2018-08-31


É  DIFICIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE - 12

Entre dois dias:
um louco amor 
e um suicídio


Antunes Ferreira
Estiquei o braço, agarrei o auscultador, acabou a maldita campainha “Está lá?” Era o Pinguinhas, o telefonista do regimento: “Boa tarde meu alferes…” E eu, ainda meio estremunhado “Alferes? Estás bêbado a estas horas?!” Do outro lado da linha: “Estou mais do fino, tenho de lhe dar os meus parabéns saiu hoje à Ordem a sua promoção, quando voltar da licença tem de molhar os novos galões…” E disparou uma gargalhada tonitruante. “Ouve lá ó meu sacana telefonas-me, interrompendo-me um sonho cor-de-rosa só para me dar essa novidade?!!! Quando eu regressar vamos ajustar contas!!!...”

Consegui ouvir o gajo engolir em seco, depois: “Não senhor meu alferes, o nosso comandante quer falar consigo vou passá-lo já, mas informo-o já de que são três e meia da tarde.” E fez a ligação. Ouvi então a voz do coronel Marques Fialho: “Armando, muito boa tarde, desculpe estar a chateá-lo logo ao terceiro dia de férias. Não quero dar-lhe os parabéns pela promoção, aliás inteiramente merecida, mas o malandro do Pinguinhas já o deve ter posto ao corrente dela. Venha pedir-lhe que logo que possa passe aqui pelo quartel porque eu tenho uma coisa para lhe comunicar e não é assunto para telefone. Logo que possa…”

Obviamente que lhe respondi que estava de acordo mas como me encontrava em Colares ainda ia demorar uma hora até à Amadora e tentaria que até fosse menos, ao que ele me respondeu que não me lançasse à maluca não fosse o diabo tecê-las e o caso podia esperar. A Maria Rita também tinha acordado com a maldita campainha do telefone. Estávamos os dois estendidos nus na cama de casal dos meus pais no meio dos lençóis enrodilhados por uma noite em claro num louco combate de um louco amor sem fim. Pela primeira vez isso tinha acontecido em tais preparos. Antes só mais ou menos escondidos.

Era linda bem feita, com tudo no sítio


Já durante a viagem nos íamos provocando na brincadeira sobre o “programa dos festejos” o que levou que mal chegámos foi só fechar à chave a porta de entrada da vivenda e subir de escantilhão a escada que dava acesso ao primeiro andar e ao entramos no quarto de cama a Maria Rita começou a despir-me e soltou uma gargalhada maliciosa ao ver que quase não conseguia tirar-me os boxers de tal maneira eu tinha uma erecção. Depois fui eu quem a despiu e era linda nunca a tinha visto peladinha toda ela era bem feita com tudo no sítio.

Foi ela que puxou a colcha e os cobertores e o lençol de cima e já enlaçados caímos sobre a cama e começámos a beijar-nos com a Maria Rita partindo à descoberta das minudências do meu corpo parando aqui e ali e foi descendo até quedar-se junto aos meus cabelos púbicos e segurando o meu instrumento perguntou-me. ”Amor queres que lhe dê uns beijinhos?” Óbvio que lhe respondi que sim e ela começou a fazê-lo até que o engoliu e eu de cabeça perdida arfava enquanto ela ia chupando.

Que eu ainda sou virgem...


Em seguida as posições inverteram-se e fui eu quem percorreu o corpo dela até chegar ao triângulo peludo e tendo-lhe aberto as pernas comecei a beijá-la ali o que a levou a arquear-se enquanto gemia de prazer e de repente voltando acima disse-me ao ouvido. “Meu querido faz-me um filho!...” E quando me preparava para penetrá-la ela sussurrou-me “Cuidado amor vai devagarinho que eu ainda sou virgem…” Mas depois do primeiro embate e do desfloramento foi ela que começou: “ai que bom, agora mais depressa, agora mais depressaaa…” até que atingimos o orgasmo simultâneamente. O resto - não é preciso dizer mais apenas citar Camões “mais vale experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pode experimentá-lo…”

Cansados mas satisfeitos ficámos um ao lado do outro a Maria Rita chegou-se mais ao pé de mim encostou-se ao meu peito e começou a brincar com os meus pelos do peito e foi então que eu não me contive e perguntei-lhe pois se ela fizeram tudo tão bem feito onde é que aprendera e estive quase juntar e com quem? Ela entendeu perfeitamente e respondeu-me de mansinho: “Estás ciumento? Desconfias de mim?” E quando eu tentava balbuciar uma negativa ela continuou: “A minha prima Julinha foi como marido a Bordéus ver “O último tango em Paris” que aqui foi proibido como sabes. À volta trouxe-me três bobines de filmes pornográficos… ...Depois vamos vê-los juntos…Estás satisfeito?” Estava.

Daí a uma hora pouco mais ou menos parávamos no Regimento. Deixei a minha querida na messe de oficiais e dirigi-me ao gabinete do comandante. Para meu espanto já ali se encontravam o tio Miguel e o Frederico. Tinha passado mais dois anos e ele já completara os catorze mas aparentava mais. Depois dos cumprimentos o coronel Mesquita Fialho mandou o ordenança buscar umas bebidas e informou-me o que já dissera ao meu tio e ao meu irmão: o meu pai na manhã desse dia tinha-se suicidado.

Caiu-me a alma aos pés, ainda que não saiba muito bem onde está a alma. Dizia um médico operador nos princípios do século XX “nunca encontrei a alma na ponta do meu bisturi”. E o meu comandante explicou que no lar quando tinham ido levar o pequeno-almoço ao meu pai deram com ele com a cabeça esfacelada e com a pistola Parabellum ainda agarrada na mão caída. Naturalmente tinham chamado o médico em permanência mas fora uma simples formalidade, já não havia nada a fazer. Aguardavam a minha vinda para comunicar o facto à minha mãe e tratar dos preparativos para o funeral. Além disso, o médico dispensara a autópsia de tal modo era evidente o motivo do falecimento. E logo passara a certidão de óbito.

Porquê? Estranho?

No momento a minha maior preocupação era o Frederico que parecia um tanto absorto, semelhava estar ausente, não se encontrar ali. Perguntei-lhe se queria vir connosco, comigo e com a Maria Rita informar a mãe ao que ele pareceu regressar a este mundo e concordou. Por isso metemo-nos no carro depois de passar pela messe e apanhar a minha namorada e seguimos em direção à nossa casa. O mano ia calado mas de repente perguntou: “Armando por que razão o pai fez uma coisa daquelas? O senhor coronel disse-me que ele deixou uma carta para a família e outra só para mim. E que depois ma entregará. Estranho, não é?”.

