2018-09-21





Antunes Ferreira
Não sei como isto me aconteceu porque há muito tempo que não sucedia, mas vejo-me obrigado a condescender, as teclas têm razões que os próprios dedos desconhecem, que me desculpe o Monsieur Blaise Pascal a pseudo citação aliás canhestra numa adaptação que dá imenso jeito ao autor. Posto isto dito para a acta que hoje escrevo na primeira pessoa sobre tema que eu próprio vivi por ter estado no local da ocorrência mas de cujos trâmites não me recordo precisamente dada a minha tenra idade. Porém quem mos contou posso considera-la fonte mais do que fidedigna como é uso escrever nos periódicos. Vamos então à questão.

No Vale de Santarém mais exactamente na curva que antecede a Fonte dos Amores contada por Almeida Garrett onde a Menina dos Rouxinóis de olhos verdes quais esmeraldas – palavra d’honra que não é o eu que escreveu isto, foi o romântico – ficava o casarão da minha tia-avó Dona Etelvina Ferreira, solteirona militante com os seus setenta e muitos, no qual com os meus sete/oito/nove anos passava um mês mais coisa menos coisa das férias grandes no tempo em que as havia.

Um peru mamute


A propriedade urbana (assim rezava a escritura)  era também enorme  pois além da moradia contemplava um lagar de vinho com adega adjacente (dez tonéis enormes para dois mil litros) quatro figueiras duas pereiras, três damasqueiros e duas macieiras, mais uma horta e um galinheiro lá no fundo o quintalão  onde eram criados à tripa-forra todos os tipos de aves comestíveis e poedeiras desde galos e galinhas passando por patos e gansos  e fracas até se chegar aos diversos tipos de perus mesmo os perus mamute que me assustavam  quando arrasavam a asa às peruas. Coisas de namorados atiradiços.

En passant (Óbvio que podia grafar de passagem  mas um francesismo dá sempre um ar de erudição que ilumina a escrevinhadela e dia de trovoada) refiro que também tinha eu catrapiscado uma namoradinha a Berta, filha o feitor, o senhor Raimundo, amor de Verão, que dizia a senhora Maria Martins verão qu’isto passa e passou mesmo quando passei para a segunda classe e para as segundas férias. É aqui a altura de nomear a citada senhora, criada da minha tia-avó que, caso curioso e atá surpreendente, conseguia realizar a magia de ser mais velha do que a patroa, pelo que almas maldosas chegaram a chamar-lhe bruxa. Há gente para tudo. Outros mais evoluídos a nível cultural, como o senhor Jimbrinhas da Farmácia Bem-te-curo, apelidavam-na de pantomineira. Despeitados.

Um Ford T - o primeiro carro produzido em série


Num dia de Agosto o senhor Raimundo levou-me à garagem que era a antiga casa das carruagens e esteve a explicar-me com a maior paciência e para mim uma insigne sabedoria o que eram dois carros que lá estavam enferrujados e carregados de poeira que me pareceu ser do tempo dos afonsinhos a par duma charrete em que a Dona Etelvina e alguns de nós incluindo eu nos passeávamos na Feira de Santarém. Até apontei no bloco “Lusitano”  que levava sempre comigo, antecipando  o futuro repórter, os nomes dos calhambeques: um fáeton Hudson de 1917 e um Ford T de 1923. Hoje valeriam uma pipa de massa. Em euros, está claro.

Mostruário com as jóias 


A estória – a que aliás já me referi por algumas vezes ouvi contá-la à minha mãe que a dava como absolutamente verdadeira – tem a sua piada. Pelo Vale passava o senhor Freitas joalheiro ambulante com sede no Cartaxo (terra do meu pai) que corria todo o distrito. Carlos E o seu irmão Fernandes eram os sócios e proprietários da joalharia Anel Doirado base do negócio. Fernando geria a loja, Carlos ia para o terreno. Era paraplégico, não mexia as duas pernas e por isso usava uma cadeirinha de rodas à qual fora acoplado um motor Zündapp de dois cavalos nas costas da qual transportava uma mala metálica fechada com cadeado onde transportava um mostruário de madeira onde tinha os produtos para venda em prateleiras sobrepostas forradas de veludo vermelho. Com um engenhoso sistema de manivela rodava o mostruário/balcão para a sua frente, abria-o e expunha a mercadoria a fregueses e sobretudo freguesas.



A Senhora Dona Etelvina Ferreira (que era a segunda pessoa mais rica do Vale de Santarém com sete tapadas de vinha e nove prédios urbanos na terra alguns a cair) e a criada senhora Maria Martins eram clientes habituais do Freitas que por lá passava uma vez por mês e quando chegava tocava uma buzina e logo acorria o pessoal mais ou menos endinheirado. O vendedor era o verdadeiro artista pois já descortinava à légua as e os potenciais adquirentes e os sacanas dos mirones bem como os pilha-galinhas que contudo com ele não tinha muita sorte. Dizia que não havia bambúrrio que escapasse a uma Browning 22 que por causa das moscas trazia sempre debaixo da manta com que cobria as penas inúteis fizesse chuva ou sol – e as velhas embrulhadas num lençol como dizia o povo.

Porém chegou um mês em que ele não tocou a buzina porque não apareceu, se calhar está doente, dizia-se no Vale e dizia a Senhora Dona Etelvina Ferreira bem como a senhora Maria Martins. No mês seguinte, nada de Freitas, e trinta depois cadeirinha nem vê-la. E assim foi acontecendo durante seis meses. Não me diga minha Senhora, o pobrezinho deve ter dado a alma ao Criador lamentava-se a criada para a patroa. Por via disso, foram-se à igreja paroquial e encomendaram ao padre cura uma missa por alma do senhor Joaquim Manuel Freitas, o que aconteceu com responso e tudo.

