PASSO A PASSO

2018-11-09


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 16



Antunes Ferreira
Pás brancas quais gigantes vão parindo electricidade girando lentamente no cimo das torres que as sustentam umas seguidas de outras alinhadas como soldados de um regimento eólico plantadas no alto de morros de vegetação rasteira e eu estava sentado no restaurante-café duma estação de serviço á beira da autoestrada ia contemplando-as absorto sem as ver. Era o dia 1 de Agosto de 2008 fazia um calor abrasante, acolhera-me ao ar condicionado, enquanto o carro estava estacionado sob um toldo metálico existente no parque próprio. A bica cheia em chávena escaldada esfriara. Moscas esvoaçavam zumbindo e uma delas aterrava em voo picado na colher abandonada no pires açucarado da chávena.

Rememorava, solitário, tudo ou quase tudo o que acontecera nos oito anos que tinham decorrido desde a  vez que escrevera no meu “Diário” o último episódio da saga. E quantos tinham acontecido... Infelizmente, mais maus do que bons, alguns deles mesmo péssimos. A ver. Começara pelo Frederico com a sua Elena a desejar ardentemente ter um filho que ele não lhe podia fazer pois como já tinha dito ele era estéril. Durante quase um ano o problema tinha andado penosamente a arrastar-se, engrunhando, um passo à frente dois atrás, iludindo a mulher que não queria aceitar a desgraça de não ter uma criança.

Elena sofria de síndrome de Down acentuada e por isso pensava que a andavam a enganar e começara a desconfiar de todos mas em especial do marido. Para o Frederico esta era uma situação dolorosíssima, confidenciara-me que já não sabia o que fazer à vida
e que pensava até que a minha cunhada estava a pontos de enlouquecer. E que não era apenas ele; toda a família mais chegada incluindo os pais dela e até o pessoal também pensavam assim. Maldita a hora em que o drama se concretizou – e a Elena teve de dar entrada numa clínica para doenças mentais.

Índios Guarani Kaiowa  - jogos

Por outro lado a Leonor conseguira vencer a luta contra a droga e saíra com uma determinação: fazer voluntariado mas longe de Portugal. O mano Frederico, entre a visita quotidiana à Clínica Sossego & Saúde e a atenção à irmã, empenhou-se na obtenção desse objectivo e através da direcção da ONG Aposta na Vida conseguiu estabelecer contactos com a FUNAI que é a Fundação Nacional do Índio do Brasil que a colocou no Mato Grosso do Sul para trabalhar com os índios Guarani Kaiowa. Para lá tinha seguido muito feliz: tinha alcançado um objectivo que traçara para a vida dela.

E foi ainda o mano Super que me trouxe a informação do fim desgraçado do ignóbil Golfo. Os seus informadores (a rede que possuía continuava a funcionar muito bem) tinham-lhe transmitido os pormenores da funesta ocorrência que acontecera em meados de Julho de 2007, isto é do ano anterior. Golfo adorava a caça e, como estava em África,  ia habitualmente à noite para caçar ao farol ou seja com uma lanterna potente montada no jeep que utilizava juntamente com dois ou três camaradas.  Embrenhavam-se nas florestas através de picadas manhosas e de repente farolavam encadeando possíveis animais aos quais com mais facilidade atiravam.

Mas nesse dia Golfo decidira ir caçar elefante – de dia; os companheiros bem tentaram dissuadi-lo, era a primeira vez, os “bichos” eram muita granjolas, um mânfio acagaça-se, eles avançavam, eu já vi um, parecia uma locomotiva a cravão, caté bufava, se um gajo é atropelado vai pró caralho sem dizer piu! Foda-se, nessa não caio eu!... Quem falava assim era o Fernandes, o outro portuga do grupo de segurança do Mugabe e companheiro de caçadas. O terceiro era queniano chamava-se Moisés Quigambo e esse alinhava. Ainda havia um quarto que era o condutor natural de Hare, Paul Tsnangwa que também aceitou.

Partiram de madrugada e já o sol nascera quando encontraram uma manada de elefantas com as suas crias, mas Golfo desprezou-as. Ele queria UM elefante macho. Quigambo, conhecedor dos hábitos dos proboscídeos alertou-o: “Careful friend, and the animal is in the mating period and attacks the man is very dangerous!... (Cuidado amigo, e o animal está no período de acasalamento e ataca o homem é muito perigoso!...) Mas o tuga apenas rosnou:  Don’t fuck with me! Those who are afraid stay at home! (Não me fodas! Quem tem medo fica em casa!)

Premiu o gatilho - nada!


E, de supetão, saindo do meio da mata apareceu um machão, de tromba erguida que parou e soltou um berrido de fazer tremer o mais destemido! Golfo saltara do jeep e dera uns passos afastando o capim até ficar ao alcance do monstruoso animal. Meteu um joelho em terra, apontou cuidadosamente ao mesmo tempo que o elefante investiu. O caçador premiu o gatilho – nada! Pólvora seca? Percutor lixado? Em menos de um segundo fora apanhado pela tromba que o agarrou por uma perna, volteou-o como se fora uma funda (assim contaram os sobreviventes que tinham metido a marcha atrás, dado meia volta e cavado à maior velocidade!)

Mas mesmo assim o Moisés voltara-se para e fizera um curtíssimo vídeo que mostraria o caçador caçado e depois de volteado a ser atirado contra o tronco de um embondeiro. E ali ficou feito um espantalho espapaçado no capim tingido de vermelho. E assim o foram encontrar no dia seguinte quando voltaram ao local para buscar o corpo já muito dilacerado pelos leões, pelos urubus e quiçá pelas hienas, enquanto as térmitas já se afadigavam para participar no festim. Pouco restava do Senhor D. Mário João Ruivães Lorena de Mesquitela, mais conhecido pelo Golfo. A própria arma estava destroçada. 

