2018-08-16


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 11



Um maldito
cancro
no pâncreas
Antunes Ferreira
Entrámos. O ´quarto era amplo – de dimensões para oficial – e estava mobilado com uma cama ortopédica dois cadeirões pretos uma banquinha de cabeceira e uma coluna onde se encontrava pendurada uma embalagem de soro com o respectivo tubo. O meu pai estava sentado num cadeirão também ortopédico com uma manta sobre os joelhos e um casacão militar pelos ombros.
Sem legenda

A minha mãe num dos cadeirões para as visitas lia o  “John, Chauffeur Russo” do Max du Vezyt numa edição Romano Torres que na época era um grande sucesso e a tia Elsa no outro tricotava pareceu-me um casaquinho de lã azul celeste. Ambas pararam à nossa chegada e fez-se um vazio de som de cortar à faca. O meu pai que estava de cabeça baixa e parecia dormitar, levantou-a e perguntou com voz soturna “o meu silêncio incomoda?” e só então deu pela nossa presença.

Ficou estupefacto quando deu com o Frederico, abriu a boca mas não soltou qualquer som, como se a voz se lhe tivesse ficado parada no tempo e de repente disse baixinho “Frederico…” O meu irmão respondeu-lhe um pouco mais alto “Sou eu meu pai, sou eu sim senhor, vim ver como está…” Estava-se no pino do Inverno, havia um calorífero a óleo, não se via uma mosca, mas se uma houvera não se ouviria um só zumbido. O capitão Gilberto Saraiva Mendes abriu os braços e disse para o filho caçula “Perdoa-me Frederico…” – e, coisa inaudita, correram-lhe grossas lágrimas pela face.

Este avançou, chegou junto ao pai e disse-lhe suavemente “meu pai perdoar-lhe o quê?” e ajoelhando-se estendeu os braços e abraçou-o no que foi correspondido pelo progenitor e ficaram assim unidos um longo amplexo e só depois o mano tirou o lenço do bolso e começou a limpar o rosto do pai. “Eu sei perfeitamente o que aconteceu quando nasci porque depois de ter chateado muito a Miquelina obriguei-a a contar-me toda a estória…” Ninguém ocultava o espanto perante tal revelação mas eu sobretudo pensava para com os meus botões como era incrível que um rapaz apenas com doze anos e com tamanha deficiência falava com tanta clareza e determinação.

“Meu pai pode estar certo de que eu sou portador da síndroma de Down mas felizmente não sou parvo bem pelo contrário. Sei perfeitamente que o desiludi e que não gostou de mim pelo facto de eu ter nascido assim embora tal não tivesse sido por minha culpa. Mas o que lá vai lá vai e agora o que me interessa é recuperar os anos em que estivemos separados para poder ama-lo como um filho tem de amar um pai.” Gilberto, soluçava a seco agarrado ao filho Frederico e só conseguia dizer “meu filho, meu querido filho, como tu falas verdade, meu querido filho, não te mereço…”
Soldadinhos de chumbo

Aí o meu mano mais novo saiu-se com oura novidade: “O meu pai sabe que eu guardo as duas caixas de soldadinhos de chumbo?” O capitão não escondeu o espanto e o sobressalto: “Como assim? Eu tinha-as levado, ou melhor roubado para dar a umas pessoas, agora não interessa quem, mas ao sair do portão da nossa casa não sei porquê arrependi-me e deitei-as para o caixote do lixo!” O Frederico deu uma peque gargalhada: “Mas a Ângela porteira apanhou-as e veio entregá-las lá acima e a mãe guardou-as e assim que eu pude comecei a brincar com elas!”

Ficámos ali a desbobinar a tarde com o Frederico no centro das conversas até que chegaram os tios Miguel e Jaime que traziam os carros e nos iam buscar. Foi aí que se verificou uma questão muito embaraçosa quando o meu irmão perguntou ao pai se depois de ter alta ele voltaria para casa. O tio Miguel pigarreou, toda a gente se fechou em copas até que o capitão Gilberto desembrulhou o atilho revelando que achava melhor que primeiro fosse para o Lar Militar que havia em Runa e depois logo se veria, mas que por enquanto ainda ficaria mais uns tempos ali onde o podiam visitar sempre que o quisessem e pudessem fazer.

E voltámos a casa como Frederico um tanto macambúzio coisa que nele não era habitual. Durante o curto percurso não abriu a boca. Chovia a cântaros. Estava combinado que jantaríamos ali e foi também então que a tia Elsa anunciou um tanto ruborizada que estava novamente de esperanças e já ia nos três meses. Foi decidido unanimemente e por aclamação (como se diz na Assembleia Nacional…) meter três garrafas de Raposeira meio seco no frigorífico para comemorar depois do jantar e a Miquelina informada da ocorrência meteu a colher de pau à obra e fez um pudim de ovos gigante. Só perante a euforia o Frederico bateu as palmas e entrou na festa.

Regimento de Infantaria 1

Dou um outro salto de dois anos sem nada de muito especial neste período a não ser que tinha entrado para o COM, o Curso de Oficiais Milicianos, (ainda não terminara o Direito, estava no quarto ano) e no final dele ficara colocado no Regimento de Infantaria Um, o RI1, na Amadora, como aspirante a oficial miliciano desempenhando as funções de oficial da PJM a Polícia Judiciária Militar, ou seja elaborando os autos e os processos diversos pois já tinha os conhecimentos suficientes para o fazer. O meu pai estava encantado com a minha nova situação e a primeira vez que me vira fardado dissera-me que quase lhe dera um badagaio…

Mas quem ficou realmente muito feliz foi o Frederico que já ia nos seus quinze anos e já fazia a barba (que alias era escassa e esparsa e que eu dizia que fora plantada num dia de vendaval… com grandes gargalhadas dele) e deixara crescer (???) uma “hipótese” de bigode. Estava cada vez mais adulto e o lugar que tinha na empresa já era fixo, o ordenado merecia-o, o patrão estava satisfeitíssimo com ele, os colegas continuavam a apoia-lo e os avanços que registava dia-após-dia eram realmente notáveis. Por outro lado as relações com o pai Gilberto tinham-se tornado imprescindíveis eram confidentes um do outro, viviam num sétimo céu.