Quer eu quer a Maria Rita não tínhamos como responder-lhe sem metermos os pés pelas mãos mas lá tentámos dizer-lhe que para o pai tinha-lhe caído tudo junto em cima, a paralisia e o cancro e ainda mais o problema psiquiátrico. Mesmo para um homem valente e habituado ao sofrimento nas piores circunstâncias e nas mais terríveis situações era demais, era insuportável. Cedera. Era tudo. Porém Frederico resmoneava no porquê no para quê e continuou assim no resto do caminho até chegarmos à porta de casa.

Quando íamos a entrar na garagem – tínhamos a sorte de possuir uma, o estacionamento na Lapa era dificílimo – ele disse que se ia calar para não amargurar mais a mãe que só com a má notícia iria ficar transtornada e logo corrigiu transtornadíssima. A Maria Rita olhou para mim e eu para ela e disfarçámos para ele não se dar conta da nossa admiração. Um portador da síndroma de Down como era o caso dele e ainda por cima com catorze anos raciocinava perfeitamente como se fora um adulto. Quase parecia um milagre. Mesmo para quem já não acreditava em milagres…

A notícia atropelou a nossa mãe pior do que se fosse um autocarro articulado, deixando-a atónita e sem conseguir falar, cordas de lágrimas corriam-lhe pela face subitamente lívida e a tremer e foi o Frederico que rapidamente se adiantou antes que ela desmaiasse e caísse e amparando-a a ajudou a sentar-se no maple duplo. E ficou ele ao lado dela segurando-lhe as mãos nas dele enquanto sussurrava: “minha mãe querida, minha mãe querida, sossega que eu esto aqui…” lengalenga que ia repetindo como quem embalava uma criança. A Maria Rita e eu olhávamos para a cena e não queríamos acreditar no que víamos. Era ao mesmo tempo tão triste e tão bonita e o nosso Frederico era o actor principal.

Sentámo-nos então de mãos dadas e assim ficámos por momentos calados pensando eu que começara o dia anterior tão belo e que se prolongara por uma noite de sonho para acabar num desastre total. A vida é mesmo madrasta. Mas não nos podiamos deixar vencer. Era preciso pegar a desgraça pelos cornos e começar a tratar dos assuntos que se anunciavam complicados. E surgiu-me de imediato à memória uma situação muitíssimo especial com uma solução imediata e correcta.

O Marquês de Pombal

Num país habituado a adiar e a deixar para amanhã o que podia fazer-se hoje, Sebastião José de Carvalho e Melo agiu sem delongas. Logo após o devastador terramoto de 1755, perante a inoperância de D. José I, o Marquês de Pombal tomou conta da situação com uma frase que ficaria para a posteridade. O país estava de restos e principalmente reduzida a escombros. Para além do sismo tinha havido simultaneamente a invasão da capital pelo Tejo. Quando o aterrorizado monarca lhe perguntou o que fazer, Marquês do Pombal respondeu-lhe, ‘Sepultar os mortos e cuidar dos vivos’. D. José não fez nem uma coisa, nem outra, deixando ao seu secretário de Estado do Reino a responsabilidade de ficar para a História.

Para a história atribulada da nossa família passava a ficar não apenas a pessoa do Frederico mas também as suas atitudes. E no futuro como seria?
(Continua)

2018-08-22



Uma (quase) Feira Pré-Histórica

Antunes Ferreira
Desde há uns tempos que vinha matutando numa peregrina ideia fruto de notícias recorrentes que iam aparecendo em diferentes meios de comunicação ou para ser mais correctamente político media – leia-se por favor mídia – as feiras medievais. Pois se por todo o santo país (ou por quase, quase, quase todo) elas proliferam quais cogumelos e ainda por cima sem esporos, por que bulas o meu bairro não haveria de ter direito de organizar uma à maneira com todos os éfes e érres necessários e suficientes para surtir uma maravilha? Porquê?

Deitei mãos ao trabalho. De resto, permitam-me que vos diga que essa estória da reforma significar ripanço, sofá, mãos placidamente cruzadas na barriga, dormitando em frente do televisor mas atenção com uma bejeca ou um copo de uísque (agora é mais gin) de preferência gozando as delícias do ar condicionado, isto nos finais do Outono ou no Inverno.

Um perigo mundial


O pior é que apesar do mister Trump - um perigo mundial -  dizer que não há nada e o dólar é very strong tudo indica que já pouco resta das estações do ano o que resta é cada vez mais duvidoso, são dias miseráveis absolutamente ao contrário do que deviam ser, tímida Primavera ou no dúbio Verão, estendido numa espreguiçadeira, munido dos mesmos ingredientes no estado líquido, óculos escuros e protector solar. Se eu fosse rico teria um escravo núbio a abanar-me com um grande leque de penas de avestruz no pino do calor que agora é muito por mor de uma massa de ar quente que não é tagliatelle ou fusilli ou sequer o comezinho e nacional esparguete.
  
Porém, a Graça coliponense escreveu há meses sobre a proliferação ridícula das feiras medievais; escreveu e bem mas deixou-me enrascado. Passo a explicar. Lá se foi a intenção à vida e logo ela que me parecia uma coisa janota, até mesmo bué fixe. Mas nada de desanimar. E decidi mudar a agulha tal como fazem os senhores dos eléctritos da Carris para uma feira pré-histórica. Mas, para atingir esse desiderato tinha obviamente de estudar e para tanto documentar-me.

O lugar onde devia já estar


Não estamos de modo nenhum na época dos dinossauros, aliás quem disso sabe é o prof. Galopim a quem comecei por mandar um imeile pedindo-lhe auxílio para a empreitada a que metera ombros, para ser mais correcto cabeça, tronco e membros (incluindo obviamente os ombros). Resultado: zero, pior só o famigerado BdeC. Refiro-me naturalmente ao resultado. Mas não desarmei.



Como é evidente o energúmeno ex-presidente do meu Sporting Clube de Portugal (o único a quem isso aconteceu!) que ainda está em liberdade mas já devia encontrar-se a ver o sol aos quadradinhos também tentou participar na Feira mas obviamente como manda chuva dela. Uma vez mais saiu-se mal porque eu estava avisado das trampolinices do sacana. E quem não estaria, tantas têm sido? Basta que se veja o que o pulha tem vindo a fazer ao Sporting tentando desestabilizar o clube do meu coração. 

