2018-11-24



 VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR
DE SÍNDROME DE DOWN - 18


 O baptizado

do pimpolho
e o kilt
escocês

Antunes Ferreira
Estávamos a começar a habituar-nos a ter um novo habitante em casa e já se encontrava preparado o baptizado do pimpolho. O Frederico era o mais entusiasmado desde que fora “entronizado” como padrinho e nome escolhido fora Gilberto em homenagem ao nosso pai. O mano encarregara-se a ele próprio de elaborar a lista de convidados que  queria ser extensa e nós íamos tentando travá-lo sem grande sucesso tenho de o dizer porque argumentava que se tratava do primeiro afilhado e quanto ao orçamento o limite era o… que ele quisesse pois as despesas correriam por conta dele!

Mas o padrinho abriu totalmente os cordões à bolsa dele pois convidou à sua custa o padre amigo do tio Jaime que vivia em Roma pois ele leccionava no Pontifício Colégio Português para vir oficiar o baptismo do neófito. O que aconteceu com pompa e circunstância na Igreja de Nossa Senhora de Fátima onde eu também recebera a água santa. Refiro num aparte bem disposto que o Frederico sussurrou para o sacerdote: “Cuidado, não me afogue o afilhado…” Ouvi e por pouco não soltei uma boa gargalhada! Na festa que se seguiu que decorreu no salão que a paróquia tinha criado para eventos desse tipo em parceria durante uns dois com o restaurante Gôndola e contou com um conhecido conjunto musical para a abrilhantar tinham sido mais de cem os convidados.

No dia seguinte começara a maratona no lar-doce-lar do bambino. Eram os banhos, as mudanças de fraldas, a s esterilizações dos biberons, toda uma panóplia novidade a caminho da rotina em que o novel padrinho todo ancho dava uma mãozinha e que jeito que ele tinha até a pegar no bebé e ao vê-lo nesses preparos eu ficava a matutar na pena que tinha de ele não poder ser pai nem mesmo de adoptar porque a Elena piorava a olhos vistos. Donde não tinha condições para o fazer. Por isso o baptizado era um lenitivo para a dor do meu irmão.

CR no Manchester United
e a primeira Bota de Oiro


Neste ínterim recebi um e-mail de Glasgow que me deixou espantado: era do já major-general Robert MacSpencer, escocês, que enquanto coronel tinha sido adido militar na embaixada do Reino Unido em Portugal e com o qual na minha qualidade de oficial do Exército me encontrara. E logo descobríramos que tínhamos muitas afinidades entre as quais éramos fãs do Manchester United e do Cristiano Ronaldo e quando putos verdadeiros adoradores dos insubstituíveis Beatles e outras coisas mais.


Ele a esposa Mary Anne tinham passado a ser nossos convidados para fins-de-semana no nosso monte em Aljustrel e a convite deles tínhamos passado duas semanas na casa de campo que tinham a 12 milhas (como eles usavam…) de Glasgow. Como ele se tinha passado a interessar pela história do nosso país numa das nossas conversas retive uma afirmação que não resisto a registar: “It is extraordinary and fascinating how such a small country has achieved such great results in its History!”

Noutra altura quando abordávamos os sessenta anos do domínio espanhol em Portugal sob o reinado dos três Filipes que lhe contei a maior parte do que fora a Guerra da Independência em que a mais velha aliança europeia, a luso-inglesa, continuava a funcionar em pleno e que na verdade ela não começara de facto quando rei era o D. João I, pois já na conquista de Lisboa, o nosso primeiro monarca, D. Afonso Henriques tinha sido auxiliado por cruzados ingleses que se dirigiam à Terra Santa e aqui aportaram.

Sandwich e... sanduíche

Mais ainda. A aliança não se esgotara nesses tempos pois persistiu durante séculos e ainda vigorava ainda que com altos e baixos e na altura recordo-me bem até afirmei: “mal comparado, como todos os matrimónios…” do que resultou uma galhofa de criar bicho. Já que estávamos em ambiente de boa disposição e risota disse-lhe que uma figura importante para Portugal no que respeitou à guerra contra Espanha, mais uma, de vinte e sete anos (1648-1668) na sequência da reconquista da nossa independência, fora o conde de Sandwich, que juntamente com sir Richard Southwell ambos embaixadores da Inglaterra o primeiro em Madrid e o segundo em Lisboa que assinaram o tratado de paz que pôs fim ao conflito. E de novo saíram à estacada as gargalhadas quando lhe contei que então se dizia que de Espanha a única coisa boa que viera era a… sanduíche.   

Pois o e-mail rezava: 
“Dear Armando
Mary Anne, and I myself we want to invite you and Maria Rita to spend a few days with us in our new villa in Stirling on the outskirts of Glasgow. You do not need anything else, just buy your plane tickets and we'll be waiting for you at the airport. From there we are on our own. Há ha ha.
Big hug
Robert”

Tive de telefonar ao camarada e acertámos a data da nossa vista explicando-lhe o que nos acabara de acontecer com o Gilberto júnior e por isso depois da adaptação durante dois, três meses seguiríamos, o que viria a acontecer. E além disso perguntei-lhe se não o chatearia se levássemos o Frederico que ele conhecera ali em Lisboa, ao que ele acedeu “it’s my pleasure”. O puto ficou aos cuidados da nossa mãe e da tia Elsa – já tão ocupada com a prole dela, mas sempre disponível – e assim sossegados chegámos a Heathrow e ali ficámos porque o Robert queria levar-nos à Real Academia Militar de Sandhurst da qual ele era segundo comandante surpresa que ele me queria fazer, ou melhor nos queria fazer.

