PASSO A PASSO

2018-07-11


CONCURSO


Frases 
escolhidas

Ultimamente nos escassos dias que consigo ter mais ou menos livres tenho-me dedicado a colecionar ditos e frases mais ou menos sociais mais ou menos políticas proferidas por pessoas que se julgam importantes – ou que os outros julgam ser importantes… assim – verdadeiras tiradas que uns e outros pensam que vão ficar para a História e que as mais das vezes apenas se quedam pelas estórias. O âmbito temporal desse empreendimento insano situa-se nos séculos XX e XXI.

De qualquer maneira é uma tarefa interessante porque antes do mais fui eu que a escolhi e a impus a mim próprio, mas também porque nunca poderia imaginar a abundância de searas de tal quilate das quais tive de mondar aqui e ali mas sem ser de forma aleatória o que venho recolhendo. Tenho de confessar que tem sido obra. Gaba-te cesto… Mas se ninguém disser em de mim, alguém o terá de fazer.

Dentre muitíssimas escolhi a que se segue e que aqui coloco à consideração de quem me segue e por vezes comenta num concurso que não tendo a dimensão dos que o COISAS DA FONTE ou o JARDINS DE AFRODITE também tem a sua personalidade e como é hábito nesta Travessa dá prémios-surpresa para os primeiros cinco concorrentes que acertarem. Para concorrer é muito simples, basta enviar uma resposta para o meu imeile ferreira20091941@gmail.com a partir de agora e até quinta-feira, 19 deste mês de Julho. Cada concorrente poderá enviar três respostas. E é tudo. Boa sorte.
UMA ADENDA - Além dos imeiles gostarei que os concorrentes mencionassem aqui Já enviei a resposta. Obrigado.

Mas, desde já quero informar que a frase é de um político que também escrevia para os jornais e situa-se na primeira metade do século XX. O tom dela não é muito usado pelo seu autor. E pronto, aqui ficam umas dicas.

Por este motivo a saga É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE só continua na próxima semana. O que não impede de poderem ser enviados comentários ao último texto publicado.
Qjs & abçs
Henrique, o Leãozão

FRASE

«Estou com uma constipação formidável. Sinto um enorme peso na cabeça – por dentro, está visto; choram-me os olhos e não vejo claro. É-me impossível estudar ou compreender o que leio; bronco pesado, estou incapaz de aprofundar um problema, de apanhar a força de uma razão, de perceber a “nuance” duma ideia, de manter a sintaxe dentro de regras limites; em suma estou em óptimas condições para escrever nos jornais…»

2018-07-05



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE - 7




Um chefe de esquadra à rasca


Antunes Ferreira
No dia seguinte a primeira coisa que o tio Miguel que logo pela manhã cedo chegara a nossa casa foi saber junto da vizinhança se alguém vira alguma coisa e podia testemunhar o que se passara. A dona Leocádia, uma senhora viúva que morava no apartamento em frente do nosso assistira a tudo através do ralo da porta tendo ficado admiradíssima com o que se passava e estava pronta para o declarar. Até se benzera ao ver o senhor Capitão metido naquelas andanças. Assim disseram outros inquilinos o principal dos quais fora o senhor Belchior reformado da Carris que vivia no rés-do-chão direito e usava uma cadeira de rodas, passava o dia debruçado no parapeito da janela e até estivera no paleio com os magalas que conduziam as “Matadores” da Segunda Guerra.
 
Esquadra de St. Marta
Logo em seguida a minha mãe, o tio Miguel e eu fomos à esquadra de Santa Marta onde o chefe enquanto estivera no Exército tinha sido subordinado do meu pai e ali apresentámos queixa. Quando a mãe se identificou o guarda de serviço foi dizer ao chefe quem era a participante e de imediato ele veio ao balcão e convidou-nos a entrar para o seu pequeno gabinete, tendo mandado buscar cadeiras para nós e fiquei a pensar que devia ser todas as que havia na instalação.

Com ar afável o chefe Roberto virou-se para a minha mãe e disse respeitosamente Vossa Excelência Senhora Doutora Maria de Fátima que deseja deste seu humilde servidor? E a mãe muito séria Senhor chefe venho participar que a minha casa foi assaltada ontem pela tarde tendo sido dela retirados vários bens cujo valor ainda não pude calcular mas que oportunamente farei aqui chegar, Roberto uniu as mãos como se rezasse e perguntou se tinha suspeitos. Pelo contrário, tenho culpados e posso apresentar testemunhas presenciais dos factos.

O polícia ficou à rasca, ia caindo da cadeira, Senhora Doutora está a fazer uma declaração muito séria e por isso, pedindo-lhe antecipadamente desculpa da pergunta, tem a certeza disso? Bem vê, a senhora é a esposa de um oficial bem conhecido cujas virtudes e aprumo são do domínio público e que vai partir para Angola em defesa do solo sagrado a Pátria. Houve um silêncio de cortar à faca, cortado apenas por umas moscas que zumbiam o que levou um guarda a entrar no gabinete, filha da pu… de varejeira! Ó Simões dobre-me essa língua, está aqui a esposa do senhor capitão Saraiva Mendes…

Camião "Matador"

E virando-se para a minha mãe, o chefe Roberto dizia a Senhora que… E ela sem papos na língua pois senhor chefe o assaltante foi o meu marido acompanhado de um sargento e de mais militares usando dois camiões do Exército de acordo com testemunhas de marca “Matador”. O polícia levantou-se num pulo, abriu os braços explodiram-lhe os olhos, tingiu-se-lhe a face da cor de tomate maduro, tirou um lenço do bolso das calças, limpou a testa perlada de suores e voltou a sentar-se. O senhor Capitão Saraiva Mendes? Pode lá ser? Podia. E com frases curtas e sintéticas a mãe corroborada pelo tio Miguel resumiu a ocorrência perante o siderado agente da autoridade.

