo!

 

E quanto ao nome a pôr na pia baptismal? Aí era o busílis. Na moda estavam as Tânias, as Vanessas, as Matildes e claro havia que ter em conta a tradição raqueliana. Portanto, Tânia Raquel,  Vanessa Raquel, até uma Raquel Clotilde saiu a terreiro. Eu – mudo e quedo. Vendo-me assim, insistiram em ouvir  minha opinião. “Já que a querem saber, a menina vai chamar-se… Luís Carlos; Luís por parte do to, vosso irmão e Carlos porque é o nome do vosso Pai.”


 

Foi uma algazarra. Que porque sim, que porque assado. Cada um regressou às suas casas e os dias foram passando até que rebentaram as águas pela madrugada e levei  minha mulher à maternidade de Luanda. Nesse mesmo dia à tarde meti o Miguel e o Paulo no Colt e fui ver como paravam as coisas. Deixei-os no carro, subi e fui encontrar a minha cara-metade muito chateada pois ainda não nascera o bebé e as condições eram péssimas. “Que saudades da Clínica de São Miguel…”

 

Desci e quando entrei no Colt perguntou-me o Miguel “Ó pai então o mano não


vem?”
E o Paulo, sabichão: “Não vês que ele ainda não estava pronto!

 

Da cara do meu cunhado Mário de onde da sua casa telefonei para Moçâmedes à minha sogra informando-a de que tinha mais um neto que se chamaria Luís Carlos foi de tal modo que justificará outro escrito. Mas tenho de acrescentar que o Mário se tornou o maior amigo do sobrinho que desejara que fosse sobrinha e que na devida altura ainda não estava pronto…      

 




 FUTEBOL - Mundial Qatar 2022

 

O Mundial de Futebol Qatar 2022 já começou e também já se verificaram algumas SURPRESAS. Tenho tentado seguir o andamento da prova mais importante do chamado Desporto-Rei. Talvez porque tenho 81 anos o córtex cerebral regista factos que juntos uns a outros constituíram ocorrências que servem de lastro para fazer comparações entre o jogo que comecei a ver e tentar compreender quando tinha os meus nove/dez anos até à actualidade.

 

Uma nota prévia julgo necessária para esclarecer quaisquer dúvidas que subsistam naqueles que ainda têm a paciência e o destemor de me ler – ou seja de me aturar: sou sportinguista (o que para alguns é ser convictamente… masoquista; feitios). Mas, agora ao que venho como apêndice aos meus postes são pequenos apontamentos sobre o Qatar 2022 e principalmente focando a nossa selecção. Aliás aproveito o ensejo para aditar: escrevo de acordo com o antigo Acordo Ortográfico. (NB – Ver acima idade do autor)

 


Amanhã, jogamos contra o Uruguai uma partida decisiva que tem de ser ganha para seguirmos na competição. Pelo caminho ficaram dois casos ambos problemáticos: um desportivo; o outro infelizmente político. Aqueles alegados e malfadados nove minutos (10 e 41 segundos) do prolongamento do Portugal – Gana foram impróprios não só para cidadões cardiaquos mas também para os vulgares de Lineu. Ainda estou para saber como consegui sobreviver – mas consegui.

 

O caso político fia mais fino. Devidamente autorizado por votação na Assembleia da República o PR Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se a Doha a fim de estar presente no Portugal – Gana e ali fez declarações sobre a violência que o poder exerce quanto aos direitos dos homens, assunto que prevenira em Lisboa que iria abordar no Qatar. Provocou obviamente uma questão cujo fim à hora em que escrevo não se adivinha, mas não parece fácil.

 

Acabo de assistir a um combate de wrestling, perdão, embate entre o tango e o mariachi que se saldou pela vitória – 2-0 – dos homens das pampas. Foi mais o tempo em que os jogadores estiveram deitados ou sentados na relva do que em pé ou saltando tal foi a quantidade de toques acintosos, pequenas, médias e quase grandes agressões de parte a parte. Apurada para os oitavos, a Argentina, mesmo com o Messi e os “portugueses” Di Maria e Acuña (já cá jogaram) não é definitivamente o que foi.

 

Depois do Portugal – Uruguai espero voltar aqui – com um sorriso, mesmo com o Fernando Santos…

AF  

 

 

 

 

 

2022-11-18



 Nunca mais volto

*A mangueira do bombeiro

 

Antunes Ferreira

Responsável fora o Santo António que até tinha estátua em Lisboa. Do seu casamento? Pois sim, o virtuoso também ajudara ainda que fora a Câmara Municipal quem mexera os cordelinhos. Já iam uns largos anos e para a concretização da  ideia que nascera duma proposta apresentada em sessão mensal pelo vereador Augusto Pinto. Em 15 de Abril de 1958, o Diário Popular anunciava o evento, e declarava-se empenhado em "congregar esforços no sentido de se dar realização a essa tão bela ideia de promover o casamento de jovens dos bairros populares na manhã de Santo António."