A perninha do meio não é aleijadinha...


Mas, no mês que entrou, para espanto dos espantos, ao portão da propriedade ouviu-se a buzina. Podia lá ser? Seria o Freitas? Teria ressuscitado? Era. Açodadamente as duas foram-se ao novo Lázaro e a Senhora minha tia-avó perguntou-lhe: Mas que lhe aconteceu? Com estes meses todos sem aparecer julgámos que tinha falecido e até mandámos rezar uma missa pela sua alma… E o ourives ambulante: Credo, lagarto, lagarto, lagarto, longe vá o agouro, pagar e morrer quanto mais longe melhor, foi a minha Alzira que deu à luz o nosso sétimo filho e eu fiquei para ajudar os trabalhos em casa…

Foi a senhora Maria Martins quem não se conteve: Sétimo filho? Então o Senhor Freitas tem as duas pernas aleijadinhas salvo seja e já vai nos sete filhos? Retorquiu-lhe um Freitas impante com sorriso de dentadura postiça recheada de dentes de ouro naturalmente: Ó senhora Maria Martins a perninha do meio não é aleijadinha!..

   

2018-09-13


VIVER COM UM IRMÃO PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN – 13

De há uns largos tempos a esta parte vinha pensando
 que o título genérico desta saga estava errado
 e além disso não correspondia à verdade do texto e até
era estúpido. Mas a preguiça tem uma regra essencial:
não mexer uma palha e como se diz agora
não sair da “zona de conforto”, ou seja do “ninho”
que é onde se está bem, pelo menos eu. Mas o Frederico
não merecia que escrevesse que era difícil
viver com ele porque na realidade era bem
o contrário. Daí que fiz das fraquezas
forças e aqui vai o novo genérico renegando
o anterior. Espero que gostem.


Căsători
să fie
fericit (*)

Antunes Ferreira
É certo e sabido que um dia tem vinte e quatro horas e um mês tem 30 ou 31 ou mesmo 28, por vezes 29 dias, desde que estas medidas foram assentes por documentos conhecidos. As primeiras foram criadas na Grécia clássica que porém se terá inspirado no que era procedimento de uma das mais importantes civilizações do mundo antigo – a  mesopotâmica. Já quanto ao calendário é o gregoriano  promulgado pelo Papa Gregório XIII em 1583. Nisto pensava o capitão jurista Armando Mascarenhas Saraiva Mendes enquanto aguardava os resultados das últimas análises feitas a sua esposa arquitecta Maria Rita e a ele próprio. Dê-se-lhe a palavra como é hábito

Corria o ano de 1979 e tanta coisa acontecera desde a última vez que escrevia o meu diário. Sim, pois creio que ainda não tinha revelado que tudo que vou contando consta das páginas de um que vou recheando de entradas mais volumosas umas mais breves outras, todas datadas, mas não quotidianas. Tantas e tão complexas e algumas tão complicadas e poucas revistas, escritas ao correr da pena, ou melhor da Parker 51 oferta do meu pai quando eu entrara para o primeiro ano do liceu no Valsassina.

Pensando bem a nível nacional e histórico o mais importante fora indiscutivelmente o 25 de Abril de 1974. Dia inolvidável em que tivera o privilégio, a sorte e a honra de participar como tenente miliciano/aluno a Academia Militar. Até eu estou admirado quando escrevo isto; entrei para a escola onde o meu pai se formou oficial correspondendo a um desejo dele que nunca eu pensaria concretizar mas que realizei. Para isso concorreram três determinantes: o meu casamento com a Maria Rita, óbvio, as conversas com o coronel Marques Freitas e principalmente a minha decisão de honrar a memória do meu progenitor tivesse ele sido o que fosse.

Academia Militar: Às armas!!!!

Enquanto avançava no curso na Academia situada na Amadora ia prosseguindo também o Direito na Faculdade onde me vim a licenciar em 1976 no meio de uma grande confusão com passagens administrativas, assembleias-gerais de alunos, plenários, greves selvagens, partidos políticos, o mais assanhado dos quais era o MRPP do “grande camarada”  Arnaldo Matos, futuros dirigentes partidários agressivos, carteiras partidas, saneamentos, eu sabia lá que mais. Concluí o curso de Administração Militar com a especialidade de Serviço de Justiça e estou colocado no Supremo Tribunal Militar como Promotor de Justiça.

Mas o que interessa para já é o nosso Frederico que completou os 20 anos encontrou a mulher dos seus encantos com quem sonha desde o tempo de menino quando ambos andavam na João de Deus. Já pensam em casar. Acho bem pois embora sejam ambos portadores da mesma síndrome são responsáveis, inteligentes, saudáveis e não são só amigos pelo que se pode ver e, sobretudo sentir, amam-se. Elena é romena-portuguesa pois já nasceu em Lisboa, os pais tinham vindo para cá a fugir da tomada do poder pelos comunistas. É gentil e bonita e até pasme-se já ganhou um concurso de miss Simpatia. Como sempre e mesmo antes de dizer à mãe a sua intenção ele veio ter comigo e perguntou-me se eu achava bem e se lhe dava a minha bênção.

Fiquei comovido, fiquei mesmo muito comovido. Chegaram-me as lágrimas… mas contive-me. Nem precisei dizer-lhe que ia conversar com o meu travesseiro e no dia seguinte…, nada disso, respondi-lhe logo: “Se é a tua vontade e a da Elena não pensem muito pois há um ditado…” e ele, com uma gargalhada interrompeu-me: “Quem pensa não casa, e quem casa não pensa, mas no nosso caso quem casa deve pensar… pouco!” Caímos na galhofa de tal maneira e tais decibéis que o tio Jaime que nesse dia jantava lá na minha casa (a tia Elsa estava, adivinhem onde… na maternidade à espera do quinto rebento, aquilo era pior do que uma máquina de encher chouriços, salvo seja…) veio saber onde era o incêndio  por mor da sirene.