O Restaurante-bar estava mesmo às moscas – passe o trocadilho – quando entrou um casalinho jovem, de jeans e blusas soltas do mesmo tecido, botas à cauboi e capacetes para motos que pediu ao balcão duas coca-colas e duas sandes mistas com manteiga tendo ido sentar-se a uma mesa no canto mais fundo e escuro do salão. Não lhes liguei e continuei embrenhado nos meus pensamentos, cada vez mais macambúzio. O processo da adopção estava a revelar-se uma sucessão de papelada sem fim: o exemplo mais flagrante da burogracite aguda. Aquilo que os brasucas sintetizam para dizer o nosso marcar passo: faz-que-anda-mas-não-anda   

Por esse andar quem ia parar à Clínica Sossego & Saúde éramos a Maria Rita e eu. Uma porra, uma grandessíssima porra!. E no entanto, numa das creches da Misericórdia já a minha mulher tinha descoberto um parzinho de gémeos, menina e menino, pretinhos, com oito meses de idade, lindos como os amores, com os olhitos muito grandes e brancos no meio das carinhas muito negras e redondas a sorrir para ela e depois para nós. São estes! São mesmo estes! Mas o problema é que o raio dos papéis nem de empurrão não havia maneira de andar.

Lavoisier e sua esposa Anne- Marie

Perante a nossa aflição, o Frederico tinha sugerido: “E se untássemos umas mãos ao pessoal que tratava do processo? Umas papilas de quinhentos euros bem acondicionadas e num bom molho deviam fazer-lhes jeito…” E o “malandro” quando pôs os tios Miguel e Jaime ao corrente da sua “boa proposta” deu-se ao luxo de citar o Lavoisier: “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"…. Claro que depois disto só se ouviram como comentário umas boas casquinadas…             


2018-10-23


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DA SÍNDROME DE DOWN -15



Antunes Ferreira
Três acontecimentos para mim significativos num só dia: 5 de Outubro de 2000. Um novo século, a implantação da República em 1910 e o dia do meu aniversário. Ainda por cima mais uma data redonda – completava 50 anos. Desde a última vez que estive convosco quantas coisas se passaram, quantos dramas aconteceram na minha vida, quantos momentos felizes ocorreram, em suma quantas voltas deu a vida. A vida que num momento é mãe, no seguinte é madrasta, hoje acaricia, amanhã mata.

Relógios digitais

Volte-se, porém atrás, independentemente do arrancar das folhas de um qualquer calendário que esse sim inexorável não para, não se compadece com satisfação ou com sofrimento, cadenciado pelos ponteiros de um relógio analógico ou de um digital. Cada vez mais as máquinas vão tomando conta de nós, cada vez mais vão-nos escravizando, cada vez mais vão substituindo a nossa inteligência pela sua inteligência informatizada. E contra isso não há gladiador por mais forte que valha aos homens.

Estava-se na altura em que tinha de informar a minha mãe de que a Leonor tinha sido apanhada na teia terrível da droga e também despedir-me da minha irmã antes dela partir para a Casa do Retiro e Recuperação Anjo da Guarda e ainda tentar encontrar o tal Golfo para lhe dar uns sopapos coisa pequena até lhe rebentar os fagotes. Mas, antes disso tudo, tinha de conversar com o Frederico que era sem dúvida o mais importante desta cegada para que juntos desatássemos o nó górdio que se estabelecera. Ele próprio já me dissera que precisava de falar comigo e portanto assim aconteceu.

Sem legenda

As folhas outonais rodopiavam numa dança louça pautada pelo vento enquanto um céu carregado prenunciava chuva talvez trovoada quando nos sentámos no Porto de Santa Maria em frente do mar no Guincho para um almoço que seria mais de paleio do que comida mas que nos fez muitíssimo bem pois saboreámos tudo o que dissemos – mais do que os mariscos que tínhamos encomendado que eram excelentes – alimentámos os nossos egos, abrimos os nossos corações, aliás como sempre fazíamos, enfim fomos dois irmãos sem peias em segredos.

O meu mano trazia com ele uma ansiedade graúda: “Tu sabes, Armando, a Elena e eu somos muito diferentes no que toca ao grau de deficiência.” Fiquei com a verdadeira pele de galinha, claro que sabia, mal fora se não soubera, mas mantive-me mudo e quedo. “Dentro da pouca sorte que me caiu na vida saiu-se a grande, el Gordo, como dizem os espanhóis, a taluda do Natal –  bafejou-me com a inteligência e bastante!” Nunca o ouvira falar assim sobre a sua diminuição. Mas ele continuou: “Sei que é raro, mesmo muito raro aparecer um caso como o meu. O tio Miguel disse-me quando lho perguntei que talvez um em mais de cem mil. Sou um sortudo!...”

Que mais poderia dizer-lhe? “Posso dar-te um abração?” E ele  tranquilo: “Claro que podes, mas ainda não acabei, falta muito… Pelo contrário e infelizmente a Elena é uma joia de mulher mas é muito limitada, anda sempre a meu reboque, não a posso deixar sozinha. É uma Down típica, com tudo o que isso representa. Eu amo-a assim, ela adora-me. Tenho a certeza de que se pudesse punha-me num pedestal e adorava-me todos os dias… Tenho medo que dê um passo errado!”

