2019-02-17




SANGUE EM GOA

Xit Coddi (Caril goês)

Antunes Ferreira
Tudo viria a correr sobre esferas. A viagem em primeira classe com todas as mordomias, as assistentes um encanto, os chefes de cabine excelentes (embora o primeiro me parecesse um tanto amaricado… o que é relativamente vulgar) resumindo, um verdadeiro mimo quer na Emirates quer na Air India. O terminal de Dabolim para mim foi uma agradável surpresa. Claro que sorridentíssimo o primo Salviano lá estava de braços abertos para me dar as boas vindas e me explicar que o aeroporto era militar e já vinha do tempo dos portugueses, mas que também era usado para os voos comerciais aliás o seu fim principal.

Sem legenda


Era pouco mais das onze da noite, alguém se encarregou de recolher a minha bagagem, o meu recém-primo devia ser pessoa importante e bem relacionada pois as questões aduaneiras e fronteiriças decorreram rapidamente, ainda que se tivessem formado longas filas, a que Salviano continuava a chamar bichas. Constituídas sobretudo por turistas – e algumas delas que turistas! – o primo ia-me elucidando sobre o boom do turismo no estado que sendo o mais pequeno da India tinha no maior PIB. Quando lhe falei do motivo que nos levava a utilizar  o termo filas ele soltou uma gargalhada: “Sigo toda a RTPI!...” Começava a estar em casa.

Aliás foi em casa dele que fiquei alojado. Tenho de abrir aqui uma parentética. Qual casa qual quê? Um palácio! Ou seja uma casa apalaçada , um casarão tipicamente colonial com doze quartos – leram bem doze – um dos quais com casa de banho privativa me fora destinado. “O primo Diogo fará o obséquio de me desculpar mas nós aqui não costumamos usar banheira, sim duche, no resto é tudo como na Europa…” No quarto com uma cama de dossel podia dar-se uma pequena festa e os guarda fatos em boa madeira bem como as mesinhas de cabeceira tudo torneado. Sentia-me como um vilão em casa do seu sogro longe vá a comparação.

A Senhora Dona Maria de Fátima, minha prima era uma mulher sorridente um tanto anafada, mãe de três filhos e três filhas, foi-me logo explicando a organização do lar, ao mesmo tempo que me sugeria uma xícara de chá. Adorei ouvir xícara, lembrando que no Brasil também a palavra (que caíra um tanto em Portugal) também era utilizada. E a digna Senhora citou de imediato: “Malhas que o Império tece” e acentuou do nosso Fernando Pessoa no poema “O menino da sua Mãe”. Um espanto.

Em síntese: Um dos filhos era médico, outro padre – tradição nas famílias católicas goesas – o terceiro advogado e o quarto economista e ambos ajudavam o pater familiae na administração dos bens e dos negócios que constituíam o património dos Noronha e Braganza e que realmente era muito grande e diversificado. Os dois primeiros tinham casa própria e os outros viviam ali com os pais e respectivas mulheres e crianças. Curiosa situação. Viria naturalmente a conhecê-las e a saber que ambas eram licenciadas que tinham trabalhado, mas que depois dos respectivos casamentos e da ida para a casa dos maridos e sobretudo após os primeiros filhos ficavam em casa. E em famílias ricas como eram estas tinham aias para cuidar das crianças permanentemente incluindo dormida em casa dos patrões.

Outra curiosidade era o uso do patrão no meio do concanim, Estes dirigiam-se aos motoristas sempre na língua oficial da terra ainda que muitos condutores falassem inglês. As diferenças entre as castas marcavam e de maneira os contactos sociais e o distanciamento entre as pessoas, Claro que depois vim a descobrir que a coexistência entre hindus e muçulmanos (que do tempo dos portugueses ficara a maneira de serem tratados por mouros) já conhecera melhores dias. Porque nessa altura segundo me diriam pessoas da terceira idade o convívio entre as diversas comunidades – cristãos, hindus, judeus, mouros, sikhs e outros – era pacífico e normal. Preferiria acreditar na boa fé dos que assim me informariam.

Igreja de Bom Jesus


Também acabaria por entender que muito boa gente e não apenas católicos mas também hindus fazia comparações com o tempo dos portugueses que para eles era melhor e mesmo muito melhor. De resto, também teria a oportunidade de ouvir em tom de lamento a um médico analista hindu que “infelizmente dentro de duas ou três gerações dos portugueses o que restará em Goa serão pedras: igrejas e fortalezas…” Nunca me quis meter nessas questões, pois podia ser rotulado de neocolonialista, mas o que é facto incontroverso é que fazia tais comparações não se coibia de o fazer perante mim. Mas bastava de considerandos sobre apontamentos sobre o tom local e passei a entrar no motivo que levara o primo Salviana a chamar-me a Goa.

Depois de uma noite quase perfeita – e disse quase e explico logo o por quê – pelas quatro da matinha fui acordo pelo altaneiro cantar de um galo, ocorrência que já não me acontecia há uma data de anos. Pensei levantar-me e ir dar um nó no pescoço do sacana do galináceo, mas logo constatei que o desgraçado era o ponta de lança de um gangue de capangas aos quais logo se seguiu um coro ecuménico de gralhas. Não havia solução à vista nem mastro real para, qual gajeiro de Catrineta, pudesse subir para descobrir outros animais sem penas e menos ruidosos; por isso virei-me para o lado e voltei a adormecer, aliás e em abono da verdade sem grande dificuldade.