E dois meses depois foi o enlace que decorreu excelentemente, a Maria Rita e eu fomos os padrinhos do mano, o padrasto e a mãe da Elena  e o copo de água foi uma festa, uma reunião das duas famílias e alguns amigos que deu lá para as tantas. Finalmente as águas tinham acalmado ou, pelo menos, os ventos pareciam ter amainado. E bom era pois já bastava de contrariedades e de marés baixas. Na verdade, a Maria Rita e eu andávamos desde o princípio do matrimónio muito preocupados que pouco a pouco se foi transformando em muitíssimo. Ela não conseguia engravidar.

As cegonhas também fazem greve?


Bem tentávamos. Os nossos, desde as mães até aos tios, as avós, os avôs, o Olegário, o David, a Margarida, o Paulo, a Miquelina a Odete, o próprio Marques Freitas que já fora promovido a brigadeiro, todos nos diziam para termos calma, que éramos novos, tínhamos todo o tempo do mundo, um filho não se faz ao virar da esquina, era “falta de pontaria”, as cegonhas também têm o direito à greve e os putos eram uns brincalhões e perdiam-se... e e outras brincadeiras mas a realidade nua e crua é engravidar zero. Decidimos começar a fazer diligências médicas para pôr termo à expectativa cada vez mais frustrada e frustrante que dia a dia se ia transformando em pesadelo.

Já não sei quantos consultórios conhecemos, em quantos laboratórios  entrámos, através de quantos aparelhos fomos observados, micro e macro, bombardeados de ondas as mais diversas, aqui, lá fora onde alguém nos indicava li é que é, fazem milagres, um casal nosso amigo já desiludido deslocou-se lá e foi tiro e queda: um par de gémeos! Experimentem. Experimentámos. Nada. Até Fomos a bruxas e curandeiros com mezinhas milagrosas, santas com relíquias, voámos ao Brasil para fazer oferendas ao Orixá mais famoso a Rainha dos Mares Iemanjá, mas tudo em vão.

Dinheiro era coisa que não nos faltava, mas dinheiro não compra felicidade. E essa sim, essa faltava-nos. Essa não se avia na farmácia. De volta, na primeira classe do Jumbo da TAP vínhamos ouvindo o Martinho da Vila interpretando “A Felicidade” do Vinícius e do Jobim:

Martinho da Vila


“Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor…
Tristeza não tem fim
Felicidade sim…”

Esta era a última diligência médica que faríamos. Já munidos dos resultados uma vez mais negativos  decidimos apenas nó dois sem recurso a mais opiniões: íamos adoptar uma criança. E o primeiro a conhecer essa decisão seria o Frederico.
___________

(*) Romeno:
Casar
e ser
feliz

(Continua)



2018-09-06






Antunes Ferreira

Chinelando os seus paquidérmicos 92 quilos bem pesados a dona Ernestina mal terminara a transmissão do episódio da Escrava Isaura de que não perdia pitada e quando o cuco do relógio comprado numa venda de garagem cantava as 21 e 30 entrava no quarto da Janette que ocupava há mais de três anos. Na banquinha de cabeceira tinha a sua xícara com a tisana de camomila que tomou pois achava que a ajudava a dormir. A digna viúva do comerciante Manel Ximenes, depois do infausto acontecimento voltara para a casa dela onde aliás também vivia a filha com a família (era uma vivenda grande quase uma mansão de estilo vitoriano) mas sob o olhar desconfiado e crítico q.b. da família Ximenes.
 
Nota 10 nas paralelas
Montreal estava em 1977 a lamber as feridas de muitos milhões de dólares de prejuízos causados pelos Jogos Olímpicos do ano anterior. Mas ainda se recordava a medalha de prata do Carlos Lopes nos dez mil metros. Fora durante a competição que pela primeira vez no mundo uma ginasta conquistara a pontuação máxima: 10. A romena Nadia Comăneci nas paralelas que aliás ganharia mais dois. Estava-se num Novembro frigidíssimo e a Dona Ernestina meteu-se na cama com o saco de água quente aos pés, apesar da casa estar bem aquecida.

Na sala de jantar o senhor Teófilo Ximenes tinha decidido unanimemente só ele reunir o conselho de família para discutir pela quinquagésima segunda vez uma questão de suma importância sobre a qual até à data não fora possível chegar a acordo. Ximenes trabalhava com o Eng.º Joaquim Fraga, Cônsul honorário de Portugal em Montreal no escritório dele de import/export como despachante oficial que tinha 28 empregados a tempo inteiro mais dez em part time dos quais oito eram dactilógrafas. Uma firma importante. A menina Ermelinda, dactilógrafa, estava adstrita a ele, Teófilo só para tratar dos assuntos consulares que o engenheiro Fraga levava muito a peito.  Era no 32.º andar da Torre Norte da Place Desjardins.

O seu nome de baptismo fora-lhe atribuído pelo falecido pai, republicano dos quatro costados, em homenagem ao fugaz Presidente da República Teófilo Braga. Tinha vindo como imigrante para o Canadá chamado pelo tio Manel Ximenes, irmão do seu progenitor, que tinha um restaurante no bairro de Saint Laurent onde vivia a maior parte da comunidade portuguesa. Uma coisa pachola bem recheada onde às sextas e as sábados havia fados e guitarradas com caldo verde e bacalhau na brasa bem como rojões à moda do Minho com arroz dos miúdos do porco, arroz doce, leite creme, pudim caseiro e mousse de chocolate verdadeira, não daquelas de pacote, a que a cozinheira que era a dona Ernestina e esposa do patrão Manel depreciava de plástico.