E a terminar veio a última declaração da minha mãe. Eu não quero mover uma acção contra o meu marido do qual adianto estou a tratar da separação já que pela Igreja não posso divorciar-me. Pretendo apenas que seja registada a queixa, ouvidas as testemunhas, ouvido o arguido ou seja o capitão Gilberto Saraiva Mendes e quem ele indicar e depois destas diligências concluídas dar-me-ei por satisfeita requerendo cópia do processo e propondo o seu arquivamento, proposta que deverá ser dada conhecimento à parte contrária. Roberto apenas disse que não estava dentro da sua competência assim proceder mas que ia dar conhecimento dela aos seus superiores e depois informaria em conformidade. O tio Miguel esclareceu que o assunto passaria a correr por intermédio do advogado da Senhora e que esta oportunamente o comunicaria.

Dali rumámos á Baixa, mais precisamente à rua dos Sapateiros para irmos à Loja Sol dos irmãos Mesquita onde a família comprava todos os electrodomésticos lá para a casa a fim de repor os que o meu pai tinha levado. Ora nós tínhamos sido dos primeiros a possuir televisor logo que a RTP começara a transmissões experimentais da Feira Popular em 1957 e por isso o meu pai fora logo comprar um televisor Grundig que custou a enormidade de quatro contos e quinhentos escudos. O salário de um capitão mal passava dos quatro contos…
 
Móvel Philco com televisão, rádio e gira-discos
Porém o senhor Raul Mesquita esfregou as mãos de contente quando a mãe lhe fez a encomenda para ser entregue “hoje mesmo da parte da tarde, há sempre gente em casa”. Um frigorífico Bosch, aquecedores diversos, Um fogão-forno De Luxe da Fábrica Portugal, um esquentador Vulcano, tudo coisa fina, do melhor que havia e para rematar a compra um móvel Philco com televisor, rádio e gira-discos. Um cheque (com cobertura e um sorriso malandreco), ó minha Senhora, saiba Vosselência que eu nunca duvidaria da qualidade de um cheque passado por si.

Passámos pelo colégio para trazer de volta a casa a Leonor e o Frederico. Este vinha todo impante: trazia uma folha de papel branco com uns gatafunhos feitos com lápis de cores. Era a sua primeira “obra artística”. Arrisquei um tanto receoso Maninho o que é? O catraio pianou, os dentes reluziram é pussôa. Dei uma gargalhada e insisti é a Nela? A Maria Manuel era a educadora por quem ele tinha uma adoração que de resto era correspondida pois ela adorava-o. É muto munita. Eu gosto muto. Então estendi-lhe a mão, ele estendeu-lhe a mãozita dele e eu fingi que não a segurava bem, deixei-a cair o que motivou uma barrigada de riso do Frederico e minha, era uma brincadeira muito frequente que dava sempre esse resultado. Finalmente um bacalhau bem “abanado” e mais gargalhadas e mais guinchos a roçar a histeria. Pronto. Vamos comer e depois deitar.

Entretanto tinham chegado os da Loja Sol e começaram a entrar as compras e a instalar o esquentador. Também tinham aparecido o Olegário e o David com o intuito de ajudar a arrumar a casa depois de terem entrado os novos componentes. E foi justamente este que trouxe a novidade. O meu pai ia embarcar para Angola daí a duas semanas no Vera Cruz um grande paquete, o maior de Portugal.
(Continua)



2018-06-28



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE 6
Um vândalo
mentiroso

e traiçoeiro


 


Antunes Ferreira
Completados os doze anos e com tantas “novidades” pela frente já andava a meter os pés pelas mãos ou quiçá as mãos pelos pés… pois deixara passar coisas e acontecimentos muito importantes ocorridos neste ano de 1961. A seu tempo me ocuparei dos eventos políticos, mas primeiro que tudo queria abordar mais um facto tristíssimo protagonizado pelo meu pai.

Numa sexta-feira pela tarde a mãe recebeu um telefonema dos sogros a convidar-nos bem com à tia Elsa, tio Jaime e Jaiminho e naturalmente o tio Miguel para irmos passar com eles o domingo na quinta que tinham em Colares, com o almoço e o lanche incluídos, seria um dia para descomprimir da agitação diária de Lisboa da lufa-lufa entre as casas, os empregos e as escolas e as voltas. Mais a mais com o trânsito a ficar cada vez mais complicado, valiam os sinaleiros nas suas peanhas às listas vermelhas e brancas mas alguns já quase não chegavam para as encomendas.
 
Uma Chevrolet já velhota... mas dentro do prazo de validade

E lá fomos, o tio Jaime tinha uma station Chevrolet, já de certa idade, 1953 mas dentro do prazo de validade…, cabíamos todos, a viagem foi um encanto, atenção meninos não abram as janelas, entra o pó e pode algum cair e não briguem nem façam essa barulheira a mãe e tia iam tentando conversar nos bancos de trás com o Jaiminho que adormecera  estendido no banco perfeitamente ausente dos solavancos causados pela estrada, o tio Jaime que conduzia falava de política com o tio Miguel e eu ia atrás no “galinheiro” com a Leonor, uma amiga dela que fora “cooptada”, a Mena e o Frederico. Foi uma galhofa em que ele também participou embora estivesse muito admirado vendo a paisagem a correr, pressa, pressa, pressa. 
 
O peru não caiu bem ao mano
Passou-se um domingo estupendo, na cavaqueira e nos comes e bebes e fizeram-se umas belas sestas. Nós os mais pequenos fartámo-nos de brincar e o Frederico integrou-se com facilidade o jardim-escola vinha dando-lhe uma mobilidade bastante boa e aumentara-lhe a sociabilidade. De resto tudo nele eram novidades, os frutos nas árvores, os animais da capoeira – e havia muitos, os perus tinham-no assustado, olhava-os de soslaio… - mas os pintainhos eram os que mais lhe despertavam o interesse.