O Frederico exultava! Herdara do nosso pai o feitio militar e sabia quase tudo sobre a célebre academia onde andara muita celebridade a começar por Winston Churchill, passando pelo rei Abdullha da Jordânia e na altura já o príncipe William, duque de Cambridge a frequentara.  Na manhã do dia seguinte à nossa chegada deslocámo-nos à instituição onde Robert preparraa um exercício de fogos reais para nós presenciarmos. Fazia um frio que nem vos conto e por isso foram-nos distribuídas mantas para colocarmos sobre os joelhos. De resto e por indicação do Roberto já íamos bem agasalhados.

Atacando e defendendo


O exercício foi um verdadeiro espectáculo com os cadetes atacando e defendo vários objectivos  e utilizando o armamento mais moderno e sofisticado, mostrando bem o grau de preparação deles. Estávamos todos entusiasmados, mas o Frederico deleitado estava nas suas sete quintas, enquanto o director de instrução, o coronel Mark Rodrigues Reynolds ia explicando num português correcto o desenrolar dos acontecimentos. Ele quando nos fora apresentado informara que a sua mãe era portuguesa de Angola, negra, daí ser mulato e falar a nossa língua.

Almoçámos no refeitório dos oficiais onde o Robert nos apresentou a todos os que ali comiam e em seguida assistimos a um filme sobre a história da Royal Military Academy Sandhurst – RMAS. A Academia abriu suas portas em 1947, para substituir o então Royal Military College (RMC) nas suas instalações  em Sandhurst. Na verdade a tradição no Reino Unido tem um peso enorme como já todos sabíamos.

Mas a Escócia –  que é um país – essa, pode dizer-se que talvez a tenha maior identidade e cultura próprias e até aos dias de hoje. Glasgow. Sendo a segunda cidade escocesa, a capital é Edimburgo, e a maior do país, a mais industrializada e com a população mais elevada. Os escoceses são conhecidos em todo o Mundo devido ao seu inconfundível kilt o traje nacional sobre o qual e contam muitas anedotas. O Frederico contou uma que fez toda a gente partir a rir: 

Ena pai, tantos kilts e gaitas de foles

“O Senhor general não se importa que eu conte uma piada sobre escoceses? Nós também o fazemos com os alentejanos e a nossa família é do Alentejo…” O Richard sorriu amplamente e disse que estivesse à vontade, que estava habitua do e não se chateava. E o meu mano, com cara de anjinho: “Muita gente diz que o kilt parece um sino. Sabia senhor general?” Este acenou com a cabeça que sim. “Então o que usa um escocês por baixo do kilt? Não sabem? É o… badalo!” Para quê mencionar as gargalhadas colectivas. Nem na sala dos espelhos duma Feira Popular.
  

2018-11-16


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 17



Antunes Ferreira
Quando o sol começava a morrer como em todos os dias acontece borrando o horizonte dum laranja ensanguentado no Verão, eu, sem nada para fazer, começava também a ser hora de pensar em voltar a casa. Sentado no restaurante-bar da mesma estação de serviço de autoestrada onde sempre parava refugiava-me no nada.  Estava-se em 2012, dois anos mais do que constara da última entrada no meu Diário. Assim acontecia comigo mas entre a vontade de me meter no automóvel que apesar de estar à sombra devia ser uma sauna e pedir mais um café cheio numa chávena escaldada, optei pela última. Entretanto entrara um casalinho que depois de pedir qualquer coisa no balcão fora sentar-se na mesa junto ao canto mais afastado e penumbrado da sala. E de imediato puseram as respectivas mãos direitas debaixo da mesa. A decisão estava tomada(muito a contragosto…) logo tive um trabalhão para me levantar – a inércia e o far niente são muito pesados… – chegar ao balcão e fazer o pedido dizendo ao empregado que entretanto ia à casa de banho.

"Está um calar de ananases.."

 Tinha de passar pelo parzinho que só deu por mim quando estava quase junto dele. Os dois sobressaltaram-se. Fizeram um sorriso amarelo como se fossem putos apanhados a ir ao boião das gomas e puseram um tanto destrambelhadamente as mãos em cima da mesa. Eu também lhes sorri e lembrei-me do nosso Eça: “Está um calor de ananases…” E fui urinar. Já aliviado voltei para ir buscar a bica mas o empregado avisou-me que ainda a ia tirar e que ma ia levar à mesa. Estava na mira o santo sacrifício da gorjeta ou como dizem os galegos consellos o que afinal vistas as coisas são… consolos aconselháveis.

O casalinho que mirei de esguelha tinha voltado aos seus trabalhos manuais. Ambos tinham as braguilhas abertas (daí o canto mais canto e escuro…) e ambos tinham as respectivas mãos direitas ocupadas no que elas   continham ou seja os dois se masturbavam enquanto as esquerdas se afadigavam a massajar os mamilos por baixo das tichartes, pois ela  não trazia sutiã o que era perfeitamente descortinável. Desse relance também me pude aperceber que – caso raríssimo nos dias que corriam – usavam alianças; donde lua-de-mel top.

Entrara um grupo de raparigas em fato de treino com o nome de um clube regional, mais uns cavalheiros que deviam ser treinadores, dirigentes e claques. Era malta do futebol feminino e tinham vencido por isso faziam um cagaçal danado. Estava desfeito o sossego. Bebi a bica, paguei e segui para Lisboa. Fora uma tarde mal passada e logo eu que gosto dos bifes bem passados… Já no Hyundai tentei afastar a preocupação que me levava a alhear-me da realidade, porque a condução exigia o maior cuidado e além disso eu não gostava – nunca gostara – de conduzir.

 Na incubadora

Mas havia dois motivos que me levavam a esse estado, o primeiro dos quais dizia respeito à adopção. Tinha falhado a tentativa dos gémeos pretitos pois a “burrocracite” ocasionara tamanho atraso que outro casal mais cujo processo se encontrava mais adiantado fora o feliz contemplado com os petizes. Em segundo lugar a Maria Rita, incansável, descobrira na Maternidade Alfredo da Costa um bebé de sete meses, prematuro, numa incubadora filho duma timorense que morrera durante o parto e não tinha qualquer parente em Portugal. Do pai – nem pó.

