2023-06-20

 



Crime no Atlântico

*Uíge um navio malfadado

Antunes Ferreira

Jacinto da Rocha Fernandes, alferes miliciano, oficial da Polícia Judiciária Militar, está a embarcar no paquete Uíge para nele seguir para Angola para onde fora mobilizado depois de um confronto pessoal com o ministro da guerra que o acusara de ser comunista – oque ele não era, sendo no entanto, opositor do regime salazarista.

 

As cenas habituais das despedidas com as famílias dos militares a dar os últimos abraços e beijos aos que iam entrando no navio, com muitas lágrimas e ais. Só Jacinto, órfão – os seus pais tinham morrido num desastre de automóvel quando ele tinha apenas quatro anos – que fora criado pela avó materna viúva e carinhosa uma segunda mãe para ele, também já morrera, não tinha ninguém a malta despedir-se dele, pois a última namorada acabara há ma ano e meio.

 

O embarque decorreu normalmente e mal chegados todos a bordo, mesmo antes de serem atribuídos os lugares onde ficariam durante a viagem, a malta, debruçada sobre a amurada que dava para o cais começou os mesmos adeuses para os que estavam lá em baixo e estes responderam como haviam feito à partida. (*)

Foi então que começou a viagem Tejo afora ao lado direito a Torre de Belém e os Jerónimos.  Uma breve escala de dois dias para embarcar uma companhia local e mantimentos a fim de reforçar os que já existiam a bordo. Faltavam assim seis dias para aportar a Luanda, O navio entrara num rame-rame: toque de alvorada às seis horas da manhã, pequeno-almoço às seis e meia.

 

Antes do mais tem de dizer-se que no Uíge seguiam dois batalhões o que somado à companhia da Madeira dava a enorme quantidade de 1388 homens. O seu quotidiano que começava às sete e um quarto era distribuído desta maneira: ginástica militar – uma hora; combate corpo-a-corpo outra hora, lavagem à mangueirada (pois não havia no navio duches suficientes naturalmente para tamanho pessoal) é claro que se revezavam as unidades dado o tamanho do pessoal; depois seguia-se o almoço antecedido pela tradicional prova da comida por um oficial para ver “se tudo estava nos conformes” frase tradicional pelos soldados nos quartéis.

Tudo isto decorria nas camaratas nos dois porões que assim ganharam um cheiro nauseabundo misto de suor urina e fezes! Só quem vivia aquilo podia – e mal-entender o mal-estar das praças quase pior do que entra no mato para fazer a guerra! Ali começava a qualificação de que o soldado português era dos mais valentes não entre o capim das picadas, mas também no suportar as condições péssimas dos navios civis transformados em transportes de militares.

 

À tarde repetia-se a manhã e quando chegava a noite a única diferença era o toque de recolher às oito horas. E assim terminava um dia malfadado. Mas no Uíge havia naturalmente sargentos e oficiais do quadro permanente e milicianos. Como se ocupavam os primeiros, nos tempos de ócio? Jogavam a bisca, fumavam, também faziam o dominó e bebiam o seu balão de aguardente Constantino, faziam a sesta nos seus camarotes de quatro beliches.

 

E desta maneira já decorria em tempo decorrente à chegada a Luanda. Entretanto quanto aos oficiais que faziam eles? Bebiam os seus uísques sentados às mesas jogando bridge. A principal mesa por ser jogada pelos melhores jogadores era constituída pelo major José Mendes Gonçalves, capitão Manuel da Silva, capitão Xavier Costa, capitão Domingos Álvaro Carvalho.

Jacinto que não pescava népia do bridge estava de mirone seguindo com patavina as jogadas das cartas e aa vozes dadas. Ao terceiro dia já de tanto olhar para o cartear e ouvindo as vozes, durante o jogo e final do mesmo (por exemplo: duas trunfo é copas, ful de espadas, etc.) Porém um dia o capitão Ferreira da Silva ficou no camarote com uma merda nas tripas (vocabulário típico entre militares) e chamados os médicos do navio e bem os das companhias receitaram o possível na modesta farmácia do Uíge.