Os homens tinham-se reunido numa mesa que ali havia por baixo duma nespereira e continuavam a discutir abertamente coisas que eu não entendia, mas que me parecia ser da política. Do que ia ouvindo uma coisa apanhava, eram contra o Salazar e o Estado Novo. Falavam também de Angola e coisa estranha o nome do meu pai vinha-lhe associado. Porém e dado que não conseguia acompanhá-los nas suas discussões, dedicava-me principalmente a seguir o Frederico que estava felicíssimo. As senhoras tinham iniciado um torneio de canasta acompanhado de outro de corta-na-casaca…

Pelas seis horas, depois do lanche regressámos a casa passando primeiro pela da Mena com muitos agradecimentos, beijinhos e apertos de mão e por proposta da minha mãe foi decidido que jantaríamos em nossa casa. Mas não sabíamos para o que estávamos guardados. Fui eu quem meteu a chave à porta e quando a abri em vez de entrar dei um passo atrás tal o espectáculo que se me deparou ou melhor nos deparou. Era uma balbúrdia com papéis espalhados pelo chão, cadeiras viradas, móveis desaparecidos. Tínhamos sido assaltados. E de que maneira!

Surgiu da cozinha a Miquelina, a nossa cozinheira, que já viera da casa dos meus avós maternos uns prantos de fazer doer a alma, fomos sim e o comandante dos assaltantes foi o senho capitão!.. Estávamos todos siderados. Podia lá ser? Podia. E depois de nos sentarmos mais ou menos nas cadeiras desconjuntadas e nos sofás manchados ela contou que o relógio de pêndulo que havia na sala de estar (e que á lá não estava) tinha acabado de bater o meio-dia e alguém metera a chave à porta. Como eu estava sozinha, a Senhora tinha dado o domingo à Odete, apanhei um cagaço e pé-ante-pé vim ver quem era que assim procedia. E era o Senhor Capitão com um sargento e cinco soldados todos fardados.

Ele disse-me para estar sossegada que não era nada comigo, apenas vinha buscar as coisas dele, todas, pois ia partir mobilizado para Angola a defender a Pátria e não queria que elas fossem parar – as senhoras e os senhores desculpem, mas foi assim que ele disse com voz de trovão – a paneleiros ou a despadrados ou a putéfias e rosnou mais umas coisas que eu não entendi. E então começaram a quais furões a meter-se por toda a casa e foram levando para dois camiões militares muito grandes tudo o que o senhor Capitão considerava que lhe pertencia desde roupa até ao cofre e ao relógio de pêndulo, do piano ao frigorífico, ao televisor e até a antena que foram tirar ao telhado.
 
O que mais me meteu maior dó...
Por último e o que me meteu maior dó foi ter levado as duas caixas dos soldadinhos de chumbo que tinha comprado para o menino Frederico enquanto comentava que o rapaz não vai brincar com eles porque nem sequer vai compreender o que são e para que servem; vão ser usados por que, o saiba fazer. E lá foram de alada deixando a casa neste lindo estado. Por mais anos que Deus me dê de vida nunca me esquecerei deste desmando. A mãe e a tia Isabel bem tentaram consolar a pobre Miquelina que se foi acalmando deixando que os soluços se fossem espaçando.

Assassinados pela UPA


Foi o tio Miguel quem decidiu telefonar aos pais para lhes perguntar se a ideia do domingo fora sugestão do irmão. Fora. Com o pretexto de que a minha mãe continuava muito abalada e mais ficara quando ouvira o que se passar no norte de Angola, um morticínio selvagem levado a cabo contra brancos pretos do sul e mulatos por hordas de assassinos impiedosos da UPA chefiada desde o antigo Congo Belga por um homem sinistro chamado Holden Roberto. E mais anda quando vira na televisão o senhor Presidente do Conselho, Professor Doutor António de Oliveira Salazar afirmar Para Angola rapidamente e em força!

O que ele queria era ver-nos fora de casa para perpetrar os seus negros desígnios – disse amargamente o tio Miguel. Um vândalo mentiroso! E ainda por cima traiçoeiro! Nunca mais volto a falar com tal pulha, a partir de hoje deixa de ser meu irmão!  


(Continua)


2018-06-21




Antunes Ferreira
Passaram dois anos cheios de normalidade com uns quantos intervalos pouco naturais pois a vida não é toda cinzenta muito menos a branco e preto isso eram as fotografias pois as coloridas que já saíram à praça vieram dar-lhe um arco iris onde não havia ponte com moedas de oiro no fim dele. O Frederico já andava um tanto “desengonçado” como disse a Leonor quando o viu dar os primeiros e titubeantes passos. Também ela cresceu, já andava na primeira classe e ficava derretida quando olhava para o primito Jaiminho que engatinhava e punha-se de pé  agarrado e deitava a mãozita tudo, os putos são lixados.

O casamento da tia Elsa e do agora tio Jaime fora muito singelo, só família e uns quantos amigos, poucos. Os avós do lado do pai apareceram o que me pareceu muito simpático aliás na senda do que tinham vindo a fazer: darem-se connosco independentemente do procedimento do filho. Este não veio nem à igreja nem ao copo de água. Deixem-me que diga que não percebia a denominação: na mesa depois do casório havia de tudo mas copo de água não…
Uma bela barriga


O nosso Frederico portou-se lindamente, foi quem levou as alianças de calção cinzento e casaquinho azul com botões doirados e o padre que realizou o enlace foi o Alfredo, companheiro do tio Jaime desde o liceu até ao seminário. Tudo muito simples como já disse, mas muito sincero e muito bonito. A tia já ia com uma bela barriga de sete meses pois o processo demorara no Vaticano um pouco mais do que era esperado. Mas estava resplandecente e eu não cabia em mim respirava orgulho por todos os poros: acabara o suspense – era o padrinho da noiva e a madrinha era a minha mãe. Os do noivo eram os pais dele.