Filho? Missão impossível

Eu estava siderado. “Agora meteu-se-lhe na cabeça ter um filho!” Com seiscentos macacos pensei para com os meus botões, mas que raio de ideia, caramba! “Mas eu já lhe disse que os homens com a síndrome de Down são estéreis e portanto nada feito. Ficou tristíssima e tem vindo a perguntar-me se era possível irmos aos médicos a que foste com a Maria Rita, talvez houvesse uma esperança… Tenho a certeza que não sabe o que é ser estéril. Mano, estou metido numa grandíssima alhada. Que hei de fazer? É preso por ter cão e preso por não ter!!!…”

O Super Francisco afinal não era tão super como isso. E eu sentia-me impotente para o ajudar. Dar-lhe um conselho? De conselhos precisava eu, como daria eu um ao meu mano? De resto lá dizia o ditado “entre marido e mulher não metas a colher”. Não era especificamente o caso. Um irmão tem sempre de estar à disposição de outro irmão. E não é apenas uma questão de solidariedade. É algo mais, indefinível, tal como a saudade ou o desenrascanço que só os portugueses sabem o que são e as outras nacionalidades não entendem nem conseguem traduzir. Os ingleses da Enciclopédia Britânica andam há 29 anos a tentar encontrar uma tradução para… desenrascar…

Metemo-nos no meu Honda para voltarmos a Lisboa e a conversa foi descaindo para os encontros com as nossas mãe e irmã e bem assim aquilo que eu tentava fazer que era encontrar o filho da puta do Golfo. E foi então que o Frederico retomou a palavra: “O bandido era duma família nobre e o que não era normal rica. O avô metera-se em negócios diversos e jogara na bolsa e tivera muito sucesso. Era o D. Francisco Lorena Moutinho de Mesquitela e o filho D. Mário Hernâni seguira-lhe as pegadas aumentando os bens e investimentos tendo casado com uma Dona Isabel Maria Castro Mendanha Ruivães de Reguengos também rica proprietária de vinhos de marca”

Sem recorrer ao seu laptop o meu irmão continuava dando mostras da sua boa memória: “Do enlace resultaram quatro filhas e dois filhos sendo que o último foi o D. Mário João Ruivães Lorena de Mesquitela mais conhecido pelo apodo de Golfo, a ovelha negra da família, que aliás também não era lá grande espingarda. Falava-se em negociatas de armas e outras traficâncias mas qualquer membro dessa gente tão elevada numa fora apanhada nas teias da Lei”.
O ditador Mugabe


Estávamos a chegar à capital e tocou o telemóvel do Frederico que iniciou uma longa conversa entremeada por comentários da parte dele: “Não me digas, não me digas” e “Não posso acreditar” e ainda “Não é possível, não é possível” e mais à frente “Estás a gozar comigo? Ou é verdade?” E a terminar “Foda-se!!!!!” Estacionei em pulgas e perguntei-lhe o que acontecera. “Era o Julião Baptista, o Chicharro, o meu principal bufo, a informar-me que o cabrão do Golfo há quinze dias tinha esfaqueado um segurança dum clube no Cais do Sodré matando-o. Porém, por artes de «magia negra» conseguira safar-se e pirara-se para o Zimbabwe onde ingressara como mercenário no Corpo de Segurança do Presidente-ditador Robert Mugabe. Já não o conseguimos apanhar!!!”
(Continua)







2018-10-03


Vou ali e já venho

Antunes Ferreira

Hoje pelo meio-dia a Raquel e eu estamos a embarcar no terminal de cruzeiros no MSC Preziosa para fazer justamente um cruzeiro no qual à ida vamos chegar a Génova, parando em Málaga e Barcelona; de volta paramos em Casablanca/Marraquexe e chegamos a Lisboa no sábado, 13. Durante esses dez dias nada de computados, nada de blogosfera, somente sopas e descanso. E ninguém tem nada com isso, ora essa…



Curioso é saber que o navio é um mastodonte com uns pequenos 33.300 cm de comprimento, 6.681 cm de altura, 139.072.000.000 gr de peso, pode transportar 4.237 passageiros (mais um, menos um) e tem 1.325 tripulantes. Os dados fornecidos não incluem boias. Foi mandado construir em 2010 por um tal Hannibal Kaddafi, filho do ditador da Líbia que o encomendara recomendando que ele tivesse um aquário para tubarões de 120 toneladas de água…

Claro que a entrega já não se consumou porque entretanto sabe-se o que aconteceu: mais um episódio da “Primavera Árabe” obrigou o rapaz, aliás desde sempre mal comportado – já cumprira uns anitos de prisão no Líbano e o seu pai pagara umas belas fianças para ele ser libertado em Genebra e depois em Paris por agressões diversas a membros do seu pessoal e até à sua companheira que estava grávida. Um excelente exemplo. Face aos acontecimentos e vendo o que sucedera ao pai meteu toda a família, mulheres, filhos, filhas, irmãs, mãe e avó em seis “mercedes” blindados e zarpou para a Argélia.   

O Preziosa que quando encomendado deveria chamar-se Phoenicia tem ainda uma outra curiosidade: a sua madrinha foi a Sophia Loren. Para a minha geração era uma das boazonas das telas cinematográficas.

Portanto caté à nossa volta.
Qjs & abçs

2018-09-27


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DA SÍNDROME DE DOWN - 14





Antunes Ferreira
Eram oito horas da manhã e já me encontrava a arrumar os papéis que estavam em cima da secretária do meu gabinete no  Supremo Tribunal Militar. Chegara cedo depois de no outro dia ter voltado já pela noite com a Maria Rita no último voo da Ibéria de Barcelona  onde tínhamos ido receber a última desilusão na clínica do professor Pau Puigbó o mais reputado ginecologista europeu, especialista em reprodução in vitro. Já estávamos habituados a negas mas mesmo assim vínhamos muito tristes.