Porém depois da bonança vem a tempestade. Por uma tarde encarolada de Agosto, o comandante do Regimento, o coronel Marques Fialho, chamou-me ao seu gabinete, mandou-me fechar a porta e convidou-me a sentar-me. Assim fiz e ele começou. “Não sei se você sabe mas eu e o seu pai somos muito amigos desde a Escola do Exército, ele podia ser coronel como eu mas meteu-se numas maluquices e…” atalhei dizendo que sabia e ele continuou: “então também sabe que ele gostava que você seguisse a carreira militar, mas parece que não está para aí virado e…” voltei a interrompê-lo “Desculpar-me-á meu comandante mas não nasci para herói…” O coronel Marques Fialho retorquiu-me: “Nenhum homem nasce herói. As ocasiões é que fazem os heróis!”
Um maldito cancro no pâncreas

“Mas ouça, Armando, trato-o assim, como se fosse meu filho, a decisão é sua, não o quero influenciar. Todavia quando o chamei não era para falar do seu futuro como militar. Era para lhe comunicar que infelizmente o seu pai e meu grande amigo tem um cancro no pâncreas.” Tinha-me caído o Mundo em cima. Que mais me podia acontecer?...   

(Continua)

          

2018-08-08




Antunes Ferreira

Batalhão era o apelido que constava do seu Bilhete de Identidade N.º 00015878 válido até 20 de Agosto de 1970, de seu nome completo Segismundo Ivo Costa Batalhão, o que dera um gozo ao sargento ajudante quando fora às sortes e estava todo nu perante a junta militar e lhe perguntara “O mancebo veio sozinho ou perdeu-se do resto da malta?” O filho da puta, já não bastava a fileira de gajos de coisos pendurados, mais ou menos cabeludos mas todos com ar fodido, ainda se metia com ele.

Esteve quase com uma resposta na ponta da língua o Segismundo era nado e criado no beco das Olarias tinha a escola toda de Alfama com especialidade, mas engoliu o que ia dizer recebeu o papel com o carimbo APURADO PARA TODO O SERVIÇO pediu licença para se retirar foi-se vestir e basou. Melhor começo para o dia não podia desejar. Mais tarde na taberna do Arnesto o ti Luís que era estivador reformado e sofria das cruzes atirou-lhe “Atão mê cabrão ficaste livre?”


Escola da aldeia dos Fernandes


O alentejano que era de Almodôvar, mais precisamente da Aldeia dos Fernandes onde andara na escola até à terceira classe, tinha a mania de embicar com ele mas era tudo na brincadêra como ele dizia, mas o Batalhão nesse dia já tinha a conta dele e apenas retorquiu com o cenho carregado “Ti Luís vá chatear outro!” E deitou os cinco tostões do copo de três no balcão de zinco deu corda às sapatilhas e foi a loja Ferrarias Teixeira & Monteiro onde trabalhava na escrita a sua namorada Maria Rita. Pelo caminho ia pensando que como dissera no local de trabalho nesse dia por mor da inspecção militar pedira licença e não iria trabalhar.

Era torneiro na oficina de metalo-mecânica do senhor Júlio Gaspar que ficava no Poço do Borratem perto das fontes da água “milagrosa” que já tinham tido melhores dias. Catrapiscara a Maria Rita numa noite de Santo António no arraial do beco de São Miguel (pois quando e onde havia de ser?) entre duas sardinhas e um tinto do Cartaxo. Fora então que um meia leca apalpara uma cachopa que se pôs aos gritos e ao qual ele puxando a mão atrás ferrou-lhe dois borrachos no trombil que o lingrinhas até caiu de cu e deu à sola.

A moça ficou vermelha que nem uma papoila e agradeceu-lhe um tanto envergonhada, “muito obrigado meu senhor, mas não merecia a pena sujar as mãos, o badameco não valia os sopapos…” ao que ele, Segismundo, respondeu que quem merecia tudo era ela e que era bem bonita e muito simpática e  que tirasse o senhor e que se chamava Segismundo e que era solteiro e torneiro e bom rapaz não desfazendo e ia sorrindo. Pois ela chama-se Maria Rita e por coincidência trabalhava numa loja de ferragens onde fazia a escrita e também era solteira e por aí fora, etc. e tal…

Um tostão para o Santo...


Já não se tinham largado até de madrugada fora leva-la a casa, tinha um trono do santo namoradeiro mesmo ao lado, aliás moravam pertinho coisa de cinco degraus das escadinhas dos Oleiros, “desculpe-me fi-la demorar demais, o seu pai ainda me tá uma trancada, mas…”, ao que ela atalhou que a mãe era viúva e além disso cega e lá em casa vivia também uma tia mais velha do que a mãe se não fosse ela aquilo até parecia a Mitra… Riram-se os dois. E de repente o Segismundo deu um passou em frente de supetão agarrou-a pelos ombros e pregou-lhe um chocho na boca e ela não disse que não. E já se despediram por tu.

Batalhão fora deitar-se de cabeça no ar, lá baixo nascia o sol espraiando-se nas águas mansas do Tejo. Duma janela saíam os acordes cantados pelo Ouro Negro Maria Ritaaaaa atava os cabelos com uma fitaaaaa. Mas na canção o Raúl e o Milo perdiam a moça mais bonita que tinham encontrado. Com ele isso nunca aconteceria. Passaram a sair juntos e a mãe Rosalina até gostava dele mas quem também se apaixonara pelo rapagão era a tia Ludovina. As coisas seguiam o seu caminho naturalmente com altos e baixos mais, mais  aqueles do que estes.

Quem continuava a gozar com o Segismundo era o Ti Luís: “Moço tal tá a moenga, arranjaste-a boa tu tornêro ela vende tornêras, foram fêtos d’encomenda um para a outra…” O rapaz já nem se amofinava, o velho estava cada vez mais velho e cada vez com menos dentes. Finalmente o Batalhão assentou praça e foi mobilizado para Angola como cabo miliciano pois tirara o curso técnico na Veiga Beirão – e a Maria Rita já empurrava uma barriga de quatro meses. Por isso resolveram casar antes do embarque e assim aconteceu. Uma separação de dois anos e quatro meses foi muito dura, mas felizmente nada de mau aconteceu ao novo pai embora estivesse muito tempo na mata e em combate como furriel miliciano.
Aerograma - o "bate-estradas"


À volta o pimpolho que se chamava João Joaquim (tinham acordado os dois por cartas e bate-estradas por ser o nome do falecido pai da Maria Rita) era o menino nas “mãos das bruxas”, porra! do pai!... O baptizado foi uma festa em grande e já pelas alturas dos cafés, das cigarrilhas e dos uísques, prática aprendida lá em Angola, e conhaques, aguardentes velhas e dos bagaços o ti Luís pediu “Atão ó moço conta lá uma estórias da guerra…” Toda a gente em redor limpou os ouvidos para escutar com atenção.