Bom, já chega de reportagem e de fotos (uma estopada, agora uma com os nubentes, agora outra com a família, outra com, outra mais, outra, caramba, nunca mais acabavam e os rissóis à espera…). Eu já completara doze anos, rompiam-me uns pelitos por baixo do nariz e entre as virilhas coisa que era perfeitamente natural pois estava a entrar na puberdade explicou-me a minha mãe (deixara de chamar-lhe mamã ainda que ela me pedisse para eu continuar a fazê-lo) e a partir daí comecei a considerar-me mesmo homem.

Só mais uma nota porque me pareceu importante. O Olegário trouxe o David – que a minha mãe me sussurrou que era o seu “namorado” –  judeu e tinha o apelido de Levi. Encantou os convidados porque culto e amável e ninguém se apercebeu da ligação amorosa que mantinha com o meu primo. Arquitecto, trabalhava na firma onde o meu pai também exercia engenharia em acumulação com a tropa o que era proibido, mas como era da situação os mandões  fechavam os olhos e assobiavam para o lado.

Já estava a refeição acabada e os dois pediram à minha mãe para lhe dar uma palavrinha porque tinham algo importante ainda que aborrecido mas que ela merecia conhecer. A mãe acedeu e ficaram um bom bocado a conversar. Quando eles se despediram ela chamou-me para me dar conhecimento do que tinham falado e mais uma vez – já eram tantas… - o meu espanto veio à tona da água.

O meu pai estava a viver com a secretária da Betão Seguro S.A.R.L. uma tal Marina Neves de quem já era amante durante o tempo em que estivera casado com a minha mãe e de quem tinha um casal. A minha mãe estava devastada e entre soluços comentou agarrada a mim e eu é que era a adúltera, a prostituta com o agora teu tio Jaime. Mas Deus é grande. Um dia se não for aqui na terra há-de pagar os pecados no Céu. Dei por mim a cogitar que Deus e que Céu eram aqueles que permitiam que tal coisa acontecesse. E mais ainda que nascesse uma criança como o nosso Frederico. Tinha de pensar muito nisso prometi a mim próprio.

Deu entrada no Jardim-Escola João de Deus


Era tempo de tomar uma decisão quanto ao futuro imediato do meu irmão e por isso aconselhei-me com a minha mãe, a tia Elsa, o tio Jaime e o tio Miguel. Após uma troca de opiniões muito cuidadosa e frontal a opinião que tinha saiu vencedora e foi aprovada por unanimidade. O Jardim-Escola João de Deus iria ser consultado sobre a possibilidade de acolher o Frederico em regime de externato. Diga-se de passagem que o tio Miguel se tornara visita habitual de casa pois quando saía do Hospital Universitário de Santa Maria “a tempo e horas” passava por lá.

Foi aceite e deu entrada numa classe especial para deficientes diversos, a primeira que ali houve, o que não era o ideal mas sim o melhor que se podia arranjar. A turma tinha vinte e um alunos três dos quais em cadeiras de rodas por serem paraplégicos, um autista, quatro mongolóides que com o meu irmão passaram a ser cinco, dois meninos e três meninas e os restantes amputados, cegos e amblíopes. Uma mistura heterogénea que mesmo assim nos pareceu funcionar menos mal. As educadoras de infância (que tinham sido criadas em 1930 de acordo com um folheto que nos foi distribuído com a História da Instituição fundada em 1882 pelo mecenas Casimiro Freire) eram carinhosas e competentes. Pelos vistos o Frederico estava bem entregue.

Quando o fomos buscar, a mãe e eu que também o leváramos, o puto parecia feliz. Dizia já umas palavras, poucas e por vezes mal soletradas. Perguntei-lhe então Frederico gostaste da escolinha? E ele com o seu sorriso rasgado, meneando a cabeça: Bom, bom, bom. De resto ele não parava de me surpreender ou melhor de nos surpreender. Depois de um Inverno chuvoso e frio e de uma Primavera assim-assim, o Verão entrou esplendoroso abrindo a porta ao Outono em que estávamos nem sal nem pimenta.
 
Piu, piu, piu, piu
Por uma tarde pintada de cinzento baço fui dar com o Frederico encostado no sofá da sala de visitas (ele adora ficar por ali e já não cai embora se o fizera o trambolhão não era de caixão à cova) a cara apoiada na mão direita mirando com muita atenção um pardal saltitante que debicava qualquer coisa num ramo próximo do parapeito da janela fechada. Não queria interromper o quadro aliás belíssimo mas atrevi-me a perguntar ó maninho o que é isso? Ele, sem tirar os olhos do pássaro que entretanto levantara voo e volteava quiçá em busca de novo manjar milimétrico respondeu piu, piu, piu, piu… Não é só na escola que se aprende; na vida também. E muito.
(Continua)    



2018-06-14


É DIFICIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE (4)
Fica a saber-se
o grande amor
do padre Jaime




Antunes Ferreira

Tudo o que te vou dizer e a conversa que disso resultar vai ficar entre nós, tens de o compreender meu querido Armando, e por isso vou já explicar o porquê desta minha afirmação pedindo-te que este seja um segredo que fique entre nós, ainda que a tua mãe, o padre Jaime, o prior Tomás e pouco mais pessoas estejam ao par do assunto. E perante o cenho carregado que eu exibia – mau, as coisas estavam cada vez mais embrulhadas e eu metido nelas sem ter culpa nenhuma – a tia continuou.

A vida é bela mas também é mesmo madrasta e é preciso saber viver com ela se não formos capazes de o fazer é uma desgraça e é por isso que sendo tão novo tens desde já ser forte, muito forte. Quem namora com o padre Jaime sou eu e vamos casar. Fiquei atónito de boca aberta qual túnel do Rossio, que mais me iria acontecer? Era impossível. Mas, tia, os padres não podem casar-se – aventei como que a medo mas ciente do que dizia pois aprendera-o na catequese, aliás com a minha catequista a Geninha e sob o controle justamente do… padre Jaime.