Fados e guitarradas 


Abreviando. A Amélia Rodrigues, enteada dos patrões, era a caixa do Comida à Portuguesa, e o restante pessoal militava na equipa familiar e adjacente. As folhas dos calendários foram-se arrancando e foi acontecendo o que tinha de acontecer. A Amélia era boa a cantar o fado (e no resto) e chamava o público: Hoje fados com a grande Amélia Rodrigues (Compreendem, esperteza, alusão à grande Amália Rodrigues…) Como lhe competia ao tio Manel deu-lhe o badagaio, a dona Ernestina mandou às urtigas tachos e panelas e transferiu-se para o Sport Clube Das Viúvas Consoláveis, SCVC, à espera de alguém que o fizesse, não obstante debalde, dizia uma das netas, a Beta, nem de balde algum lá ia. Maldosa q.b., a moçoila.

O rebento Jean, em casa o João, e as rebentas, Jaquina, a Janette, a Ernestina, aliás Nanette e a Madalena, ou seja Maddy, eram o fruto do matrimónio do Teófilo com o Amélia. De resto fora este que se metera literalmente debaixo dele nas traseiras, alto lá, do restaurante, quer dizer fora ela quem comera o Teófilo, numa verdadeira  ser comida à portuguesa, depois de um verdadeiro assédio sexual no local de tralho que fizera no dito ao semi-primo, ingénuo e puro que chegara da Europa Para ganhar honestamente a vida sem saber a emboscada que a jovem semi-virgem (???)  lhe iria montar e que afinal quem seria montada era ela, a jovem não a emboscada.

Postos ao corrente das incidências e das concorrências e ainda das influências que delimitavam o plenário familiar relate-se o que e como ele decorreu, o que sendo recorrente para quem lê este estrago de linhas e parágrafos e etcs., para outros chega a ser novidade: o ponto da situação dos aposentos da dona Ernestina. Presentes: o Teófilo, que presidia, a Amélia que secretariava, as três filhas mais os três consortes (o Marc quebecois  da Nanette dizia ser comazar mas era pura provocação, ele lá sabia porquê), o papagaio Vicente e o gato Minou. O cágado Fosquinhas não compareceu, devia andar à caça de moscas, mas como não tinha enviado procuração teve falta injustificada.

No basement


Finalmente concluíram que à viúva, aliás proprietária da vivenda como atrás se disse, seriam apresentadas duas alternativas: ou passava a dormir na cave – aí o Marc perguntou o que era a cave? – era o basement traduziu a esposa o que motivou um comentário soez do gajo no horrível francês quebecois  Enfin ça va pour n'importe quoi… o que motivou um olhar assassino da visada e umas quantas gargalhadas entupidas à saída – ou seguia directa e  imediatamente para a Maison des Retirés du Commerce de Montréal, solução que estavam certos ela não aceitaria. Assim, fariam uma limpeza dos trastes eu lá em baixo havia mandavam reparar o frigorífico antigo e punham lá o anterior televisor bem como dispunham os móveis dela que ali estavam arrumados e pronto. Meu dito, meu feito. E a dona Ernestina desceu à cova, como ela disse, perdão disse a família ao basement.

Entretanto no Consulado honorário as coisas iam de vento em popa. Passaportes, Bilhetes de Identidade, Certidões diversas tudo nos conformes, tudo nas aplliances devidas, tudo com selo branco, enfim, um céu na terra, até que um dia a menina Ermelinda, rápida de dedos, parca de massa cinzenta comentou para o seu chefe: “Ó Senhor Teófilo aqui em Montreal há muitas primas na Segurança Social. Mete-me muita impressão haver tantas primas. É uma grande família…”

Código da Segurança Social


Ximenes que estava a estudar a tradução de um documento notarial para efeitos de naturalização nem a estava a ouvir. Mas a menina Ermelinda insistiu na estória das primas da segurança social.  Então ele franziu o sobreolho: “Primas? Quais primas? Ó mulher, o que é que você está para aí a dizer?” E ela muito senhora do seu nariz: “Pois pode crer, sempre que vem cá muitas portuguesas  meter as appliances  para a Sécurité Sociale dizem que têm primes a receber…”  Fez-se luz na cachimónia tiófiloniana: Não eram primas, eram prémios, eram subsídios! E esteve quase para dizer à dactilógrafa que era uma besta, mas chegou o engenheiro e… 






2018-08-31


É  DIFICIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE - 12

Entre dois dias:
um louco amor 
e um suicídio


Antunes Ferreira
Estiquei o braço, agarrei o auscultador, acabou a maldita campainha “Está lá?” Era o Pinguinhas, o telefonista do regimento: “Boa tarde meu alferes…” E eu, ainda meio estremunhado “Alferes? Estás bêbado a estas horas?!” Do outro lado da linha: “Estou mais do fino, tenho de lhe dar os meus parabéns saiu hoje à Ordem a sua promoção, quando voltar da licença tem de molhar os novos galões…” E disparou uma gargalhada tonitruante. “Ouve lá ó meu sacana telefonas-me, interrompendo-me um sonho cor-de-rosa só para me dar essa novidade?!!! Quando eu regressar vamos ajustar contas!!!...”