O dia começara com uma madrugada cinzenta ameaçando chuva, estávamos em Novembro nada mais natural, a meteorologia (quando eramos putos na brincadeira dizíamos mentirologia…  porque quase nunca acertavam) ameaçava chuva grossa  com trovoada especialmente nas terras altas com possibilidade de queda de neve nas terras por força do já célebre anticiclone situado a noroeste do arquipélago dos Açores, fórmula calina. Meu dito, meu feito. E, realmente pelas sete da matina começou a cair uma carga de água que nem uma robusta arca do Noé aguentaria à superfície.

Chovia a potes! Lembrava-me da explicação da minha professor de inglês no colégio sobre a estranha expressão dos bifes que diziam:  The weather is crazy, two hours ago it was sunny but now it’s raining cats and dogs! Essa “coisa”  explicava a dr.ª  Marina Santana não significava literalmente que estava a chover gatos e cães do céu, e sim que está chovendo torrencialmente. E a malta ria-se na galhofa enquanto a setôra tentava impor a calma e apaziguar os ânimos. E acentuava que a expressão inglesa se podia traduzir como “O tempo está maluco, há duas horas estava um dia de sol e agora chove a potes!”


Chovia a cães e gatos, oops, a potes...


Só de sair do carro e chegar à porta do edifício a correr apanhara uma molha que até o porteiro me dissera: “O meu capitão doutor está que nem um pinto!... Vá secar-se…, olhe que ainda apanha uma constipação lixada que pode dar em pneumonia e agora com as viroses ou bactérias ou essas merdas, desculpe-me a palavra, que por aí andam, ainda arranja um trinta e um do caral…go”. Sosseguei o Simões que tinha sido meu segundo sargento antes de ser “promovido” a “almirante” (a farda de porteiro com galonas doiradas e tudo a isso levava…) e subi para o meu gabinete.

Foi então que bateram à porta. Resmunguei para os meus botões “Tão cedo e já me estão a chatear…” , mas, em voz alta: “Entre!” Era o Frederico com cara de pau. Chegou-se à minha frente deu-me os dois beijos da praxe e disse-me que tinha um caso muito grave para me contar. Tentei desdramatizar a situação e primeiro que tudo pedi-lhe que se sentasse no sofá duplo que ali tenho tomando eu lugar ao lado dele, “Então, mano, diz-me lá o que se passa, mas vai com calma, tá?” Frederico, olhos nos olhos desfechou, tão tranquilo quanto possível: “A Leonor anda metida na droga.” 


Anda metida na droga...


Fiquei entre o estupefacto e o estarrecido. “Mas, tens a certeza?  E ele com um ar pesaroso “Absoluta, mano, absoluta, aliás ela já mo confessou; nem queria acreditar embora já desconfiasse que havia mouro na costa e a Elena também pensava assim.” E continuou encanto torcia as mãos mas com uma voz serena “Nem tu nem a Maria Rita podiam ter dado conta do que se passava, ultimamente iam tão pouco lá por casa assoberbados com os vossos problemas e tão grandes que eles são, a mãe continua muito distraída   e ainda bem para não se pôr  a matutar em coisas tristes  que não se apercebeu do que se estava a passar… ” 

Não queria acreditar no que ele me estava a revelar. A nossa família pelos vistos não tinha direito ao sossego.  Eram umas atrás de outras. E novamente o Frederico estava no olho do furacão. “Bom, Armando, senta-te e acalma-te se te é possível que eu vou contar-te a estória toda abreviando-a porque senão estaríamos aqui até ao fim do mês. Isto tudo teve a sua origem no filho da puta do namorado!” Se estava pasmado duplamente plasmado fiquei pois nunca ouvira o Frederico dizer palavrões. Mas ele prosseguiu com aparente tranquilidade: “O gajo toca guitarra eléctrica num grupo qualquer que se julga melhor do que os Beatles e de manhã já acorda passado, situação que conserva religiosamente durante todo o dia e toda a noite!”

Resumindo, a Leonor começara a faltar às aulas no Conservatório onde estudava piano. Ligara-se ao tal sacana de seu nome “artístico” Golfo que dizia que    também que estudava lá mas apenas galara a moça que tinha ido na conversa dele. Daí às passas fora um pulinho (palavras dela quando confrontada por ele Frederico) e depois seringa, cocaína, anfetamina,
Sem legenda

LSD, enfim uma panóplia do diabo. A Leonor passara a dormir ou melhor e aí o Frederico acentuava com ar muito carregado “foder com o filho da puta e não sei que mais!” Já falara com os tios Miguel e Jaime e com a tia Elsa e no dia seguinte a Leonor iria dar entrada na Casa de Retiro e Recuperação Anjo da Guarda situada acima da Malveira da Serra onde iria começar com a Metadona, tratamento de desintoxicação que o tio Miguel acompanharia a par  com os médicos da instituição. Era cara mas tudo indicava que valia a pena. E para nós o dinheiro não era problema.

E era tudo, o Frederico calou-se e eu fiquei assarapantado olhando para ele. “E tu, mano, tomaste a teu cargo isso tudo? Desenrascaste-te? É certo que eu e a Maria Rita andávamos muito ocupados e muito tresmalhados, mas se soubéssemos o que estava a acontecer logo participaríamos no que fosse preciso e era muito. Nunca, mas nunca te deixaríamos só. Tiveste o apoio dos tios e da tia, mas iniciativas foram tuas. Para mim foste um herói.” E  não me contive, levantei-me, ele também e abraçámo-nos forte e demoradamente, corriam-nos lágrimas pelas faces quase tão grossas como as cordas de agua que não paravam de cair lá fora. Que raio de dia! Que filho da puta de dia! – disse para o Francisco, porque a partir de então já o podia fazer, depois do que ele  dissera.