Armando são três as principais religiões que têm Cristo como Salvador, a Católica, a Ortodoxa e a Protestante. Só a Católica é que prescreve o celibato dos sacerdotes; nas outras os ministros de Deus podem casar e casam. No entanto em Roma, na sede da Igreja Católica os padres podem requerer deixar o sacerdócio e ao fim de um processo longo e difícil o Vaticano pode autorizá-los a deixar os votos e assim contrair o sacramento do matrimónio. O processo do padre Jaime já está em vias de conclusão.
 
Cerejeira & Salazar - duo sinistro
Os olhos da tia Elsa brilhavam-lhe espelhando a esperança viva e a alegria que lhe iam na alma e eu sentia-me contente e satisfeito com a boa nova. O Cardeal Cerejeira, grande amigo do Salazar desde jovem em Coimbra, tentou pôr os maiores entraves no caso, mas o padre Jaime tem uns amigos no Vaticano que conheceu quando fez o mestrado em Teologia na Universidade que ali existe e que foram removendo os obstáculos colocados pelo Patriarca.

Eu sabia que do lado da família da minha mãe o pessoal sempre fora da oposição desde que o dr. António de Oliveira Salazar assumira o ministério das Finanças e depois a presidência do Conselho de Ministros instituindo a Censura e transformando a PVDE, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado em PIDE, a Polícia de Intervenção e Defesa do Estado. O falecido avô Jacinto estivera preso no Aljube sob a alegação de ser comunista, o que por acaso não era, mas se o fosse também não lhe cairiam os parentes na lama.

Mas lá em casa não se podia falar em política porque o meu pai era fanático pelo Estado Novo e adjunto-militar a Terceira Região da Legião Portuguesa, o Chefe das Milícias e, dizia-se Inspector da PIDE e por reinava o regime do bico calado pois dizia a mamão que até as paredes tinham ouvidos e nunca se sabia se havia bufos. Entretanto a tia concluía: E quem tem defendido o processo é o padre Marcelo Montini, jesuíta especialista em Direito Canónico e  assistente do Prof. Angelo Macazoni, a maior autoridade no ramo. E vou confessar-te mais um segredo: o casamento vai ser muito em breve pois eu estou grávida.

Não pude conter-me, pulei do sofá e abracei-me a ela. Que felicidade! Oxalá fosse eu o padrinho, embora fosse tão novo; mas só o pensei, nada disse… A tia prometeu-me então que mais tarde me contaria toda a sua estória com os maiores pormenores e ficámos por ali, não sem me dizer que apenas sabiam que estava grávida de dois meses naturalmente ela e o pai, o pároco e a minha mãe e a partir de então eu. Depois dessa cena e como dia estava descoberto, era véspera das marchas que pela primeira vez a RTP

RTP transmitia pela primeira vez em directo as marchas 

ia transmitir em directo e das sardinhas em Alfama, decidi dar um passeio como o Frederico no carrinho dele. Avisei-a e fui até ao Jardim da Estrela – nós morávamos na rua de Buenos Aires – e ali fiquei apanhando o sol e lendo o “Mosquito” que acabara de comprar.

Um senhor de idade que vinha trazendo pela trela um cão Cocker Spaniel preto parou junto a nós e ficou mirando o Frederico com ar preocupado e comentou pobre criança, tadinha… Palavra que não gostei, o meu irmãozinho era um ser humano talvez diferente mas não merecia um tal comentário. Por isso perguntei ao velhote Coitadinho porquê? O homem ficou à rasca, não foi capaz de me responder, meteu a viola no saco e deu à sola puxando o cão que nem ladrara muito menos se pronunciara.

Na verdade o que acontecera ia repetir-se vezes sem fim. As pessoas não percebem que nos comentários desajustados que fazem perante um portador da síndrome de Down, para além da ignorância e da estupidez há também muita maldade que ferem quem acompanha o deficiente e quando este começa a compreender o que dizem a seu respeito apunhalam-no no sítio onde mais lhe dói seja no coração seja na alma.

O que mais me danava quando mais tarde regressava a casa empurrando o carrinho do meu irmão era o sorriso feliz que lhe bailava nos lábios sem se dar conta, felizmente, do que o rodeava e do que o envolveria daí para o futuro que eu antevia e receava. Não merecia o Frederico na sua inocência estar um Mundo doido e mau ainda que também fosse bom até mesmo óptimo e decente. Mas as mais das vezes o negativo predominava e ele tinha tido a infelicidade de ter nascido com a trissomia 21.

No ensino técnico


Mal tínhamos chegado a casa fui buscar à biblioteca a Enciclopédia Médica Abreviada Salus que tia Elsa para ler mais informações sobre a malfadada doença. E li que “não existe cura para a síndrome de Down. A educação e cuidados adequados aumentam a qualidade de vida da pessoa. Algumas crianças com síndrome de Down frequentam escolas comuns, enquanto outras requerem ensino especializado, como o técnico. Algumas concluem o ensino secundário e outras frequentam o ensino superior.”

Durante a idade adulta, muitas pessoas com a condição executam trabalhos remunerados, embora seja frequente que necessitem de um ambiente de trabalho protegido. Em muitos casos, as pessoas com síndrome de Down necessitam de apoio financeiro e em questões legais. Em países desenvolvidos e com cuidados apropriados, a esperança média de vida com a condição é de 50 a 60 anos.”

Iria a partir de então colecionar todos os elementos sobre a doença e para isso pedi à tia Elsa bem como ao tio Miguel, que creio que já disse era irmão do meu pai e médico pediatra para mos fornecer ao que ambos assentiriam tinha a certeza.
(Continua?)
********* 

Estou a cogitar sobre se devo continuar a publicar esta saga É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGÓLICO. Isto porque o primeiro episódio teve uma boa aceitação (52 comentários e correspondentes respostas), o segundo ficou-se pelos 20 e o terceiro ainda menos, 18…
O apelo para uma boa polémica só teve uma resposta. A da Nonamamiga.
Perante os factos indesmentíveis verei o que farei por considerar melhor.