 

Foi quando o major Mendes Gonçalves convidou Jacinto a substituir o capitão enfermo. O alferes miliciano bem recusou, mas depois de muita insistência dos três oficiais, lá sentou e começou a jogar, de principio, de forma desastrosa. Mas, pouco a pouco foi cometendo menos faltas e na noite do dia que antecedia o dia da chegada a Luanda já sua parceria com o capitão Xavier Costa ganhava alguma, poucas, partidas. Enquanto isso a saúde do capitão Ferreira da Silva entrava no ponto crítico!

 


Uma porra! Afirmação do tenente-coronel da tropa. Pior ainda! Como se estava a um dia de atracar ao porto de Luanda decidiram que o capitão doente estando cada vez mais grave a maleita, seria, logo que o Uíge atracasse, fosse levado por ambulância ao Hospital Militar da capital.  E assim se fez. Paralelamente desceram todos os militares. E Jacinto como vinho sozinho aproveitou para chegar junto a um garoto que sentado no chão tinha espalhado no mesmo chão revistas diversas e um jornal “A Província de Angola”. Jacinto perguntou ao garoto: “O jornal é d´hoje. E o garoto: “Não sô patrão tropa, é dôje e quinhento”…

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(*) A guerra " ultramarina" (invenção do Estado Novo  que nos dias de hoje é considerada naturalmente como colonial foi um horrendo crime pela ignominiosa perda de vítimas humanas e lesões as mais diversas. Além disso a frase do ditador de Santa Comba Dão "Para Angola Rapidamente e em Força" aplica-se directamente  a este texto.)

 

 

 

 

2023-05-28


 

Paciência a quanto obriga

 

*Farto de ouvir confissões avulsas

 

Antunes Ferreira

Mal sabia ele quando andava no seminário o que o esperava na vida quotidiana numa paróquia duma aldeia perdida em terreola onde Judas perdeu as botas. Porque essa estória do suicídio do apóstolo traidor pelas trinta moedas era muito duvidosa. Primeiro que tudo que moedas aliciadoras seriam? E o silêncio sobre o autor (ou os atores da cena) da corrupção judaica não eram cuidadosamente identificados. Marosca.

 

Porém, o que mais lhe punha a farta cabeleira (muito encomiada pelas fiéis, sobretudo pelas mais jovens e apetitosas – de acordo com Mateus, 26.41 “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.” – era a falta de paciência que lhe chegava quando ia para confessionário.

 

E, chiça, que Deus lhe perdoasse, o múnus sacerdotal era o dever, função e obrigação que cabia ao indivíduo que se dedicasse ao sacerdócio. A Igreja Católica, por exemplo, sabia-o bem, tem como base a chamada tríplice múnus, formada pelo sacerdotal, pelo profético e pelo pastoral. Nem precisava reflectir ou rememorar, a Igreja Católica, também conhecida como Igreja Católica Apostólica Romana é uma igreja fundada de acordo com os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e que tem o apóstolo Pedro como figura de destaque, pois foi através dele que ela começou a ser edificada, citando Mateus 16:18.




É una, santa, católica (universal) e apostólica e como sacramento único de salvação, por vontade de Cristo, tem como característica a indefectibilidade (subsistirá até o fim do mundo) e a infalibilidade. Ela considera-se a única Igreja de Cristo e por isso se chama católica. É constituída por igrejas particulares ou dioceses, sendo cada uma destas, confiada a um bispo em comunhão com o sucessor de Pedro isto é o Papa ou vigário de Cristo na terra. Encontram-se em comunhão com a Igreja Católica os batizados que estão unidos com Cristo no Seu Corpo visível pelos vínculos da fé, dos sacramentos e da disciplina eclesiástica.