Tínhamos o processo pronto, inclusive já havíamos concluído o Curso de Formação para progenitores conditio sine qua non incluída nos trâmites sem a aprovação da qual nada feito. Daí o nervosismo que era o que afinal a origem da minha (e da dela) preocupação. Se tudo corresse bem alcançaríamos finalmente o nosso desiderato. Só então daríamos por inteiramente justificado o longo percurso que havíamos feito, os obstáculos que tínhamos ultrapassado, a persistência – e por que não a teimosia – em que nos tínhamos empenhado para alcançar o objectivo tão almejado: ter um filho nosso, como se fora carne da nossa carne, sangue do nosso sangue.

Uma vez mais o Frederico acompanhava-nos e tentava sossegar-nos com o carinho e a gentileza que nele eram habituais. Nunca poderia agradecer-lhe tudo o que estava a fazer por nós e obviamente a Maria Rita também. Fora preciso “fintá-lo” para aquela fuga isolado mas eu precisava de estar só para conversar comigo mesmo no solilóquio onde a verdade tinha de impor-se num jogo de tudo-ou-nada. Nem à minha esposa dera conta dessa minha decisão. E estava de volta não completamente convencido de que encontrara o caminho certo ainda que estava perto, muito perto de o fazer.
 
Cartaz das Festas
Por outro lado, no Brasil desenrolara-se um romance inesperado. A Leonor encontrara entre os outros voluntários um médico natural da cidade de Malaca na Malásia, mais propriamente no Kampung Portugis ou seja o Bairro Português chamado Patrick Silva que tinha sido Regedor do bairro (assim dizia nos seus antigos cartões de visita) e só depois se formara já em Portugal na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Apaixonaram-se e tinham decidido casar-se na igreja do bairro português durante as Festas di San Pedro e di San Juang as maiores que ali decorrem.

E assim tinha acontecido. Toda a família voou para lá, foi um evento magnifico que durou uma semana com um ritual antigo respeitando a tradição aliás de acordo com o tio Jaime que estivera em Damão o papiá que ali se fala é muito semelhante e os usos e costumes também. Os padrinhos vão buscar a noiva a casa dos pais (ali por empréstimo…) levam-na à casa dos pais do noivo onde ele não a pode ver e só depois de dois dias se vão encontrar já no templo. Meteu um copo de água (o Frederico que foi o padrinho da mana Leonor sugeriu que seria melhor dizer muitos copos de vinho…e outros) leitões e muito peixe tudo assado envolvido em folhas de bananeira. A principal ocupação dos "portugueses" é a pesca. Claro, tinha de ser o mar, sempre presente. Pareceu-me que estava o bairro inteiro, pois os participantes eram mais que muitos…

É ver os trajes regionais...


Boas recordações, até a Maria Rita, eu, a mãe, os tios Elsa, Jaime e Miguel andámos a cantar e dançar o vira, a chula, o malhão e o corridinho com os ranchos folclóricos locais que se exibiram em honra dos noivos. È preciso r até ao Oriente para ver o prestígio angariado pelos portugueses do antigamente. Por cá não se faz a menor ideia do verdadeiro patriotismo de gente que nunca veio a Portugal mas que se considera “portuguesa”! O discurso de abertura da festa esteve a cargo do “patriarca” da comunidade, o Sr. George  Bosco Lázaro, com 82 anos que falou no português mais ou menos arcaico difícil de entender para nós, mas valeu, como é uso dizer, a intenção. O mais comovente foi que antes de ele perorar      foi cantada a “Portuguesa”. Chegaram-me as lágrimas aos olhos. Não é vergonha um homem chorar!

Voltei à realidade quando o smartfone tocou. Como ia em alta-voz ouvi a Maria Rita: “Meu querido: Está feito! Já temos o nosso menino” Só temos de esperar  mais dois, três meses para que saia da incubadora e levá-lo para casa, para a nossa casa!”

Só pude responder-lhe  por entre um soluço de contentamento: “Meu amor, parabéns, parabéns aos dois e ao nosso filho…”
(Continua)    
    


2018-11-09


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN - 16



Antunes Ferreira
Pás brancas quais gigantes vão parindo electricidade girando lentamente no cimo das torres que as sustentam umas seguidas de outras alinhadas como soldados de um regimento eólico plantadas no alto de morros de vegetação rasteira e eu estava sentado no restaurante-café duma estação de serviço á beira da autoestrada ia contemplando-as absorto sem as ver. Era o dia 1 de Agosto de 2008 fazia um calor abrasante, acolhera-me ao ar condicionado, enquanto o carro estava estacionado sob um toldo metálico existente no parque próprio. A bica cheia em chávena escaldada esfriara. Moscas esvoaçavam zumbindo e uma delas aterrava em voo picado na colher abandonada no pires açucarado da chávena.

Rememorava, solitário, tudo ou quase tudo o que acontecera nos oito anos que tinham decorrido desde a  vez que escrevera no meu “Diário” o último episódio da saga. E quantos tinham acontecido... Infelizmente, mais maus do que bons, alguns deles mesmo péssimos. A ver. Começara pelo Frederico com a sua Elena a desejar ardentemente ter um filho que ele não lhe podia fazer pois como já tinha dito ele era estéril. Durante quase um ano o problema tinha andado penosamente a arrastar-se, engrunhando, um passo à frente dois atrás, iludindo a mulher que não queria aceitar a desgraça de não ter uma criança.

Elena sofria de síndrome de Down acentuada e por isso pensava que a andavam a enganar e começara a desconfiar de todos mas em especial do marido. Para o Frederico esta era uma situação dolorosíssima, confidenciara-me que já não sabia o que fazer à vida
e que pensava até que a minha cunhada estava a pontos de enlouquecer. E que não era apenas ele; toda a família mais chegada incluindo os pais dela e até o pessoal também pensavam assim. Maldita a hora em que o drama se concretizou – e a Elena teve de dar entrada numa clínica para doenças mentais.