Qjs & abçs

Henrique, o Leãozão

  

2018-06-08



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE (3)

Aprender a biberonar

Antunes Ferreira

Antes que a minha mãe começasse a falar atalhei eu com grande espanto dela bem como da tia Elsa, atirando de cabeça erguida do alto dos meus dez anos que vira e ouvira todas a tremenda cena da madrugada explicando-lhes como isso acontecera tim por tim e quanto mais desbobinava tão sereno quanto me era possível mais as duas esbugalhavam os olhos. Podia lá ser… Podia. Infelizmente podia.

Desde que era miúdo quer a mamã quer a titi me tratavam por Mandinho num tom carinhoso e em jeito de bebé, petit nom que fora adoptado por mais gente lá em casa como por exemplo a Genoveva que era a nossa cozinheira há milhentos anos e que já fazia parte da família e da mobília, a Rita, a criada de casa, para tudo que já estava connosco mesmo antes de eu nascer e o meu primo Olegário que viera de Condeixa para estudar medicina e vivia na nossa casa.

Pois bem, nessa altura as duas levantaram-se e vieram sentaram-se uma de cada lado de mim – eu estava no maple maior – e abraçaram-me e a mãe disse-me baixinho, com as lágrimas a correr pelas faces tal como a tia Elsa. Meu querido Armando Manuel a partir de hoje és o homem da casa… E ficaram as duas a soluçar agarradas a mim. Perguntei então muito admirado Essa agora, e então o Olegário?

Foi a tia Ela quem respondeu: Querido Armando com tamanha responsabilidade que acabas de receber deves começar agora mesmo a entender o que é a vida para o bem e para o mal. E eu cada vez mais assarapantado, mas… O Olegário vai sair aqui de casa na semana que vem pois vai morar com o namorado, mas por favor não digas nada disto a ninguém. Estava siderado.
 
...Com o namorado???
Namorado? A tia não se enganou? Os homens têm namoradas, não têm namorados. Foi a vez da mamã intervir: Ficas a saber meu filho que nem todos somos iguais; há homens que gostam de homens, bem como há mulheres que gostam de mulheres, são coisas da Natureza, há quem diga que é doença, mas eu não acredito nasce-se assim, não há nada a fazer mas é uma vergonha por isso não se fala nisso e até é proibido não só pela Igreja, mas pela política se se é descoberto até se pode ser preso.

Tinha a cabeça completamente virada do avesso. Tanta descoberta ao mesmo tempo para mim, Armando Manuel da Costa Saraiva Mendes a caminho dos dez anos era demais. Seria capaz de aguentar tudo aquilo que me esperava? E antes de tudo o que seria que viria? O que me aguardava? O que o destino que iria proporcionar? Mas – haveria destino? Ou era tudo um pesadelo que estava a viver ainda por cima acordado? Que mal tinha feito para me encontrar em tal demoníaca situação?

Foi então que vindo do quarto da mamã – do casal pelos visto já fora – veio o som do balido miudinho do Frederico, está na hora de mamar, até já passa, disse a tia Elsa que acrescentou, graças a Deus tenho tudo preparado para a mamada e foi buscar o biberão que estava a “nadar” em água fervida, preparou o leite e foi amamentar o bebé seguida por mim, vais apendendo a fazê-lo disse-me ela com um sorriso maroto. E com uma gargalhada, vais aprender a biberonar…

Sem legenda

Na manhã seguinte a mãe levou-nos ao colégio e lá chegados fui com ela falar com a directora ao gabinete desta. A Dr.ª Margarida foi posta ao corrente da situação e como já por diversas vezes tinha acontecido elogiou-me e disse que me considerava além de bom aluno e bem comportado um rapaz atilado e de cabeça no seu lugar e ainda que estava convencida que pese embora a minha idade seria capaz de desempenhar a enorme e difícil tarefa que me era cometida a partir de então.

Mais acrescentou que o colégio faria o que lhe fosse possível para me ajudar e ela própria também porque eu ia precisar de todo o apoio para ir defrontando todas as dificuldades que se me deparassem. Ente a família e a escola tinha de ser assim. E prometi a mim próprio que não me deixaria ficar mal bem como faria o mesmo para com quem me rodeava. Estava dado o primeiro passo numa maratona em que se transformara a minha vida.

O primeiro objectivo era sem margem de quaisquer dúvidas o acompanhamento cuidadoso e atento do Frederico. O puto continuava a ser pachola sempre muito simpático, dado e risonho de tal forma que nos fazia esquecer a sua deficiência. Mas já se notavam que os seus braços eram mais curtos que os normais num bebé da sua idade, os olhos permaneciam achinesados e as rugas marcavam-lhe a testa que de resto era curta.  

Esperavam-me anos encrencados porque tinha de o seguir, talvez a Leonor quando mais crescida me desse uma mãozinha, tinha a certeza disso, qual talvez qual carapuça, além, claro, da mamã e da tia Elsa bem como das avós Virgínia e Matilde, os avôs já tinham falecido e naturalmente quem o seguiria na saúde seria o tio Jacinto, que era médico pediatra e irmão do meu pai que não se importaria do caminho ínvio que as relações do casal tinham tomado.

O que se passava com o padre?


Financeiramente não havia problemas pois além do ordenado da mamã e com a tia Elsa a tomar conta da nossa casa tínhamos os rendimentos de prédios e propriedades no Alentejo pois a família era abastada. Já a insinuação sobre o padre Jaime era um berbicacho. Mas a tia dois dias depois desta cegada informou-me que ia pôr-me ao corrente do que na verdade se passava e para já que sossegasse pois não era nada com a mamã.

Posto isto voltámos à normalidade no colégio e do dia-a-dia. E foi então que a tia Elsa me chamou de parte para conversarmos sobre o coadjutor da nossa paróquia.
(Continua)


  

2018-05-31

É DIFÍCIL TER UM IRMÃO MONGOLÓIDE (2) 




Antunes Ferreira
No fim-de-semana a tia Elsa tinha tudo arranjado para receber a mamã e o neófito – foi assim que ela me ensinou a dizer – que deviam chegar antes do almoço. Como ela não podia dar o peito ao Frederico pois tinha os bicos dos peitos pouco salientes já se tinham comprado umas duas latas grandes de leite em pó Nido da Nestlé para ser dado em biberão.