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A Igreja Católica, devido aos ritos litúrgicos e à disciplina eclesiástica, é dividida em Igreja latina e Igreja oriental. A fundação desta última deve-se em exclusivo à recusa em submeter-se ao Papa e à disciplina eclesiástica, nomeadamente quanto ao celibato do clero. A sua projeção na vida nacional é diminuta.




 

A sua congénere Católica Apostólica Carismática apresenta várias diferenças em comparação com a Igreja Católica Apostólica Romana. A Igreja Carismática não tem os sete sacramentos que a Apostólica Romana e o Papa não é o líder supremo da Igreja. No caso da Igreja Carismática, a confissão não é um sacramento.

 

Os bispos, padres e diáconos da Igreja carismática podem casar, ao contrário do que acontece na Igreja Católica, devido ao celibato. Segundo a Igreja Carismática, o purgatório não existe, e por esse motivo os mortos não precisam de oração. Outra diferença entre as duas igrejas é que na Igreja carismática, os métodos contraceptivos são permitidos.

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Em tudo isto – que, de resto sabia perfeitamente, ainda que se mantivessem as dúvidas que constantemente o apoquentavam – o moço cura Diógenes da Costa Carvalho congeminava impaciente. Se algum pecado lhe reconhecia era a falta de paciência além de outros, claro. Mas, vendo bem, o que era um paciente? Alguém que não perde a calma? Ou que possui uma qualidade de quem suporta algo sem reclamar, uma resignação. Ou ainda será virtude que faz alguém suportar algo sem perder a calma, aguentar com tranquilidade uma eventualidade, tristeza ou uma acção maldosa.

 


Elucubrações levaram-no a consultar a Wikipédia a que se tinha habituado ainda no seminário. Foi para o portátil (um Lap Top ASUS oferta do mentor monsenhor Bastos Aranha no dia da sua consagração) e carregando no Google Chrome na palavra paciência encontrou: «Faculdade de não desistir facilmente de; perseverança, constância.[Ludologia] Nome de certo jogo de cartas.. 

 

[Botânica] Erva proveniente da América do Norte, com flores verdes e folhas comestíveis, pertence à família das poligonáceas Rumex patientia. expressão. Perder a paciência. Deixar de suportar, de esperar, de aguentar algo sem reclamar: estou perdendo a paciência com essa demora! Revestir-se de paciência. Esperar com calma .Etimologia (origem da palavra paciência). A palavra paciência deriva do latim "patientia,ae", capacidade de não desistir, de aguentar.

 

Paciência é sinônimo de pachorra, resignação, calma, tranquilidade, equilíbrio, serenidade, mansidão, impassibilidade, pacacidade, sensatez. Paciência é o contrário de: impaciência, inquietação, freima, nervosismo, irritação, agastamento, implacidez, sofreguidão, pressa.

Deus criou a mulher de uma costela, de um osso torto. Se procurares endireitá-la, quebrará. Tenham pois paciência com as mulheres.

- Maomé

Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência.
- Carlos Drummond de Andrade

 

De acordo com a mitologia persa, "syngué sabour", ou pedra-da-paciência, é uma pedra mágica que guarda segredos e angústias, e que liberta a pessoa dos seus sofrimentos no dia em que explode. Em um paralelo, o marido torna-se a pedra-da-paciência da mulher.

 

Diogo, um coadjutor meia leca assumido e impaciente por natureza, dirigiu-se à sacristia onde se encontrava o padre Pedro Ivo Neves, prior da freguesia. Sem mais aquelas despiu a batina sob o olhar estarrecido do seu superior. “Estou farto! Não tenho paciência; nunca tive. Vou pôr-me ao fresco. Estávamos em Agosto – um Santo Natal e um Feliz Ano Novo!