Índios Guarani Kaiowa  - jogos

Por outro lado a Leonor conseguira vencer a luta contra a droga e saíra com uma determinação: fazer voluntariado mas longe de Portugal. O mano Frederico, entre a visita quotidiana à Clínica Sossego & Saúde e a atenção à irmã, empenhou-se na obtenção desse objectivo e através da direcção da ONG Aposta na Vida conseguiu estabelecer contactos com a FUNAI que é a Fundação Nacional do Índio do Brasil que a colocou no Mato Grosso do Sul para trabalhar com os índios Guarani Kaiowa. Para lá tinha seguido muito feliz: tinha alcançado um objectivo que traçara para a vida dela.

E foi ainda o mano Super que me trouxe a informação do fim desgraçado do ignóbil Golfo. Os seus informadores (a rede que possuía continuava a funcionar muito bem) tinham-lhe transmitido os pormenores da funesta ocorrência que acontecera em meados de Julho de 2007, isto é do ano anterior. Golfo adorava a caça e, como estava em África,  ia habitualmente à noite para caçar ao farol ou seja com uma lanterna potente montada no jeep que utilizava juntamente com dois ou três camaradas.  Embrenhavam-se nas florestas através de picadas manhosas e de repente farolavam encadeando possíveis animais aos quais com mais facilidade atiravam.

Mas nesse dia Golfo decidira ir caçar elefante – de dia; os companheiros bem tentaram dissuadi-lo, era a primeira vez, os “bichos” eram muita granjolas, um mânfio acagaça-se, eles avançavam, eu já vi um, parecia uma locomotiva a cravão, caté bufava, se um gajo é atropelado vai pró caralho sem dizer piu! Foda-se, nessa não caio eu!... Quem falava assim era o Fernandes, o outro portuga do grupo de segurança do Mugabe e companheiro de caçadas. O terceiro era queniano chamava-se Moisés Quigambo e esse alinhava. Ainda havia um quarto que era o condutor natural de Hare, Paul Tsnangwa que também aceitou.

Partiram de madrugada e já o sol nascera quando encontraram uma manada de elefantas com as suas crias, mas Golfo desprezou-as. Ele queria UM elefante macho. Quigambo, conhecedor dos hábitos dos proboscídeos alertou-o: “Careful friend, and the animal is in the mating period and attacks the man is very dangerous!... (Cuidado amigo, e o animal está no período de acasalamento e ataca o homem é muito perigoso!...) Mas o tuga apenas rosnou:  Don’t fuck with me! Those who are afraid stay at home! (Não me fodas! Quem tem medo fica em casa!)

Premiu o gatilho - nada!


E, de supetão, saindo do meio da mata apareceu um machão, de tromba erguida que parou e soltou um berrido de fazer tremer o mais destemido! Golfo saltara do jeep e dera uns passos afastando o capim até ficar ao alcance do monstruoso animal. Meteu um joelho em terra, apontou cuidadosamente ao mesmo tempo que o elefante investiu. O caçador premiu o gatilho – nada! Pólvora seca? Percutor lixado? Em menos de um segundo fora apanhado pela tromba que o agarrou por uma perna, volteou-o como se fora uma funda (assim contaram os sobreviventes que tinham metido a marcha atrás, dado meia volta e cavado à maior velocidade!)

Mas mesmo assim o Moisés voltara-se para e fizera um curtíssimo vídeo que mostraria o caçador caçado e depois de volteado a ser atirado contra o tronco de um embondeiro. E ali ficou feito um espantalho espapaçado no capim tingido de vermelho. E assim o foram encontrar no dia seguinte quando voltaram ao local para buscar o corpo já muito dilacerado pelos leões, pelos urubus e quiçá pelas hienas, enquanto as térmitas já se afadigavam para participar no festim. Pouco restava do Senhor D. Mário João Ruivães Lorena de Mesquitela, mais conhecido pelo Golfo. A própria arma estava destroçada. 

O Restaurante-bar estava mesmo às moscas – passe o trocadilho – quando entrou um casalinho jovem, de jeans e blusas soltas do mesmo tecido, botas à cauboi e capacetes para motos que pediu ao balcão duas coca-colas e duas sandes mistas com manteiga tendo ido sentar-se a uma mesa no canto mais fundo e escuro do salão. Não lhes liguei e continuei embrenhado nos meus pensamentos, cada vez mais macambúzio. O processo da adopção estava a revelar-se uma sucessão de papelada sem fim: o exemplo mais flagrante da burogracite aguda. Aquilo que os brasucas sintetizam para dizer o nosso marcar passo: faz-que-anda-mas-não-anda…   

Por esse andar quem ia parar à Clínica Sossego & Saúde éramos a Maria Rita e eu. Uma porra, uma grandessíssima porra!. E no entanto, numa das creches da Misericórdia já a minha mulher tinha descoberto um parzinho de gémeos, menina e menino, pretinhos, com oito meses de idade, lindos como os amores, com os olhitos muito grandes e brancos no meio das carinhas muito negras e redondas a sorrir para ela e depois para nós. São estes! São mesmo estes! Mas o problema é que o raio dos papéis nem de empurrão não havia maneira de andar.