E o Batalhão avançou depois de entornar um bom gole no uísque com água Castelo. “De guerra estou farto eu, mas vou contar duas com muita piada. A primeira passou-se em Sanza Pombo no norte de Angola onde ficaram os dois Batalhões: eu e o de que eu fazia parte (saltaram gargalhadas e emborcaram-se mais uns copos….). Um dos alferes miliciano, não digo nomes, já basta o meu, é um gajo farrista à brava, arranjou como todos os graduados – atenção não sejam bufos, não vão contar à Maria Rita! – uma lavadeira local dum quimbo (que é uma aldeia) próxima e que também nos aconchegava…

Ora uma noite eram para aí umas duas horas a Miquelina, a dita lavadeira, saiu da tenda do alferes aos berros. Aka, aka, tu mau arferis, no meu boca de comer, na minha cu de cagar nem que foras tinente!!!!!”   Os decibéis foram tais que um diapasão honesto se recusaria a medi-los, o  que levou as damas capitaneadas pela Maria Rita que cortavam nas diversas casacas mais afastadas viessem ver o  que se passava. E quando o Ti Luís informou que era o Segismundo a contar umas piadas de Angola ela logo ordenou ao marido: “Então conta outra que nós também somos gente!”

Sem legenda

Fez-se um silêncio de cortar não à faca mas à serra mecânica com os machos todos a olhar para o Batalhão. Que raio de estória iria o Batalhão contar? Daquela categoria? Com as senhoras presentes e ansiosas por ouvi-lo? Estava em lixado! E este, impávido e sereno como se não fosse nada com ele, desfechou: “Quando desci do Vera Cruz no Porto de Luanda esta um pretito a vender jornais entre os quais “a província de Angola” a quem eu perguntei «ó menino o jornal é de hoje e ele respondeu-me não é doje e quinhento…»” Aí sim, aí sim, qualquer diapasão honesto e cumpridor dos seus deveres teria metido os papeis para a reforma.

  


2018-08-02


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 10


Chega
o primeiro
“emprego”


Antunes Ferreira
A Estufa-Fria e o jogos do amor ficaram para trás e eis-nos quase três anos depois em finais de 1971 quando o Frederico deu os primeiros passos num “emprego” – leram bem num “emprego” – pois aproveitando o jeito que tinha para os trabalhos manuais o David arranjara-lhe uma ocupação numa empresa que produzia móveis para cozinhas, claro apenas para lhe dar algo para fazer. O presidente dela tinha achado muita piada ao miúdo que já ia nos doze anos e era muito simpático e bem disposto. E além disso tinha realmente uma queda para usar os berbequins e outras ferramentas para trabalhar os laminados.

Mas na verdade não se tratava de “profissão” muito menos de trabalho de menor na verdadeira acepção da palavra, era antes uma terapêutica ocupacional. Frederico andava muito feliz com a sua nova vida que ocupava a parte da tarde e quando chegava a casa era vê-lo e ouvi-lo a contar tudo o que se passara na fábrica onde os operários o adoravam. Sempre sorridente como era seu hábito era a coqueluche da malta e ainda por cima o “patrão” pagava-lhe (uma quantia simbólica está visto para o satisfazer…) Estava nas suas sete quintas.


Os progressos na fala eram também acentuados, lia perfeitamente e o mais importante entendia o que lia o que deixava entusiasmado o tio Miguel que dizia que não contava que ele fizesse tais progressos.
Já o antevia...
Já o antevia a usar gravata e de pasta debaixo do braço e acrescentava que não se tratava de optimismo... Mas, ponde de parte futurismos, tenho de referir que dentro das limitações no que respeitava a deslocações era quase autónomo mas alguém sempre o acompanhava quando saía não fosse o diabo tecê-las, Ia crescendo dentro da normalidade possível e o tio médico que sabia que a esperança de vida de um doente com a síndroma de Down variava entre os 50 e os 60 anos, não queria fazer previsões quanto ao nosso Frederico dados os progressos que ele ia alcançando.

Entretanto eu fora às sortes e ficara apurado para todo o serviço, a guerra no Ultramar não dava muitas hipóteses aos mancebos como se dizia em linguagem militar. No dia da minha inspecção dois indivíduos à minha frente estava apoiado em duas muletas pois não tinha o pé direito. Os dois médicos – um do quadro, o outro miliciano – deram-no como isento mas o coronel na reserva que presidia à Junta deu-o como apurado para os serviços auxiliares pois disse ele que “o mancebo podia perfeitamente estar sentado a uma secretária a preencher papelada…” Só visto, contado ninguém acreditaria. 

Neste período entre os inúmeros acontecimentos ocorridos o mais importante terá sido o protagonizado pelo meu pai. Já tinha mencionado que por castigo complementar fora de novo comandar uma companhia para Madina do Bué o pior local da Guiné atacado dia sim dia sim pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Ao fim de uns longos onze meses de levar porrada de criar bicho a companhia fora substituída por outra constituída por “maçaricos” (nome que se dava aos soldados recém chegados sem experiência de combate, da mata, dos pântanos, bolamas – o nome local e das terríveis abelhas assassinas) os quais ainda ficaram muito piores que os que antecederam.
 
Fora evacuado de helicóptero 
O general Spínola, Governador-geral e comandante-chefe ordenou a retirada e a tropa do meu pai foi dar cobertura ao movimento. E quando a companhia que voltava atravessava um rio numa jangada esta virou-se e aconteceu o pior desastre de toda a guerra do Ultramar: 46 mortos, vários feridos e muito material militar. Uma verdadeira desgraça. Com os turras sempre a atacar gerou-se um pandemónio e no meio dele o meu pai foi atingido nas costas já não conseguindo levantar-se. Foi evacuado de helicóptero para o Hospital Militar de Bissau e dada a gravidade do seu estado para Lisboa onde foi operado à coluna. Debalde. Ficou paraplégico, numa cadeira de rodas e por mais que a fisioterapia em Alcoitão tentasse recupera-lo não deu em nada.