No dia seguinte começaram realmente as operações que tinham motivado a minha descoberta do caminho aéreo para a India, mais precisamente para Goa, embora não me sentisse de todo um Gama hodierno e nem sequer nascera em Sines. Mas a História tem estórias por vezes tão destrambelhadas… Depois do pequeno almoço demos uma volta pela cidade cujo trânsito constatei ser muito pior do que… caótico. Só vira exemplos em vídeos, mas ao natural era de dar um pacífico cidadão recém chegado num estado de híper esquizofrenia. Automóveis, autocarros (pré-históricos? ) motorizadas, camiões, carrinhas, bicicletas, secuteres, riquexós, muitos, muitíssimos, pretos e amarelos e no meio desta catástrofe trafegueana os cidadãos verdadeiros resistentes, imunes, tranquilos.

Sem legenda mas com barulho...


E toda a gente buzina . Palavra de honra que buzina. De resto nas traseiras das caixas dos camiões, dos autocarros e até das carrinhas está pintado um conselho/ordem HORN PLEASE! Ou seja APITA POR FAVOR! Mas, se ainda pior pudera haver via-se este abracadabrante BLOW UP! – que tive forçosamente de entender por EXPLODE PORRA! Só vendo, ou melhor, só ouvindo! A cidade velha está quase na mesma como a que os portugueses deixaram e quando depois a percorri a pé descobri imensas coisas que em tem irei contando, mas agora, voltando a casa sentámo-nos à mesa para almoçar e foi aí que conheci mais uns quantos membros da família e um convidado, aliás habitual, um sacerdote, que o Diogo me apresento como sendo o padre Manuel da Cruz Xavier, um jovem a rondar os 25/30 anos – é difícil avaliar a idade desta gente mesmo dos velhos – de excelente aspecto, musculado, garboso, escanhoado, cabelo à moda e camisa aberta de colarinho um tanto arredondado que me foi dito que se chamava curtá. A camisa, claro. Quase uma estrela de Bollywood…

O repasto para apresentação ao novo primo, ou seja eu, foi um xit coddi (o clássico caril goês com muito arroz branco basmati – longo e perfumado – cozido e temperado apenas com sal, caril de camarão, na realidade gambas, e uns ratinhos de acompanhamentos que se chamam tocabocas: pará – peixe seco e salgado frito, picles picantes de manga e/ou de limão (miscut) achares (peixe temperado cozido e desfiado) picante, lutas pequenas fritas, pedaços de carne de porco marinadas e fritas e outros. Enfim, uma mesa linda, colorida e apetitosa. Para sobremesa bebinca, doce de grão e pudim de ovos à boa maneira portuguesa. Só faltou a bica.

Foi depois, já refastelados em cadeirões de mobília indo-portuguesa, tomando um uísque Signature produzido em Goa e muito aceitável, que se entrou no tal mistério.
(Continua)

2019-02-06



SANGUE EM GOA

Primos a 8 mil quilómetros



«No fundo, pouco interessa saber
se a faca tem sentimentos
,o que interessa é que corte bem»
Pepetela

Antunes Ferreira
Tudo começara com uma chamada via Skype. Estava a navegar tranquilamente na blogosfera – um passatempo que se transformara numa mania quase uma dependência quando fora alertado para uma chamada para meu espanto vinda de Goa. Não fizera a menor ideia de quem se tratava e qual o motivo desse contacto inopinado mas aceitara com a curiosidade correspondente. Mas, com mil diabos…

Antes de prosseguir com a estória quero apresentar-me o que para mim representa o mínimo da boa educação e desta que recebi desde miúdo uso e abuso quotidianamente. Chamo-me Diogo Manuel Santos Bragança, sou Inspector-chefe da Polícia Judiciária reformado, tenho 48 anos, viúvo sem filhos, nascido em Lisboa e vivo na bairro do Restelo das casas económicas (?) acima das quais ficam as vivendas do pessoal com massas antes escudos hoje euros, muitas embaixadas e etc.


Que vinha fora de mão!


Quando tinha 28 anos estava casado com a Maria Eduarda, farmacêutica de 27 que já estava grávida de seis meses, uma menina que se iria chamar Cristina como a minha mãe que  seria a madrinha. Tínhamos ido passar o fim de semana a casa dos pais dela em Castro Verde e quando íamos a entrar no acesso à A2 um filho da puta que vinha desembestado fora de mão matou-ma bem como a nossa futura filha. E o gajo safou-se, bem como eu, ele com um braço partido em dois lados, quatro costelas e várias contusões e equimoses e eu com a fractura das duas pernas, traumatismo craniano e também contusões e equimoses. Para mim duas operações e três semanas de hospital; fui ilibado de quaisquer culpas no acidente. 

Mas, no fundo culpabilizei-me ainda que sem razão e esse sentimento perseguiu-me anos a fio. Entretanto como era considerado um excelente profissional fui progredindo na carreira e finalmente encontrei-me no topo dela. Pelo caminho e no aspecto sentimental tivera duas ou três namoradas mas nenhuma me convencera e todas tinham ido à vida. Porém a pouca sorte parecia não se afastar de mim. Tal como o fado cantava, tinha o destino traçado – e ele, pelos vistos, não seria famoso.