Lavoisier e sua esposa Anne- Marie

Perante a nossa aflição, o Frederico tinha sugerido: “E se untássemos umas mãos ao pessoal que tratava do processo? Umas papilas de quinhentos euros bem acondicionadas e num bom molho deviam fazer-lhes jeito…” E o “malandro” quando pôs os tios Miguel e Jaime ao corrente da sua “boa proposta” deu-se ao luxo de citar o Lavoisier: “Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"…. Claro que depois disto só se ouviram como comentário umas boas casquinadas…             


2018-10-23


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DA SÍNDROME DE DOWN -15



Antunes Ferreira
Três acontecimentos para mim significativos num só dia: 5 de Outubro de 2000. Um novo século, a implantação da República em 1910 e o dia do meu aniversário. Ainda por cima mais uma data redonda – completava 50 anos. Desde a última vez que estive convosco quantas coisas se passaram, quantos dramas aconteceram na minha vida, quantos momentos felizes ocorreram, em suma quantas voltas deu a vida. A vida que num momento é mãe, no seguinte é madrasta, hoje acaricia, amanhã mata.

Relógios digitais

Volte-se, porém atrás, independentemente do arrancar das folhas de um qualquer calendário que esse sim inexorável não para, não se compadece com satisfação ou com sofrimento, cadenciado pelos ponteiros de um relógio analógico ou de um digital. Cada vez mais as máquinas vão tomando conta de nós, cada vez mais vão-nos escravizando, cada vez mais vão substituindo a nossa inteligência pela sua inteligência informatizada. E contra isso não há gladiador por mais forte que valha aos homens.

Estava-se na altura em que tinha de informar a minha mãe de que a Leonor tinha sido apanhada na teia terrível da droga e também despedir-me da minha irmã antes dela partir para a Casa do Retiro e Recuperação Anjo da Guarda e ainda tentar encontrar o tal Golfo para lhe dar uns sopapos coisa pequena até lhe rebentar os fagotes. Mas, antes disso tudo, tinha de conversar com o Frederico que era sem dúvida o mais importante desta cegada para que juntos desatássemos o nó górdio que se estabelecera. Ele próprio já me dissera que precisava de falar comigo e portanto assim aconteceu.

Sem legenda

As folhas outonais rodopiavam numa dança louça pautada pelo vento enquanto um céu carregado prenunciava chuva talvez trovoada quando nos sentámos no Porto de Santa Maria em frente do mar no Guincho para um almoço que seria mais de paleio do que comida mas que nos fez muitíssimo bem pois saboreámos tudo o que dissemos – mais do que os mariscos que tínhamos encomendado que eram excelentes – alimentámos os nossos egos, abrimos os nossos corações, aliás como sempre fazíamos, enfim fomos dois irmãos sem peias em segredos.

O meu mano trazia com ele uma ansiedade graúda: “Tu sabes, Armando, a Elena e eu somos muito diferentes no que toca ao grau de deficiência.” Fiquei com a verdadeira pele de galinha, claro que sabia, mal fora se não soubera, mas mantive-me mudo e quedo. “Dentro da pouca sorte que me caiu na vida saiu-se a grande, el Gordo, como dizem os espanhóis, a taluda do Natal –  bafejou-me com a inteligência e bastante!” Nunca o ouvira falar assim sobre a sua diminuição. Mas ele continuou: “Sei que é raro, mesmo muito raro aparecer um caso como o meu. O tio Miguel disse-me quando lho perguntei que talvez um em mais de cem mil. Sou um sortudo!...”

Que mais poderia dizer-lhe? “Posso dar-te um abração?” E ele  tranquilo: “Claro que podes, mas ainda não acabei, falta muito… Pelo contrário e infelizmente a Elena é uma joia de mulher mas é muito limitada, anda sempre a meu reboque, não a posso deixar sozinha. É uma Down típica, com tudo o que isso representa. Eu amo-a assim, ela adora-me. Tenho a certeza de que se pudesse punha-me num pedestal e adorava-me todos os dias… Tenho medo que dê um passo errado!”

Filho? Missão impossível

Eu estava siderado. “Agora meteu-se-lhe na cabeça ter um filho!” Com seiscentos macacos pensei para com os meus botões, mas que raio de ideia, caramba! “Mas eu já lhe disse que os homens com a síndrome de Down são estéreis e portanto nada feito. Ficou tristíssima e tem vindo a perguntar-me se era possível irmos aos médicos a que foste com a Maria Rita, talvez houvesse uma esperança… Tenho a certeza que não sabe o que é ser estéril. Mano, estou metido numa grandíssima alhada. Que hei de fazer? É preso por ter cão e preso por não ter!!!…”

O Super Francisco afinal não era tão super como isso. E eu sentia-me impotente para o ajudar. Dar-lhe um conselho? De conselhos precisava eu, como daria eu um ao meu mano? De resto lá dizia o ditado “entre marido e mulher não metas a colher”. Não era especificamente o caso. Um irmão tem sempre de estar à disposição de outro irmão. E não é apenas uma questão de solidariedade. É algo mais, indefinível, tal como a saudade ou o desenrascanço que só os portugueses sabem o que são e as outras nacionalidades não entendem nem conseguem traduzir. Os ingleses da Enciclopédia Britânica andam há 29 anos a tentar encontrar uma tradução para… desenrascar…

Metemo-nos no meu Honda para voltarmos a Lisboa e a conversa foi descaindo para os encontros com as nossas mãe e irmã e bem assim aquilo que eu tentava fazer que era encontrar o filho da puta do Golfo. E foi então que o Frederico retomou a palavra: “O bandido era duma família nobre e o que não era normal rica. O avô metera-se em negócios diversos e jogara na bolsa e tivera muito sucesso. Era o D. Francisco Lorena Moutinho de Mesquitela e o filho D. Mário Hernâni seguira-lhe as pegadas aumentando os bens e investimentos tendo casado com uma Dona Isabel Maria Castro Mendanha Ruivães de Reguengos também rica proprietária de vinhos de marca”

Sem recorrer ao seu laptop o meu irmão continuava dando mostras da sua boa memória: “Do enlace resultaram quatro filhas e dois filhos sendo que o último foi o D. Mário João Ruivães Lorena de Mesquitela mais conhecido pelo apodo de Golfo, a ovelha negra da família, que aliás também não era lá grande espingarda. Falava-se em negociatas de armas e outras traficâncias mas qualquer membro dessa gente tão elevada numa fora apanhada nas teias da Lei”.
O ditador Mugabe