Consegui ouvir o gajo engolir em seco, depois: “Não senhor meu alferes, o nosso comandante quer falar consigo vou passá-lo já, mas informo-o já de que são três e meia da tarde.” E fez a ligação. Ouvi então a voz do coronel Marques Fialho: “Armando, muito boa tarde, desculpe estar a chateá-lo logo ao terceiro dia de férias. Não quero dar-lhe os parabéns pela promoção, aliás inteiramente merecida, mas o malandro do Pinguinhas já o deve ter posto ao corrente dela. Venha pedir-lhe que logo que possa passe aqui pelo quartel porque eu tenho uma coisa para lhe comunicar e não é assunto para telefone. Logo que possa…”

Obviamente que lhe respondi que estava de acordo mas como me encontrava em Colares ainda ia demorar uma hora até à Amadora e tentaria que até fosse menos, ao que ele me respondeu que não me lançasse à maluca não fosse o diabo tecê-las e o caso podia esperar. A Maria Rita também tinha acordado com a maldita campainha do telefone. Estávamos os dois estendidos nus na cama de casal dos meus pais no meio dos lençóis enrodilhados por uma noite em claro num louco combate de um louco amor sem fim. Pela primeira vez isso tinha acontecido em tais preparos. Antes só mais ou menos escondidos.

Era linda bem feita, com tudo no sítio


Já durante a viagem nos íamos provocando na brincadeira sobre o “programa dos festejos” o que levou que mal chegámos foi só fechar à chave a porta de entrada da vivenda e subir de escantilhão a escada que dava acesso ao primeiro andar e ao entramos no quarto de cama a Maria Rita começou a despir-me e soltou uma gargalhada maliciosa ao ver que quase não conseguia tirar-me os boxers de tal maneira eu tinha uma erecção. Depois fui eu quem a despiu e era linda nunca a tinha visto peladinha toda ela era bem feita com tudo no sítio.

Foi ela que puxou a colcha e os cobertores e o lençol de cima e já enlaçados caímos sobre a cama e começámos a beijar-nos com a Maria Rita partindo à descoberta das minudências do meu corpo parando aqui e ali e foi descendo até quedar-se junto aos meus cabelos púbicos e segurando o meu instrumento perguntou-me. ”Amor queres que lhe dê uns beijinhos?” Óbvio que lhe respondi que sim e ela começou a fazê-lo até que o engoliu e eu de cabeça perdida arfava enquanto ela ia chupando.

Que eu ainda sou virgem...


Em seguida as posições inverteram-se e fui eu quem percorreu o corpo dela até chegar ao triângulo peludo e tendo-lhe aberto as pernas comecei a beijá-la ali o que a levou a arquear-se enquanto gemia de prazer e de repente voltando acima disse-me ao ouvido. “Meu querido faz-me um filho!...” E quando me preparava para penetrá-la ela sussurrou-me “Cuidado amor vai devagarinho que eu ainda sou virgem…” Mas depois do primeiro embate e do desfloramento foi ela que começou: “ai que bom, agora mais depressa, agora mais depressaaa…” até que atingimos o orgasmo simultâneamente. O resto - não é preciso dizer mais apenas citar Camões “mais vale experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pode experimentá-lo…”

Cansados mas satisfeitos ficámos um ao lado do outro a Maria Rita chegou-se mais ao pé de mim encostou-se ao meu peito e começou a brincar com os meus pelos do peito e foi então que eu não me contive e perguntei-lhe pois se ela fizeram tudo tão bem feito onde é que aprendera e estive quase juntar e com quem? Ela entendeu perfeitamente e respondeu-me de mansinho: “Estás ciumento? Desconfias de mim?” E quando eu tentava balbuciar uma negativa ela continuou: “A minha prima Julinha foi como marido a Bordéus ver “O último tango em Paris” que aqui foi proibido como sabes. À volta trouxe-me três bobines de filmes pornográficos… ...Depois vamos vê-los juntos…Estás satisfeito?” Estava.

Daí a uma hora pouco mais ou menos parávamos no Regimento. Deixei a minha querida na messe de oficiais e dirigi-me ao gabinete do comandante. Para meu espanto já ali se encontravam o tio Miguel e o Frederico. Tinha passado mais dois anos e ele já completara os catorze mas aparentava mais. Depois dos cumprimentos o coronel Mesquita Fialho mandou o ordenança buscar umas bebidas e informou-me o que já dissera ao meu tio e ao meu irmão: o meu pai na manhã desse dia tinha-se suicidado.

Caiu-me a alma aos pés, ainda que não saiba muito bem onde está a alma. Dizia um médico operador nos princípios do século XX “nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi”. E o meu comandante explicou que no lar quando tinham ido levar o pequeno-almoço ao meu pai deram com ele com a cabeça esfacelada e com a pistola Parabellum ainda agarrada na mão caída. Naturalmente tinham chamado o médico em permanência mas fora uma simples formalidade, já não havia nada a fazer. Aguardavam a minha vinda para comunicar o facto à minha mãe e tratar dos preparativos para o funeral. Além disso, o médico dispensara a autópsia de tal modo era evidente o motivo do falecimento. E logo passara a certidão de óbito.

Porquê? Estranho?

No momento a minha maior preocupação era o Frederico que parecia um tanto absorto, semelhava estar ausente, não se encontrar ali. Perguntei-lhe se queria vir connosco, comigo e com a Maria Rita informar a mãe ao que ele pareceu regressar a este mundo e concordou. Por isso metemo-nos no carro depois de passar pela messe e apanhar a minha namorada e seguimos em direção à nossa casa. O mano ia calado mas de repente perguntou: “Armando por que razão o pai fez uma coisa daquelas? O senhor coronel disse-me que ele deixou uma carta para a família e outra só para mim. E que depois ma entregará. Estranho, não é?”.