Nesse ano de 1958, e nos seguintes, este jornal (entretanto desaparecido, como os restantes nocturnos) foi fundamental para viabilizar a iniciativa do casamento coletivo, mobilizando a sociedade civil, criando uma onda de simpatia, captando e noticiando apoios de particulares, estabelecimentos e marcas comerciais.

 

A angariação de padrinhos, de automóveis para transporte dos noivos, os vestidos e ramos das noivas, os penteados, os fatos e os sapatos dos noivos, as alianças, os produtos para a boda, a lua de mel, e até mesmo o fundamental para um início de vida: cursos de formação, mobílias, eletrodomésticos, bens de primeira necessidade. Em algumas edições, e mediante sorteio, apartamentos.

A cadência quase diária com que nas páginas do jornal se iam somando os apoios, e que culminava com a grande reportagem do dia da cerimónia, "grande acontecimento citadino", em que era consumado o "sonho de raparigas pobres, honestas, boas filhas e boas irmãs", "devido à generosa ternura dos nossos leitores", dá bem o tom de "uma ideia admirável em marcha".

 


O seu casamento, com ou sem o santo a tutelá-lo, dera com os burrinhos na água, o facto de ser sapador bombeiro fora a gota de água que fizer transbordar o copo. O seu Regimento era o de Benfica onde ficava situada a 4.ª Companhia. Os incêndios não eram consultórios médicos: não eram necessárias marcações. Além disso tinham um hábito horrível – em grande parte aconteciam à noite.

 

Maria Clara no inicio da vida conjugal era toda sorrisos, dengosa, terna, boa – na lida doméstica e, principalmente, na cama – amável solicita, excelente cozinheira (como prenda do dia do casório até lhe comprara n Barateira o Livro de Pantagruel); porém tinham sido efémeros uns três, mesmo quatro nos. Uma noite fatídica, um desenvolvimento macabro, um final abracadrabrizante!

 

Houvera o incêndio nas instalações da imobiliária A CASA É SUA  que ocupavam três andares dum prédio de doze Alta de Lisboa e dada a dimensão do fogo (que já se alastrava quase a todo o imóvel) todos o regimentos dos Sapadores tinham sido mobilizados para dar combate o mais eficaz possível às chamas.

 


Inclusive vieram os Voluntários do Lumiar e da Ajuda. No meio das mangueiras, escadas Magirus, jipes de comando, ambulâncias do INEM, veículos do SMV, da PSP, da Proteção Civil, podiam encontrar-se responsáveis da empresa enquanto eram assistidos muitos moradores dos restantes apartamentos do prédio. Bom bombeiro, o Justino Domingues Ferrão estava no seu elemento – contentíssimo.

 

Mas quando chegou a casa (eram umas cinco da matina) e se preparava para comer alguma coisa foi direito à cozinha para vistoriar o frigorifico encontrou em cima da mesa um envelope que lhe era dirigido. Reconheceu a letra da cara-metade e abriu-o logo. Dentro jazia um papelinho que rezava só a vermelho

FUI APAGAR OUTRO FOGO NOUTRA FREGUESIA. NÃO CONTES COMIGO, PODES ENROLAR A MANGUEIRA. NUNCA MAIS VOLTO.

 

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2022-11-13

 


Era uma vez…

*Memórias na primeira pessoa

 

Antunes Ferreira

…e eis que de repente um estrondo se me abriu nas volutas cerebrais semelhando um 1755 sem Pombal – com as devidas proporções mais próprias das celulazinhas  cinzentas do Monsieur Hércule Poirot parido pela imortal Agatha Christie– e me fez voltar a este teclado de me tinha auto ostracizado por mais de três anos. Já que estou em módulo de confissão tenho de reconhecer que as teclas não sendo propriamente exemplares da pedra da Roseta também não são caracteres cuneiformes, mas a longa ausência do convívio origina uma pesquisa  táctil a todos os títulos lamentável. Mea culpa, mea maxima culpa!...

 

A verdadeira explosão absolutamente inesperada que me deixara embasbacado atingira, como já dissera todos os que me rodeavam: se tinha dúvidas (o que seria – pelo menos estúpido – aí estava preto no branco a famigerada sociedade). Mas felizmente não havia margem para dúvidas: eu encontrava-me capaz das proezas mais díspares, desde cantar o fado até contar cataratas de anedotas!