Estávamos a chegar à capital e tocou o telemóvel do Frederico que iniciou uma longa conversa entremeada por comentários da parte dele: “Não me digas, não me digas” e “Não posso acreditar” e ainda “Não é possível, não é possível” e mais à frente “Estás a gozar comigo? Ou é verdade?” E a terminar “Foda-se!!!!!” Estacionei em pulgas e perguntei-lhe o que acontecera. “Era o Julião Baptista, o Chicharro, o meu principal bufo, a informar-me que o cabrão do Golfo há quinze dias tinha esfaqueado um segurança dum clube no Cais do Sodré matando-o. Porém, por artes de «magia negra» conseguira safar-se e pirara-se para o Zimbabwe onde ingressara como mercenário no Corpo de Segurança do Presidente-ditador Robert Mugabe. Já não o conseguimos apanhar!!!”
(Continua)







2018-10-03


Vou ali e já venho

Antunes Ferreira

Hoje pelo meio-dia a Raquel e eu estamos a embarcar no terminal de cruzeiros no MSC Preziosa para fazer justamente um cruzeiro no qual à ida vamos chegar a Génova, parando em Málaga e Barcelona; de volta paramos em Casablanca/Marraquexe e chegamos a Lisboa no sábado, 13. Durante esses dez dias nada de computados, nada de blogosfera, somente sopas e descanso. E ninguém tem nada com isso, ora essa…



Curioso é saber que o navio é um mastodonte com uns pequenos 33.300 cm de comprimento, 6.681 cm de altura, 139.072.000.000 gr de peso, pode transportar 4.237 passageiros (mais um, menos um) e tem 1.325 tripulantes. Os dados fornecidos não incluem boias. Foi mandado construir em 2010 por um tal Hannibal Kaddafi, filho do ditador da Líbia que o encomendara recomendando que ele tivesse um aquário para tubarões de 120 toneladas de água…

Claro que a entrega já não se consumou porque entretanto sabe-se o que aconteceu: mais um episódio da “Primavera Árabe” obrigou o rapaz, aliás desde sempre mal comportado – já cumprira uns anitos de prisão no Líbano e o seu pai pagara umas belas fianças para ele ser libertado em Genebra e depois em Paris por agressões diversas a membros do seu pessoal e até à sua companheira que estava grávida. Um excelente exemplo. Face aos acontecimentos e vendo o que sucedera ao pai meteu toda a família, mulheres, filhos, filhas, irmãs, mãe e avó em seis “mercedes” blindados e zarpou para a Argélia.   

O Preziosa que quando encomendado deveria chamar-se Phoenicia tem ainda uma outra curiosidade: a sua madrinha foi a Sophia Loren. Para a minha geração era uma das boazonas das telas cinematográficas.

Portanto caté à nossa volta.
Qjs & abçs

2018-09-27


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DA SÍNDROME DE DOWN - 14





Antunes Ferreira
Eram oito horas da manhã e já me encontrava a arrumar os papéis que estavam em cima da secretária do meu gabinete no  Supremo Tribunal Militar. Chegara cedo depois de no outro dia ter voltado já pela noite com a Maria Rita no último voo da Ibéria de Barcelona  onde tínhamos ido receber a última desilusão na clínica do professor Pau Puigbó o mais reputado ginecologista europeu, especialista em reprodução in vitro. Já estávamos habituados a negas mas mesmo assim vínhamos muito tristes.

O dia começara com uma madrugada cinzenta ameaçando chuva, estávamos em Novembro nada mais natural, a meteorologia (quando eramos putos na brincadeira dizíamos mentirologia…  porque quase nunca acertavam) ameaçava chuva grossa  com trovoada especialmente nas terras altas com possibilidade de queda de neve nas terras por força do já célebre anticiclone situado a noroeste do arquipélago dos Açores, fórmula calina. Meu dito, meu feito. E, realmente pelas sete da matina começou a cair uma carga de água que nem uma robusta arca do Noé aguentaria à superfície.

Chovia a potes! Lembrava-me da explicação da minha professor de inglês no colégio sobre a estranha expressão dos bifes que diziam:  “The weather is crazy, two hours ago it was sunny but now it’s raining cats and dogs!” Essa “coisa”  explicava a dr.ª  Marina Santana não significava literalmente que estava a chover gatos e cães do céu, e sim que está chovendo torrencialmente. E a malta ria-se na galhofa enquanto a setôra tentava impor a calma e apaziguar os ânimos. E acentuava que a expressão inglesa se podia traduzir como “O tempo está maluco, há duas horas estava um dia de sol e agora chove a potes!”


Chovia a cães e gatos, oops, a potes...


Só de sair do carro e chegar à porta do edifício a correr apanhara uma molha que até o porteiro me dissera: “O meu capitão doutor está que nem um pinto!... Vá secar-se…, olhe que ainda apanha uma constipação lixada que pode dar em pneumonia e agora com as viroses ou bactérias ou essas merdas, desculpe-me a palavra, que por aí andam, ainda arranja um trinta e um do caral…go”. Sosseguei o Simões que tinha sido meu segundo sargento antes de ser “promovido” a “almirante” (a farda de porteiro com galonas doiradas e tudo a isso levava…) e subi para o meu gabinete.

Foi então que bateram à porta. Resmunguei para os meus botões “Tão cedo e já me estão a chatear…” , mas, em voz alta: “Entre!” Era o Frederico com cara de pau. Chegou-se à minha frente deu-me os dois beijos da praxe e disse-me que tinha um caso muito grave para me contar. Tentei desdramatizar a situação e primeiro que tudo pedi-lhe que se sentasse no sofá duplo que ali tenho tomando eu lugar ao lado dele, “Então, mano, diz-me lá o que se passa, mas vai com calma, tá?” Frederico, olhos nos olhos desfechou, tão tranquilo quanto possível: “A Leonor anda metida na droga.” 