Sem legenda


Numa altura em que o empreendorismo é factor determinante para alcançar os objectivos a que um cidadão se propõe (não é assim que dizem os futebolistas nas flash interviews?) consultei o Manual do Empreendedor do IAPMEI e retirei dele as duas expressões seguintes nas suas versões inglesa e portuguesa. Ora vejam:
«There are gaps in the market which need to be filled especially at the start-up stage
Ora o mercado apresenta lacunas que devem ser colmatadas nomeadamente na fase de lançamento e
From this point of view, I support the programme of start-up facilities for small SMEs.
Nesta perspectiva, apoio o programa de mecanismos de apoio ao arranque, destinado às pequenas PME.»

Nada mais claro, onde se lê PME leia-se feira pré-histórica e está feito.

Agora só me faltava avançar. Ora dois quarteirões acima do meu há um terreno devoluto cuja proprietária é a Junta da Freguesia e por isso fiz um requerimento ao Excelentíssimo Senhor Presidente dela, aliás um engenheiro reformado com muito bom aspecto rogando-lhe autorização para utilizar durante três meses o dito cujo terreno e explicando-lhe o motivo do pedido.

Foi tiro e queda. Em três dias saiu o deferimento acompanhado de um aditamento em que a Junta se punha à disposição para qualquer ajuda que fosse necessária exceptuada qualquer contribuição monetária, que era o de que mais necessitava. Mas postas ao corrente dele as forças vivas e até uma agência funerária aceitaram entrar com umas massas, sendo que o dono do talho A Posta Mirandesa, o senhor Adosindo, que era portuense, afirmou que por ele não haberia qualquer problema com o guito, carago.

Sol e Estrela


Abreviando, o Lim Pó Pó da loja chinesa Sol e Estrela forneceria o esferovite para fazer as cavernas para os homo sapiens que seriam desenhadas e montadas pelos senhores Konstantin Bulgokov, Yvan Mykolev e Nikolai Kostalov, porteiros búlgaros de prédios adjacentes, arquitecto, engenheiro e médico, aguardando regularização profissional. Os feirantes usariam trajes condicentes feitos de peles sintéticas obviamente fornecidas por empréstimo a contrato pelo senhor Lim Pó Pó, com garantia de devolução em bom estado, em caso contrário pagamento, do tipo futebolistas.

Tudo seguia de feição quando o Serafim do Apito Encarnado, restaurante/bar com jogos da Santa Casa disse ao Meia Leca do Laranjinha que havia mosquitos por cordas quanto às tasquinhas para vendas na feira. Tinha ficado acordado que só seriam produtos originários de regiões das feirantes os quais pagariam uma taxa para ali exporem os respectivos bens à venda. Fora aberta apenas uma excepção: como estava na berra haveria uma tasquinha vegan. Mas o que começara a correr era que havia moscambilha e da grossa.

Sem legenda


E além disso o ajudante Marquinhos da Farmácia Vida Saudável que queria vender fruta alegadamente duma quinta que tinha em Alcobaça, o que era uma redonda trapaça e que face às dimensões do animal ou seja eu dissera que estava encontrado o Argentinossaurus, cujo fóssil fora encontrado na Argentina e que pesava entre as sessenta e as cem toneladas.

Face a isto e entre um processo crime em local próprio, uma providência cautelar  (não sei bem para quê, mas está na moda) agressão qualificada ou desistência do projecto, com muita pena optei pela última. R.I.P.     

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2018-08-16


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 11



Um maldito
cancro
no pâncreas
Antunes Ferreira
Entrámos. O ´quarto era amplo – de dimensões para oficial – e estava mobilado com uma cama ortopédica dois cadeirões pretos uma banquinha de cabeceira e uma coluna onde se encontrava pendurada uma embalagem de soro com o respectivo tubo. O meu pai estava sentado num cadeirão também ortopédico com uma manta sobre os joelhos e um casacão militar pelos ombros.
Sem legenda

A minha mãe num dos cadeirões para as visitas lia o  “John, Chauffeur Russo” do Max du Vezyt numa edição Romano Torres que na época era um grande sucesso e a tia Elsa no outro tricotava pareceu-me um casaquinho de lã azul celeste. Ambas pararam à nossa chegada e fez-se um vazio de som de cortar à faca. O meu pai que estava de cabeça baixa e parecia dormitar, levantou-a e perguntou com voz soturna “o meu silêncio incomoda?” e só então deu pela nossa presença.

Ficou estupefacto quando deu com o Frederico, abriu a boca mas não soltou qualquer som, como se a voz se lhe tivesse ficado parada no tempo e de repente disse baixinho “Frederico…” O meu irmão respondeu-lhe um pouco mais alto “Sou eu meu pai, sou eu sim senhor, vim ver como está…” Estava-se no pino do Inverno, havia um calorífero a óleo, não se via uma mosca, mas se uma houvera não se ouviria um só zumbido. O capitão Gilberto Saraiva Mendes abriu os braços e disse para o filho caçula “Perdoa-me Frederico…” – e, coisa inaudita, correram-lhe grossas lágrimas pela face.

Este avançou, chegou junto ao pai e disse-lhe suavemente “meu pai perdoar-lhe o quê?” e ajoelhando-se estendeu os braços e abraçou-o no que foi correspondido pelo progenitor e ficaram assim unidos um longo amplexo e só depois o mano tirou o lenço do bolso e começou a limpar o rosto do pai. “Eu sei perfeitamente o que aconteceu quando nasci porque depois de ter chateado muito a Miquelina obriguei-a a contar-me toda a estória…” Ninguém ocultava o espanto perante tal revelação mas eu sobretudo pensava para com os meus botões como era incrível que um rapaz apenas com doze anos e com tamanha deficiência falava com tanta clareza e determinação.