2023-04-26

 



É mesmo muito velho

 

*Deixai vir a mim as crianças

 

Antunes Ferreira

Cinco. Quatro miúdos e uma menina: os meus netos. Por ordem de idades e de progenitores – o João e o Rodrigo (do meu primogénito Miguel), o Xavier, o Vicente e a Madalena (do segundo, o Paulo); o caçula Luís Carlos ainda que bem casado, tal como os irmãos, não tinha filhos. Opção dele e da esposa Estela.

 


Aproximava-se o Natal, estávamos nos princípios de Dezembro de 2006, eu já completara os 61 e com a  “escadinha” da malta miúda ia dos nove aos quatro anos; acabara de ver (diga-se de passagem fartíssimo mas netos são netos) o vídeo do Rei Leão perante o qual  opiniões se dividiam mas pendiam um pouquinho para o Hakuna Matata, quando nos sentámos na sal de estar para democraticamente trocarmos uma outra vez ideias sobre o filme do Walt Disney.


 

Os pais das “criaturas” estavam nos respectivos empregos e os avós tentavam domesticar o bando – o que aliás não era tarefa difícil pois era pessoal na generalidade e na especialidade (para usar linguagem parlamentar)  bastante bem comportado. Era o meu dia de folga no DN e por isso tinha todo-o-tempo-do-Mundo para me dedicar à prole; e além disso adorava fazê-lo.

 

Chegara a hora do lanche e todos fomos para a mesa. Como d costume a Raquel tinha preparado um “banquete” próprio para infantes, No meio de sanduiches, leite com chocolate, pãezinhos, bolachas, limonadas, etc., tocaram à porta. “É do jornal… Mas está lá o Fernando Pires…Só se foi uma bronca no Internacional (era o meu violino de Ingres)…

 

Não era. O padre Alberto Neto em pessoa, coadjutor do prior Felicidade Alves, ambos de costas viradas para o “Estado Novo”. Falara para o jornal e sabendo que eu estava em casa vinha falar connosco – a Raquel também gostava e muito de politica internacional – sobre um incidente que parecia grave junto ao   Checkpoint Charlie,  um posto militar entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental durante a Guerra Fria, onde, de resto, eu e a Raquel já estivéramos aquando duma visita oficial à então RDA.

 

Mas, perante a festarola para os meus netos ~e porque o “barulho” Intra alemão parecia não ter dado nada – Neto ficaria um pouco mais para também participar na confraternização espontânea porque sem motivo aparente; festa é festa. A dada altura não se conteve e perguntou-lhes se sabiam o que pensava Jesus sobre as crianças .O João tinha uma vaga ideia; e o sacerdote citou de memória:



“(….)levaram crianças para que Jesus tocasse nelas. Mas os discípulos repreenderam-nos. Vendo isso, Jesus entristeceu-se e disse: “Deixem as crianças virem a mim. Não as proíbam, porque o Reino de Deus pertence a elas. Eu vos garanto: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele. Então, Jesus abraçou as crianças e abençoou-as, pondo a mão sobre elas”. Meus amigos isto consta do Evangelho de São Mateus. Momentos depois o padre foi-se embora.

 

Terminado o lanche fomos sentar-nos n sala e antes que ocorresse a reprise do malfadado vídeo, lembrei-me de lhes perguntar, para desanuviar o ambiente um tanto carregado pela ausência leonina: “Por certo vocês não sabem mas vou contar-lhes umas coisas antigas que eu mesmo vivi. Por exemplo ainda andei m eléctricos abertos aos lados.” “Como assim, avô?” “Não tinham paredes laterais e sim banco corridos; entrava-se, sentava-se e vinha o cobrador vender os respectivos bilhetes.”