Anda metida na droga...


Fiquei entre o estupefacto e o estarrecido. “Mas, tens a certeza? “  E ele com um ar pesaroso “Absoluta, mano, absoluta, aliás ela já mo confessou; nem queria acreditar embora já desconfiasse que havia mouro na costa e a Elena também pensava assim.” E continuou encanto torcia as mãos mas com uma voz serena “Nem tu nem a Maria Rita podiam ter dado conta do que se passava, ultimamente iam tão pouco lá por casa assoberbados com os vossos problemas e tão grandes que eles são, a mãe continua muito distraída  –  e ainda bem para não se pôr  a matutar em coisas tristes  – que não se apercebeu do que se estava a passar… ” 

Não queria acreditar no que ele me estava a revelar. A nossa família pelos vistos não tinha direito ao sossego.  Eram umas atrás de outras. E novamente o Frederico estava no olho do furacão. “Bom, Armando, senta-te e acalma-te se te é possível que eu vou contar-te a estória toda abreviando-a porque senão estaríamos aqui até ao fim do mês. Isto tudo teve a sua origem no filho da puta do namorado!” Se estava pasmado duplamente plasmado fiquei pois nunca ouvira o Frederico dizer palavrões. Mas ele prosseguiu com aparente tranquilidade: “O gajo toca guitarra eléctrica num grupo qualquer que se julga melhor do que os Beatles e de manhã já acorda passado, situação que conserva religiosamente durante todo o dia e toda a noite!”

Resumindo, a Leonor começara a faltar às aulas no Conservatório onde estudava piano. Ligara-se ao tal sacana de seu nome “artístico” Golfo que dizia que    também que estudava lá mas apenas galara a moça que tinha ido na conversa dele. Daí às passas fora um pulinho (palavras dela quando confrontada por ele Frederico) e depois seringa, cocaína, anfetamina,
Sem legenda

LSD, enfim uma panóplia do diabo. A Leonor passara a dormir ou melhor e aí o Frederico acentuava com ar muito carregado “foder com o filho da puta e não sei que mais!” Já falara com os tios Miguel e Jaime e com a tia Elsa e no dia seguinte a Leonor iria dar entrada na Casa de Retiro e Recuperação Anjo da Guarda situada acima da Malveira da Serra onde iria começar com a Metadona, tratamento de desintoxicação que o tio Miguel acompanharia a par  com os médicos da instituição. Era cara mas tudo indicava que valia a pena. E para nós o dinheiro não era problema.

E era tudo, o Frederico calou-se e eu fiquei assarapantado olhando para ele. “E tu, mano, tomaste a teu cargo isso tudo? Desenrascaste-te? É certo que eu e a Maria Rita andávamos muito ocupados e muito tresmalhados, mas se soubéssemos o que estava a acontecer logo participaríamos no que fosse preciso e era muito. Nunca, mas nunca te deixaríamos só. Tiveste o apoio dos tios e da tia, mas iniciativas foram tuas. Para mim foste um herói.” E  não me contive, levantei-me, ele também e abraçámo-nos forte e demoradamente, corriam-nos lágrimas pelas faces quase tão grossas como as cordas de agua que não paravam de cair lá fora. Que raio de dia! Que filho da puta de dia! – disse para o Francisco, porque a partir de então já o podia fazer, depois do que ele  dissera.

Daí que tivesse de adiar os papéis que estavam sobre a minha secretária pelo que chamei o meu adjunto e o escrivão e pedi-lhes o favor de tratarem das formalidades necessárias para o adiamento de alguns processos bem como fiz uma delegação de poderes específica como meu substituto formal ao adjunto. Fui de seguida falar com o juiz presidente do Tribunal e dei-lhe conta do que se passava explicando-lhe que por motivos imperiosos da minha vida pessoal tinha de ausentar durante uns dias não sabendo quantos. Mas, logo que tivesse tudo resolvido com a rapidez possível apresentar-me-ia. Apresentei-lhe o Frederico. Já podia sair com ele.


Com a mão na...


Duas tarefas para começar me aguardavam: falar e despedir-me da Leonor e informar a mãe do que se estava a passar. Depois, bem, depois desejava ir encontrar o tal Golfo que o Frederico também me informara que além de todas as “qualidades” que me referira também era grafiteiro. Talvez o encontrasse não com a mão na massa mas na lata de tinta de pressão ou no    marcador. Bonita ia ser a “conversa”. Teria de me conter, mas se o cabrão levantasse a grimpa estava mesmo fodido – partia-lhe os cornos! Mesmo a pensar retomava o linguajar de caserna.

Mas, acima disso tudo pairava a imagem dum Super-Homem sem capa nem kripton que dava pelo nome de Frederico e que levava com ele a síndrome de Down. Quem diria?                                 

2018-09-21





Antunes Ferreira
Não sei como isto me aconteceu porque há muito tempo que não sucedia, mas vejo-me obrigado a condescender, as teclas têm razões que os próprios dedos desconhecem, que me desculpe o Monsieur Blaise Pascal a pseudo citação aliás canhestra numa adaptação que dá imenso jeito ao autor. Posto isto dito para a acta que hoje escrevo na primeira pessoa sobre tema que eu próprio vivi por ter estado no local da ocorrência mas de cujos trâmites não me recordo precisamente dada a minha tenra idade. Porém quem mos contou posso considera-la fonte mais do que fidedigna como é uso escrever nos periódicos. Vamos então à questão.

No Vale de Santarém mais exactamente na curva que antecede a Fonte dos Amores contada por Almeida Garrett onde a Menina dos Rouxinóis de olhos verdes quais esmeraldas – palavra d’honra que não é o eu que escreveu isto, foi o romântico – ficava o casarão da minha tia-avó Dona Etelvina Ferreira, solteirona militante com os seus setenta e muitos, no qual com os meus sete/oito/nove anos passava um mês mais coisa menos coisa das férias grandes no tempo em que as havia.