A patalogista forense Nikki debruçada sobre um cadáver

O que me ajudara a tornar-me um internautodependente fora o facto de ter criado um blogue com o título um tanto pomposo «Os casos do reformado em caso» pelo qual se podia ver a adoração que tinha pelo advogado/investigador Perry Mason uma imortal criação no domínio do policial pelo Erle Stanley Gardner. De resto na minha biblioteca que era bem abastecida a literatura policial tinha, naturalmente, lugar destacado. Além disso seguia cuidadosa e atentamente as séries temáticas da FOX CRIME e da AXN, a principal das quais era “The Silent Whitness”,"A Testemunha Silenciosa" pelas madrugadas. Ninguém me obrigava a levantar-me a toque de alvorada e a dona Perpétua que era minha governanta, ou melhor fac totum não se atrevia a acordar… Nunca!

Quando a ligação se estabeleceu eram três da madrugada no ambiente de trabalho surgiu um senhor goês que me pareceu de meia idade e que me disse logo ”Bom dia primo!” Passei-me. Primo? Eu? Porra! Mas de onde saía este gajo e logo a chamar-me assim? Devo ter feito uma tal cara que o homem prosseguiu “Não se amofine! Chamo-me Salviano Francisco Xavier  Albuquerque de Noronha e Braganza com z porque agora por cá a família teve de deixar cair o cê cedilhado que não se encontra nos teclados… Mas claro que somos da mesma ascendência. Primos muito afastados, mas… primos!”

Penso que fiz um sorriso de circunstância enquanto digeria tão rapidamente quanto possível essa carilada (vinda de Goa uma tal novidade tinha forçosamente de ser… caril) e retorqui “Pois muito me diz e tenho de confessar que não estava à espera de uma tal coisa às tês horas da manhã…” E o primo Salviano “O primo desculpe mas os fusos horários são uma maçada, por certo acordei-o, faz-me o obséquio volte para a cama que eu depois torno a ligar-lhe. É que preciso mesmo da sua ajuda. E sendo da família…”  

Em resumo acabava de ser fodido a oito mil quilómetros de distância via Skype e ainda por cima por um alegado primo que não sabia que existia mas que pelos vistos era mesmo meu primo ainda que sem exibição de árvore genealógica muito menos certidão de idade mas na ocasião seria difícil… “Não te preocupes meu caro Salviano – e logo acrescentei para reforçar os laços familiares ora descobertos – nós por cá entre primos tratamo-nos por tu e assim farei se não te importares…”  E ele de imediato “Por aqui usamos mais você, mas vamos habituar-nos pode continuar, primo Diogo. E se não se vai deitar vou explicar-lhe sucintamente ao que venho dar-lhe este incómodo. Trata-se de um mistério…”

Olá, mistérios eram comigo, eram desde sempre a minha profissão, a minha vida, o curso de direito servira-me de muleta para a investigação e agora surgia-me um ainda por cima em Goa, que com Damão e Diu constituíam o antigo Estado Português da Índia até que a 18/19 de Dezembro de 1961 a então União Indiana a invadiu com a intenção de o libertar do alegado colonialismo português. “Muito bem, Salviano, diz-me o que pretendes de mim pois estou completamente ao teu dispor!”


O enorme riso dele...


O enorme riso dele no centro de uma barba e bigode bem aparados foi resplandecente. Na face morena carregada os olhos brilharam-lhe tanto quanto os dentes branquíssimos. “Tinha absoluta certeza de que o primo Diogo aceitaria o encargo e por isso tenho já tudo preparado. Quando pode vir? Não quero incomoda-lo; gostaria que fosse tão breve quanto lhe fosse possível, mas não queria desviá-lo de qualquer assunto mais premente que já tenha programado e…”

Atalhei-lhe o discurso, nestas coisas o pragmatismo é o mais importante, como dizem os brasucas conversa mole para encher pneu não dá certo, “Por mim, pode ser já hoje, talvez amanhã a fim de deixar arrumadas algumas coisas, poucas, não tenho nada de especial para me ocupar é só fazer as malas comprar os bilhetes do avião e…” Só que desta feita foi o Salviano que me interrompeu pedindo-me muitas desculpas de o fazer pois estava tudo óquei, só precisava de reconfirmar a reserva dos bilhetes na Emirates – Lisboa /Londres /Londres /Mumbai / Mumbai / Dabolim na Air India para o dia seguinte. Ele estaria à minha espera no terminal goês.

Fui deitar-me e sonhei com coqueiros e praias com água quente a 28/29º.

(Continua)



NE - Este é o primeiro episódio de um conto (?) policial que decorre em Goa onde o autor (que como é sabido é terra de que é fanático...) se encontra. Trata-se de uma primeira tentativa neste género de literatura, mas duas circunstâncias me levam a isso: primeiro, tal como o protagonista sou um "doido" pelo policial e segundo porque há sempre uma primeira vez. Oxalá não me espalhe...

*A foto do cabeçalho representa uma prática goesa: à noite e à beira-mar convive-se, bebem-se uns copos à luz de pequenas velas ou candeias. Podem crer que é lindo...

2019-01-06


  

VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN – FIM





Prazo de validade
Antunes Ferreira

Lá em baixo no rio passava um navio de cruzeiros imponente nas suas muitas toneladas de arqueação a caminho do Atlântico enquanto o Armando e eu estávamos sentados junto ao Adamastor no Miradouro de Santa Catarina. Era um tarde encalorada nem sequer corria uma brisa por leve que fosse, um Agosto inclemente, pensava para comigo que seria muito bom ter um ar condicionado individual. E quem sabe, se no futuro?