A mãe foi visita-lo aos pavilhões do anexo do Hospital Militar na Infante Santo bem como a tia Elsa, o tio Jaime, o tio Miguel, a Leonor, os avós e a Miquelina e a Odete Rita. Quando chegou a minha vez o Frederico pediu-me para o levar. Um bico-de-obra. “Tu queres mesmo ver o pai? Olha que ele está muito doente e não vai curar-se…”. O mano, com os seus doze anos na altura, disse-me que sim que sabia o que tinha acontecido ao pai na guerra e queria mesmo visita-lo para desejar-lhe as melhoras. Perante a determinação dele fiz-lhe a vontade. E embora não fosse longe, bem pelo contrário, apanhámos um táxi e depois de ter explicado ao motorista que se tratava de uma pequena “corrida” o que não o deixou com muito boa cara lá fomos.

Durante o pequeníssimo percurso Frederico foi muito calado, ao contrário do que acontecia habitualmente e comecei a ficar preocupado, se calhar não devia ter acedido ao pedido dele e tê-lo trazido. Mas então já não ia chorar sobre o leite derramado. Mesmo assim quando chegámos à Estrela em frente da basílica voltei a inquiri-lo sobre a visita ao que me retorquiu com um modo brusco contra o que era o seu habitual “Já disse que quero!” Apaziguei os ânimos “Pronto, pronto, mano, não se fala mais nisso… Já cá não está quem abriu a boca…” E por mor das moscas fiz um sorriso, ao que ele correspondeu. Para compensar o chofer dei-lhe quinze tostões de gorjeta o que lhe mudou rapidamente o fáceis…

Hospital Militar  na Infante Santo


Quando íamos pelo corredor que dava para o quarto do nosso pai cruzámo-nos com o Olegário e o David que vinham de o visitar. Parámos e entabulámos uma pequena conversa “Então que tal o acharam? Está muito em baixo?” As minhas perguntas obviamente parvas só podiam ter uma resposta piedosa “Olha Armando, pensei que podia estar pior. Vai aguentando, mas não está bem-disposto como é normal. A vossa mãe e tia Elsa estão lá a tentar dar dois dedos de trela…” Mas, baixando a voz quase num sussurro segredou-me ao ouvido. “É preciso ter muito cuidado com ele, falou-me em suicidar-se…” E o David, para desviar a conversa, falou directamente para o Frederico: “Olá campeão como passas, dá cá mais cinco, então vens ver o teu pai? Ele vai gostar. Já estás um homenzinho…”

Despedimo-nos. E avançámos. Como seria?
(Continua)



2018-07-26


É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE – 9

Vem à baila

testamento

Antunes Ferreira
“Empernanço de pestana”? perguntou-me a Mafalda quando me ouviu pela primeira vez utilizar a expressão. “Que raio de coisa é essa?” E a moça carregou o cenho intrigada de maneira que não pude sustentar uma gargalhada. “Ainda te ris? Deixa-te de gozos e explica-me direitinho o que queres dizer com essa «coisa»!” O tom de interrogativo passara a imperativo o que significava que o caldo começava a entornar-se e uma zanga – aliás a primeira em dez meses de namoro – não calhava mesmo bem. Deitei água na fervura “Querida vou-te dizer o que a «coisa» significa. Quando a malta de Direito atravessa o que chamamos a «terra de ninguém», ou seja o espaço em frente da Reitoria fazemo-lo para ir ver as miúdas de Letras ou seja vocês.”

Estávamos no Jardim Botânico da Faculdade de Ciências deitados na relva por trás de um pimenteiro cuja tabuleta ostentava galhardamente Capsicum L. originária de Angola que dá gindundo ou piripiri muito picante por isso mais ou menos resguardados de vistas inconvenientes. Mesmo sem a influência do ardor da malagueta, quer eu quer a minha namorada eramos de sangue bastante quente e pesquisávamo-nos com alguma ansiedade enquanto trocávamos beijos de línguas ensarilhadas. Um verdadeiro ponto de rebuçado. As nossas mãos tinham partido à descoberta dos lugares mais recônditos dos corpos de ambos num frenesim que mesmo já não sendo novo era sempre entusiasmante. Parámos por momentos e eu prossegui entre arfar e sem parar as investigações manuais.

À descoberta dos corpos de ambos


“Como ali não podemos amar como aqui estamos a fazer apenas podemos olhar ou seja «comer» as moças com os olhos, ou seja com as pestanas e fingindo que estamos a usar as pernas… Percebeste agora, meu amor?” Claro que a Mafalda tinha percebido pois soltara uma cristalina gargalhada ao que fiz baixinho schiu, cuidado, podem ouvir-nos e descobrir-nos… Pelo sim pelo não abotoámo-nos, compusemo-nos, levantámo-nos e saímos com ar de quem tinha feito uma visita científica. Na relva ficara o testemunho dessa visita… Logo que nos fosse possível iríamos repetir pois já não dispensávamos as carícias e a excitação.

1966: as lágrimas do Ósébiu

Tenho obrigatoriamente de aqui fazer um breve ponto do que se passou neste interregno e para tanto socorro-me do diário que tinha começado a fazer quando haviam acontecido os trágicos acontecimentos que me tinham levado a crescer tanto em tão pouco tempo. E, óbvio, a participação do Frederico nos que aponto. Muitos foram, mas um com muita piada fora o Mundial de 66 tinha o miúdo sete aninhos. Seguiu a transmissão televisiva com a maior atenção e elegeu como herói o Ósébiu. Chorou quando ele chorou após perder o jogo com a Inglaterra e foi difícil consolá-lo, só um arroz doce lhe aplacou o desconsolo.

Mas foi também que me perguntou, pois continuava a achar que eu era o seu “chefe” por que razão havia pessoas brancas e pessoas pretas. Lá no colégio só havia meninos brancos mas haveria meninos pretos, ele dizia “castanhos”? Pensei em recorrer à História e contar-lhe o que se passara segundo a Bíblia com a Torre de Babel mas entendi que era muita areia para a camioneta do maninho. Então falei-lhe das diferenças dos climas entre as terras e blá blá blá. Ele não ficou muito convencido mas calou-se.