 

Pelo sim pelo não, a minha Raquel marcara uma consulta com a minha psiquiatra, a Alice Nobre (que me atura ao longo dos anos e que vem sendo a presidente da Sociedade da Doença Bipolar.) Mais do que médica e paciente tornámo-nos amigos. Após uma larga conversa, na presença da minha cara-metade, a Alice afirmou que eu estava a exagerar na euforia contra o que eu pensava que era o meu estado normal. Depois dela ter feito pequenos ajustes na medicação (que como já sabia terei de tomar até ao forno crematório…) saímos em beleza. Uma correcção; caíam os primeiros pingos de chuva… Como diz o outro: não se pode ter tudo…   

 


Basta de paleio introdutório. Não resiste ainda o escriba a uma citação luso brasileira que aprendeu quando frequentou o COMCurso de Oficiais Milicianos, e o digno instrutor tenente lateiro Oliveira citou esta pérola que endereçou a “porcos”; «No Exército brasileiro o marcar passo diz-se “faz que anda mas não anda…” Pronto, agora é que é. E já que estrou a utilizar terminologia castrense, meia-volta volver, em frente marche!

 

Se ainda subsistirem uns escassos Heróis/pacientes que, levados ao engano, estão a desperdiçar o seu tempo por certo precioso deitando ainda que à sorrelfa olhares enviesados a estas mal-alinhavadas linhas, desde já aqui ficam exaradas em acta as minhas mais sinceras desculpas. Mas, deixem que vos diga – não obriguei ninguém a sujeitar-se a tais despautérios. Este naco de prosa tem apenas a intenção de bradar que voltei a estar vivo – e com os decibéis que dispensam aparelhagem sonora topo de gama (que aliás confesso não saberia, não sei e julgo que nunca serei capaz de utilizar. O rótulo do PRAZO DE VALIDADE é traiçoeiro).

 

Neste primeiro arrazoado que não quero que seja longo – para não ser citada a espada do rei Afonso Henriques – tenho de trazer à sacada mais dois nomes que me «empurraram» ajudando-me a (re)ganhar a fé em mim próprio e, porque não dizê-lo, pois é a verdade, emergir das profundezas em que se encontrava submerso o meu ego.

 

Para ambas poderia percorrer a Wikipédia ou o Manual de Berros do Manuel de Barros e ficar-me-ei por apenas uma singela oftalmologista, a Dr.ª Alcina Granate, que há mais de vinte anos me trata dos olhos e que se tornou uma Amiga quem ainda por cima se confessa minha fã. Há neste Mundo gente capaz de tudo…

 

A outra é uma brasileira que me pôs a andar; explico: Os cerca de três anos de imobilidade forçada a que referi deixaram sequelas complicadíssimas. Quase não me movia sempre dentro de casa, cheguei aos 120 quilos, além de estar intratável. A Raquel e o meu segundo filho Paulo trataram de arranjar uma fisioterapeuta, a Maria Elena Pappalardo. Bendita hora,

 

Seria canalhice ocultar que quando a dita cuja chegou aqui a casa para a primeira sessão que eu antevia de tortura imaginando-a um Savonarola de saias o sorriso que trazia afivelado estoqueou-me de golpe! Conquistara-me. Um verdadeiro coup de foudre. Daí e diante foi pé no acelerador. Persisto em não acreditar em milagres; mas a Lena é uma verdadeira Santa da Agrela – não há terapeuta e amiga melhor do que ela. Hoje já tenho uma meta (???) à vista: correr a maratona… E as sessões são entremeadas com anedotas, comentários das mais diversas ordens, e até canto o fado e canções brasileiras. Num à parte que julgo pertinente e essencial decidimos que o Lula da Siva ia ganhar as eleições a m cafajeste do mais alto coturno um tal Bolsonaro. E não é que acertámos! E mais não digo, se me alongasse ainda acabaria a tentar vender de porta em porta, como nos tempos salazarentos, enciclopédias a prestações.

 

  

  

2019-03-09


Um juiz desembargador ameaçador


Fazer parte dos processados

 Antunes Ferreira
Nunca pensara que me podia sentir frustrado em Goa – mas infelizmente estou a sentir-me. Com mil diabos que raio me havia de acontecer! Não pensem os que ainda me conseguem ler – e julgo que se ainda os houver serão muito poucos – que estou mais ou menos louco ainda que de médico e louco todos tenhamos um pouco de acordo com rifão popular bem conhecido. (Aliás em terra em que famílias católicas numerosas um filho ia para padre outro para médico…)

Então, que se passa? Pois o motivo é simples: eu também quero ser processado pelo meritíssimo Neto de Moura. E pelos vistos estando aqui a mais de oito mil quilómetros do magistrado o seu braço (leia-se da lei dele) é provável que não chegue cá. No entanto a publicação deste modesto contributo para a sanha persecutória do togado que se julga afrontado na sua honra, dignidade, honestidade, profissionalismo, competência e outras qualidades talvez baste para que, mesmo à distância me saia a sorte grande. Uma simples carta precatória…

Só as moscas... (Gravura retirada da "
«ESQUERDA.NET»)

Dois  casos trouxeram para a ribalta o desembargador que entretanto foi desviado do julgamento dos crimes de violência doméstica para o cível. Facto de que aliás já anunciou irá recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça. Os casos são conhecidos e têm sido comentados e criticados ad nauseam e dizem respeito realmente a agressões violentas a nível doméstico contra mulheres. O mais aberrante é que posteriormente  o togado declarou que os casos que deram polémica não eram "particularmente graves". Ou seja fez o mal e a caramunha. Bendito seja… Pode ainda dar-se o caso do ilustre desembargador nas suas sentenças seguir à justa o ditado «Quanto mais me bates, mais gosto de ti!» Porém aqui reside o busílis da questão: as vítimas segundo as queixas que apresentaram não gostaram de levar porrada. Muito antes pelo contrário...  