Quer eu quer a Maria Rita não tínhamos como responder-lhe sem metermos os pés pelas mãos mas lá tentámos dizer-lhe que para o pai tinha-lhe caído tudo junto em cima, a paralisia e o cancro e ainda mais o problema psiquiátrico. Mesmo para um homem valente e habituado ao sofrimento nas piores circunstâncias e nas mais terríveis situações era demais, era insuportável. Cedera. Era tudo. Porém Frederico resmoneava no porquê no para quê e continuou assim no resto do caminho até chegarmos à porta de casa.

Quando íamos a entrar na garagem – tínhamos a sorte de possuir uma, o estacionamento na Lapa era dificílimo – ele disse que se ia calar para não amargurar mais a mãe que só com a má notícia iria ficar transtornada e logo corrigiu transtornadíssima. A Maria Rita olhou para mim e eu para ela e disfarçámos para ele não se dar conta da nossa admiração. Um portador da síndroma de Down como era o caso dele e ainda por cima com catorze anos raciocinava perfeitamente como se fora um adulto. Quase parecia um milagre. Mesmo para quem já não acreditava em milagres…

A notícia atropelou a nossa mãe pior do que se fosse um autocarro articulado, deixando-a atónita e sem conseguir falar, cordas de lágrimas corriam-lhe pela face subitamente lívida e a tremer e foi o Frederico que rapidamente se adiantou antes que ela desmaiasse e caísse e amparando-a a ajudou a sentar-se no maple duplo. E ficou ele ao lado dela segurando-lhe as mãos nas dele enquanto sussurrava: “minha mãe querida, minha mãe querida, sossega que eu esto aqui…” lengalenga que ia repetindo como quem embalava uma criança. A Maria Rita e eu olhávamos para a cena e não queríamos acreditar no que víamos. Era ao mesmo tempo tão triste e tão bonita e o nosso Frederico era o actor principal.

Sentámo-nos então de mãos dadas e assim ficámos por momentos calados pensando eu que começara o dia anterior tão belo e que se prolongara por uma noite de sonho para acabar num desastre total. A vida é mesmo madrasta. Mas não nos podiamos deixar vencer. Era preciso pegar a desgraça pelos cornos e começar a tratar dos assuntos que se anunciavam complicados. E surgiu-me de imediato à memória uma situação muitíssimo especial com uma solução imediata e correcta.

O Marquês de Pombal

Num país habituado a adiar e a deixar para amanhã o que podia fazer-se hoje, Sebastião José de Carvalho e Melo agiu sem delongas. Logo após o devastador terramoto de 1755, perante a inoperância de D. José I, o Marquês de Pombal tomou conta da situação com uma frase que ficaria para a posteridade. O país estava de restos e principalmente reduzida a escombros. Para além do sismo tinha havido simultaneamente a invasão da capital pelo Tejo. Quando o aterrorizado monarca lhe perguntou o que fazer, Marquês do Pombal respondeu-lhe, ‘Sepultar os mortos e cuidar dos vivos’. D. José não fez nem uma coisa, nem outra, deixando ao seu secretário de Estado do Reino a responsabilidade de ficar para a História.

Para a história atribulada da nossa família passava a ficar não apenas a pessoa do Frederico mas também as suas atitudes. E no futuro como seria?
(Continua)

2018-08-22



Uma (quase) Feira Pré-Histórica

Antunes Ferreira
Desde há uns tempos que vinha matutando numa peregrina ideia fruto de notícias recorrentes que iam aparecendo em diferentes meios de comunicação ou para ser mais correctamente político media – leia-se por favor mídia – as feiras medievais. Pois se por todo o santo país (ou por quase, quase, quase todo) elas proliferam quais cogumelos e ainda por cima sem esporos, por que bulas o meu bairro não haveria de ter direito de organizar uma à maneira com todos os éfes e érres necessários e suficientes para surtir uma maravilha? Porquê?

Deitei mãos ao trabalho. De resto, permitam-me que vos diga que essa estória da reforma significar ripanço, sofá, mãos placidamente cruzadas na barriga, dormitando em frente do televisor mas atenção com uma bejeca ou um copo de uísque (agora é mais gin) de preferência gozando as delícias do ar condicionado, isto nos finais do Outono ou no Inverno.

Um perigo mundial


O pior é que apesar do mister Trump - um perigo mundial -  dizer que não há nada e o dólar é very strong tudo indica que já pouco resta das estações do ano o que resta é cada vez mais duvidoso, são dias miseráveis absolutamente ao contrário do que deviam ser, tímida Primavera ou no dúbio Verão, estendido numa espreguiçadeira, munido dos mesmos ingredientes no estado líquido, óculos escuros e protector solar. Se eu fosse rico teria um escravo núbio a abanar-me com um grande leque de penas de avestruz no pino do calor que agora é muito por mor de uma massa de ar quente que não é tagliatelle ou fusilli ou sequer o comezinho e nacional esparguete.
  
Porém, a Graça coliponense escreveu há meses sobre a proliferação ridícula das feiras medievais; escreveu e bem mas deixou-me enrascado. Passo a explicar. Lá se foi a intenção à vida e logo ela que me parecia uma coisa janota, até mesmo bué fixe. Mas nada de desanimar. E decidi mudar a agulha tal como fazem os senhores dos eléctritos da Carris para uma feira pré-histórica. Mas, para atingir esse desiderato tinha obviamente de estudar e para tanto documentar-me.

O lugar onde devia já estar


Não estamos de modo nenhum na época dos dinossauros, aliás quem disso sabe é o prof. Galopim a quem comecei por mandar um imeile pedindo-lhe auxílio para a empreitada a que metera ombros, para ser mais correcto cabeça, tronco e membros (incluindo obviamente os ombros). Resultado: zero, pior só o famigerado BdeC. Refiro-me naturalmente ao resultado. Mas não desarmei.