Outro foi o que se passou com o pai Gilberto já neste ano. Foi a primeira vez que o viu quando a RTP tentou entrevista-lo a propósito do processo que lhe fora levantado quando saía do Ministério do Exército o que ele recusara de imediato. Frederico voltou-se para a mãe e disse-lhe aquele senhog é o meu pai, não é? E pogque é que ele não vive cá em casa? E pogue é que ele não vai buscag eu na escola, os pai dos outgos meninos vai…
Vinha trazer o testamento...
Eu estava presente e não sabia o que dizer, a mãe também, de repente tocou a campainha da porta e apareceu a Odete Rita a anunciar que estava lá fora um senhor que nos queria falar e que entregara o cartão de visita dele onde se lia Tiago Silva Fernandes -  Advogado. Salvos pelo gong aliás pela campainha...

O causídico vinha para dar conhecimento do testamento que o meu pai fizera antes de partir para nova comissão também na Guiné. Fazia-o por ordem expressa dele pois declara-lhe eu queria ter a certeza de que a sua família ficaria bem ciente da sua última vontade dado que ia para um local muito perigoso e ninguém sabia o que o futuro lhe reservava. E passou a ler o documento através do qual após as formalidades habituais respeitando as disposições legais aplicáveis quanto a descendentes directos nomeava seu herdeiro o filho Frederico Miguel da Costa Saraiva Mendes e dado que era menor seria sua tutora a mãe Maria de Fátima Lencastre Albergaria Souto e Costa Mendes de quem estava judicialmente separado.

Chamaram-se a Miquelina e a Odete Rita para assinarem o documento como testemunhas após a minha mãe o ter feito, os cumprimentos da ordem e o advogado saiu. Ficámos a olhar uns para os outros. A cozinheira e a criada que tinham naturalmente lido o texto nem queriam acreditar, mas o senho capitão que ficou tão fodi…, perdão, chateado com o nascimento do menino Frederico nomeia-o seu herdeiro… disse a Miquelina com um ar incrédulo até tenho pele de galinha acrescentou a Odete Rita. A mãe atalhou: não vale a pena fazer disto uma tempestade num copo de água. A vida é madrasta, tem destas coisas que por vezes são difíceis de explicar. Vamos mas é às nossas vidas. E eu acrescentei. Como dizia a minha professora da quarta classe, a Dona Clélia, ponto final parágrafo. Na outra linha.

Fomos para o telefone, cada um à vez é claro, dar a novidade aos nossos mais chegados. Por último falei com a Mafalda. Depois de me ouvir ficou um bom bocado calada o que me levou a perguntar-lhe ainda estás aí? Ao que ela me respondeu: o teu pai é um bom pulha, olha amor, aqui para nós que ninguém nos ouve – a não ser que tenhas o telefone sob escuta pela PIDE – é um bom filho da mãe e eu corrigi esculpa interromper-te, tirando a minha avó, uma santa senhora, um filho da puta é o que ele é! Mas amanhã vamos até à Estufa Fria e depois conto-te tudo tin-tin-por-tin-tin… E ela do outro lado: Só???? E desligou. Raio da cachopa, que até  fiquei com as duas cabeças no ar…




2018-07-19


 É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE - 8
Empernanço de pestana

Antunes Ferreira
Dê-se agora mais um salto no tempo e aterre-se em 1969, oito anos são oito anos, os relógios não param, os calendários também seguem folha arrancada após folha aos dias seguem-se as noites, dos Invernos aos Invernos as Primaveras, os Verões e os Outonos incansáveis não há interruptor que os desligue. Durante esse longo período aconteceram muitas coisas. Acabo de me levantar do sofá onde sentado assisti à chegada do homem à Lua. Impressionante. Nunca imaginei que tal presenciasse mas a caixa mágica que mudou o Mundo proporcionou-me esse deslumbramento.

O Frederico tal como a minha mãe, os tios Elsa, Jaime, Miguel o Jaiminho já com oito anos, a Miquelina e até a Odete Rita todos tínhamos estado com os olhos pregados no televisor. Nem comemos, apenas debicámos umas sandes e uns bolos que tinham sido trazidos da pastelaria Cristal e bebemos umas cervejas e uns refrigerantes. Vale a pena relatar a reacção do Frederico que ia nos dez anos e já lia e conseguia escrever o nome dele e mais umas coisas por vezes não muito correctamente. A falar ia muito bem, com alguma incerteza na pronúncia, mas sem importância.

Na Lua há "mag"?


Ele quis saber logo que o foguetão se preparava para partir o que era aquilo e se era nele que iam aqueles senhores com fatos de mergulhadores. E na Lua há mag? Então pogque vão eles assim vestidos? E se ela estiveg como uma talhada de melancia eles conseguem acegtag? As perguntas surgiam em catadupas com os rrr transformados em ggg habilidade em que era especialista… Toda a gente lhe foi explicando o que acontecia e, mais importante, o que ia acontecer. E que finalmente aconteceu – premiado com uma entusiástica salva de palmas!

Ora bem durante estes oitos anos tenho de registar o que de mais importante se passou na nossa família. O meu pai foi e veio de Angola onde teve uma comissão muito atribulada, pois passou a maior parte dela no mato a comandar uma companhia de caçadores ou seja de cavalaria… apeada. Com sede em Zala num vale rodeado de morros onde estavam instalados os turras que de manhã quando se içava a bandeira mimoseavam a tropa com umas morteiradas para alegrar a malta. Benditos estrategas…

Estivera na metrópole durante pouco mais de ano e meio e de novo fora mobilizado – depois de ter ido a Lamego formar uma companhia de caçadores especiais – para a Guiné para onde partiu em finais de 1964. Aí é que se tramou. Mas, já lá vou, pois tenho de voltar atrás, porque o Olegário, como alferes miliciano, fora parar a Goa e o David, com o posto de furriel também miliciano, a Damão e nas cartas e postais que nos mandavam contavam do paraíso tropical que tinham ido encontrar mas igualmente do clima de ansiedade pois andava no ar que a União Indiana podia invadir o Estado Português da Índia para o “libertar do colonialismo de Lisboa” de acordo como o que dizia o primeiro-ministro Nehru.

O que viria a acontecer e que resultou para os dois terem estado presos em campos de prisioneiros durante largos meses, depois do governador-geral general Vassalo e Silva se ter rendido aos invasores, face à disparidade das forças em presença três mil e poucos portugueses contra 42 mil indianos, desrespeitando as ordens do Salazar que tinha ordenado que todos morressem pela Pátria. Felizmente isso não acontecera.
Goa - no campo de prisioneiros
No entanto o regresso do contingente português foi mais uma demonstração do espírito maldoso e vingativo do Salazar. Os militares desembarcaram de noite vigiados pela Polícia Militar de armas aperradas e foram logo para quartéis. Só passados uns dias puderam ir para as respectivas casas. Além disso o general foi demitido.