Houve um tempo em que estive proibido de assinar textos em órgãos da comunicação social e aliás duplamente: pela PIDE/DGS e pelas autoridades militares. Era a negra época da velha senhora que e estávamos em 1966. Por mor dos meus “pecados” políticos e ao fim de três anos de serviço em Portugal fui mobilizado para Angola onde cumpri mais dois, tendo chegado a tenente miliciano. Embora oposicionista do regime salazarento enquanto vesti a farda do Exército Português cumpri tão bem quanto me foi possível os meus deveres militares e de cidadão. E sem me pôr em bicos dos pés (seria um espectáculo degradante ver um «elefante» como eu em tais preparos). Honro-me disso.

Só que não podia escrever – o que me deixava muitíssimo cacimbado (termo retintamente angolano que se refere a cacimbo, chuva miudinha, chata…) e, como tinha ou julgava ter algum jeito para gatafunhar dediquei-me a pseudo cartunes que assinava como Rico 66 Rico 67 e por aí adiante. Isto porque houve quem me aceitasse e publicasse. Depois, voltando à normalidade já pude assinar Antunes Ferreira e voltar a ser cortado amiudadas vezes pelo lápis azul dos censores normalmente mais estúpidos do que um triângulo obtuso.

Ora bem hoje se a tal me ousasse ser-me-ia fácil caracterizar o juiz Neto de Moura recorrendo à Pré-História. Desenhá-lo-ia como um homo sapiens (???) arrastando puxando-a pelos cabelos uma qualquer mulher, uma fêmea que se a dar-se ao luxo de recalcitrar a outro macho já trazia os dois braços e uma perna partidos. Para aqueles que defendem que a História não se repete aqui deixo esta sugestão a quem saiba desenhar. Talvez com ela e ainda que a mais de oito mil quilómetros de distância do meritíssimo Neto de Moura eu consiga ter a taluda do falecido Carnaval ou da vindoura Quaresma: fazer parte dos processados.
(1 -Como sempre este blogue está em absoluto 
desacordo com o famigerado “Acordo”)

(2 -Creio que desta feita o texto já está mais legível...)

2019-02-17




SANGUE EM GOA

Xit Coddi (Caril goês)

Antunes Ferreira
Tudo viria a correr sobre esferas. A viagem em primeira classe com todas as mordomias, as assistentes um encanto, os chefes de cabine excelentes (embora o primeiro me parecesse um tanto amaricado… o que é relativamente vulgar) resumindo, um verdadeiro mimo quer na Emirates quer na Air India. O terminal de Dabolim para mim foi uma agradável surpresa. Claro que sorridentíssimo o primo Salviano lá estava de braços abertos para me dar as boas vindas e me explicar que o aeroporto era militar e já vinha do tempo dos portugueses, mas que também era usado para os voos comerciais aliás o seu fim principal.

Sem legenda


Era pouco mais das onze da noite, alguém se encarregou de recolher a minha bagagem, o meu recém-primo devia ser pessoa importante e bem relacionada pois as questões aduaneiras e fronteiriças decorreram rapidamente, ainda que se tivessem formado longas filas, a que Salviano continuava a chamar bichas. Constituídas sobretudo por turistas – e algumas delas que turistas! – o primo ia-me elucidando sobre o boom do turismo no estado que sendo o mais pequeno da India tinha no maior PIB. Quando lhe falei do motivo que nos levava a utilizar  o termo filas ele soltou uma gargalhada: “Sigo toda a RTPI!...” Começava a estar em casa.

Aliás foi em casa dele que fiquei alojado. Tenho de abrir aqui uma parentética. Qual casa qual quê? Um palácio! Ou seja uma casa apalaçada , um casarão tipicamente colonial com doze quartos – leram bem doze – um dos quais com casa de banho privativa me fora destinado. “O primo Diogo fará o obséquio de me desculpar mas nós aqui não costumamos usar banheira, sim duche, no resto é tudo como na Europa…” No quarto com uma cama de dossel podia dar-se uma pequena festa e os guarda fatos em boa madeira bem como as mesinhas de cabeceira tudo torneado. Sentia-me como um vilão em casa do seu sogro longe vá a comparação.