Como é evidente o energúmeno ex-presidente do meu Sporting Clube de Portugal (o único a quem isso aconteceu!) que ainda está em liberdade mas já devia encontrar-se a ver o sol aos quadradinhos também tentou participar na Feira mas obviamente como manda chuva dela. Uma vez mais saiu-se mal porque eu estava avisado das trampolinices do sacana. E quem não estaria, tantas têm sido? Basta que se veja o que o pulha tem vindo a fazer ao Sporting tentando desestabilizar o clube do meu coração. 

Sem legenda


Numa altura em que o empreendorismo é factor determinante para alcançar os objectivos a que um cidadão se propõe (não é assim que dizem os futebolistas nas flash interviews?) consultei o Manual do Empreendedor do IAPMEI e retirei dele as duas expressões seguintes nas suas versões inglesa e portuguesa. Ora vejam:
«There are gaps in the market which need to be filled especially at the start-up stage
Ora o mercado apresenta lacunas que devem ser colmatadas nomeadamente na fase de lançamento e
From this point of view, I support the programme of start-up facilities for small SMEs.
Nesta perspectiva, apoio o programa de mecanismos de apoio ao arranque, destinado às pequenas PME.»

Nada mais claro, onde se lê PME leia-se feira pré-histórica e está feito.

Agora só me faltava avançar. Ora dois quarteirões acima do meu há um terreno devoluto cuja proprietária é a Junta da Freguesia e por isso fiz um requerimento ao Excelentíssimo Senhor Presidente dela, aliás um engenheiro reformado com muito bom aspecto rogando-lhe autorização para utilizar durante três meses o dito cujo terreno e explicando-lhe o motivo do pedido.

Foi tiro e queda. Em três dias saiu o deferimento acompanhado de um aditamento em que a Junta se punha à disposição para qualquer ajuda que fosse necessária exceptuada qualquer contribuição monetária, que era o de que mais necessitava. Mas postas ao corrente dele as forças vivas e até uma agência funerária aceitaram entrar com umas massas, sendo que o dono do talho A Posta Mirandesa, o senhor Adosindo, que era portuense, afirmou que por ele não haberia qualquer problema com o guito, carago.

Sol e Estrela


Abreviando, o Lim Pó Pó da loja chinesa Sol e Estrela forneceria o esferovite para fazer as cavernas para os homo sapiens que seriam desenhadas e montadas pelos senhores Konstantin Bulgokov, Yvan Mykolev e Nikolai Kostalov, porteiros búlgaros de prédios adjacentes, arquitecto, engenheiro e médico, aguardando regularização profissional. Os feirantes usariam trajes condicentes feitos de peles sintéticas obviamente fornecidas por empréstimo a contrato pelo senhor Lim Pó Pó, com garantia de devolução em bom estado, em caso contrário pagamento, do tipo futebolistas.

Tudo seguia de feição quando o Serafim do Apito Encarnado, restaurante/bar com jogos da Santa Casa disse ao Meia Leca do Laranjinha que havia mosquitos por cordas quanto às tasquinhas para vendas na feira. Tinha ficado acordado que só seriam produtos originários de regiões das feirantes os quais pagariam uma taxa para ali exporem os respectivos bens à venda. Fora aberta apenas uma excepção: como estava na berra haveria uma tasquinha vegan. Mas o que começara a correr era que havia moscambilha e da grossa.

Sem legenda


E além disso o ajudante Marquinhos da Farmácia Vida Saudável que queria vender fruta alegadamente duma quinta que tinha em Alcobaça, o que era uma redonda trapaça e que face às dimensões do animal ou seja eu dissera que estava encontrado o Argentinossaurus, cujo fóssil fora encontrado na Argentina e que pesava entre as sessenta e as cem toneladas.

Face a isto e entre um processo crime em local próprio, uma providência cautelar  (não sei bem para quê, mas está na moda) agressão qualificada ou desistência do projecto, com muita pena optei pela última. R.I.P.     

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2018-08-16


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 11



Um maldito
cancro
no pâncreas
Antunes Ferreira
Entrámos. O ´quarto era amplo – de dimensões para oficial – e estava mobilado com uma cama ortopédica dois cadeirões pretos uma banquinha de cabeceira e uma coluna onde se encontrava pendurada uma embalagem de soro com o respectivo tubo. O meu pai estava sentado num cadeirão também ortopédico com uma manta sobre os joelhos e um casacão militar pelos ombros.
Sem legenda

A minha mãe num dos cadeirões para as visitas lia o  “John, Chauffeur Russo” do Max du Vezyt numa edição Romano Torres que na época era um grande sucesso e a tia Elsa no outro tricotava pareceu-me um casaquinho de lã azul celeste. Ambas pararam à nossa chegada e fez-se um vazio de som de cortar à faca. O meu pai que estava de cabeça baixa e parecia dormitar, levantou-a e perguntou com voz soturna “o meu silêncio incomoda?” e só então deu pela nossa presença.

Ficou estupefacto quando deu com o Frederico, abriu a boca mas não soltou qualquer som, como se a voz se lhe tivesse ficado parada no tempo e de repente disse baixinho “Frederico…” O meu irmão respondeu-lhe um pouco mais alto “Sou eu meu pai, sou eu sim senhor, vim ver como está…” Estava-se no pino do Inverno, havia um calorífero a óleo, não se via uma mosca, mas se uma houvera não se ouviria um só zumbido. O capitão Gilberto Saraiva Mendes abriu os braços e disse para o filho caçula “Perdoa-me Frederico…” – e, coisa inaudita, correram-lhe grossas lágrimas pela face.