 

“Contaram-me uma anedota que vos digo agora: uma senhora bem vestida com chapéu de plumas ao entrar tropeçou e caiu no col dum magala (era assim que então se chamava aos soldados); protestou energicamente e o magala retorquiu: «Por dois tostões (era o preço do bilhete) se calhar queria cair no colo dum general…»



 

Gargalhadas em catadupa, mas prossegui: “Igualmente usei aqueles telefones de parede em que era preciso dar à manivela que tinham ouvir por um auscultador preso por um fio ao aparelho e pedir à menina telefonista na central para ligar para outra cidade ou para o estrangeiro. Uma vez esperei duas horas para conseguir falar com um amigo em… Sintra!

 

Olhos esbugalhados, bocas abertas, interrogações aos quilates. “Os automóveis não tinham cintos de segurança. Andei no Morris Minor do meu Pai, no Austin Super, no Triumph Spitfire do irmão do meu tio Jacinto e nenhum tinha cintos de segurança!”

 

E logo do fundo do sofá grande onde estavam os cinco sentados, o Vicente, cinco anos: “O avô é mesmo muito velho!” Engoli em seco. Tinham-se acabado as recordações.

      

2023-04-16


 

Indira Gandhi em pessoa

*Uma entrevista em exclusivo e especial

 

Antunes Ferreira

A entrevista que fiz a Indira Gandhi teve dois momentos especiais e para mim realmente significativos. Ao longo de quase uma hora e a bordo de um avião abordámos muitos aspectos da vida da chefe do Governo da Índia e, naturalmente do próprio país que era considerado a maior democracia do Mundo. Toda a conversa foi muito interessante e a política respondeu a todas as perguntas que lhe coloquei – o que, dada a minha larga experiência nesse campo foi realmente impressionante.

E porquê o avião? Pois muito simplesmente a data marcada para a conversa sofrera um percalço: fora a própria Indira que me telefonara para a embaixada portuguesa para me dizer que tinha de cancelar a entrevista pois ia deslocar-se a Allahabad a cidade natal da família Nerhu onde ia assistir ao funeral dum primo muito chegado.

 

Ora eu tinha vindo de Lisboa com tudo programado para a entrevista e por isso sugeri-lhe que a poderia acompanhar no avião em que ela se deslocaria e nele fazer a entrevista. Um tanto reticente ao inicio ela acabou por aceitar a proposta, mas o problema é que tinha uma agenda preenchidíssima   e por isso fez-me uma contraproposta. Eu poderia dar uma volta pela gigantesca índia  a fim de colher impressões que poderia utilizar na entrevista.

 

Aceitei depois de lhe ter dito que ia obter o aval do “Diário de Notícias” a quem ia apresentar a sugestão, que face ao interesse da entrevista e o seu exclusivo para Portugal, me deu carta branca para o empreendimento. Sendo assim fui posto em contacto com a Directora Geral do Turismo que me atribuiu um intérprete, um goês radicado na Índia, o senhor Francisco (Francis) Xavier de Menezes que falava perfeitamente português e que acompanharia no périplo.

 

 Fomos a diversos


Estados  dos quais destaco o Bihar  onde visitei

Bodh Gaya ou Bodhgaya que é uma cidade do distrito de Gaya. Está localizada a 96 quilômetros da capital do estado, Patna. Historicamente, era conhecida como Bodhimanda. O principal mosteiroo de Bodhgaya era chamado Bodhimanda-vihara. É o local mais sagrado do budismo, pois teria sido o local onde o fundador da religião, Sidarta Gautama, teria criado a doutrina, por volta do século V a.C. A localidade tem muitos templos erigidos por diversos países onde o budismo é praticado com maior ou menor importância.