A Senhora Dona Maria de Fátima, minha prima era uma mulher sorridente um tanto anafada, mãe de três filhos e três filhas, foi-me logo explicando a organização do lar, ao mesmo tempo que me sugeria uma xícara de chá. Adorei ouvir xícara, lembrando que no Brasil também a palavra (que caíra um tanto em Portugal) também era utilizada. E a digna Senhora citou de imediato: “Malhas que o Império tece” e acentuou do nosso Fernando Pessoa no poema “O menino da sua Mãe”. Um espanto.

Em síntese: Um dos filhos era médico, outro padre – tradição nas famílias católicas goesas – o terceiro advogado e o quarto economista e ambos ajudavam o pater familiae na administração dos bens e dos negócios que constituíam o património dos Noronha e Braganza e que realmente era muito grande e diversificado. Os dois primeiros tinham casa própria e os outros viviam ali com os pais e respectivas mulheres e crianças. Curiosa situação. Viria naturalmente a conhecê-las e a saber que ambas eram licenciadas que tinham trabalhado, mas que depois dos respectivos casamentos e da ida para a casa dos maridos e sobretudo após os primeiros filhos ficavam em casa. E em famílias ricas como eram estas tinham aias para cuidar das crianças permanentemente incluindo dormida em casa dos patrões.

Outra curiosidade era o uso do patrão no meio do concanim, Estes dirigiam-se aos motoristas sempre na língua oficial da terra ainda que muitos condutores falassem inglês. As diferenças entre as castas marcavam e de maneira os contactos sociais e o distanciamento entre as pessoas, Claro que depois vim a descobrir que a coexistência entre hindus e muçulmanos (que do tempo dos portugueses ficara a maneira de serem tratados por mouros) já conhecera melhores dias. Porque nessa altura segundo me diriam pessoas da terceira idade o convívio entre as diversas comunidades – cristãos, hindus, judeus, mouros, sikhs e outros – era pacífico e normal. Preferiria acreditar na boa fé dos que assim me informariam.

Igreja de Bom Jesus


Também acabaria por entender que muito boa gente e não apenas católicos mas também hindus fazia comparações com o tempo dos portugueses que para eles era melhor e mesmo muito melhor. De resto, também teria a oportunidade de ouvir em tom de lamento a um médico analista hindu que “infelizmente dentro de duas ou três gerações dos portugueses o que restará em Goa serão pedras: igrejas e fortalezas…” Nunca me quis meter nessas questões, pois podia ser rotulado de neocolonialista, mas o que é facto incontroverso é que fazia tais comparações não se coibia de o fazer perante mim. Mas bastava de considerandos sobre apontamentos sobre o tom local e passei a entrar no motivo que levara o primo Salviana a chamar-me a Goa.

Depois de uma noite quase perfeita – e disse quase e explico logo o por quê – pelas quatro da matinha fui acordo pelo altaneiro cantar de um galo, ocorrência que já não me acontecia há uma data de anos. Pensei levantar-me e ir dar um nó no pescoço do sacana do galináceo, mas logo constatei que o desgraçado era o ponta de lança de um gangue de capangas aos quais logo se seguiu um coro ecuménico de gralhas. Não havia solução à vista nem mastro real para, qual gajeiro de Catrineta, pudesse subir para descobrir outros animais sem penas e menos ruidosos; por isso virei-me para o lado e voltei a adormecer, aliás e em abono da verdade sem grande dificuldade.

No dia seguinte começaram realmente as operações que tinham motivado a minha descoberta do caminho aéreo para a India, mais precisamente para Goa, embora não me sentisse de todo um Gama hodierno e nem sequer nascera em Sines. Mas a História tem estórias por vezes tão destrambelhadas… Depois do pequeno almoço demos uma volta pela cidade cujo trânsito constatei ser muito pior do que… caótico. Só vira exemplos em vídeos, mas ao natural era de dar um pacífico cidadão recém chegado num estado de híper esquizofrenia. Automóveis, autocarros (pré-históricos? ) motorizadas, camiões, carrinhas, bicicletas, secuteres, riquexós, muitos, muitíssimos, pretos e amarelos e no meio desta catástrofe trafegueana os cidadãos verdadeiros resistentes, imunes, tranquilos.

Sem legenda mas com barulho...


E toda a gente buzina . Palavra de honra que buzina. De resto nas traseiras das caixas dos camiões, dos autocarros e até das carrinhas está pintado um conselho/ordem HORN PLEASE! Ou seja APITA POR FAVOR! Mas, se ainda pior pudera haver via-se este abracadabrante BLOW UP! – que tive forçosamente de entender por EXPLODE PORRA! Só vendo, ou melhor, só ouvindo! A cidade velha está quase na mesma como a que os portugueses deixaram e quando depois a percorri a pé descobri imensas coisas que em tem irei contando, mas agora, voltando a casa sentámo-nos à mesa para almoçar e foi aí que conheci mais uns quantos membros da família e um convidado, aliás habitual, um sacerdote, que o Diogo me apresento como sendo o padre Manuel da Cruz Xavier, um jovem a rondar os 25/30 anos – é difícil avaliar a idade desta gente mesmo dos velhos – de excelente aspecto, musculado, garboso, escanhoado, cabelo à moda e camisa aberta de colarinho um tanto arredondado que me foi dito que se chamava curtá. A camisa, claro. Quase uma estrela de Bollywood…