Daí que tivesse de adiar os papéis que estavam sobre a minha secretária pelo que chamei o meu adjunto e o escrivão e pedi-lhes o favor de tratarem das formalidades necessárias para o adiamento de alguns processos bem como fiz uma delegação de poderes específica como meu substituto formal ao adjunto. Fui de seguida falar com o juiz presidente do Tribunal e dei-lhe conta do que se passava explicando-lhe que por motivos imperiosos da minha vida pessoal tinha de ausentar durante uns dias não sabendo quantos. Mas, logo que tivesse tudo resolvido com a rapidez possível apresentar-me-ia. Apresentei-lhe o Frederico. Já podia sair com ele.


Com a mão na...


Duas tarefas para começar me aguardavam: falar e despedir-me da Leonor e informar a mãe do que se estava a passar. Depois, bem, depois desejava ir encontrar o tal Golfo que o Frederico também me informara que além de todas as “qualidades” que me referira também era grafiteiro. Talvez o encontrasse não com a mão na massa mas na lata de tinta de pressão ou no    marcador. Bonita ia ser a “conversa”. Teria de me conter, mas se o cabrão levantasse a grimpa estava mesmo fodido – partia-lhe os cornos! Mesmo a pensar retomava o linguajar de caserna.

Mas, acima disso tudo pairava a imagem dum Super-Homem sem capa nem kripton que dava pelo nome de Frederico e que levava com ele a síndrome de Down. Quem diria?                                 

2018-09-21





Antunes Ferreira
Não sei como isto me aconteceu porque há muito tempo que não sucedia, mas vejo-me obrigado a condescender, as teclas têm razões que os próprios dedos desconhecem, que me desculpe o Monsieur Blaise Pascal a pseudo citação aliás canhestra numa adaptação que dá imenso jeito ao autor. Posto isto dito para a acta que hoje escrevo na primeira pessoa sobre tema que eu próprio vivi por ter estado no local da ocorrência mas de cujos trâmites não me recordo precisamente dada a minha tenra idade. Porém quem mos contou posso considera-la fonte mais do que fidedigna como é uso escrever nos periódicos. Vamos então à questão.

No Vale de Santarém mais exactamente na curva que antecede a Fonte dos Amores contada por Almeida Garrett onde a Menina dos Rouxinóis de olhos verdes quais esmeraldas – palavra d’honra que não é o eu que escreveu isto, foi o romântico – ficava o casarão da minha tia-avó Dona Etelvina Ferreira, solteirona militante com os seus setenta e muitos, no qual com os meus sete/oito/nove anos passava um mês mais coisa menos coisa das férias grandes no tempo em que as havia.

Um peru mamute


A propriedade urbana (assim rezava a escritura)  era também enorme  pois além da moradia contemplava um lagar de vinho com adega adjacente (dez tonéis enormes para dois mil litros) quatro figueiras duas pereiras, três damasqueiros e duas macieiras, mais uma horta e um galinheiro lá no fundo o quintalão  onde eram criados à tripa-forra todos os tipos de aves comestíveis e poedeiras desde galos e galinhas passando por patos e gansos  e fracas até se chegar aos diversos tipos de perus mesmo os perus mamute que me assustavam  quando arrasavam a asa às peruas. Coisas de namorados atiradiços.

En passant (Óbvio que podia grafar de passagem  mas um francesismo dá sempre um ar de erudição que ilumina a escrevinhadela e dia de trovoada) refiro que também tinha eu catrapiscado uma namoradinha a Berta, filha o feitor, o senhor Raimundo, amor de Verão, que dizia a senhora Maria Martins verão qu’isto passa e passou mesmo quando passei para a segunda classe e para as segundas férias. É aqui a altura de nomear a citada senhora, criada da minha tia-avó que, caso curioso e atá surpreendente, conseguia realizar a magia de ser mais velha do que a patroa, pelo que almas maldosas chegaram a chamar-lhe bruxa. Há gente para tudo. Outros mais evoluídos a nível cultural, como o senhor Jimbrinhas da Farmácia Bem-te-curo, apelidavam-na de pantomineira. Despeitados.

Um Ford T - o primeiro carro produzido em série


Num dia de Agosto o senhor Raimundo levou-me à garagem que era a antiga casa das carruagens e esteve a explicar-me com a maior paciência e para mim uma insigne sabedoria o que eram dois carros que lá estavam enferrujados e carregados de poeira que me pareceu ser do tempo dos afonsinhos a par duma charrete em que a Dona Etelvina e alguns de nós incluindo eu nos passeávamos na Feira de Santarém. Até apontei no bloco “Lusitano”  que levava sempre comigo, antecipando  o futuro repórter, os nomes dos calhambeques: um fáeton Hudson de 1917 e um Ford T de 1923. Hoje valeriam uma pipa de massa. Em euros, está claro.

Mostruário com as jóias 


A estória – a que aliás já me referi por algumas vezes ouvi contá-la à minha mãe que a dava como absolutamente verdadeira – tem a sua piada. Pelo Vale passava o senhor Freitas joalheiro ambulante com sede no Cartaxo (terra do meu pai) que corria todo o distrito. Carlos E o seu irmão Fernandes eram os sócios e proprietários da joalharia Anel Doirado base do negócio. Fernando geria a loja, Carlos ia para o terreno. Era paraplégico, não mexia as duas pernas e por isso usava uma cadeirinha de rodas à qual fora acoplado um motor Zündapp de dois cavalos nas costas da qual transportava uma mala metálica fechada com cadeado onde transportava um mostruário de madeira onde tinha os produtos para venda em prateleiras sobrepostas forradas de veludo vermelho. Com um engenhoso sistema de manivela rodava o mostruário/balcão para a sua frente, abria-o e expunha a mercadoria a fregueses e sobretudo freguesas.