 

É nela que existe a chamada árvore da vida sob a qual Gautama terá meditado durante 59 dias e 59 noites findos os quais saiu a divulgar a nova religião. A árvores que me garantiram ser a “descendente da original é decorada com muitos fios de diversas cores e é chamada a Árvore da Vida. É considerada sagrada e as suas folhas são oferecidas a visitantes ilustres. Dada a minha qualidade de futuro entrevistador de primeira-ministra tive direito a receber uma…

 

També passei pelo estado de Orisssa tendo ficado dois dias na capital  Bhubaneswar onde visitei um templo decorado com as paredes decoradas em altos relevos de cenas de amor sexual explícitas e assistir a um espectáculo de danças; as mulheres de Orissa são consideradas as mais belas da Índia. Seguimos depois Calcutá onde fiquei apenas uma noite e pouco vida cidade que muito gostaria de ver os bairros de lata onde a Madre Teresa exercia a sua missão.

 


Mas o tempo era curto e por isso fomos de avião até Caxemira onde tive a oportunidade de ficar numa houseboat no lago Lago Dal e fazer uma viagem de ordem militar a Gulmarg no sopé do Himalaia. De resto Srinagar, a capital de Caxemira era praticamente um quartel tantas eram as unidades do exército indiano ali estacionadas. Do outro lado da fronteira fortemente guardada o poder das armas paquistanesas era aparentemente igual. Mas em verdade tenho de dizer que ali não me foi permitido deslocar.

 

Finalmente de volta a Nova Deli tomei enfim o avião onde iria entrevistar Indira Gandhi. A aeronave era dividida em duas partes: na frente iam as pessoas que integravam a comitiva da primeira-ministra e a segunda, atrás encontrava-se Indira o Seu filho Rajiv e a mulher deste Sónia.

 

Fiquei sentado ao lado dum sique, o chefe da segurança da primeira-ministra e logo ali o meu espanto: ele provava a comida e a bebida antes de ambas serem levadas para Indira e os seus acompanhantes lá atrás comer. Mal sabia eu, para além da admiração inicial que tempos depois seria ele que dispararia os primeiros tiros que matariam Indira. Foi este o primeiro momento que achei realmente especial.

 

Quando me indicaram que me deslocaria à zona onde Indira se encontrava ia um tanto de pé atrás. Era conhecida a má relação que tinha com a comunicação social. Mas tudo se modificou com a conversa que tivemos de cerca de uma hora. Logo de começo ela disse-me que sabia que eu era mais fluente em francês e nessa língua decorreria a entrevista.

 

Abordei os temas mais diversos a que ela respondeu com toda a franqueza. Só houve um momento mais difícil quando abordei a morte do seu filho primogénito Sanjey num desastre de planador. Como visse que o assunto a incomodava mudei rapidamente o rumo das perguntas. Finda a entrevista ela apresentou-me o filho e a nora. Rajiv ficou muito interessado ao saber que a minha mulher era goesa e trabalha na companhia aérea portuguesa.

 


Disse-me que na verdade era um piloto de avião e só a morte do irmão o atirara para a política. E de tal firma se estabeleceu uma corrente de empatia que me convidou a jantar com ele e a sua mulher nessa noite pois no dia seguinte eu regressaria a Portugal, o que aceitei naturalmente.

 

Regressado ao meu lugar momentos depois foram-me dizer que a primeira-ministra ainda me quera falar. Tratava-se de uma sugestão. Por certo que não estaria interessado em assistir a um funeral. Por isso propunha-me que durante durassem as exéquias poderia visitar as casas daa família Nerhu Anand Bhavan Para tal o seu secretário pessoal Vijay Sicrit aguardar-me-ia à saída do avião com uma viatura,

 

Foi aí que aconteceu o segundo momento extraordinário. À chegada da chefe do Governo estava formada na pista uma força militar á qual ela passou revista acompanhada pelo comandante da mesma. Depois retirou-se. Eu fora o último a desembarcar e aguardava a chegada da viatura que me havia de levar. A força militar, provavelmente um batalhão fizera direita volver e o comandante ao ver-me no meu fato europeu e de pasta mão deve ter pensado que eu era um convidado muito especial. E marcialmente deu a ordem de olhar à direita enquanto me fazia a continência. Meio envergonhado fiz um gesto com a mão em jeito de resposta. Entretanto chegar o carro com o senhor Sicrit. E lá fomos conhecer as casas seculares da família Nehru.