O repasto para apresentação ao novo primo, ou seja eu, foi um xit coddi (o clássico caril goês com muito arroz branco basmati – longo e perfumado – cozido e temperado apenas com sal, caril de camarão, na realidade gambas, e uns ratinhos de acompanhamentos que se chamam tocabocas: pará – peixe seco e salgado frito, picles picantes de manga e/ou de limão (miscut) achares (peixe temperado cozido e desfiado) picante, lutas pequenas fritas, pedaços de carne de porco marinadas e fritas e outros. Enfim, uma mesa linda, colorida e apetitosa. Para sobremesa bebinca, doce de grão e pudim de ovos à boa maneira portuguesa. Só faltou a bica.

Foi depois, já refastelados em cadeirões de mobília indo-portuguesa, tomando um uísque Signature produzido em Goa e muito aceitável, que se entrou no tal mistério.
(Continua)

2019-02-06



SANGUE EM GOA

Primos a 8 mil quilómetros



«No fundo, pouco interessa saber
se a faca tem sentimentos
,o que interessa é que corte bem»
Pepetela

Antunes Ferreira
Tudo começara com uma chamada via Skype. Estava a navegar tranquilamente na blogosfera – um passatempo que se transformara numa mania quase uma dependência quando fora alertado para uma chamada para meu espanto vinda de Goa. Não fizera a menor ideia de quem se tratava e qual o motivo desse contacto inopinado mas aceitara com a curiosidade correspondente. Mas, com mil diabos…

Antes de prosseguir com a estória quero apresentar-me o que para mim representa o mínimo da boa educação e desta que recebi desde miúdo uso e abuso quotidianamente. Chamo-me Diogo Manuel Santos Bragança, sou Inspector-chefe da Polícia Judiciária reformado, tenho 48 anos, viúvo sem filhos, nascido em Lisboa e vivo na bairro do Restelo das casas económicas (?) acima das quais ficam as vivendas do pessoal com massas antes escudos hoje euros, muitas embaixadas e etc.


Que vinha fora de mão!


Quando tinha 28 anos estava casado com a Maria Eduarda, farmacêutica de 27 que já estava grávida de seis meses, uma menina que se iria chamar Cristina como a minha mãe que  seria a madrinha. Tínhamos ido passar o fim de semana a casa dos pais dela em Castro Verde e quando íamos a entrar no acesso à A2 um filho da puta que vinha desembestado fora de mão matou-ma bem como a nossa futura filha. E o gajo safou-se, bem como eu, ele com um braço partido em dois lados, quatro costelas e várias contusões e equimoses e eu com a fractura das duas pernas, traumatismo craniano e também contusões e equimoses. Para mim duas operações e três semanas de hospital; fui ilibado de quaisquer culpas no acidente. 

Mas, no fundo culpabilizei-me ainda que sem razão e esse sentimento perseguiu-me anos a fio. Entretanto como era considerado um excelente profissional fui progredindo na carreira e finalmente encontrei-me no topo dela. Pelo caminho e no aspecto sentimental tivera duas ou três namoradas mas nenhuma me convencera e todas tinham ido à vida. Porém a pouca sorte parecia não se afastar de mim. Tal como o fado cantava, tinha o destino traçado – e ele, pelos vistos, não seria famoso.

A patalogista forense Nikki debruçada sobre um cadáver

O que me ajudara a tornar-me um internautodependente fora o facto de ter criado um blogue com o título um tanto pomposo «Os casos do reformado em caso» pelo qual se podia ver a adoração que tinha pelo advogado/investigador Perry Mason uma imortal criação no domínio do policial pelo Erle Stanley Gardner. De resto na minha biblioteca que era bem abastecida a literatura policial tinha, naturalmente, lugar destacado. Além disso seguia cuidadosa e atentamente as séries temáticas da FOX CRIME e da AXN, a principal das quais era “The Silent Whitness”,"A Testemunha Silenciosa" pelas madrugadas. Ninguém me obrigava a levantar-me a toque de alvorada e a dona Perpétua que era minha governanta, ou melhor fac totum não se atrevia a acordar… Nunca!

Quando a ligação se estabeleceu eram três da madrugada no ambiente de trabalho surgiu um senhor goês que me pareceu de meia idade e que me disse logo ”Bom dia primo!” Passei-me. Primo? Eu? Porra! Mas de onde saía este gajo e logo a chamar-me assim? Devo ter feito uma tal cara que o homem prosseguiu “Não se amofine! Chamo-me Salviano Francisco Xavier  Albuquerque de Noronha e Braganza com z porque agora por cá a família teve de deixar cair o cê cedilhado que não se encontra nos teclados… Mas claro que somos da mesma ascendência. Primos muito afastados, mas… primos!”