Tinham ficado para trás funerais, cemitérios e quejandos em tamanha quantidade que não havia basta! que bastasse. Talvez a roda da desgraça que desandara para nós pois saíra do seu eixo natural invertesse agora o delírio que dela se apossara. Esperança… A esperança é sempre a última a morrer, dizem por aí, e já era tempo de ela começar a rodar normalmente de forma a seguirmos em frente sem grandes sobressaltos.
Os gráficos não mentiam

Haviam partido num trote infame a Maria Rita, o Gilbertinho, a Elena, a velha Miquelina, o Olegário, a nossa mãe Fátima e até o coronel Marques Fialho para não enumerar os avós diversos já falecidos anteriormente. A empresa conseguira ultrapassar o enorme obstáculo do misterioso ataque informático e singrava normalmente, aliás crescia sustentadamente como diziam os economistas incluindo eu. Os tios Miguel e Jaime, o David e eu próprio  continuávamos ao leme e as coisas corriam sobre esferas-chips. Todos os gráficos assim o indicavam e a confiança no mercado era a prova concludente de que seguíamos no caminho correcto. Ao menos valia-nos isso como consolo perante tantas contrariedades.

Um céu pintado de azul limpíssimo sem uma única nuvem branca com um sol esplendoroso colado ao centro parecendo revoltear-se e dardejando ultras violetas (lembrando-me o que alegadamente acontecera em Fátima após as ditas aparições…) tornara-se opressivo e obrigava a camisa a colar-se ao corpo. Foi então que disse ao Armando: “Tenho andado com a Mariela já há uns meses…”

O horrendo massacre do cemitério de Santa Cruz

O meu irmão como que acordou de um sono profundo:  “A Mariela? A dos computadores? A timorense?” E eu: “Ela mesma, sem tirar nem pôr, uma mulher porreira, profissional excelente, simpática, bem disposta e como quase todas as timorenses e católica praticante. Aliás, já me contou, tinha oito anos quando se deu o criminoso massacre no cemitério de Santa Cruz em Díli, no qual entre os quase quatrocentos mortos vítimas dos disparos das tropas indianas se contavam dos irmãos e um primo dela! Se tudo der para o certo e estamos a ver que vai dar mais dia menos dia pensamos no casório…”

Armando olhou-me um tanto entre o admirado e o espantado: “Mas é mesmo assim? Pois muito me contas. E antes que acrescentes mais alguma coisa quero dizer-te que da tua vida sabes tu, mas que no que me toca acho que deves seguir o que o teu coração manda e se é para o teu bem e, obviamente, também para ela, que sejam muito felizes e que tenham um futuro muito risonho. Ambos bem o merecem pois, depois do que me acabas de dizer também já teve o seu quinhão de sofrimento. Por isso meu querido irmão os meus parabéns e venha de lá um abração!”

O amplexo foi longo e apertado. Tínhamos ido a pé partindo do largo do Camões subindo a Rua de Santa Catarina cavaqueando de salto em salto e de tema em tema e agora tínhamo-nos fixado na questão do meu arranjo com a Mariela. Por isso naturalmente saltou à estacada a luta da Fretilin pela independência de Timor Lorosae, e pelos seus principais intervenientes e lutadores desde o Xanana Gusmão até ao Ramos Horta passando pelo Mari Alkatiri, pelo Carrascalão, pelo Matan Ruak, pelos Guterres e não esquecendo o bispo Ximenes Belo.

Então o Armando tinha lembrado um célebre episódio ocorrido na II Guerra Mundial aquando da invasão japonesa de Timor então dividida em duas colónias uma parte portuguesa e outra holandesa. A ilha era defendida por forças aliadas, inglesas, australianas e dos Países Baixos, apoiadas por voluntários portugueses (timorenses) ainda que, frisara o meu irmão, o nosso país fora neutral e rindo-se “por mérito do Salazar que o tinha rogado à Virgem de Fátima…”

O régulo Dom Aleixo

“Sabias, Frederico Foi aí que ficou nas páginas da nossa História um herói chamado Aleixo Corte-Real que era um régulo e comandava os timorenses, mais conhecido por Dom Aleixo, o qual não se rendeu contrariamente ao qua aconteceu aos militares aliados e foi fuzilado envolvendo-se na bandeira de Portugal!” Disse-lhe que não sabia, mas que tinha a noção perfeita de que um dia em que um homem não aprendia alguma coisa não era dia muito menos era homem.

Já o sol se punha bronzeando o astro quando regressámos a casa. Junto do portão do prédio parámos e o meu irmão voltou-se para mim: “Meu querido Frederico quando olho para ti recordo-me como se fosse hoje do dia em que chegaste com a nossa mãe Fátima e o pai Gilberto nos avisou que tu eras diferente mas também eras igual a nós. Na altura dou-te a minha palavra de honra que não percebi a charada. Fui percebendo-a aos poucos, enquanto os anos iam passando. E agora tenho a certeza de ter chegado à conclusão: tu não és igual – és melhor.”