Tinha tão bons professores de política em casa que rapidamente me integrara na oposição contra o Estado Novo que, de resto andava pelas ruas da amargura, pois nem um partido único conseguia ser. Por isso seguia com muita atenção o que se passava no país que ia de mal a pior. Ainda que fossem proibidas ocorriam greves e a PIDE via-se em palpos de aranha porque já não conseguia controlar tudo como antes fazia. O luto estudantil em Maio de 62 em que não tinha participado porque era então muito puto fora um gravíssimo problema para o Salazar e a sua camarilha. Mas pior tinham sido as eleições presidenciais de 1958. O tio Jaime contara-me o que se passara com o general Humberto Delgado que ficara conhecido como o general sem medo. Como eu gostava de ter vivido já adulto nessa altura.


Madina do Boé: baixas constantes 
Mas voltemos ao meu pai. A companhia que comandava fora colocada em Madina do Boé um dos locais mais perigosos da Guiné onde quase todos os dias era atacada me as baixas eram constantes. Foi lá que ele recebeu uma notícia que o deixou possesso. A Marina Neves tinha-o abandonado pois fora para o Brasil com o dono da empresa o engenheiro civil Salviano Francisco Xavier, um goês que viera estudar para Lisboa no Instituto Superior Técnico e por cá ficara e era viúvo. Foi o David que depois de ter regressado de Goa voltara a trabalhar na empresa que contara à minha mãe o ocorrido. Ela comentou sem grande espalhafato quem com ferros mata, com ferros morre…

Corria então o ano de 1968 e com a fúria do ciúme a toldar-lhe o raciocínio o meu pai voltou à metrópole e meteu uma licença tendo-se deslocado ao Brasil sem autorização militar. Foi um buraco, mais um, em que se meteu: por mais voltas e reviravoltas que tivesse dado pelas terras do samba e mulatas não obteve qualquer resultado e pelo contrário até ultrapassou o período da licença o que o colocou em termos castrenses em situação de ausente sem licença a que se seguiria a deserção. Porém aí parece ter-lhe voltado à tona um pouco de bom senso. Apresentou-se no Ministério do Exército antes que isso acontecesse. Mas foi-lhe levantado o correspondente auto.

O David ia dando-nos conta do que se estava passando e, curiosamente, o Frederico parecia compreender a gravidade da situação o que era ainda mais estranho dado que nunca se referia ao pai. Eu estava muitíssimo apreensivo pois algo me ultrapassava o que deixava mal comigo próprio pois acreditava que sempre tinha tudo sob controlo. E aqui a angústia que se apoderara de mim invadira também a Mafalda. A Mafalda? Pois, a Mafalda, a minha namorada que encontrara na Faculdade de Letras como caloira quando eu que já estava no segundo ano de Direito cruzava a “terra de ninguém” em frente à Reitoria para ir ver as miúdas e fazer o que então dizíamos o “empernanço de pestana”. No meu caso, dera mais do que a piscadela de olho…
(Continua)




2018-07-11


CONCURSO


Frases 
escolhidas

Ultimamente nos escassos dias que consigo ter mais ou menos livres tenho-me dedicado a colecionar ditos e frases mais ou menos sociais mais ou menos políticas proferidas por pessoas que se julgam importantes – ou que os outros julgam ser importantes… assim – verdadeiras tiradas que uns e outros pensam que vão ficar para a História e que as mais das vezes apenas se quedam pelas estórias. O âmbito temporal desse empreendimento insano situa-se nos séculos XX e XXI.

De qualquer maneira é uma tarefa interessante porque antes do mais fui eu que a escolhi e a impus a mim próprio, mas também porque nunca poderia imaginar a abundância de searas de tal quilate das quais tive de mondar aqui e ali mas sem ser de forma aleatória o que venho recolhendo. Tenho de confessar que tem sido obra. Gaba-te cesto… Mas se ninguém disser em de mim, alguém o terá de fazer.

Dentre muitíssimas escolhi a que se segue e que aqui coloco à consideração de quem me segue e por vezes comenta num concurso que não tendo a dimensão dos que o COISAS DA FONTE ou o JARDINS DE AFRODITE também tem a sua personalidade e como é hábito nesta Travessa dá prémios-surpresa para os primeiros cinco concorrentes que acertarem. Para concorrer é muito simples, basta enviar uma resposta para o meu imeile ferreira20091941@gmail.com a partir de agora e até quinta-feira, 19 deste mês de Julho. Cada concorrente poderá enviar três respostas. E é tudo. Boa sorte.
UMA ADENDA - Além dos imeiles gostarei que os concorrentes mencionassem aqui Já enviei a resposta. Obrigado.

Mas, desde já quero informar que a frase é de um político que também escrevia para os jornais e situa-se na primeira metade do século XX. O tom dela não é muito usado pelo seu autor. E pronto, aqui ficam umas dicas.

Por este motivo a saga É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE só continua na próxima semana. O que não impede de poderem ser enviados comentários ao último texto publicado.
Qjs & abçs
Henrique, o Leãozão

FRASE

«Estou com uma constipação formidável. Sinto um enorme peso na cabeça – por dentro, está visto; choram-me os olhos e não vejo claro. É-me impossível estudar ou compreender o que leio; bronco pesado, estou incapaz de aprofundar um problema, de apanhar a força de uma razão, de perceber a “nuance” duma ideia, de manter a sintaxe dentro de regras limites; em suma estou em óptimas condições para escrever nos jornais…»

2018-07-05



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE - 7




Um chefe de esquadra à rasca


Antunes Ferreira
No dia seguinte a primeira coisa que o tio Miguel que logo pela manhã cedo chegara a nossa casa foi saber junto da vizinhança se alguém vira alguma coisa e podia testemunhar o que se passara. A dona Leocádia, uma senhora viúva que morava no apartamento em frente do nosso assistira a tudo através do ralo da porta tendo ficado admiradíssima com o que se passava e estava pronta para o declarar. Até se benzera ao ver o senhor Capitão metido naquelas andanças. Assim disseram outros inquilinos o principal dos quais fora o senhor Belchior reformado da Carris que vivia no rés-do-chão direito e usava uma cadeira de rodas, passava o dia debruçado no parapeito da janela e até estivera no paleio com os magalas que conduziam as “Matadores” da Segunda Guerra.
 