Penso que fiz um sorriso de circunstância enquanto digeria tão rapidamente quanto possível essa carilada (vinda de Goa uma tal novidade tinha forçosamente de ser… caril) e retorqui “Pois muito me diz e tenho de confessar que não estava à espera de uma tal coisa às tês horas da manhã…” E o primo Salviano “O primo desculpe mas os fusos horários são uma maçada, por certo acordei-o, faz-me o obséquio volte para a cama que eu depois torno a ligar-lhe. É que preciso mesmo da sua ajuda. E sendo da família…”  

Em resumo acabava de ser fodido a oito mil quilómetros de distância via Skype e ainda por cima por um alegado primo que não sabia que existia mas que pelos vistos era mesmo meu primo ainda que sem exibição de árvore genealógica muito menos certidão de idade mas na ocasião seria difícil… “Não te preocupes meu caro Salviano – e logo acrescentei para reforçar os laços familiares ora descobertos – nós por cá entre primos tratamo-nos por tu e assim farei se não te importares…”  E ele de imediato “Por aqui usamos mais você, mas vamos habituar-nos pode continuar, primo Diogo. E se não se vai deitar vou explicar-lhe sucintamente ao que venho dar-lhe este incómodo. Trata-se de um mistério…”

Olá, mistérios eram comigo, eram desde sempre a minha profissão, a minha vida, o curso de direito servira-me de muleta para a investigação e agora surgia-me um ainda por cima em Goa, que com Damão e Diu constituíam o antigo Estado Português da Índia até que a 18/19 de Dezembro de 1961 a então União Indiana a invadiu com a intenção de o libertar do alegado colonialismo português. “Muito bem, Salviano, diz-me o que pretendes de mim pois estou completamente ao teu dispor!”


O enorme riso dele...


O enorme riso dele no centro de uma barba e bigode bem aparados foi resplandecente. Na face morena carregada os olhos brilharam-lhe tanto quanto os dentes branquíssimos. “Tinha absoluta certeza de que o primo Diogo aceitaria o encargo e por isso tenho já tudo preparado. Quando pode vir? Não quero incomoda-lo; gostaria que fosse tão breve quanto lhe fosse possível, mas não queria desviá-lo de qualquer assunto mais premente que já tenha programado e…”

Atalhei-lhe o discurso, nestas coisas o pragmatismo é o mais importante, como dizem os brasucas conversa mole para encher pneu não dá certo, “Por mim, pode ser já hoje, talvez amanhã a fim de deixar arrumadas algumas coisas, poucas, não tenho nada de especial para me ocupar é só fazer as malas comprar os bilhetes do avião e…” Só que desta feita foi o Salviano que me interrompeu pedindo-me muitas desculpas de o fazer pois estava tudo óquei, só precisava de reconfirmar a reserva dos bilhetes na Emirates – Lisboa /Londres /Londres /Mumbai / Mumbai / Dabolim na Air India para o dia seguinte. Ele estaria à minha espera no terminal goês.

Fui deitar-me e sonhei com coqueiros e praias com água quente a 28/29º.

(Continua)



NE - Este é o primeiro episódio de um conto (?) policial que decorre em Goa onde o autor (que como é sabido é terra de que é fanático...) se encontra. Trata-se de uma primeira tentativa neste género de literatura, mas duas circunstâncias me levam a isso: primeiro, tal como o protagonista sou um "doido" pelo policial e segundo porque há sempre uma primeira vez. Oxalá não me espalhe...

*A foto do cabeçalho representa uma prática goesa: à noite e à beira-mar convive-se, bebem-se uns copos à luz de pequenas velas ou candeias. Podem crer que é lindo...

2019-01-06


  

VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN – FIM





Prazo de validade
Antunes Ferreira

Lá em baixo no rio passava um navio de cruzeiros imponente nas suas muitas toneladas de arqueação a caminho do Atlântico enquanto o Armando e eu estávamos sentados junto ao Adamastor no Miradouro de Santa Catarina. Era um tarde encalorada nem sequer corria uma brisa por leve que fosse, um Agosto inclemente, pensava para comigo que seria muito bom ter um ar condicionado individual. E quem sabe, se no futuro?