Fiquei calado e o mano respeitou o meu silêncio. Um pensamento, um só, tomou conta do meu cérebro e levei-o até ao elevador. Nós os “mongolóides”, como muitos desgraçadamente nos chamam, temos um prazo de validade curto. Estava absolutamente certo de que já tinha ultrapassado o meu. E depois?
(Fim)

2018-12-23


Natal

e torrão
de Alicante

Antunes Ferreira
Nesta época festiva peço-vos autorização para vos contar um segredo pessoal. Conto com a vossa aceitação. No entanto se me derem uma nega – conto na mesma!

Natal para mim está sempre, mas sempre, associado a torrão de Alicante. Presumo que quando isto lerem estejam de imediato a chamar-me vendido a nuestros vecinos e consequentemente miserável traidor. Livrem-se e livrem-me disso. Não mereço tal epíteto, bem pelo contrário. E se querem que vos diga já fui europeísta convicto – mas hoje,  de todo, não apoio a (des)União Europeia. Ponto final, parágrafo.

A Nau Catrineta por Fausto


Explico. Tal como a Nau Catrineta esta é uma estória de pasmar e para a contar tão correctamente quanto me é possível recorro a alguns resquícios de memória infantil   quiçá alojada no hipocampo  mas principalmente a episódios que me foram contados por diversas pessoas relacionadas com o evento que vos conto. Fontes seguras? Quiçá? Mas desde já advirto que não poria as mãos no fogo, porque há sempre que estar prevenido contra qualquer greve bombeiral ou seja dos soldados da paz, expressão calina muito em uso.

Não conheci os meus avós paternos já falecidos quando nasci, ao contrário dos maternos; eram eles originários da plebe, ou seja de modestas origens quer a minha avó Maria da Ascensão, quer o meu avô Braz Faria Antunes. Ela camponesa, ele pastor, depois soldado e a seguir guarda-fiscal. Mas o que é facto é que foi subindo na carreira e chegou a tenente.

Era o Senhor Tenente da Guarda Fiscal sediada em Portalegre, quando eu o conheci, tinha uns bigodes brancos encerados e retorcidos, cabeleira branca, olhos azuis, ia ao pálio nas procissões, era a quarta figura em importância na hierarquia da cidade e da Província, um homem honrado, honesto, vertical, figura distinta, toda a cidade o conhecia e respeitava.

A minha avó Maria desempenhava as importantíssimas funções de dona de casa, criara quatro filhos e duas filhas e fazia uma aletria doce de cinco estrelas além de outras iguarias, de acordo com as tais fontes fidedignas era tão boa cozinheira como doceira, enfim um mimo. Natural da Aldeia da Ponte, beiroa, raiana, enquanto o meu avô nascera em Montalvão no Alto Alentejo.

Pirolitos com os seus berlindes


No Natal enquanto os dois eram vivos, a família Antunes e os respectivos adjacentes iam até Portalegre onde na Rua de Infantaria 22, número 4 viviam os patriarcas, em frente da casa havia uma fábrica de pirolitos e sempre que uma garrafa rebentava ao receber o gás a malta ia a correr apanhar o berlinde. Entrava-se pelo primeiro andar ao nível da rua onde ficavam os quartos e descia-se por uma escada em madeira para a cozinha enorme a sala de jantar. Atrás havia um quintalão com três figueiras, um diospireiro, uma pereira, duas macieiras, uma romãzeira e horta bem como um galinheiro e a segunda retrete lá no fundo. A primeira ficava no primeiro andar.

No dia 24 de 1947, tinha eu seis anos, pela manhã, o avô Braz levou-me pela mão até ao Jardim da Corredoura onde alguns feirantes montavam uns balcões para vender produtos natalícios. Era uma espécie de pequena feira. E lá estava um homem de chapéu de palha com uma botija de gás enchendo balões que vendia aos gaiatos. O meu avô comprou-me um e recomendou: “Riquinho mete o teu dedinho nesta argolinha que fiz no cordel do balão senão ele foge!”

Parece que já nessa altura não ligava peva ao que diziam era um puto danado, não meti o “dedinho na argolinha do cordel” e foi um ar que lhe deu – ao balão que foi pelos ares qual Cape Canaveral de fancaria por antecipação. O avô Braz contou depois que eu berrava que nem vitelo desmamado e o malandro do homem de chapéu de palha e etc. já tinha seguido viagem pelo que balões nicles.

Memorial de José Duro

Em desespero de causa e para ver se me calava o Senhor Tenente da Guarda Fiscal levou-me a um banco junto ao memorial do poeta ultrarromântico José Duro, portalegrense de cepa, onde duas espanholas de Badajoz vendiam túrron de Alicante que traziam em enormes rodas como se fossem mós de moinho donde cortavam fatias. E foi a roer o bendito torrão que voltei a casa todo pimpão sem uma única lágrima ao canto dos olhos. E digam lá se tenho ou não razão quando afirmo alto e bom som que sempre associo Natal com torrão de Alicante. Et voilà.

  

2018-12-21



Chove. É Dia de Natal

Família Real britânica 1852
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.



E toda a gente é contente 
Porque é dia de o ficar. 
Chove no Natal presente. 
Antes isso que nevar. 

Pois apesar de ser esse 
O Natal da convenção, 
Quando o corpo me arrefece 
Tenho o frio e Natal não. 

Alta burguesia Lisboa 1879


Deixo sentir a quem quadra 
E o Natal a quem o fez, 
Pois se escrevo ainda outra quadra 
Fico gelado dos pés. 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' 



2018-12-16


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 24

 Maldito

o toro
verdadeiro
assassino!