A Senhora Dona Etelvina Ferreira (que era a segunda pessoa mais rica do Vale de Santarém com sete tapadas de vinha e nove prédios urbanos na terra alguns a cair) e a criada senhora Maria Martins eram clientes habituais do Freitas que por lá passava uma vez por mês e quando chegava tocava uma buzina e logo acorria o pessoal mais ou menos endinheirado. O vendedor era o verdadeiro artista pois já descortinava à légua as e os potenciais adquirentes e os sacanas dos mirones bem como os pilha-galinhas que contudo com ele não tinha muita sorte. Dizia que não havia bambúrrio que escapasse a uma Browning 22 que por causa das moscas trazia sempre debaixo da manta com que cobria as penas inúteis fizesse chuva ou sol – e as velhas embrulhadas num lençol como dizia o povo.

Porém chegou um mês em que ele não tocou a buzina porque não apareceu, se calhar está doente, dizia-se no Vale e dizia a Senhora Dona Etelvina Ferreira bem como a senhora Maria Martins. No mês seguinte, nada de Freitas, e trinta depois cadeirinha nem vê-la. E assim foi acontecendo durante seis meses. Não me diga minha Senhora, o pobrezinho deve ter dado a alma ao Criador lamentava-se a criada para a patroa. Por via disso, foram-se à igreja paroquial e encomendaram ao padre cura uma missa por alma do senhor Joaquim Manuel Freitas, o que aconteceu com responso e tudo.

A perninha do meio não é aleijadinha...


Mas, no mês que entrou, para espanto dos espantos, ao portão da propriedade ouviu-se a buzina. Podia lá ser? Seria o Freitas? Teria ressuscitado? Era. Açodadamente as duas foram-se ao novo Lázaro e a Senhora minha tia-avó perguntou-lhe: Mas que lhe aconteceu? Com estes meses todos sem aparecer julgámos que tinha falecido e até mandámos rezar uma missa pela sua alma… E o ourives ambulante: Credo, lagarto, lagarto, lagarto, longe vá o agouro, pagar e morrer quanto mais longe melhor, foi a minha Alzira que deu à luz o nosso sétimo filho e eu fiquei para ajudar os trabalhos em casa…

Foi a senhora Maria Martins quem não se conteve: Sétimo filho? Então o Senhor Freitas tem as duas pernas aleijadinhas salvo seja e já vai nos sete filhos? Retorquiu-lhe um Freitas impante com sorriso de dentadura postiça recheada de dentes de ouro naturalmente: Ó senhora Maria Martins a perninha do meio não é aleijadinha!..

   

2018-09-13


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN – 13

De há uns largos tempos a esta parte vinha pensando
 que o título genérico desta saga estava errado
 e além disso não correspondia à verdade do texto e até
era estúpido. Mas a preguiça tem uma regra essencial:
não mexer uma palha e como se diz agora
não sair da zona de conforto, ou seja do ninho
que é onde se está bem, pelo menos eu. Mas o Frederico
não merecia que escrevesse que era difícil
viver com ele porque na realidade era bem
o contrário. Daí que fiz das fraquezas
forças e aqui vai o novo genérico renegando
o anterior. Espero que gostem.


Căsători
să fie
fericit (*)

Antunes Ferreira
É certo e sabido que um dia tem vinte e quatro horas e um mês tem 30 ou 31 ou mesmo 28, por vezes 29 dias, desde que estas medidas foram assentes por documentos conhecidos. As primeiras foram criadas na Grécia clássica que porém se terá inspirado no que era procedimento de uma das mais importantes civilizações do mundo antigo – a  mesopotâmica. Já quanto ao calendário é o gregoriano  promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1583. Nisto pensava o capitão jurista Armando Mascarenhas Saraiva Mendes enquanto aguardava os resultados das últimas análises feitas a sua esposa arquitecta Maria Rita e a ele próprio. Dê-se-lhe a palavra como é hábito

Corria o ano de 1979 e tanta coisa acontecera desde a última vez que escrevia o meu diário. Sim, pois creio que ainda não tinha revelado que tudo que vou contando consta das páginas de um que vou recheando de entradas mais volumosas umas mais breves outras, todas datadas, mas não quotidianas. Tantas e tão complexas e algumas tão complicadas e poucas revistas, escritas ao correr da pena, ou melhor da Parker 51 oferta do meu pai quando eu entrara para o primeiro ano do liceu no Valsassina.

Pensando bem a nível nacional e histórico o mais importante fora indiscutivelmente o 25 de Abril de 1974. Dia inolvidável em que tivera o privilégio, a sorte e a honra de participar como tenente miliciano/aluno a Academia Militar. Até eu estou admirado quando escrevo isto; entrei para a escola onde o meu pai se formou oficial correspondendo a um desejo dele que nunca eu pensaria concretizar mas que realizei. Para isso concorreram três determinantes: o meu casamento com a Maria Rita, óbvio, as conversas com o coronel Marques Freitas e principalmente a minha decisão de honrar a memória do meu progenitor tivesse ele sido o que fosse.

Academia Militar: Às armas!!!!

Enquanto avançava no curso na Academia situada na Amadora ia prosseguindo também o Direito na Faculdade onde me vim a licenciar em 1976 no meio de uma grande confusão com passagens administrativas, assembleias-gerais de alunos, plenários, greves selvagens, partidos políticos, o mais assanhado dos quais era o MRPP do “grande camarada”  Arnaldo Matos, futuros dirigentes partidários agressivos, carteiras partidas, saneamentos, eu sabia lá que mais. Concluí o curso de Administração Militar com a especialidade de Serviço de Justiça e estou colocado no Supremo Tribunal Militar como Promotor de Justiça.