“Meu pai pode estar certo de que eu sou portador da síndroma de Down mas felizmente não sou parvo bem pelo contrário. Sei perfeitamente que o desiludi e que não gostou de mim pelo facto de eu ter nascido assim embora tal não tivesse sido por minha culpa. Mas o que lá vai lá vai e agora o que me interessa é recuperar os anos em que estivemos separados para poder ama-lo como um filho tem de amar um pai.” Gilberto, soluçava a seco agarrado ao filho Frederico e só conseguia dizer “meu filho, meu querido filho, como tu falas verdade, meu querido filho, não te mereço…”
Soldadinhos de chumbo

Aí o meu mano mais novo saiu-se com oura novidade: “O meu pai sabe que eu guardo as duas caixas de soldadinhos de chumbo?” O capitão não escondeu o espanto e o sobressalto: “Como assim? Eu tinha-as levado, ou melhor roubado para dar a umas pessoas, agora não interessa quem, mas ao sair do portão da nossa casa não sei porquê arrependi-me e deitei-as para o caixote do lixo!” O Frederico deu uma peque gargalhada: “Mas a Ângela porteira apanhou-as e veio entregá-las lá acima e a mãe guardou-as e assim que eu pude comecei a brincar com elas!”

Ficámos ali a desbobinar a tarde com o Frederico no centro das conversas até que chegaram os tios Miguel e Jaime que traziam os carros e nos iam buscar. Foi aí que se verificou uma questão muito embaraçosa quando o meu irmão perguntou ao pai se depois de ter alta ele voltaria para casa. O tio Miguel pigarreou, toda a gente se fechou em copas até que o capitão Gilberto desembrulhou o atilho revelando que achava melhor que primeiro fosse para o Lar Militar que havia em Runa e depois logo se veria, mas que por enquanto ainda ficaria mais uns tempos ali onde o podiam visitar sempre que o quisessem e pudessem fazer.

E voltámos a casa como Frederico um tanto macambúzio coisa que nele não era habitual. Durante o curto percurso não abriu a boca. Chovia a cântaros. Estava combinado que jantaríamos ali e foi também então que a tia Elsa anunciou um tanto ruborizada que estava novamente de esperanças e já ia nos três meses. Foi decidido unanimemente e por aclamação (como se diz na Assembleia Nacional…) meter três garrafas de Raposeira meio seco no frigorífico para comemorar depois do jantar e a Miquelina informada da ocorrência meteu a colher de pau à obra e fez um pudim de ovos gigante. Só perante a euforia o Frederico bateu as palmas e entrou na festa.

Regimento de Infantaria 1

Dou um outro salto de dois anos sem nada de muito especial neste período a não ser que tinha entrado para o COM, o Curso de Oficiais Milicianos, (ainda não terminara o Direito, estava no quarto ano) e no final dele ficara colocado no Regimento de Infantaria Um, o RI1, na Amadora, como aspirante a oficial miliciano desempenhando as funções de oficial da PJM a Polícia Judiciária Militar, ou seja elaborando os autos e os processos diversos pois já tinha os conhecimentos suficientes para o fazer. O meu pai estava encantado com a minha nova situação e a primeira vez que me vira fardado dissera-me que quase lhe dera um badagaio…

Mas quem ficou realmente muito feliz foi o Frederico que já ia nos seus quinze anos e já fazia a barba (que alias era escassa e esparsa e que eu dizia que fora plantada num dia de vendaval… com grandes gargalhadas dele) e deixara crescer (???) uma “hipótese” de bigode. Estava cada vez mais adulto e o lugar que tinha na empresa já era fixo, o ordenado merecia-o, o patrão estava satisfeitíssimo com ele, os colegas continuavam a apoia-lo e os avanços que registava dia-após-dia eram realmente notáveis. Por outro lado as relações com o pai Gilberto tinham-se tornado imprescindíveis eram confidentes um do outro, viviam num sétimo céu.

Porém depois da bonança vem a tempestade. Por uma tarde encarolada de Agosto, o comandante do Regimento, o coronel Marques Fialho, chamou-me ao seu gabinete, mandou-me fechar a porta e convidou-me a sentar-me. Assim fiz e ele começou. “Não sei se você sabe mas eu e o seu pai somos muito amigos desde a Escola do Exército, ele podia ser coronel como eu mas meteu-se numas maluquices e…” atalhei dizendo que sabia e ele continuou: “então também sabe que ele gostava que você seguisse a carreira militar, mas parece que não está para aí virado e…” voltei a interrompê-lo “Desculpar-me-á meu comandante mas não nasci para herói…” O coronel Marques Fialho retorquiu-me: “Nenhum homem nasce herói. As ocasiões é que fazem os heróis!”
Um maldito cancro no pâncreas

“Mas ouça, Armando, trato-o assim, como se fosse meu filho, a decisão é sua, não o quero influenciar. Todavia quando o chamei não era para falar do seu futuro como militar. Era para lhe comunicar que infelizmente o seu pai e meu grande amigo tem um cancro no pâncreas.” Tinha-me caído o Mundo em cima. Que mais me podia acontecer?...   

(Continua)

          

2018-08-08




Antunes Ferreira

Batalhão era o apelido que constava do seu Bilhete de Identidade N.º 00015878 válido até 20 de Agosto de 1970, de seu nome completo Segismundo Ivo Costa Batalhão, o que dera um gozo ao sargento ajudante quando fora às sortes e estava todo nu perante a junta militar e lhe perguntara “O mancebo veio sozinho ou perdeu-se do resto da malta?” O filho da puta, já não bastava a fileira de gajos de coisos pendurados, mais ou menos cabeludos mas todos com ar fodido, ainda se metia com ele.

Esteve quase com uma resposta na ponta da língua o Segismundo era nado e criado no beco das Olarias tinha a escola toda de Alfama com especialidade, mas engoliu o que ia dizer recebeu o papel com o carimbo APURADO PARA TODO O SERVIÇO pediu licença para se retirar foi-se vestir e basou. Melhor começo para o dia não podia desejar. Mais tarde na taberna do Arnesto o ti Luís que era estivador reformado e sofria das cruzes atirou-lhe “Atão mê cabrão ficaste livre?”


Escola da aldeia dos Fernandes


O alentejano que era de Almodôvar, mais precisamente da Aldeia dos Fernandes onde andara na escola até à terceira classe, tinha a mania de embicar com ele mas era tudo na brincadêra como ele dizia, mas o Batalhão nesse dia já tinha a conta dele e apenas retorquiu com o cenho carregado “Ti Luís vá chatear outro!” E deitou os cinco tostões do copo de três no balcão de zinco deu corda às sapatilhas e foi a loja Ferrarias Teixeira & Monteiro onde trabalhava na escrita a sua namorada Maria Rita. Pelo caminho ia pensando que como dissera no local de trabalho nesse dia por mor da inspecção militar pedira licença e não iria trabalhar.

