2018-06-08



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE (3)

Aprender a biberonar

Antunes Ferreira

Antes que a minha mãe começasse a falar atalhei eu com grande espanto dela bem como da tia Elsa, atirando de cabeça erguida do alto dos meus dez anos que vira e ouvira todas a tremenda cena da madrugada explicando-lhes como isso acontecera tim por tim e quanto mais desbobinava tão sereno quanto me era possível mais as duas esbugalhavam os olhos. Podia lá ser… Podia. Infelizmente podia.

Desde que era miúdo quer a mamã quer a titi me tratavam por Mandinho num tom carinhoso e em jeito de bebé, petit nom que fora adoptado por mais gente lá em casa como por exemplo a Genoveva que era a nossa cozinheira há milhentos anos e que já fazia parte da família e da mobília, a Rita, a criada de casa, para tudo que já estava connosco mesmo antes de eu nascer e o meu primo Olegário que viera de Condeixa para estudar medicina e vivia na nossa casa.

Pois bem, nessa altura as duas levantaram-se e vieram sentaram-se uma de cada lado de mim – eu estava no maple maior – e abraçaram-me e a mãe disse-me baixinho, com as lágrimas a correr pelas faces tal como a tia Elsa. Meu querido Armando Manuel a partir de hoje és o homem da casa… E ficaram as duas a soluçar agarradas a mim. Perguntei então muito admirado Essa agora, e então o Olegário?

Foi a tia Ela quem respondeu: Querido Armando com tamanha responsabilidade que acabas de receber deves começar agora mesmo a entender o que é a vida para o bem e para o mal. E eu cada vez mais assarapantado, mas… O Olegário vai sair aqui de casa na semana que vem pois vai morar com o namorado, mas por favor não digas nada disto a ninguém. Estava siderado.
 
...Com o namorado???
Namorado? A tia não se enganou? Os homens têm namoradas, não têm namorados. Foi a vez da mamã intervir: Ficas a saber meu filho que nem todos somos iguais; há homens que gostam de homens, bem como há mulheres que gostam de mulheres, são coisas da Natureza, há quem diga que é doença, mas eu não acredito nasce-se assim, não há nada a fazer mas é uma vergonha por isso não se fala nisso e até é proibido não só pela Igreja, mas pela política se se é descoberto até se pode ser preso.

Tinha a cabeça completamente virada do avesso. Tanta descoberta ao mesmo tempo para mim, Armando Manuel da Costa Saraiva Mendes a caminho dos dez anos era demais. Seria capaz de aguentar tudo aquilo que me esperava? E antes de tudo o que seria que viria? O que me aguardava? O que o destino que iria proporcionar? Mas – haveria destino? Ou era tudo um pesadelo que estava a viver ainda por cima acordado? Que mal tinha feito para me encontrar em tal demoníaca situação?

Foi então que vindo do quarto da mamã – do casal pelos visto já fora – veio o som do balido miudinho do Frederico, está na hora de mamar, até já passa, disse a tia Elsa que acrescentou, graças a Deus tenho tudo preparado para a mamada e foi buscar o biberão que estava a “nadar” em água fervida, preparou o leite e foi amamentar o bebé seguida por mim, vais apendendo a fazê-lo disse-me ela com um sorriso maroto. E com uma gargalhada, vais aprender a biberonar…

Sem legenda

Na manhã seguinte a mãe levou-nos ao colégio e lá chegados fui com ela falar com a directora ao gabinete desta. A Dr.ª Margarida foi posta ao corrente da situação e como já por diversas vezes tinha acontecido elogiou-me e disse que me considerava além de bom aluno e bem comportado um rapaz atilado e de cabeça no seu lugar e ainda que estava convencida que pese embora a minha idade seria capaz de desempenhar a enorme e difícil tarefa que me era cometida a partir de então.

Mais acrescentou que o colégio faria o que lhe fosse possível para me ajudar e ela própria também porque eu ia precisar de todo o apoio para ir defrontando todas as dificuldades que se me deparassem. Ente a família e a escola tinha de ser assim. E prometi a mim próprio que não me deixaria ficar mal bem como faria o mesmo para com quem me rodeava. Estava dado o primeiro passo numa maratona em que se transformara a minha vida.

O primeiro objectivo era sem margem de quaisquer dúvidas o acompanhamento cuidadoso e atento do Frederico. O puto continuava a ser pachola sempre muito simpático, dado e risonho de tal forma que nos fazia esquecer a sua deficiência. Mas já se notavam que os seus braços eram mais curtos que os normais num bebé da sua idade, os olhos permaneciam achinesados e as rugas marcavam-lhe a testa que de resto era curta.  