Mas o que interessa para já é o nosso Frederico que completou os 20 anos encontrou a mulher dos seus encantos com quem sonha desde o tempo de menino quando ambos andavam na João de Deus. Já pensam em casar. Acho bem pois embora sejam ambos portadores da mesma síndrome são responsáveis, inteligentes, saudáveis e não são só amigos pelo que se pode ver e, sobretudo sentir, amam-se. Elena é romena-portuguesa pois já nasceu em Lisboa, os pais tinham vindo para cá a fugir da tomada do poder pelos comunistas. É gentil e bonita e até pasme-se já ganhou um concurso de miss Simpatia. Como sempre e mesmo antes de dizer à mãe a sua intenção ele veio ter comigo e perguntou-me se eu achava bem e se lhe dava a minha bênção.

Fiquei comovido, fiquei mesmo muito comovido. Chegaram-me as lágrimas… mas contive-me. Nem precisei dizer-lhe que ia conversar com o meu travesseiro e no dia seguinte…, nada disso, respondi-lhe logo: “Se é a tua vontade e a da Elena não pensem muito pois há um ditado…” e ele, com uma gargalhada interrompeu-me: “Quem pensa não casa, e quem casa não pensa, mas no nosso caso quem casa deve pensar… pouco!” Caímos na galhofa de tal maneira e tais decibéis que o tio Jaime que nesse dia jantava lá na minha casa (a tia Elsa estava, adivinhem onde… na maternidade à espera do quinto rebento, aquilo era pior do que uma máquina de encher chouriços, salvo seja…) veio saber onde era o incêndio  por mor da sirene.

E dois meses depois foi o enlace que decorreu excelentemente, a Maria Rita e eu fomos os padrinhos do mano, o padrasto e a mãe da Elena  e o copo de água foi uma festa, uma reunião das duas famílias e alguns amigos que deu lá para as tantas. Finalmente as águas tinham acalmado ou, pelo menos, os ventos pareciam ter amainado. E bom era pois já bastava de contrariedades e de marés baixas. Na verdade, a Maria Rita e eu andávamos desde o princípio do matrimónio muito preocupados que pouco a pouco se foi transformando em muitíssimo. Ela não conseguia engravidar.

As cegonhas também fazem greve?


Bem tentávamos. Os nossos, desde as mães até aos tios, as avós, os avôs, o Olegário, o David, a Margarida, o Paulo, a Miquelina a Odete, o próprio Marques Freitas que já fora promovido a brigadeiro, todos nos diziam para termos calma, que éramos novos, tínhamos todo o tempo do mundo, um filho não se faz ao virar da esquina, era “falta de pontaria”, as cegonhas também têm o direito à greve e os putos eram uns brincalhões e perdiam-se... e e outras brincadeiras mas a realidade nua e crua é engravidar zero. Decidimos começar a fazer diligências médicas para pôr termo à expectativa cada vez mais frustrada e frustrante que dia a dia se ia transformando em pesadelo.

Já não sei quantos consultórios conhecemos, em quantos laboratórios  entrámos, através de quantos aparelhos fomos observados, micro e macro, bombardeados de ondas as mais diversas, aqui, lá fora onde alguém nos indicava li é que é, fazem milagres, um casal nosso amigo já desiludido deslocou-se lá e foi tiro e queda: um par de gémeos! Experimentem. Experimentámos. Nada. Até Fomos a bruxas e curandeiros com mezinhas milagrosas, santas com relíquias, voámos ao Brasil para fazer oferendas ao Orixá mais famoso a Rainha dos Mares Iemanjá, mas tudo em vão.

Dinheiro era coisa que não nos faltava, mas dinheiro não compra felicidade. E essa sim, essa faltava-nos. Essa não se avia na farmácia. De volta, na primeira classe do Jumbo da TAP vínhamos ouvindo o Martinho da Vila interpretando “A Felicidade” do Vinícius e do Jobim:

Martinho da Vila


Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor…
Tristeza não tem fim
Felicidade sim…”

Esta era a última diligência médica que faríamos. Já munidos dos resultados uma vez mais negativos  decidimos apenas nó dois sem recurso a mais opiniões: íamos adoptar uma criança. E o primeiro a conhecer essa decisão seria o Frederico.
___________

(*) Romeno:
Casar
e ser
feliz

(Continua)



2018-09-06






Antunes Ferreira

Chinelando os seus paquidérmicos 92 quilos bem pesados a dona Ernestina mal terminara a transmissão do episódio da Escrava Isaura de que não perdia pitada e quando o cuco do relógio comprado numa venda de garagem cantava as 21 e 30 entrava no quarto da Janette que ocupava há mais de três anos. Na banquinha de cabeceira tinha a sua xícara com a tisana de camomila que tomou pois achava que a ajudava a dormir. A digna viúva do comerciante Manel Ximenes, depois do infausto acontecimento voltara para a casa dela onde aliás também vivia a filha com a família (era uma vivenda grande quase uma mansão de estilo vitoriano) mas sob o olhar desconfiado e crítico q.b. da família Ximenes.
 
Nota 10 nas paralelas
Montreal estava em 1977 a lamber as feridas de muitos milhões de dólares de prejuízos causados pelos Jogos Olímpicos do ano anterior. Mas ainda se recordava a medalha de prata do Carlos Lopes nos dez mil metros. Fora durante a competição que pela primeira vez no mundo uma ginasta conquistara a pontuação máxima: 10. A romena Nadia Comăneci nas paralelas que aliás ganharia mais dois. Estava-se num Novembro frigidíssimo e a Dona Ernestina meteu-se na cama com o saco de água quente aos pés, apesar da casa estar bem aquecida.