Antunes Ferreira
Era uma sexta-feira, 13 negra como um tição e eu tentava encontrar antes do mais explicação para o azar que costuma ser associado à data. E estava a pensar qual teria sido a sua origem. Alguns diziam que esta ligada ao cristianismo pois a última ceia de Jesus com os seus 12 discípulos resultava em 13 à mesa e era uma sexta-feira. Outros ligavam-na a uma história de origem nórdica, onde o deus Odin teria realizado um banquete e convidara outras doze divindades. Loki, deus da discórdia e do fogo, que não teria sido convidado para reunião, ao ficar ao saber do banquete, armou uma confusão que terminou com a morte de um dos convidados. Diz a superstição que um encontro com 13 pessoas sempre termina em tragédia. E caindo a sexta-feira, nem pensar quanto mais falar.
 O facto é que a anterior semana tivera todos os ingredientes para se devastadora e só de a recordar ficava muito transtornado e com pele de galinha enquanto suores frios me percorriam e na testa perlavam-me gotas de ansiedade. Costumar dizer-se que depois da tempestade vem a bonança, mas esta não a descortinava e se viesse não seria tão depressa quanto pretendia. Mas afinal o que acontecera? Algo terrível por certo para me causar tão grande comoção. No entanto pressagiava que esta que ia começar não seria melhor e resmoneava o porquê desse pessimismo. Tal como na antiguidade o grego Pytheas que descobrira o Sol da meia-noite fora considerado um mentiroso também eu receava que o que antevia fosse uma hedionda falsidade – mas que afinal se viria a revelar uma verdade cruenta! 
 Cada dia que passava era menos um na contagem decrescente para o Natal e embora os ânimos familiares não estivessem muito inclinados para festas, o 24/25 de Dezembro era sempre especial, tínhamos o hábito de há muito arreigado de juntar à mesa os familiares mais próximos numa convivência que era mais uma comunhão que metia Missa do Galo. À consoada era imprescindível o bacalhau com batatas, couves e ovos cozidos e os fritos da época, coscorões, rabanadas, filhoses, frutos secos e coisas dessas. Para o almoço do dia 25 não podia faltar o peru recheado com uma receita sagrada e “secreta” da Avó Maria do Rosário que ela deixara por testamento à nossa mãe. Naturalmente fazia-se o Presépio e a Árvore de Natal. E, óbvio, havia as prendas.
 
Árvores de Natal
"verdadeiras"
Uma prática repetida ano após ano era usar uma árvore verdadeira, um abeto nórdico nada de plástico como os que se vendiam nas grandes superfícies, nas lojas dos chineses, por toda a parte. Falcatruas embelezadas. Havia quem utilizasse pinheiros mansos mas não era a mesma coisa. Na Quinta dos Anjos, que o tio Miguel possuía ali junto a Seia há muitos, muitos, muitíssimos anos, talvez mais de um século, tinham sido plantados abetos que se davam bem com o clima. E logo que chegava o Natal, o meu pai ia lá com uma camioneta da tropa cortar um e trazia-o para a nossa casa onde era enfeitado com todos os requintes. Normalmente levava dois soldados para o ajudar.
 O mano Armando tomara o encargo, mas agora já não dispunha dos militares e portanto deslocou-se no seu automóvel lá no domingo 15 acompanhado da Maria Rita e do Gilbertinho que parecia ter entrado nos eixos. Os tios Miguel e Jaime seguiam atrás deles numa carrinha de caia aberta para trazer a árvore. Eu tinha ficado em Lisboa pois contava ir visitar a Elena que piorava dia após dia, o que viria a acontecer, aliás sem grande resultado pois a minha mulher continuava amorfa, sem qualquer tipo de reacção tive a certeza de que não me conheceu pois não me ligou nenhuma. Se amarfanhado fora, devastado vinha.
 Já em casa e porque fazia bastante frio – o Instituto Português do Mar e da Atmosfera previa temperaturas muito baixas, queda de neve nas terras altas e possivelmente na zona litoral centro… – acendi a lareira enquanto pensava para com os meus botões que seria muito giro que nevasse em Lisboa. Foi precisamente nessa altura que tocou o meu smartfone e mal atendi logo percebi que acontecera coisa gravíssima. Era o tio Jaime:
É terrível, é horrível!
Frederico, se estás em pé senta-te já! Aconteceu uma grande desgraça, a tua cunhada Maria Rita e o teu sobrinho Gilberto acabam de falecer! É terrível, é horrível! Tens de aguentar e para já não digas nada à tua mãe, ou antes vai preparando-a diz-lhe que aconteceu um enorme desastre na estrada e por enquanto foi o que pudeste saber através de um telefonema que acabaste de receber. Daqui a pouco sigo para casa e então vou tentar explicar a tragédia! E por enquanto por favor não me perguntes mais nada!”

A mãe Fátima quando me aproximei dela disse-me logo que eu vinha com cara de caso e pediu-me para não lhe esconder nada porque alguma coisa tinha acontecido e pelo que lia nas minhas faces era ocorrência gravíssima. (Como é que as mães pressentem que algo mal se passa com os filhos? Sexto sentido maternal?)  Perante isto não tinha outra alternativa senão proceder como o tio Miguel me recomendara, mas ela não foi nisso. “Frederico, as consequências desse desastre devem ter sido calamitosas. De tanto sofrer ao longo da minha vida fui-me habituando às piores notícias. Houve mortes e feridos?”