Esquadra de St. Marta
Logo em seguida a minha mãe, o tio Miguel e eu fomos à esquadra de Santa Marta onde o chefe enquanto estivera no Exército tinha sido subordinado do meu pai e ali apresentámos queixa. Quando a mãe se identificou o guarda de serviço foi dizer ao chefe quem era a participante e de imediato ele veio ao balcão e convidou-nos a entrar para o seu pequeno gabinete, tendo mandado buscar cadeiras para nós e fiquei a pensar que devia ser todas as que havia na instalação.

Com ar afável o chefe Roberto virou-se para a minha mãe e disse respeitosamente Vossa Excelência Senhora Doutora Maria de Fátima que deseja deste seu humilde servidor? E a mãe muito séria Senhor chefe venho participar que a minha casa foi assaltada ontem pela tarde tendo sido dela retirados vários bens cujo valor ainda não pude calcular mas que oportunamente farei aqui chegar, Roberto uniu as mãos como se rezasse e perguntou se tinha suspeitos. Pelo contrário, tenho culpados e posso apresentar testemunhas presenciais dos factos.

O polícia ficou à rasca, ia caindo da cadeira, Senhora Doutora está a fazer uma declaração muito séria e por isso, pedindo-lhe antecipadamente desculpa da pergunta, tem a certeza disso? Bem vê, a senhora é a esposa de um oficial bem conhecido cujas virtudes e aprumo são do domínio público e que vai partir para Angola em defesa do solo sagrado a Pátria. Houve um silêncio de cortar à faca, cortado apenas por umas moscas que zumbiam o que levou um guarda a entrar no gabinete, filha da pu… de varejeira! Ó Simões dobre-me essa língua, está aqui a esposa do senhor capitão Saraiva Mendes…

Camião "Matador"

E virando-se para a minha mãe, o chefe Roberto dizia a Senhora que… E ela sem papos na língua pois senhor chefe o assaltante foi o meu marido acompanhado de um sargento e de mais militares usando dois camiões do Exército de acordo com testemunhas de marca “Matador”. O polícia levantou-se num pulo, abriu os braços explodiram-lhe os olhos, tingiu-se-lhe a face da cor de tomate maduro, tirou um lenço do bolso das calças, limpou a testa perlada de suores e voltou a sentar-se. O senhor Capitão Saraiva Mendes? Pode lá ser? Podia. E com frases curtas e sintéticas a mãe corroborada pelo tio Miguel resumiu a ocorrência perante o siderado agente da autoridade.

E a terminar veio a última declaração da minha mãe. Eu não quero mover uma acção contra o meu marido do qual adianto estou a tratar da separação já que pela Igreja não posso divorciar-me. Pretendo apenas que seja registada a queixa, ouvidas as testemunhas, ouvido o arguido ou seja o capitão Gilberto Saraiva Mendes e quem ele indicar e depois destas diligências concluídas dar-me-ei por satisfeita requerendo cópia do processo e propondo o seu arquivamento, proposta que deverá ser dada conhecimento à parte contrária. Roberto apenas disse que não estava dentro da sua competência assim proceder mas que ia dar conhecimento dela aos seus superiores e depois informaria em conformidade. O tio Miguel esclareceu que o assunto passaria a correr por intermédio do advogado da Senhora e que esta oportunamente o comunicaria.

Dali rumámos á Baixa, mais precisamente à rua dos Sapateiros para irmos à Loja Sol dos irmãos Mesquita onde a família comprava todos os electrodomésticos lá para a casa a fim de repor os que o meu pai tinha levado. Ora nós tínhamos sido dos primeiros a possuir televisor logo que a RTP começara a transmissões experimentais da Feira Popular em 1957 e por isso o meu pai fora logo comprar um televisor Grundig que custou a enormidade de quatro contos e quinhentos escudos. O salário de um capitão mal passava dos quatro contos…
 
Móvel Philco com televisão, rádio e gira-discos
Porém o senhor Raul Mesquita esfregou as mãos de contente quando a mãe lhe fez a encomenda para ser entregue “hoje mesmo da parte da tarde, há sempre gente em casa”. Um frigorífico Bosch, aquecedores diversos, Um fogão-forno De Luxe da Fábrica Portugal, um esquentador Vulcano, tudo coisa fina, do melhor que havia e para rematar a compra um móvel Philco com televisor, rádio e gira-discos. Um cheque (com cobertura e um sorriso malandreco), ó minha Senhora, saiba Vosselência que eu nunca duvidaria da qualidade de um cheque passado por si.

Passámos pelo colégio para trazer de volta a casa a Leonor e o Frederico. Este vinha todo impante: trazia uma folha de papel branco com uns gatafunhos feitos com lápis de cores. Era a sua primeira “obra artística”. Arrisquei um tanto receoso Maninho o que é? O catraio pianou, os dentes reluziram é pussôa. Dei uma gargalhada e insisti é a Nela? A Maria Manuel era a educadora por quem ele tinha uma adoração que de resto era correspondida pois ela adorava-o. É muto munita. Eu gosto muto. Então estendi-lhe a mão, ele estendeu-lhe a mãozita dele e eu fingi que não a segurava bem, deixei-a cair o que motivou uma barrigada de riso do Frederico e minha, era uma brincadeira muito frequente que dava sempre esse resultado. Finalmente um bacalhau bem “abanado” e mais gargalhadas e mais guinchos a roçar a histeria. Pronto. Vamos comer e depois deitar.

Entretanto tinham chegado os da Loja Sol e começaram a entrar as compras e a instalar o esquentador. Também tinham aparecido o Olegário e o David com o intuito de ajudar a arrumar a casa depois de terem entrado os novos componentes. E foi justamente este que trouxe a novidade. O meu pai ia embarcar para Angola daí a duas semanas no Vera Cruz um grande paquete, o maior de Portugal.
(Continua)



2018-06-28



É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE 6
Um vândalo
mentiroso

e traiçoeiro


 


Antunes Ferreira
Completados os doze anos e com tantas “novidades” pela frente já andava a meter os pés pelas mãos ou quiçá as mãos pelos pés… pois deixara passar coisas e acontecimentos muito importantes ocorridos neste ano de 1961. A seu tempo me ocuparei dos eventos políticos, mas primeiro que tudo queria abordar mais um facto tristíssimo protagonizado pelo meu pai.