Era torneiro na oficina de metalo-mecânica do senhor Júlio Gaspar que ficava no Poço do Borratem perto das fontes da água “milagrosa” que já tinham tido melhores dias. Catrapiscara a Maria Rita numa noite de Santo António no arraial do beco de São Miguel (pois quando e onde havia de ser?) entre duas sardinhas e um tinto do Cartaxo. Fora então que um meia leca apalpara uma cachopa que se pôs aos gritos e ao qual ele puxando a mão atrás ferrou-lhe dois borrachos no trombil que o lingrinhas até caiu de cu e deu à sola.

A moça ficou vermelha que nem uma papoila e agradeceu-lhe um tanto envergonhada, “muito obrigado meu senhor, mas não merecia a pena sujar as mãos, o badameco não valia os sopapos…” ao que ele, Segismundo, respondeu que quem merecia tudo era ela e que era bem bonita e muito simpática e  que tirasse o senhor e que se chamava Segismundo e que era solteiro e torneiro e bom rapaz não desfazendo e ia sorrindo. Pois ela chama-se Maria Rita e por coincidência trabalhava numa loja de ferragens onde fazia a escrita e também era solteira e por aí fora, etc. e tal…

Um tostão para o Santo...


Já não se tinham largado até de madrugada fora leva-la a casa, tinha um trono do santo namoradeiro mesmo ao lado, aliás moravam pertinho coisa de cinco degraus das escadinhas dos Oleiros, “desculpe-me fi-la demorar demais, o seu pai ainda me tá uma trancada, mas…”, ao que ela atalhou que a mãe era viúva e além disso cega e lá em casa vivia também uma tia mais velha do que a mãe se não fosse ela aquilo até parecia a Mitra… Riram-se os dois. E de repente o Segismundo deu um passou em frente de supetão agarrou-a pelos ombros e pregou-lhe um chocho na boca e ela não disse que não. E já se despediram por tu.

Batalhão fora deitar-se de cabeça no ar, lá baixo nascia o sol espraiando-se nas águas mansas do Tejo. Duma janela saíam os acordes cantados pelo Ouro Negro Maria Ritaaaaa atava os cabelos com uma fitaaaaa. Mas na canção o Raúl e o Milo perdiam a moça mais bonita que tinham encontrado. Com ele isso nunca aconteceria. Passaram a sair juntos e a mãe Rosalina até gostava dele mas quem também se apaixonara pelo rapagão era a tia Ludovina. As coisas seguiam o seu caminho naturalmente com altos e baixos mais, mais  aqueles do que estes.

Quem continuava a gozar com o Segismundo era o Ti Luís: “Moço tal tá a moenga, arranjaste-a boa tu tornêro ela vende tornêras, foram fêtos d’encomenda um para a outra…” O rapaz já nem se amofinava, o velho estava cada vez mais velho e cada vez com menos dentes. Finalmente o Batalhão assentou praça e foi mobilizado para Angola como cabo miliciano pois tirara o curso técnico na Veiga Beirão – e a Maria Rita já empurrava uma barriga de quatro meses. Por isso resolveram casar antes do embarque e assim aconteceu. Uma separação de dois anos e quatro meses foi muito dura, mas felizmente nada de mau aconteceu ao novo pai embora estivesse muito tempo na mata e em combate como furriel miliciano.
Aerograma - o "bate-estradas"


À volta o pimpolho que se chamava João Joaquim (tinham acordado os dois por cartas e bate-estradas por ser o nome do falecido pai da Maria Rita) era o menino nas “mãos das bruxas”, porra! do pai!... O baptizado foi uma festa em grande e já pelas alturas dos cafés, das cigarrilhas e dos uísques, prática aprendida lá em Angola, e conhaques, aguardentes velhas e dos bagaços o ti Luís pediu “Atão ó moço conta lá uma estórias da guerra…” Toda a gente em redor limpou os ouvidos para escutar com atenção.

E o Batalhão avançou depois de entornar um bom gole no uísque com água Castelo. “De guerra estou farto eu, mas vou contar duas com muita piada. A primeira passou-se em Sanza Pombo no norte de Angola onde ficaram os dois Batalhões: eu e o de que eu fazia parte (saltaram gargalhadas e emborcaram-se mais uns copos….). Um dos alferes miliciano, não digo nomes, já basta o meu, é um gajo farrista à brava, arranjou como todos os graduados – atenção não sejam bufos, não vão contar à Maria Rita! – uma lavadeira local dum quimbo (que é uma aldeia) próxima e que também nos aconchegava…

Ora uma noite eram para aí umas duas horas a Miquelina, a dita lavadeira, saiu da tenda do alferes aos berros. Aka, aka, tu mau arferis, no meu boca de comer, na minha cu de cagar nem que foras tinente!!!!!”   Os decibéis foram tais que um diapasão honesto se recusaria a medi-los, o  que levou as damas capitaneadas pela Maria Rita que cortavam nas diversas casacas mais afastadas viessem ver o  que se passava. E quando o Ti Luís informou que era o Segismundo a contar umas piadas de Angola ela logo ordenou ao marido: “Então conta outra que nós também somos gente!”

Sem legenda

Fez-se um silêncio de cortar não à faca mas à serra mecânica com os machos todos a olhar para o Batalhão. Que raio de estória iria o Batalhão contar? Daquela categoria? Com as senhoras presentes e ansiosas por ouvi-lo? Estava em lixado! E este, impávido e sereno como se não fosse nada com ele, desfechou: “Quando desci do Vera Cruz no Porto de Luanda esta um pretito a vender jornais entre os quais “a província de Angola” a quem eu perguntei «ó menino o jornal é de hoje e ele respondeu-me não é doje e quinhento…»” Aí sim, aí sim, qualquer diapasão honesto e cumpridor dos seus deveres teria metido os papeis para a reforma.

  


2018-08-02


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 10


Chega
o primeiro
“emprego”


Antunes Ferreira
A Estufa-Fria e o jogos do amor ficaram para trás e eis-nos quase três anos depois em finais de 1971 quando o Frederico deu os primeiros passos num “emprego” – leram bem num “emprego” – pois aproveitando o jeito que tinha para os trabalhos manuais o David arranjara-lhe uma ocupação numa empresa que produzia móveis para cozinhas, claro apenas para lhe dar algo para fazer. O presidente dela tinha achado muita piada ao miúdo que já ia nos doze anos e era muito simpático e bem disposto. E além disso tinha realmente uma queda para usar os berbequins e outras ferramentas para trabalhar os laminados.