Um peru mamute


A propriedade urbana (assim rezava a escritura)  era também enorme  pois além da moradia contemplava um lagar de vinho com adega adjacente (dez tonéis enormes para dois mil litros) quatro figueiras duas pereiras, três damasqueiros e duas macieiras, mais uma horta e um galinheiro lá no fundo o quintalão  onde eram criados à tripa-forra todos os tipos de aves comestíveis e poedeiras desde galos e galinhas passando por patos e gansos  e fracas até se chegar aos diversos tipos de perus mesmo os perus mamute que me assustavam  quando arrasavam a asa às peruas. Coisas de namorados atiradiços.

En passant (Óbvio que podia grafar de passagem  mas um francesismo dá sempre um ar de erudição que ilumina a escrevinhadela e dia de trovoada) refiro que também tinha eu catrapiscado uma namoradinha a Berta, filha o feitor, o senhor Raimundo, amor de Verão, que dizia a senhora Maria Martins verão qu’isto passa e passou mesmo quando passei para a segunda classe e para as segundas férias. É aqui a altura de nomear a citada senhora, criada da minha tia-avó que, caso curioso e atá surpreendente, conseguia realizar a magia de ser mais velha do que a patroa, pelo que almas maldosas chegaram a chamar-lhe bruxa. Há gente para tudo. Outros mais evoluídos a nível cultural, como o senhor Jimbrinhas da Farmácia Bem-te-curo, apelidavam-na de pantomineira. Despeitados.

Um Ford T - o primeiro carro produzido em série


Num dia de Agosto o senhor Raimundo levou-me à garagem que era a antiga casa das carruagens e esteve a explicar-me com a maior paciência e para mim uma insigne sabedoria o que eram dois carros que lá estavam enferrujados e carregados de poeira que me pareceu ser do tempo dos afonsinhos a par duma charrete em que a Dona Etelvina e alguns de nós incluindo eu nos passeávamos na Feira de Santarém. Até apontei no bloco “Lusitano”  que levava sempre comigo, antecipando  o futuro repórter, os nomes dos calhambeques: um fáeton Hudson de 1917 e um Ford T de 1923. Hoje valeriam uma pipa de massa. Em euros, está claro.

Mostruário com as jóias 


A estória – a que aliás já me referi por algumas vezes ouvi contá-la à minha mãe que a dava como absolutamente verdadeira – tem a sua piada. Pelo Vale passava o senhor Freitas joalheiro ambulante com sede no Cartaxo (terra do meu pai) que corria todo o distrito. Carlos E o seu irmão Fernandes eram os sócios e proprietários da joalharia Anel Doirado base do negócio. Fernando geria a loja, Carlos ia para o terreno. Era paraplégico, não mexia as duas pernas e por isso usava uma cadeirinha de rodas à qual fora acoplado um motor Zündapp de dois cavalos nas costas da qual transportava uma mala metálica fechada com cadeado onde transportava um mostruário de madeira onde tinha os produtos para venda em prateleiras sobrepostas forradas de veludo vermelho. Com um engenhoso sistema de manivela rodava o mostruário/balcão para a sua frente, abria-o e expunha a mercadoria a fregueses e sobretudo freguesas.



A Senhora Dona Etelvina Ferreira (que era a segunda pessoa mais rica do Vale de Santarém com sete tapadas de vinha e nove prédios urbanos na terra alguns a cair) e a criada senhora Maria Martins eram clientes habituais do Freitas que por lá passava uma vez por mês e quando chegava tocava uma buzina e logo acorria o pessoal mais ou menos endinheirado. O vendedor era o verdadeiro artista pois já descortinava à légua as e os potenciais adquirentes e os sacanas dos mirones bem como os pilha-galinhas que contudo com ele não tinha muita sorte. Dizia que não havia bambúrrio que escapasse a uma Browning 22 que por causa das moscas trazia sempre debaixo da manta com que cobria as penas inúteis fizesse chuva ou sol – e as velhas embrulhadas num lençol como dizia o povo.

Porém chegou um mês em que ele não tocou a buzina porque não apareceu, se calhar está doente, dizia-se no Vale e dizia a Senhora Dona Etelvina Ferreira bem como a senhora Maria Martins. No mês seguinte, nada de Freitas, e trinta depois cadeirinha nem vê-la. E assim foi acontecendo durante seis meses. Não me diga minha Senhora, o pobrezinho deve ter dado a alma ao Criador lamentava-se a criada para a patroa. Por via disso, foram-se à igreja paroquial e encomendaram ao padre cura uma missa por alma do senhor Joaquim Manuel Freitas, o que aconteceu com responso e tudo.

A perninha do meio não é aleijadinha...


Mas, no mês que entrou, para espanto dos espantos, ao portão da propriedade ouviu-se a buzina. Podia lá ser? Seria o Freitas? Teria ressuscitado? Era. Açodadamente as duas foram-se ao novo Lázaro e a Senhora minha tia-avó perguntou-lhe: Mas que lhe aconteceu? Com estes meses todos sem aparecer julgámos que tinha falecido e até mandámos rezar uma missa pela sua alma… E o ourives ambulante: Credo, lagarto, lagarto, lagarto, longe vá o agouro, pagar e morrer quanto mais longe melhor, foi a minha Alzira que deu à luz o nosso sétimo filho e eu fiquei para ajudar os trabalhos em casa…

Foi a senhora Maria Martins quem não se conteve: Sétimo filho? Então o Senhor Freitas tem as duas pernas aleijadinhas salvo seja e já vai nos sete filhos? Retorquiu-lhe um Freitas impante com sorriso de dentadura postiça recheada de dentes de ouro naturalmente: Ó senhora Maria Martins a perninha do meio não é aleijadinha!..