Não podia refugiar-me no talvez ou no nim, por isso tive de optar pela verdade respondendo-lhe pela afirmativa mas era preciso esperar tão pacientemente quanto fosse possível pelos esclarecimentos que depois o tio Miguel, tal como me prometera nos iria dar. Entrementes telefonei ao David e ao Olegário tendo-os posto ao corrente do que já sabia. Duas horas depois chegou o tio Jaime, pois o tio Miguel ficara no local do acidente para prestar declarações às autoridades e acompanhar as diligências que estavam a decorrer. Tinham comparecido os Bombeiros Voluntários de Seia com um desencarcerador, o INEM, uma VMER, a Guarda Republicana e depois um magistrado do Ministério Público.

Mas que se passara e como se encontravam os ocupantes da viatura sinistrada? – era a pergunta que todos nós fazíamos ao mesmo tempo embaralhando o pobre tio Jaime que já de si vinha engasgado, pelo que pediu “Por favor fale um de cada vez, senão não consigo dizer nada!...”  Amansados um tanto, acalmados não, como seria possível? Ele passou a relatar tão pausadamente quanto lhe foi possível: “Íamos a subir para Seia, o Armando à frente e nós atrás e tudo ia nos conformes. Adiante do Armando ia um camião carregadíssimo de toros de madeira quiçá de pinho ou de eucalipto, mas muito grossos. De repente vimos espantados o camião dar uma guinada talvez para escapar de outra viatura, a mim pareceu-me uma VAN, não garanto, já caíra a noite e chovia muito.”


Espalhando-se pela estrada!...

Expectantes quase nem respirávamos, o que mais me impressionava era a aparente serenidade e conformação da mãe e ele prosseguia: “Os toros talvez mal presos, sabe-se lá, soltaram-se e disparam-se quais projécteis para trás enquanto outros se espalhavam pela estrada num trovão medonho! Um deles entrou pelo para-brisas do carro do Armando levou tudo à frente e ficou atravessando o automóvel saindo pelo vidro traseiro. Maldito toro verdadeiro assassino! A Maria Rita que naturalmente ia no lugar do pendura e o Gilbertinho que ia no banco traseiro, mesmo atrás dela nem souberam que tinham morrido. Foi melhor assim, Deus me perdoe, ao menos não sofreram para morrer…”

Não me consegui conter: “E o Armando?” O tio Jaime pôs as mãos em jeito de oração: “Graças a Deus ainda existem milagres e este foi um deles. Do tremendo impacto, mas graças ao airbag pelo que o médico da VMER disse após a primeira observação no local tinha umas costelas partidas bem como os dois braços e uma perna, além de muitas equimoses mas tudo recuperável. Revelou ainda que o tratamento iria levar o seu tempo, deveria precisar de uma ou duas operações, mas o diagnóstico definitivo só o poderiam fazer no Hospital de Santa Maria para onde seria transportado pelo INEM e que ele o acompanharia na ambulância.”

Dei por mim a matutar enraivecido e dorido: Mas que raio de Deus é este, dando de barato que exista, se nem a festa do nascimento do Seu Filho permite que seja comemorada sem problemas?
(Continua)

 






2018-12-07

VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 20


Antunes Ferreira
O reverso da moeda é quase sempre o negativo e por isso o mais difícil de mostrar; mas o prometido é sempre devido e eu Frederico Saraiva Mendes tinha-me perguntado se deveria começar pelo que de bom acontecera ou pelo contrário pelo mau. Tinha escolhido a primeira premissa  cabia-me então o odioso. Mas, já lá iríamos. Tínhamos de ir por partes porque a encomenda é tamanha que não me permitia avanços desmesurados porque há sempre pedras que parecem nascer nos caminhos que se seguem e é sempre mais fácil e empolgante subir do que cair, sobretudo de escantilhão.

A empresa seguia à bolina manobrada de forma segura comigo ao leme  e o David como piloto, o tio Jaime  encarregado das relações públicas e o Olegário dos contactos com os clientes e os novos para quem passaríamos a trabalhar. Os resultados eram por isso muito satisfatórios e fechadas as contas do primeiro exercício o saldo foi interessante e não teria sido mesmo positivo se não tivesse sido o montante que tínhamos investido no início da actividade. Mesmo assim ficámos satisfeitos e fizemos uma pequena comemoração.

Mas debaixo dos pés se levantam os trabalhos e nesse caso aconteceu o impensável. Não há bela sem senão. O Olegário começou a emagrecer, a definhar e na dava muito cansado. Dizia que era uma gripe muito forte, mas não tinha febre. Ficámos todos preocupados, principalmente e como natural o David. O meu primo iniciou a via sacra de médico para médico de exame em exame e a dada altura surgiram suspeitas de algo grave estava a acontecer. E estava. Estava com SIDA, a terrível síndrome da imunodeficiência adquirida que como se sabe é uma doença do sistema imunológico humano causada pelo virus de imunodeficiência humana (VIH), normalmente transmitida por via sexual mas também por outras acções.

Sangue infectado na Malásia
Ora a fidelidade entre os dois amantes não podia ser posta em causa. Veio entretanto a descobrir-se que fora uma transfusão de sangue a que ele se sujeitara na Malásia onde tivera de baixar a um hospital por ter sofrido um ataque de malária. O hospital negou que tivesse sangue contaminado, mas passados tantos meses e a tamanha  distância como seria possível provar que assim tinha sido? Felizmente que no nosso país que foi considerado pela Organização Mundial de Saúde um caso exemplar neste domínio o meu primo começou logo a ser tratado e ainda continuava a sê-lo.