Tinham ficado para trás funerais, cemitérios e quejandos em tamanha quantidade que não havia basta! que bastasse. Talvez a roda da desgraça que desandara para nós pois saíra do seu eixo natural invertesse agora o delírio que dela se apossara. Esperança… A esperança é sempre a última a morrer, dizem por aí, e já era tempo de ela começar a rodar normalmente de forma a seguirmos em frente sem grandes sobressaltos.
Os gráficos não mentiam

Haviam partido num trote infame a Maria Rita, o Gilbertinho, a Elena, a velha Miquelina, o Olegário, a nossa mãe Fátima e até o coronel Marques Fialho para não enumerar os avós diversos já falecidos anteriormente. A empresa conseguira ultrapassar o enorme obstáculo do misterioso ataque informático e singrava normalmente, aliás crescia sustentadamente como diziam os economistas incluindo eu. Os tios Miguel e Jaime, o David e eu próprio  continuávamos ao leme e as coisas corriam sobre esferas-chips. Todos os gráficos assim o indicavam e a confiança no mercado era a prova concludente de que seguíamos no caminho correcto. Ao menos valia-nos isso como consolo perante tantas contrariedades.

Um céu pintado de azul limpíssimo sem uma única nuvem branca com um sol esplendoroso colado ao centro parecendo revoltear-se e dardejando ultras violetas (lembrando-me o que alegadamente acontecera em Fátima após as ditas aparições…) tornara-se opressivo e obrigava a camisa a colar-se ao corpo. Foi então que disse ao Armando: “Tenho andado com a Mariela já há uns meses…”

O horrendo massacre do cemitério de Santa Cruz

O meu irmão como que acordou de um sono profundo:  “A Mariela? A dos computadores? A timorense?” E eu: “Ela mesma, sem tirar nem pôr, uma mulher porreira, profissional excelente, simpática, bem disposta e como quase todas as timorenses e católica praticante. Aliás, já me contou, tinha oito anos quando se deu o criminoso massacre no cemitério de Santa Cruz em Díli, no qual entre os quase quatrocentos mortos vítimas dos disparos das tropas indianas se contavam dos irmãos e um primo dela! Se tudo der para o certo e estamos a ver que vai dar mais dia menos dia pensamos no casório…”

Armando olhou-me um tanto entre o admirado e o espantado: “Mas é mesmo assim? Pois muito me contas. E antes que acrescentes mais alguma coisa quero dizer-te que da tua vida sabes tu, mas que no que me toca acho que deves seguir o que o teu coração manda e se é para o teu bem e, obviamente, também para ela, que sejam muito felizes e que tenham um futuro muito risonho. Ambos bem o merecem pois, depois do que me acabas de dizer também já teve o seu quinhão de sofrimento. Por isso meu querido irmão os meus parabéns e venha de lá um abração!”

O amplexo foi longo e apertado. Tínhamos ido a pé partindo do largo do Camões subindo a Rua de Santa Catarina cavaqueando de salto em salto e de tema em tema e agora tínhamo-nos fixado na questão do meu arranjo com a Mariela. Por isso naturalmente saltou à estacada a luta da Fretilin pela independência de Timor Lorosae, e pelos seus principais intervenientes e lutadores desde o Xanana Gusmão até ao Ramos Horta passando pelo Mari Alkatiri, pelo Carrascalão, pelo Matan Ruak, pelos Guterres e não esquecendo o bispo Ximenes Belo.

Então o Armando tinha lembrado um célebre episódio ocorrido na II Guerra Mundial aquando da invasão japonesa de Timor então dividida em duas colónias uma parte portuguesa e outra holandesa. A ilha era defendida por forças aliadas, inglesas, australianas e dos Países Baixos, apoiadas por voluntários portugueses (timorenses) ainda que, frisara o meu irmão, o nosso país fora neutral e rindo-se “por mérito do Salazar que o tinha rogado à Virgem de Fátima…”

O régulo Dom Aleixo

“Sabias, Frederico Foi aí que ficou nas páginas da nossa História um herói chamado Aleixo Corte-Real que era um régulo e comandava os timorenses, mais conhecido por Dom Aleixo, o qual não se rendeu contrariamente ao qua aconteceu aos militares aliados e foi fuzilado envolvendo-se na bandeira de Portugal!” Disse-lhe que não sabia, mas que tinha a noção perfeita de que um dia em que um homem não aprendia alguma coisa não era dia muito menos era homem.

Já o sol se punha bronzeando o astro quando regressámos a casa. Junto do portão do prédio parámos e o meu irmão voltou-se para mim: “Meu querido Frederico quando olho para ti recordo-me como se fosse hoje do dia em que chegaste com a nossa mãe Fátima e o pai Gilberto nos avisou que tu eras diferente mas também eras igual a nós. Na altura dou-te a minha palavra de honra que não percebi a charada. Fui percebendo-a aos poucos, enquanto os anos iam passando. E agora tenho a certeza de ter chegado à conclusão: tu não és igual – és melhor.”

Fiquei calado e o mano respeitou o meu silêncio. Um pensamento, um só, tomou conta do meu cérebro e levei-o até ao elevador. Nós os “mongolóides”, como muitos desgraçadamente nos chamam, temos um prazo de validade curto. Estava absolutamente certo de que já tinha ultrapassado o meu. E depois?
(Fim)