Esperavam-me anos encrencados porque tinha de o seguir, talvez a Leonor quando mais crescida me desse uma mãozinha, tinha a certeza disso, qual talvez qual carapuça, além, claro, da mamã e da tia Elsa bem como das avós Virgínia e Matilde, os avôs já tinham falecido e naturalmente quem o seguiria na saúde seria o tio Jacinto, que era médico pediatra e irmão do meu pai que não se importaria do caminho ínvio que as relações do casal tinham tomado.

O que se passava com o padre?


Financeiramente não havia problemas pois além do ordenado da mamã e com a tia Elsa a tomar conta da nossa casa tínhamos os rendimentos de prédios e propriedades no Alentejo pois a família era abastada. Já a insinuação sobre o padre Jaime era um berbicacho. Mas a tia dois dias depois desta cegada informou-me que ia pôr-me ao corrente do que na verdade se passava e para já que sossegasse pois não era nada com a mamã.

Posto isto voltámos à normalidade no colégio e do dia-a-dia. E foi então que a tia Elsa me chamou de parte para conversarmos sobre o coadjutor da nossa paróquia.
(Continua)


  

19 comentários:

  1. Bom dia amigo, Antunes! como sempre acontece, os seus textos são como se fossem reais, nem sempre posso mas gosto de os ler.
    Bom fim de semana,
    AG

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    1. Meu caro Antóniamigo

      Boa noite caro António! Só posso agradecer o que me dizes e fazer-te um pedido: passa com maior frequência e comenta. És sempre bem vindo.

      Um abração deste teu amigo e admirador
      Henrique, o Leãozão

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  2. Muito bem escrito e nos colocando no cenário, com s conversas e tudo mais que por lá houve...Tá lindo te acompanhar! abração,chica

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    1. Minha querida Chiquitamiga/Rejanamiga

      Pronto, deixas-me completamente babadinho... :-)))) Muito obrigado

      Muitos qjs deste teu amigo e fã lusitano
      Henrique, o Leãozão

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  3. Há muito de verdadeiro,
    Ou é verdade, verdade.
    Mas um biberão inteiro
    Toma-se em qualquer idade.

    Abraço
    SOL

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    1. Meu caro Solamigo

      Hurra!!!!!! Viva!!!!!!

      Votaste. É com imensa alegria que registo o teu regresso a esta casa de onde nunca te devias ter afastado. Mas passado é passado e o que importa é que agora já cá estás!

      E pronto lá está tu meu caro amigo a desafiar-me para o verso (de pé e mão quebrados como é o meu caso...):

      É fácil biberonar
      mais difícil é aprender
      para quem o vai dar
      e depois não o esquecer...


      Um abração deste teu amigo e admirador
      Henrique, o Leãozão

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  4. Gracies per la teva entrda al blog pero he tingut que posar traves per que hi ha un individu que em puteja i s,inventa coses
    Petons

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    1. Mi querida Annamiga

      Creo que entendí tu catalán. Sin embargo no lo escribo. Así que muchas gracias.

      Quesitos de tu amigo portugués
      Henrique, o Leãozão

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  5. meses difíceis amigoHenrique, mas a vida é forte e molda as vontades e as dificuldades !
    bom domingo 10 de junho :)
    Angela

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    1. Minha querida Angelamiga

      Poizé, quer na saga quer na minha (nossa) vida pessoal. Felizmente a Raquel já está em casa bastante bem e pôde passar o seu aniversário no dia 8 com a família sem festa - mas com um bolo com muitas velas (não digo quantas...)
      Muito obrigado pelo teu cuidado.
      Recebe muitos bjs e qjs do casal Ferreira muito feliz

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  6. O que é aí vem, FerreirAmigo??
    Algo do género

    O padre da minha aldeia,
    No sermão do mês passado,
    Jurou p'la saúde dos filhos
    Que nunca tinha pecado!

    Aquele abraço para ti, beijos para a Raquel, boa semana

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    1. Meu caro Coimbramigo

      O que aí vem é um enredo de tal maneira transtornado que é de ficar um cidadão aparvalhado e eu próprio já nem sei bem onde isto vai parar - mas para a frente porque para trás mija a burra.

      Há também a estória de um padre que disse para o outro "Irmão corre por aí que um dia destes os padres podem casar..." Ao que o segundo respondeu "Para já não creio, mas talvez no tempo dos nossos filhos..."