O maninho ia ficar no quarto dos pais num berço em madeira polida torneada que já vinha da avó Natália passara  para o Henrique, o primogénito em seguida para a mãe Maria de Fátima e depois para a mana Elsa, mana mais nova e o “inquilino” seguinte fora eu, quatro anos mais tarde a Leonor e agora o Frederico. Era mais uma cama pois tinha dormido nela até que chegara a Leonor ou seja aos meus quatro anos. Sempre pensei que era uma espécie de jaula como as do jardim zoológico só que sem grades por cima…
 
Carrinho de bebé
O enxoval estava um mimo. Para o baptizado o novo mano ia usar o fato/vestido que eu usara e para cúmulo da minha felicidade o padrinho seria eu. Nem queria acreditar. De resto e seguindo as determinações paternas no meu caderno de encargos constava ainda motorista do carrinho do bebé, mas sem carta de condução e lavar-lhe a chupeta sempre que ela caía no chão. Aliás o Frederico era um puto porreiro quase nem chorava e se o fazia mais parecia um miado de gatinho perdido da sua ninhada.

Mas o melhor de tudo eram os ensinamentos que a tia Elsa me fornecia sobre as “técnicas” de lidar com a criança. Era ela que lhe dava banho, depois de caído o cordão umbilical, também lhe mudava as fraldas, dava o biberão, apanhava a chupeta quando ela caía no chão e outras ao mesmo tempo que me ia ensinando depois de eu chegar do colégio. Sempre comigo a assistir, para ver, dizia ela como São Tomé... E além disso ainda me proporcionava tempo para brincar.

Porém não havia só obrigações; tinha a vantagem de ser o primogénito, um quarto só para mim ao lado do dos meus pais. E certa noite, quando me levantei para ir à casa de banho a fim de fazer chichi ouvi um barulho de discussão que vinha do quarto do casal. Fiquei alarmado. Nunca tal acontecera ou, pelo menos, ouvira. Sem fazer ruído sentei-me no chão e encostei o ouvido à porta. Sabia que era feio mas a curiosidade venceu. E pior, espreitei pela fechadura, os candeeiros das mesinhas de cabeceira estavam acesos e os pais discutiam num tom acentuado que ia aumentando de volume. A mãe sentada na cama e o pai andando para cá e para lá.

Consegui descortinar que o berço estava vazio e logo ouvi a explicação “Pelo sim pelo não, a Elsa levou o menino para o quarto dela para podermos elevar a voz se for necessário. É que pela primeira vez tenho de te dizer que a desgraça que nos aconteceu é por culpa tua!” O meu pai abriu muito os olhos e retorquiu num brado “Minha??? Porra!!!” Fiquei estarrecido pois nunca ouvira dizer tal palavra na nossa casa.

 
Será verdade?


Sim, sim, tu foste o culpado, com a mania de tropa de quereres ter mais um filho que seguisse a carreira militar já que o Armando não tem queda para isso e sabias muito bem que para mim com 37 anos a gravidez era de risco!!! E o Dr. Fontes bem alertou para o perigo,” Estava de vez o caldo entornado, Mas haveria mais. “Maria de Fátima (o pai Gilberto tratava a mamã por Fatinha…) com tal acusação cortaste a ponte que ainda nos ligava. Vou deixar-me de fingimentos. Mas também te quero dizer nas trombas que não gosto de ser corno e o puto não deve ser meu mas do teu amante o padre Júlio com quem andas a foder que nem uma vaca com cio… És uma puta! Eu já desconfiava! Falsa beata! Rata de sacristia!!!!” E como a mamã se tivesse levantado com os olhos esbugalhados de espanto o pai levou a mão direita atrás e deu-lhe duas chapadas com tal violência que a atirou sobre a cama!  

Para mim já bastava. Levantei-me num salto silencioso e entrei no meu quarto fechando de imediato a porta muito devagarinho. Mas ainda ouvi o pai bater com estrondo a porta do quarto deles. Abandonara o quarto com uma ultima ameaça “Nunca mais aqui entro!!!!” Meti-me na cama e não conseguia adormecer por mais que fechasse os olhos. Pelo que tinha escutado eu também fora parte da causa da doença do Frederico. Estava amaldiçoado e tinha de expiar esse pecado que por certo era quase mortal. Mas que berbicacho.

De manhã como era habitual o pai levou-nos ao colégio no carro dele mas durante o caminho foi-nos alertando que durante uns meses que não sabia quantos tinha de ausentar-se para o estrangeiro e por isso não podia transportar-nos “mas, certamente a vossa mãe pode fazê-lo usando o carro dela” e reparei que ele acentuara o possessivo. Estava o caldo esturrado, ou como dizia a Lucinda, que era a nossa cozinheira, tinha chegado o bispo ao fundo da panela.

...dormia sossegadinho



Quando voltamos do colégio o Frederico dormia sossegadinho e a mãe mais a tia Elsa chamaram-me à sala de estar. Enquanto a Leonor ficava no quarto dela a brincar às donas de casa com uma amiga a Rosinha filha dos nossos vizinhos e amigos Fonsecas. “Armando senta-te aqui ao pé de nós pois temos de conversar é um assunto muito sério mas desde já te digo que não fizeste nada de mal. Porém, a partir de hoje…”
(Continua)


2018-05-26



Tal como tinha informado e baseado na
nossa querida Amiga Elvira Carvalho
começo hoje a publicar uma séria de textos de
ficção sobre a doença de Down ou seja o
mongolismo
A acção decorre no século passado e
O tema é delicado mas infelizmente
afecta muitas famílias.

É difícil viver

com um irmão
mongoloide

Antunes Ferreira
Tinha nove anos quando nasceu o meu irmão Frederico. Lembro-me vagamente de quatro anos antes quando a minha mãe deu à luz a minha irmã Leonor ter havido uma grande festa lá em casa, até o pai Gilberto abriu uma garrafa de champanhe do verdadeiro, no rótulo tinha champagne e o pai disse que era francês.