Mas na verdade não se tratava de “profissão” muito menos de trabalho de menor na verdadeira acepção da palavra, era antes uma terapêutica ocupacional. Frederico andava muito feliz com a sua nova vida que ocupava a parte da tarde e quando chegava a casa era vê-lo e ouvi-lo a contar tudo o que se passara na fábrica onde os operários o adoravam. Sempre sorridente como era seu hábito era a coqueluche da malta e ainda por cima o “patrão” pagava-lhe (uma quantia simbólica está visto para o satisfazer…) Estava nas suas sete quintas.


Os progressos na fala eram também acentuados, lia perfeitamente e o mais importante entendia o que lia o que deixava entusiasmado o tio Miguel que dizia que não contava que ele fizesse tais progressos.
Já o antevia...
Já o antevia a usar gravata e de pasta debaixo do braço e acrescentava que não se tratava de optimismo... Mas, ponde de parte futurismos, tenho de referir que dentro das limitações no que respeitava a deslocações era quase autónomo mas alguém sempre o acompanhava quando saía não fosse o diabo tecê-las, Ia crescendo dentro da normalidade possível e o tio médico que sabia que a esperança de vida de um doente com a síndroma de Down variava entre os 50 e os 60 anos, não queria fazer previsões quanto ao nosso Frederico dados os progressos que ele ia alcançando.

Entretanto eu fora às sortes e ficara apurado para todo o serviço, a guerra no Ultramar não dava muitas hipóteses aos mancebos como se dizia em linguagem militar. No dia da minha inspecção dois indivíduos à minha frente estava apoiado em duas muletas pois não tinha o pé direito. Os dois médicos – um do quadro, o outro miliciano – deram-no como isento mas o coronel na reserva que presidia à Junta deu-o como apurado para os serviços auxiliares pois disse ele que “o mancebo podia perfeitamente estar sentado a uma secretária a preencher papelada…” Só visto, contado ninguém acreditaria. 

Neste período entre os inúmeros acontecimentos ocorridos o mais importante terá sido o protagonizado pelo meu pai. Já tinha mencionado que por castigo complementar fora de novo comandar uma companhia para Madina do Bué o pior local da Guiné atacado dia sim dia sim pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Ao fim de uns longos onze meses de levar porrada de criar bicho a companhia fora substituída por outra constituída por “maçaricos” (nome que se dava aos soldados recém chegados sem experiência de combate, da mata, dos pântanos, bolamas – o nome local e das terríveis abelhas assassinas) os quais ainda ficaram muito piores que os que antecederam.
 
Fora evacuado de helicóptero 
O general Spínola, Governador-geral e comandante-chefe ordenou a retirada e a tropa do meu pai foi dar cobertura ao movimento. E quando a companhia que voltava atravessava um rio numa jangada esta virou-se e aconteceu o pior desastre de toda a guerra do Ultramar: 46 mortos, vários feridos e muito material militar. Uma verdadeira desgraça. Com os turras sempre a atacar gerou-se um pandemónio e no meio dele o meu pai foi atingido nas costas já não conseguindo levantar-se. Foi evacuado de helicóptero para o Hospital Militar de Bissau e dada a gravidade do seu estado para Lisboa onde foi operado à coluna. Debalde. Ficou paraplégico, numa cadeira de rodas e por mais que a fisioterapia em Alcoitão tentasse recupera-lo não deu em nada.

A mãe foi visita-lo aos pavilhões do anexo do Hospital Militar na Infante Santo bem como a tia Elsa, o tio Jaime, o tio Miguel, a Leonor, os avós e a Miquelina e a Odete Rita. Quando chegou a minha vez o Frederico pediu-me para o levar. Um bico-de-obra. “Tu queres mesmo ver o pai? Olha que ele está muito doente e não vai curar-se…”. O mano, com os seus doze anos na altura, disse-me que sim que sabia o que tinha acontecido ao pai na guerra e queria mesmo visita-lo para desejar-lhe as melhoras. Perante a determinação dele fiz-lhe a vontade. E embora não fosse longe, bem pelo contrário, apanhámos um táxi e depois de ter explicado ao motorista que se tratava de uma pequena “corrida” o que não o deixou com muito boa cara lá fomos.

Durante o pequeníssimo percurso Frederico foi muito calado, ao contrário do que acontecia habitualmente e comecei a ficar preocupado, se calhar não devia ter acedido ao pedido dele e tê-lo trazido. Mas então já não ia chorar sobre o leite derramado. Mesmo assim quando chegámos à Estrela em frente da basílica voltei a inquiri-lo sobre a visita ao que me retorquiu com um modo brusco contra o que era o seu habitual “Já disse que quero!” Apaziguei os ânimos “Pronto, pronto, mano, não se fala mais nisso… Já cá não está quem abriu a boca…” E por mor das moscas fiz um sorriso, ao que ele correspondeu. Para compensar o chofer dei-lhe quinze tostões de gorjeta o que lhe mudou rapidamente o fáceis…

Hospital Militar  na Infante Santo


Quando íamos pelo corredor que dava para o quarto do nosso pai cruzámo-nos com o Olegário e o David que vinham de o visitar. Parámos e entabulámos uma pequena conversa “Então que tal o acharam? Está muito em baixo?” As minhas perguntas obviamente parvas só podiam ter uma resposta piedosa “Olha Armando, pensei que podia estar pior. Vai aguentando, mas não está bem-disposto como é normal. A vossa mãe e tia Elsa estão lá a tentar dar dois dedos de trela…” Mas, baixando a voz quase num sussurro segredou-me ao ouvido. “É preciso ter muito cuidado com ele, falou-me em suicidar-se…” E o David, para desviar a conversa, falou directamente para o Frederico: “Olá campeão como passas, dá cá mais cinco, então vens ver o teu pai? Ele vai gostar. Já estás um homenzinho…”

Despedimo-nos. E avançámos. Como seria?
(Continua)



2018-07-26


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 9

Vem à baila

testamento

Antunes Ferreira
“Empernanço de pestana”? perguntou-me a Mafalda quando me ouviu pela primeira vez utilizar a expressão. “Que raio de coisa é essa?” E a moça carregou o cenho intrigada de maneira que não pude sustentar uma gargalhada. “Ainda te ris? Deixa-te de gozos e explica-me direitinho o que queres dizer com essa «coisa»!” O tom de interrogativo passara a imperativo o que significava que o caldo começava a entornar-se e uma zanga – aliás a primeira em dez meses de namoro – não calhava mesmo bem. Deitei água na fervura “Querida vou-te dizer o que a «coisa» significa. Quando a malta de Direito atravessa o que chamamos a «terra de ninguém», ou seja o espaço em frente da Reitoria fazemo-lo para ir ver as miúdas de Letras ou seja vocês.”