E que dizer da adopção que a Maria Rita e o Armando  finalmente concretizaram? O sonho que almejaram durante anos tornara-se realidade palpável, o bebé passou a fazer parte da vida deles – e que parte!  – submergindo tudo o que os rodeava, qual eucalipto engolindo a vegetação inerme sugando-lhe a água e assassinando-lhe as raízes. O miúdo fora baptizado com o nome do avô Gilberto e desde que chegara a casa infernizava-lhes as noites. Eu bem os avisava para não o passearem ao colo pelo quarto, mas respondiam sempre que o coitadinho se não tivesse miminhos então quando os haveria de ter? Quando for para a tropa?

Jarra da Vista Alegre

Depois de rolar no berço o puto sentou-se e começou logo a deitar para o chão os brinquedos que pejavam o chão da cama com grade para onde fora transferido. Mas o maior gosto dele era partir tudo, berloque ou urso de peluche que lhe  chegasse às mãozitas rezassem-lhe pela alma  pois eram tiro e queda.  Puseram-no no chão e aí é que foram elas. Primeiro a rastejar, depois a gatinhar objecto onde deitasse a mão era certo e sabido trás e menos uma jarra de loiça de Vista Alegre, um candeeiro indiano em forma de Buda que o tio Jaime trouxera de Damão, uma caixa chinesa com uma bailarina que dançava ao som duma música aliás chata – canecos, vassoura, pá do lixo. E o pior é que o gaiato gostava de fazer mal.

E os papás/avós babosos deixem brincar o menino. Partiu o quê? Há de vir mais. Só a graça que ele encontra nessa brincadeira nos enche de alegria… E eu pensava para mim, não fora o diabo tecê-las umas palmadas no rabo seriam um bom remédio e um aviso: assim o gajo já não mexia onde não podia mexer e não partia o que não podia partir. Mas isso era eu que não era pai e nunca o poderia ser. Se o fosse os filhos fiariam mais fino. O Bertinho (detesto diminutivos, para mim era sempre o Gilberto) tinha mau feitio mesmo quando catraio de fraldas. Mal sabia que este presságio estava correcto!

Sem legenda


Foi um dilúvio de lágrimas sem arca nem Noé quando o seu menino foi para creche e depois para o Jardim de Infância. A Maria Rita e a avó Maria de Fátima encarregaram-se de abastecer as glândulas lacrimais e destapa-las em quantidades inauditas… E logo começaram os problemas, Nos primeiros dias o meu irmão ia busca-lo e a coisa corria bem. Mas passada uma semana a directora pediu-lhe para no dia seguinte vir preparado para falar com ela. Assim aconteceu e fui uma conversa complicada. O Gilberto, nos seus quase quatro anos era uma criança problemática, começou a Dr.ª Josefina Martins.

Armando estava muito abananado quando me contava o funesto encontro com ela pois que tinha passado por momentos muito difíceis ao ouvir o que a Senhora tinha para lhe dizer e até que ficara envergonhado face às afirmações que ouvia. Explicou-me. A directora começara por lhe pedir desculpa pelo incómodo que lhe causara com o pedido de ali se deslocar mas não havia outra maneira de colocar o problema porque era daqueles que não se podiam tratar pelo telefone.

“Compreendes Frederico que logo ali eu arrebitei as orelhas e fiquei de pé atrás; mas que raio de começo de conversa… O que se seguiria? Tás a ver a minha inquietação?” Óbvio que estava, por isso nem precisei de lhe dizer para continuar porque o meu irmão não se detivera.  “Sr. Coronel, o vosso filho é um miúdo muito inteligente, muito esperto, mas infelizmente também é de muito mau feitio. E por favor, não me interrompa. Eu sou muito frontal, sou pão, pão, queijo, queijo, e tenho de lhe dizer isto, o Gilberto é vingativo, é agressivo, é implicativo, é autoritário!”

Levara doze pontos!


Eu, Frederico Saraiva Mendes, só pude perguntar-lhe se ela dera exemplos do que apontara, ao que o Armando fez que sim com a cabeça e indicou que o filho/neto por dá cá aquela palha ou mesmo sem qualquer motivo batia nos outros putos, mordia-os, arranhava-os, rasgava-lhes os cadernos e os desenhos, borrava-os, riscava-os com tamanha ferocidade que chegava a rasgar o papel! E não contente com isso fora ao armário onde se guardavam os materiais de limpeza e com um pau de vassoura agredira uma menina na cabeça de tal forma que ela tivera de ser levada ao hospital onde levara doze pontos!

Daí que ela directora não via outra saída se não os pais retirarem o Gilberto do Jardim Escola “voluntariamente”; a não ser assim passariam pela vergonha da criança ser expulsa pelos motivos que ela acabava de lhe apresentar. O que seria uma escandaleira! “Não tive outro remédio, Frederico. Agora, o maior problema é, antes de tudo, contar à Maria Rita, à mãe e à família mais chegada o que se está a passar. Depois procurar uma nova instituição para o colocar. Estou fodido!” Quis perguntar-lhe – o que para mim parecia o mais importante – como iria proceder como o Gilberto. Mas, para quê? Já sabia que tudo ficaria em águas de bacalhau!
(Continua)