Mas na tarde do dia 8 de Agosto do ano de 1959 quando o pai voltou da maternidade trazia um rosto fechado completamente diferente. A avó Lurdes tinha-nos avisado que graças a Deus já nascera um novo mano, no entanto arvorara um sorriso doce, um sorriso que só ela sabia usar, mesmo nas horas mais difíceis. 

A tia Elsa, irmã da mãe, fora buscar-nos ao colégio Valsassina e quando lhe perguntara se já nascera o bebé e se era menino ou menina respondera-me que quando saíra de casa ainda nada se sabia. Depois foi o que aconteceu e que já contei e fiquei com uma grande suspeita: ali havia coisa. O que seria? Em vez de risos e festas, rostos carregados e desanimados.

 
Sem legenda
Quando nos sentámos à mesa para jantar o meu pai que como sempre ocupava a cabeceira da mesa uniu as mãos inclinou a cabeça e começou a rezar Pai nosso que estais nos Céus… e nós fomos respondendo até ao amém final. Estava a família toda reunida excepto a mãe ainda na maternidade, a tia Elsa, a Leonor na cadeirinha de criança, a avó Lurdes, o primo Olegário que andava em Direito e morava lá em casa pois os pais viviam em Celorico de Basto e eu.

Foi então que o pai anunciou com um ar um tanto solene e meio sisudo que já tínhamos um novo irmão mas que por vontade de Deus nosso Senhor nascera um pouco diferente porém devíamos amá-lo, tratá-lo, acompanhá-lo e ajudá-lo em tudo o que ele necessitasse e virando-se para mim dissera-me que eu sendo o primogénito tinha de ser o primeiro a tomar conta dele, bem como toda a família. Não perguntei porquê, mas fiquei a matutar no assunto.

Quando me fui deitar e antes de me encomendar ao meu Anjo da Guarda o pai veio aconchegar-me o lençol e o cobertor de Verão e disse-me: Armando o teu novo irmão vai chamar-se Frederico que era o nome do teu avô materno casado com a avó Lurdes, um homem de bem como sabes. Tens de honrar o nome e cuidar com a maior atenção o Frederico porque ele precisa de ti em especial. Claro que lhe respondi com um sim imediato. Ele afagou-me o cabelo, deu-me um beijo, apagou a luz eu virei-me para o lado e tentei dormir. Levei mais tempo do que habitualmente. O que se passaria?

Dois dias depois fui com a tia Elsa no carro do pai à maternidade ver a mãe e o bebé e qual foi o meu espanto quando vi que ele tinha o aspecto de ser mais ou menos achinesado e bastante enrugado. A mamã que me conhecia muito bem – era o seu primogénito – disse-me num tom suave mas meio magoado que não me preocupasse porque Nosso Senhor tinha decidido que o Frederico teria esse ar mas era igual aos outros meninos tinha corpo e alma como todos.

Claro que sorri e para não restar quaisquer dúvidas dei um beijinho levemente no meu maninho, fiz-lhe uma festinha sob o olhar embevecido da mamã, papá e da tia Elsa. No entanto tenho de confessar que por dentro estava muito atrapalhado. Por que razão Jesus nos dera um Frederico diferente? Que pecado por certo mortal teria acontecido para tamanho castigo? Numa família profundamente católica aprendera que Deus que era só bondade e misericórdia. Que se passara?
 
Capitão
Na volta para a casa vinha a pensar que o pai que era capitão engenheiro se calhar tinha-se enganado nalguns cálculos e originado um grande desastre com muitos mortos e feridos. Mas nunca ouvira falar nisso. Não, ali havia coisa e coisa muito complicada. A tia Elsa eu vinha sentada no lugar o morto (nunca percebera qual o motivo porque um falecido tinha sempre o lugar ao lado do condutor) virou-se para trás Ó Armandinho vens muito calado, vens a pensar na morte da bezerra? Não percebi Na morte de quem?

Pela primeira vez nesse dia vi e ouvi os dois soltarem umas gargalhadas, curtas embora, mas risonhas, e ela explicou o que a expressão queria dizer. Depois, a curta viagem prosseguiu em tom soturno. Arrumado o carro quase em frente do prédio onde morávamos subimos ao segundo esquerdo e os três fomos para a sala de estar. Foi aí que comecei a entender o que se estava a passar.

A tia Elsa era enfermeira, trabalhara no Hospital de São José mas dera baixa e estava em casa. Tinha estudado para ser médica mas acontecera qualquer coisa e desistira e fora para enfermeira. Era ela que explicava o sucedido. O Frederico tinha nascido com a doença de Down que é a trissomia 21, uma condição cromossómica causada por um cromossoma extra no par 21. Crianças e jovens portadores da síndrome têm características físicas semelhantes e estão sujeitos a algumas doenças.
 
Características da Doença de Down
Embora apresentem deficiências intelectuais e de aprendizagem, são pessoas com personalidade única, que estabelecem boa comunicação e também são sensíveis e interessantes. Quase sempre o “grau” de acometimento dos sintomas é inversamente proporcional ao estímulo dado a essas crianças durante a infância.

Não tinha percebido tudo e então ela trocou por miúdos a que dissera explicando o que eram os cromossomas e quantos havia habitualmente. Perguntei-lhe se havia tratamento para a doença e a tia Elsa disse-me que sendo genética – e genética (que vem do grego genofazer nascer) é a especialidade da biologia que estuda os genes, a hereditariedade e a variação dos organismos e a forma como estes transmitem as características biológicas de geração para geração.

Fiquei um pouco mais esclarecido e a tia disse-me que ia conversar mais comigo sobre o assunto o que mereceu a concordância do meu pai. Estava então a caminho a ligação profunda que se iria estabelecer entre o Frederico e eu. E de que irei dando conta no próxima texto
(Continua)