Este avançou, chegou junto ao pai e disse-lhe suavemente “meu pai perdoar-lhe o quê?” e ajoelhando-se estendeu os braços e abraçou-o no que foi correspondido pelo progenitor e ficaram assim unidos um longo amplexo e só depois o mano tirou o lenço do bolso e começou a limpar o rosto do pai. “Eu sei perfeitamente o que aconteceu quando nasci porque depois de ter chateado muito a Miquelina obriguei-a a contar-me toda a estória…” Ninguém ocultava o espanto perante tal revelação mas eu sobretudo pensava para com os meus botões como era incrível que um rapaz apenas com doze anos e com tamanha deficiência falava com tanta clareza e determinação.

“Meu pai pode estar certo de que eu sou portador da síndroma de Down mas felizmente não sou parvo bem pelo contrário. Sei perfeitamente que o desiludi e que não gostou de mim pelo facto de eu ter nascido assim embora tal não tivesse sido por minha culpa. Mas o que lá vai lá vai e agora o que me interessa é recuperar os anos em que estivemos separados para poder ama-lo como um filho tem de amar um pai.” Gilberto, soluçava a seco agarrado ao filho Frederico e só conseguia dizer “meu filho, meu querido filho, como tu falas verdade, meu querido filho, não te mereço…”
Soldadinhos de chumbo

Aí o meu mano mais novo saiu-se com oura novidade: “O meu pai sabe que eu guardo as duas caixas de soldadinhos de chumbo?” O capitão não escondeu o espanto e o sobressalto: “Como assim? Eu tinha-as levado, ou melhor roubado para dar a umas pessoas, agora não interessa quem, mas ao sair do portão da nossa casa não sei porquê arrependi-me e deitei-as para o caixote do lixo!” O Frederico deu uma peque gargalhada: “Mas a Ângela porteira apanhou-as e veio entregá-las lá acima e a mãe guardou-as e assim que eu pude comecei a brincar com elas!”

Ficámos ali a desbobinar a tarde com o Frederico no centro das conversas até que chegaram os tios Miguel e Jaime que traziam os carros e nos iam buscar. Foi aí que se verificou uma questão muito embaraçosa quando o meu irmão perguntou ao pai se depois de ter alta ele voltaria para casa. O tio Miguel pigarreou, toda a gente se fechou em copas até que o capitão Gilberto desembrulhou o atilho revelando que achava melhor que primeiro fosse para o Lar Militar que havia em Runa e depois logo se veria, mas que por enquanto ainda ficaria mais uns tempos ali onde o podiam visitar sempre que o quisessem e pudessem fazer.

E voltámos a casa como Frederico um tanto macambúzio coisa que nele não era habitual. Durante o curto percurso não abriu a boca. Chovia a cântaros. Estava combinado que jantaríamos ali e foi também então que a tia Elsa anunciou um tanto ruborizada que estava novamente de esperanças e já ia nos três meses. Foi decidido unanimemente e por aclamação (como se diz na Assembleia Nacional…) meter três garrafas de Raposeira meio seco no frigorífico para comemorar depois do jantar e a Miquelina informada da ocorrência meteu a colher de pau à obra e fez um pudim de ovos gigante. Só perante a euforia o Frederico bateu as palmas e entrou na festa.

Regimento de Infantaria 1

Dou um outro salto de dois anos sem nada de muito especial neste período a não ser que tinha entrado para o COM, o Curso de Oficiais Milicianos, (ainda não terminara o Direito, estava no quarto ano) e no final dele ficara colocado no Regimento de Infantaria Um, o RI1, na Amadora, como aspirante a oficial miliciano desempenhando as funções de oficial da PJM a Polícia Judiciária Militar, ou seja elaborando os autos e os processos diversos pois já tinha os conhecimentos suficientes para o fazer. O meu pai estava encantado com a minha nova situação e a primeira vez que me vira fardado dissera-me que quase lhe dera um badagaio…

Mas quem ficou realmente muito feliz foi o Frederico que já ia nos seus quinze anos e já fazia a barba (que alias era escassa e esparsa e que eu dizia que fora plantada num dia de vendaval… com grandes gargalhadas dele) e deixara crescer (???) uma “hipótese” de bigode. Estava cada vez mais adulto e o lugar que tinha na empresa já era fixo, o ordenado merecia-o, o patrão estava satisfeitíssimo com ele, os colegas continuavam a apoia-lo e os avanços que registava dia-após-dia eram realmente notáveis. Por outro lado as relações com o pai Gilberto tinham-se tornado imprescindíveis eram confidentes um do outro, viviam num sétimo céu.

Porém depois da bonança vem a tempestade. Por uma tarde encarolada de Agosto, o comandante do Regimento, o coronel Marques Fialho, chamou-me ao seu gabinete, mandou-me fechar a porta e convidou-me a sentar-me. Assim fiz e ele começou. “Não sei se você sabe mas eu e o seu pai somos muito amigos desde a Escola do Exército, ele podia ser coronel como eu mas meteu-se numas maluquices e…” atalhei dizendo que sabia e ele continuou: “então também sabe que ele gostava que você seguisse a carreira militar, mas parece que não está para aí virado e…” voltei a interrompê-lo “Desculpar-me-á meu comandante mas não nasci para herói…” O coronel Marques Fialho retorquiu-me: “Nenhum homem nasce herói. As ocasiões é que fazem os heróis!”
Um maldito cancro no pâncreas

“Mas ouça, Armando, trato-o assim, como se fosse meu filho, a decisão é sua, não o quero influenciar. Todavia quando o chamei não era para falar do seu futuro como militar. Era para lhe comunicar que infelizmente o seu pai e meu grande amigo tem um cancro no pâncreas.” Tinha-me caído o Mundo em cima. Que mais me podia acontecer?...   

(Continua)