Estávamos no Jardim Botânico da Faculdade de Ciências deitados na relva por trás de um pimenteiro cuja tabuleta ostentava galhardamente Capsicum L. originária de Angola que dá gindundo ou piripiri muito picante por isso mais ou menos resguardados de vistas inconvenientes. Mesmo sem a influência do ardor da malagueta, quer eu quer a minha namorada eramos de sangue bastante quente e pesquisávamo-nos com alguma ansiedade enquanto trocávamos beijos de línguas ensarilhadas. Um verdadeiro ponto de rebuçado. As nossas mãos tinham partido à descoberta dos lugares mais recônditos dos corpos de ambos num frenesim que mesmo já não sendo novo era sempre entusiasmante. Parámos por momentos e eu prossegui entre arfar e sem parar as investigações manuais.

À descoberta dos corpos de ambos


“Como ali não podemos amar como aqui estamos a fazer apenas podemos olhar ou seja «comer» as moças com os olhos, ou seja com as pestanas e fingindo que estamos a usar as pernas… Percebeste agora, meu amor?” Claro que a Mafalda tinha percebido pois soltara uma cristalina gargalhada ao que fiz baixinho schiu, cuidado, podem ouvir-nos e descobrir-nos… Pelo sim pelo não abotoámo-nos, compusemo-nos, levantámo-nos e saímos com ar de quem tinha feito uma visita científica. Na relva ficara o testemunho dessa visita… Logo que nos fosse possível iríamos repetir pois já não dispensávamos as carícias e a excitação.

1966: as lágrimas do Ósébiu

Tenho obrigatoriamente de aqui fazer um breve ponto do que se passou neste interregno e para tanto socorro-me do diário que tinha começado a fazer quando haviam acontecido os trágicos acontecimentos que me tinham levado a crescer tanto em tão pouco tempo. E, óbvio, a participação do Frederico nos que aponto. Muitos foram, mas um com muita piada fora o Mundial de 66 tinha o miúdo sete aninhos. Seguiu a transmissão televisiva com a maior atenção e elegeu como herói o Ósébiu. Chorou quando ele chorou após perder o jogo com a Inglaterra e foi difícil consolá-lo, só um arroz doce lhe aplacou o desconsolo.

Mas foi também que me perguntou, pois continuava a achar que eu era o seu “chefe” por que razão havia pessoas brancas e pessoas pretas. Lá no colégio só havia meninos brancos mas haveria meninos pretos, ele dizia “castanhos”? Pensei em recorrer à História e contar-lhe o que se passara segundo a Bíblia com a Torre de Babel mas entendi que era muita areia para a camioneta do maninho. Então falei-lhe das diferenças dos climas entre as terras e blá blá blá. Ele não ficou muito convencido mas calou-se.

Outro foi o que se passou com o pai Gilberto já neste ano. Foi a primeira vez que o viu quando a RTP tentou entrevista-lo a propósito do processo que lhe fora levantado quando saía do Ministério do Exército o que ele recusara de imediato. Frederico voltou-se para a mãe e disse-lhe aquele senhog é o meu pai, não é? E pogque é que ele não vive cá em casa? E pogue é que ele não vai buscag eu na escola, os pai dos outgos meninos vai…
Vinha trazer o testamento...
Eu estava presente e não sabia o que dizer, a mãe também, de repente tocou a campainha da porta e apareceu a Odete Rita a anunciar que estava lá fora um senhor que nos queria falar e que entregara o cartão de visita dele onde se lia Tiago Silva Fernandes -  Advogado. Salvos pelo gong aliás pela campainha...

O causídico vinha para dar conhecimento do testamento que o meu pai fizera antes de partir para nova comissão também na Guiné. Fazia-o por ordem expressa dele pois declara-lhe eu queria ter a certeza de que a sua família ficaria bem ciente da sua última vontade dado que ia para um local muito perigoso e ninguém sabia o que o futuro lhe reservava. E passou a ler o documento através do qual após as formalidades habituais respeitando as disposições legais aplicáveis quanto a descendentes directos nomeava seu herdeiro o filho Frederico Miguel da Costa Saraiva Mendes e dado que era menor seria sua tutora a mãe Maria de Fátima Lencastre Albergaria Souto e Costa Mendes de quem estava judicialmente separado.

Chamaram-se a Miquelina e a Odete Rita para assinarem o documento como testemunhas após a minha mãe o ter feito, os cumprimentos da ordem e o advogado saiu. Ficámos a olhar uns para os outros. A cozinheira e a criada que tinham naturalmente lido o texto nem queriam acreditar, mas o senho capitão que ficou tão fodi…, perdão, chateado com o nascimento do menino Frederico nomeia-o seu herdeiro… disse a Miquelina com um ar incrédulo até tenho pele de galinha acrescentou a Odete Rita. A mãe atalhou: não vale a pena fazer disto uma tempestade num copo de água. A vida é madrasta, tem destas coisas que por vezes são difíceis de explicar. Vamos mas é às nossas vidas. E eu acrescentei. Como dizia a minha professora da quarta classe, a Dona Clélia, ponto final parágrafo. Na outra linha.

Fomos para o telefone, cada um à vez é claro, dar a novidade aos nossos mais chegados. Por último falei com a Mafalda. Depois de me ouvir ficou um bom bocado calada o que me levou a perguntar-lhe ainda estás aí? Ao que ela me respondeu: o teu pai é um bom pulha, olha amor, aqui para nós que ninguém nos ouve – a não ser que tenhas o telefone sob escuta pela PIDE – é um bom filho da mãe e eu corrigi esculpa interromper-te, tirando a minha avó, uma santa senhora, um filho da puta é o que ele é! Mas amanhã vamos até à Estufa Fria e depois conto-te tudo tin-tin-por-tin-tin… E ela do outro lado: Só???? E desligou. Raio da cachopa, que até  fiquei com as duas cabeças no ar…




2018-07-19


 É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE - 8
Empernanço de pestana

Antunes Ferreira
Dê-se agora mais um salto no tempo e aterre-se em 1969, oito anos são oito anos, os relógios não param, os calendários também seguem folha arrancada após folha aos dias seguem-se as noites, dos Invernos aos Invernos as Primaveras, os Verões e os Outonos incansáveis não há interruptor que os desligue. Durante esse longo período aconteceram muitas coisas. Acabo de me levantar do sofá onde sentado assisti à chegada do homem à Lua. Impressionante. Nunca imaginei que tal presenciasse mas a caixa mágica que mudou o Mundo proporcionou-me esse deslumbramento.