Numa sexta-feira pela tarde a mãe recebeu um telefonema dos sogros a convidar-nos bem com à tia Elsa, tio Jaime e Jaiminho e naturalmente o tio Miguel para irmos passar com eles o domingo na quinta que tinham em Colares, com o almoço e o lanche incluídos, seria um dia para descomprimir da agitação diária de Lisboa da lufa-lufa entre as casas, os empregos e as escolas e as voltas. Mais a mais com o trânsito a ficar cada vez mais complicado, valiam os sinaleiros nas suas peanhas às listas vermelhas e brancas mas alguns já quase não chegavam para as encomendas.
 
Uma Chevrolet já velhota... mas dentro do prazo de validade

E lá fomos, o tio Jaime tinha uma station Chevrolet, já de certa idade, 1953 mas dentro do prazo de validade…, cabíamos todos, a viagem foi um encanto, atenção meninos não abram as janelas, entra o pó e pode algum cair e não briguem nem façam essa barulheira a mãe e tia iam tentando conversar nos bancos de trás com o Jaiminho que adormecera  estendido no banco perfeitamente ausente dos solavancos causados pela estrada, o tio Jaime que conduzia falava de política com o tio Miguel e eu ia atrás no “galinheiro” com a Leonor, uma amiga dela que fora “cooptada”, a Mena e o Frederico. Foi uma galhofa em que ele também participou embora estivesse muito admirado vendo a paisagem a correr, pressa, pressa, pressa. 
 
O peru não caiu bem ao mano
Passou-se um domingo estupendo, na cavaqueira e nos comes e bebes e fizeram-se umas belas sestas. Nós os mais pequenos fartámo-nos de brincar e o Frederico integrou-se com facilidade o jardim-escola vinha dando-lhe uma mobilidade bastante boa e aumentara-lhe a sociabilidade. De resto tudo nele eram novidades, os frutos nas árvores, os animais da capoeira – e havia muitos, os perus tinham-no assustado, olhava-os de soslaio… - mas os pintainhos eram os que mais lhe despertavam o interesse.


Os homens tinham-se reunido numa mesa que ali havia por baixo duma nespereira e continuavam a discutir abertamente coisas que eu não entendia, mas que me parecia ser da política. Do que ia ouvindo uma coisa apanhava, eram contra o Salazar e o Estado Novo. Falavam também de Angola e coisa estranha o nome do meu pai vinha-lhe associado. Porém e dado que não conseguia acompanhá-los nas suas discussões, dedicava-me principalmente a seguir o Frederico que estava felicíssimo. As senhoras tinham iniciado um torneio de canasta acompanhado de outro de corta-na-casaca…

Pelas seis horas, depois do lanche regressámos a casa passando primeiro pela da Mena com muitos agradecimentos, beijinhos e apertos de mão e por proposta da minha mãe foi decidido que jantaríamos em nossa casa. Mas não sabíamos para o que estávamos guardados. Fui eu quem meteu a chave à porta e quando a abri em vez de entrar dei um passo atrás tal o espectáculo que se me deparou ou melhor nos deparou. Era uma balbúrdia com papéis espalhados pelo chão, cadeiras viradas, móveis desaparecidos. Tínhamos sido assaltados. E de que maneira!

Surgiu da cozinha a Miquelina, a nossa cozinheira, que já viera da casa dos meus avós maternos uns prantos de fazer doer a alma, fomos sim e o comandante dos assaltantes foi o senho capitão!.. Estávamos todos siderados. Podia lá ser? Podia. E depois de nos sentarmos mais ou menos nas cadeiras desconjuntadas e nos sofás manchados ela contou que o relógio de pêndulo que havia na sala de estar (e que á lá não estava) tinha acabado de bater o meio-dia e alguém metera a chave à porta. Como eu estava sozinha, a Senhora tinha dado o domingo à Odete, apanhei um cagaço e pé-ante-pé vim ver quem era que assim procedia. E era o Senhor Capitão com um sargento e cinco soldados todos fardados.

Ele disse-me para estar sossegada que não era nada comigo, apenas vinha buscar as coisas dele, todas, pois ia partir mobilizado para Angola a defender a Pátria e não queria que elas fossem parar – as senhoras e os senhores desculpem, mas foi assim que ele disse com voz de trovão – a paneleiros ou a despadrados ou a putéfias e rosnou mais umas coisas que eu não entendi. E então começaram a quais furões a meter-se por toda a casa e foram levando para dois camiões militares muito grandes tudo o que o senhor Capitão considerava que lhe pertencia desde roupa até ao cofre e ao relógio de pêndulo, do piano ao frigorífico, ao televisor e até a antena que foram tirar ao telhado.
 
O que mais me meteu maior dó...
Por último e o que me meteu maior dó foi ter levado as duas caixas dos soldadinhos de chumbo que tinha comprado para o menino Frederico enquanto comentava que o rapaz não vai brincar com eles porque nem sequer vai compreender o que são e para que servem; vão ser usados por que, o saiba fazer. E lá foram de alada deixando a casa neste lindo estado. Por mais anos que Deus me dê de vida nunca me esquecerei deste desmando. A mãe e a tia Isabel bem tentaram consolar a pobre Miquelina que se foi acalmando deixando que os soluços se fossem espaçando.

Assassinados pela UPA


Foi o tio Miguel quem decidiu telefonar aos pais para lhes perguntar se a ideia do domingo fora sugestão do irmão. Fora. Com o pretexto de que a minha mãe continuava muito abalada e mais ficara quando ouvira o que se passar no norte de Angola, um morticínio selvagem levado a cabo contra brancos pretos do sul e mulatos por hordas de assassinos impiedosos da UPA chefiada desde o antigo Congo Belga por um homem sinistro chamado Holden Roberto. E mais anda quando vira na televisão o senhor Presidente do Conselho, Professor Doutor António de Oliveira Salazar afirmar Para Angola rapidamente e em força!

O que ele queria era ver-nos fora de casa para perpetrar os seus negros desígnios – disse amargamente o tio Miguel. Um vândalo mentiroso! E ainda por cima traiçoeiro! Nunca mais volto a falar com tal pulha, a partir de hoje deixa de ser meu irmão!  


(Continua)