Na sala de jantar o senhor Teófilo Ximenes tinha decidido unanimemente só ele reunir o conselho de família para discutir pela quinquagésima segunda vez uma questão de suma importância sobre a qual até à data não fora possível chegar a acordo. Ximenes trabalhava com o Eng.º Joaquim Fraga, Cônsul honorário de Portugal em Montreal no escritório dele de import/export como despachante oficial que tinha 28 empregados a tempo inteiro mais dez em part time dos quais oito eram dactilógrafas. Uma firma importante. A menina Ermelinda, dactilógrafa, estava adstrita a ele, Teófilo só para tratar dos assuntos consulares que o engenheiro Fraga levava muito a peito.  Era no 32.º andar da Torre Norte da Place Desjardins.

O seu nome de baptismo fora-lhe atribuído pelo falecido pai, republicano dos quatro costados, em homenagem ao fugaz Presidente da República Teófilo Braga. Tinha vindo como imigrante para o Canadá chamado pelo tio Manel Ximenes, irmão do seu progenitor, que tinha um restaurante no bairro de Saint Laurent onde vivia a maior parte da comunidade portuguesa. Uma coisa pachola bem recheada onde às sextas e as sábados havia fados e guitarradas com caldo verde e bacalhau na brasa bem como rojões à moda do Minho com arroz dos miúdos do porco, arroz doce, leite creme, pudim caseiro e mousse de chocolate verdadeira, não daquelas de pacote, a que a cozinheira que era a dona Ernestina e esposa do patrão Manel depreciava de plástico.

Fados e guitarradas 


Abreviando. A Amélia Rodrigues, enteada dos patrões, era a caixa do Comida à Portuguesa, e o restante pessoal militava na equipa familiar e adjacente. As folhas dos calendários foram-se arrancando e foi acontecendo o que tinha de acontecer. A Amélia era boa a cantar o fado (e no resto) e chamava o público: Hoje fados com a grande Amélia Rodrigues (Compreendem, esperteza, alusão à grande Amália Rodrigues…) Como lhe competia ao tio Manel deu-lhe o badagaio, a dona Ernestina mandou às urtigas tachos e panelas e transferiu-se para o Sport Clube Das Viúvas Consoláveis, SCVC, à espera de alguém que o fizesse, não obstante debalde, dizia uma das netas, a Beta, nem de balde algum lá ia. Maldosa q.b., a moçoila.

O rebento Jean, em casa o João, e as rebentas, Jaquina, a Janette, a Ernestina, aliás Nanette e a Madalena, ou seja Maddy, eram o fruto do matrimónio do Teófilo com o Amélia. De resto fora este que se metera literalmente debaixo dele nas traseiras, alto lá, do restaurante, quer dizer fora ela quem comera o Teófilo, numa verdadeira  ser comida à portuguesa, depois de um verdadeiro assédio sexual no local de tralho que fizera no dito ao semi-primo, ingénuo e puro que chegara da Europa Para ganhar honestamente a vida sem saber a emboscada que a jovem semi-virgem (???)  lhe iria montar e que afinal quem seria montada era ela, a jovem não a emboscada.

Postos ao corrente das incidências e das concorrências e ainda das influências que delimitavam o plenário familiar relate-se o que e como ele decorreu, o que sendo recorrente para quem lê este estrago de linhas e parágrafos e etcs., para outros chega a ser novidade: o ponto da situação dos aposentos da dona Ernestina. Presentes: o Teófilo, que presidia, a Amélia que secretariava, as três filhas mais os três consortes (o Marc quebecois  da Nanette dizia ser comazar mas era pura provocação, ele lá sabia porquê), o papagaio Vicente e o gato Minou. O cágado Fosquinhas não compareceu, devia andar à caça de moscas, mas como não tinha enviado procuração teve falta injustificada.

No basement


Finalmente concluíram que à viúva, aliás proprietária da vivenda como atrás se disse, seriam apresentadas duas alternativas: ou passava a dormir na cave – aí o Marc perguntou o que era a cave? – era o basement traduziu a esposa o que motivou um comentário soez do gajo no horrível francês quebecois  Enfin ça va pour n'importe quoi… o que motivou um olhar assassino da visada e umas quantas gargalhadas entupidas à saída – ou seguia directa e  imediatamente para a Maison des Retirés du Commerce de Montréal, solução que estavam certos ela não aceitaria. Assim, fariam uma limpeza dos trastes eu lá em baixo havia mandavam reparar o frigorífico antigo e punham lá o anterior televisor bem como dispunham os móveis dela que ali estavam arrumados e pronto. Meu dito, meu feito. E a dona Ernestina desceu à cova, como ela disse, perdão disse a família ao basement.

Entretanto no Consulado honorário as coisas iam de vento em popa. Passaportes, Bilhetes de Identidade, Certidões diversas tudo nos conformes, tudo nas aplliances devidas, tudo com selo branco, enfim, um céu na terra, até que um dia a menina Ermelinda, rápida de dedos, parca de massa cinzenta comentou para o seu chefe: “Ó Senhor Teófilo aqui em Montreal há muitas primas na Segurança Social. Mete-me muita impressão haver tantas primas. É uma grande família…”

Código da Segurança Social


Ximenes que estava a estudar a tradução de um documento notarial para efeitos de naturalização nem a estava a ouvir. Mas a menina Ermelinda insistiu na estória das primas da segurança social.  Então ele franziu o sobreolho: “Primas? Quais primas? Ó mulher, o que é que você está para aí a dizer?” E ela muito senhora do seu nariz: “Pois pode crer, sempre que vem cá muitas portuguesas  meter as appliances  para a Sécurité Sociale dizem que têm primes a receber…”  Fez-se luz na cachimónia tiófiloniana: Não eram primas, eram prémios, eram subsídios! E esteve quase para dizer à dactilógrafa que era uma besta, mas chegou o engenheiro e…