O Frederico tal como a minha mãe, os tios Elsa, Jaime, Miguel o Jaiminho já com oito anos, a Miquelina e até a Odete Rita todos tínhamos estado com os olhos pregados no televisor. Nem comemos, apenas debicámos umas sandes e uns bolos que tinham sido trazidos da pastelaria Cristal e bebemos umas cervejas e uns refrigerantes. Vale a pena relatar a reacção do Frederico que ia nos dez anos e já lia e conseguia escrever o nome dele e mais umas coisas por vezes não muito correctamente. A falar ia muito bem, com alguma incerteza na pronúncia, mas sem importância.

Na Lua há "mag"?


Ele quis saber logo que o foguetão se preparava para partir o que era aquilo e se era nele que iam aqueles senhores com fatos de mergulhadores. E na Lua há mag? Então pogque vão eles assim vestidos? E se ela estiveg como uma talhada de melancia eles conseguem acegtag? As perguntas surgiam em catadupas com os rrr transformados em ggg habilidade em que era especialista… Toda a gente lhe foi explicando o que acontecia e, mais importante, o que ia acontecer. E que finalmente aconteceu – premiado com uma entusiástica salva de palmas!

Ora bem durante estes oitos anos tenho de registar o que de mais importante se passou na nossa família. O meu pai foi e veio de Angola onde teve uma comissão muito atribulada, pois passou a maior parte dela no mato a comandar uma companhia de caçadores ou seja de cavalaria… apeada. Com sede em Zala num vale rodeado de morros onde estavam instalados os turras que de manhã quando se içava a bandeira mimoseavam a tropa com umas morteiradas para alegrar a malta. Benditos estrategas…

Estivera na metrópole durante pouco mais de ano e meio e de novo fora mobilizado – depois de ter ido a Lamego formar uma companhia de caçadores especiais – para a Guiné para onde partiu em finais de 1964. Aí é que se tramou. Mas, já lá vou, pois tenho de voltar atrás, porque o Olegário, como alferes miliciano, fora parar a Goa e o David, com o posto de furriel também miliciano, a Damão e nas cartas e postais que nos mandavam contavam do paraíso tropical que tinham ido encontrar mas igualmente do clima de ansiedade pois andava no ar que a União Indiana podia invadir o Estado Português da Índia para o “libertar do colonialismo de Lisboa” de acordo como o que dizia o primeiro-ministro Nehru.

O que viria a acontecer e que resultou para os dois terem estado presos em campos de prisioneiros durante largos meses, depois do governador-geral general Vassalo e Silva se ter rendido aos invasores, face à disparidade das forças em presença três mil e poucos portugueses contra 42 mil indianos, desrespeitando as ordens do Salazar que tinha ordenado que todos morressem pela Pátria. Felizmente isso não acontecera.
Goa - no campo de prisioneiros
No entanto o regresso do contingente português foi mais uma demonstração do espírito maldoso e vingativo do Salazar. Os militares desembarcaram de noite vigiados pela Polícia Militar de armas aperradas e foram logo para quartéis. Só passados uns dias puderam ir para as respectivas casas. Além disso o general foi demitido.

Tinha tão bons professores de política em casa que rapidamente me integrara na oposição contra o Estado Novo que, de resto andava pelas ruas da amargura, pois nem um partido único conseguia ser. Por isso seguia com muita atenção o que se passava no país que ia de mal a pior. Ainda que fossem proibidas ocorriam greves e a PIDE via-se em palpos de aranha porque já não conseguia controlar tudo como antes fazia. O luto estudantil em Maio de 62 em que não tinha participado porque era então muito puto fora um gravíssimo problema para o Salazar e a sua camarilha. Mas pior tinham sido as eleições presidenciais de 1958. O tio Jaime contara-me o que se passara com o general Humberto Delgado que ficara conhecido como o general sem medo. Como eu gostava de ter vivido já adulto nessa altura.


Madina do Boé: baixas constantes 
Mas voltemos ao meu pai. A companhia que comandava fora colocada em Madina do Boé um dos locais mais perigosos da Guiné onde quase todos os dias era atacada me as baixas eram constantes. Foi lá que ele recebeu uma notícia que o deixou possesso. A Marina Neves tinha-o abandonado pois fora para o Brasil com o dono da empresa o engenheiro civil Salviano Francisco Xavier, um goês que viera estudar para Lisboa no Instituto Superior Técnico e por cá ficara e era viúvo. Foi o David que depois de ter regressado de Goa voltara a trabalhar na empresa que contara à minha mãe o ocorrido. Ela comentou sem grande espalhafato quem com ferros mata, com ferros morre…

Corria então o ano de 1968 e com a fúria do ciúme a toldar-lhe o raciocínio o meu pai voltou à metrópole e meteu uma licença tendo-se deslocado ao Brasil sem autorização militar. Foi um buraco, mais um, em que se meteu: por mais voltas e reviravoltas que tivesse dado pelas terras do samba e mulatas não obteve qualquer resultado e pelo contrário até ultrapassou o período da licença o que o colocou em termos castrenses em situação de ausente sem licença a que se seguiria a deserção. Porém aí parece ter-lhe voltado à tona um pouco de bom senso. Apresentou-se no Ministério do Exército antes que isso acontecesse. Mas foi-lhe levantado o correspondente auto.

O David ia dando-nos conta do que se estava passando e, curiosamente, o Frederico parecia compreender a gravidade da situação o que era ainda mais estranho dado que nunca se referia ao pai. Eu estava muitíssimo apreensivo pois algo me ultrapassava o que deixava mal comigo próprio pois acreditava que sempre tinha tudo sob controlo. E aqui a angústia que se apoderara de mim invadira também a Mafalda. A Mafalda? Pois, a Mafalda, a minha namorada que encontrara na Faculdade de Letras como caloira quando eu que já estava no segundo ano de Direito cruzava a “terra de ninguém” em frente à Reitoria para ir ver as miúdas e fazer o que então dizíamos o “empernanço de pestana”. No meu caso, dera mais do que a piscadela de olho…
(Continua)