      Triqjs e um abração para tu do teu amigo
      Henrique, o Leãozão

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  7. Grande responsabilidade para um menino de 10 anos… Ando a seguir este texto com imenso prazer e com curiosidade. Realmente és um narrador excelente.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Minha querida Gracinhamiga II

      Estou plenamente de acordo e principalmente naqueles tempos do "Estado Novo" Isto vai indo cambalhotando e vamos lá ver o que vai dar. Para já vai dando pano para mangas até se me esgotar a transpiração... :-)

      E muito obrigado

      Muitos qjs deste teu amigo e muito admirador
      Henrique, o Leãozão

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  8. Grande responsabilidade para uma criança tão pequena. Mas nada que me espante, noutros tempos era assim mesmo. Havia crianças que aos 5 7 6 anos já tomavam conta dos irmãos mais pequenos enquanto os pais buscavam o pão para por na mesa.
    Uma criança de hoje que ouvisse tal conversa, ia levar até aos 40 ou mais de psicólogo em psicólogo completamente desajustada.
    Será que o pai entendeu mal, e quem anda com o padre é a cunhada, e não a mulher?
    Um abraço e uma boa semana

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    1. Minha querida Elvirinhamiga

      Tens carradas de razão, os tempos eram outros quando se dizia que quem não era do Benfica não é bom chefe de família... ou a minha política é o trabalho....

      A maioria dos putos nem sequer aprendiam a ser... crianças. Agora tudo mudou, mas em contrapartida bastante piorou. O recurso aos psicólogos por dá cá aquela palha é recurso muito frequente - mas será que é o melhor? Os meus filhos e os meus netos nunca precisaram disso e são bué fixes...

      Mau, mau, Elvira, será que tens uma costela em Delfos?

      Muitos qjs deste teu amigo e admirador
      Henrique, o Leãozão

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  9. Ora então quer discussão viva e saudável, não é?
    Pois aí vai a primeira provocação:
    - Sô Henrique, o Sr. foi jornalista, eu diria que ainda o é de algum forma, diga-me pois, que raio lhe passou pela cabeça para apelidar de modo tão grotesco o Síndrome de Down/Trissomia 21?
    Eu sei que gente desinformada usa esse termo que, pessoalmente acho ofensivo, de mongololismo/mongoloide - Não esperava ter que o ler vindo de alguém com responsabilidade cívica, como o deverá ser as gentes da informação.
    Assim sendo, fico a aguardar que se retrate.

    Boa noite, Henrique - Agora descalce a bota :-)

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    1. Minha querida Nonamamiga

      Ora então está aberta a discussão e muito bem aberta.

      Como já tive oportunidade de dizer no primeiro texto desta saga entusiasmei-me com o assunto e além da prática que é a melhor maneira de saber "coisas" no terreno tenho vindo a ler que posso sobre a a Síndrome de Down ou seja a Trissomia 21,

      No entanto também me documentei sobre os termos mongolismo/mongolóide.
      Escreveram sobre eles diversos especialistas mas vou apenas citar Philip Jobert Robertson e David W. Ivanisson da Universidade de Toronto, que referem que os termos "são usados dadas as características faciais das pessoas portadoras da Síndrome de Down semelhantes às das raças asiáticas mongólicas ou mongolóides (estou a citar de memória).

      Por isso não se trata, querida amiga de uma utilização abusiva ou ofensiva, ainda que não me achando enciclopédico, de modo algum, sei que tenho alguma cultura e no que toca à responsabilidade cívica também a venho exercendo desde muito novo. Apenas um exemplo. Por ser membro activo da oposição à ditadura salazarenta a PIDE mimoseou-me: partiu-me duas "costeletas" com uns afagos...

      Esta foi a abertura das "hostilidades". Mas não nos podemos esquecer que Sun Tzu escreveu que “A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar.” Conversemos, portanto, Discutamos, debatamos, troquemos ideias, venham mais cinco, dez, vinte, etc.

      Muitos qjs deste teu amigo e admirador
      Henrique, o Leãozão

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  10. Caro amigo Henrique
    Na verdade acabei de ler, o que será um capítulo de uma bem congeminada história de vida. História, em jeito de novela, com amostragem de, de vários incidentes, de vidas… Sim de vidas, porque são feitas passagens baseadas em várias incidências, que podem não acontecer, nem acontecerão, em conjunto na mesma família. Porém existem, pelo que, a “peça” que está a ser desenvolvida, é deveras didáctica, sobretudo para pré – adolescentes ou adolescentes, que aos demais, é salutar rever estes enquadramentos de vidas. Ninguém está livre de ser confrontado, com o inesperado destes casos menos ortodoxos, para além de coisas mais naturais. Em suma: é bom preparar as mentes que, de repente, podem ser confrontadas com estas realidades – modernas aberturas, dos tempos presentes, do novo século.
    Deixo um grande abraço

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