 

Como no avião não tinha havido fotógrafo foi na casa oficial do Governo que após um largo tempo de espera e alguma irritação da senhora lá apareceu um jovem muito assustado poi nunca estiver tão perto da primeira-ministra. Enfim lá se fizeram as fotos que nessa noite, durante o jantar com Rajiv e Sónia me foram entregues. Foi a última ocasião duma entrevista muito especial exclusiva pois no dia seguinte regressei a Portugal e ao “Diário de Notícias” onde naturalmente tive honras de primeira página. 

 

 

 

 

 

 

2023-04-08

 Depressão e bipolaridade

*Um clique no interruptor cerebral

 


Antunes Ferreira

Hoje, sexta-feira, 7 de Abril de 2023, em que começo a escrever este texto tenho forçosamente de avisar e simultaneamente pedir desculpa a quem ainda me lê porque se trata de assunto pessoal e como tal sem interesse. Mas trata-se de um desabafo que deixo aqui para que fique registado e dele seja dado conhecimento àqueles que são minhas Amigas e meus Amigos.

 

Infelizmente e como julgo que sabem – não o tenho escondido – sou bipolar, o que quer dizer sujeito a alterações de humor e sensibilidade sem razões justificativas por causas intrínsecas. É como se fosse um interruptor que serve para ligar – e desligar obviamente – a disposição de um individuo, para o caso eu.

 

Num dia estou bem disposto escrevendo estórias com algum interesse e ironia q.b. (julgo eu e avalisadas pelos comentários que suscitam…) e de repente caio numa negação onde tudo se torna complicado e emaranhado sem ponta por onde se lhe pegue. É triste, mas infelizmente é assim!

 

Poderão perguntar o que têm a ver com este texto e a única resposta que posso dar já a escrevi acima: é tão só um desabafo que resolvi partilhar convosco e simultaneamente um teste que faço a mim próprio: serei ou não capaz de escrever sobre o assunto. Pelos vistos ainda sou mesmo que sem grandes rasgos de criatividade.

 

Mas, afinal, o que é a bipolaridade? Para tentar compreender o que ela é recorro a definições médicas. De outra maneira nem eu (portador dela) nem quem se der ao trabalho de ainda me ler entenderá minimamente o que acontece comigo e com todos os que sofrem da bipolaridade.




 

A doença bipolar, tradicionalmente designada doença maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e «mania». Qualquer dos dois tipos de crise pode predominar numa mesma pessoa sendo a sua frequência bastante variável. As crises podem ser graves, moderadas ou leves.


As alterações do humor, num sentido ou noutro têm importante repercussão nas sensações, nas emoções, nas ideias e no comportamento da pessoa, com uma perda importante da saúde e da autonomia da personalidade. Não é, portanto, uma situação agradável bem pelo contrário. Perturbação afetiva bipolar (PAB) ) ou transtorno afetivo bipolar (TAB) (é uma perturbação mental caracterizada pela alternância entre períodos de depressão e períodos de ânimo intenso. O ânimo intenso é denominado mania ou hipomania, dependendo da gravidade ou se estão ou não presentes sintomas de psicose. Durante o período de mania a pessoa comporta-se ou sente-se anormalmente enérgica, contente ou irritável



 

Os doentes geralmente realizam decisões irrefletidas ou sem noção das consequências. Durante as fases maníacas a necessidade de sono tende a ser menor. Durante as fases depressivas a pessoa pode chorar, encarar a vida de forma negativa e evitar o contacto ocular com outras pessoas. O risco de suicídio entre as pessoas com a doença é elevado, sendo superior a 6% no prazo de vinte anos. Entre 30 e 40% das pessoas com a condição praticam automutilação.] Estão geralmente associados à perturbação bipolar outros problemas mentais, como perturbação de ansiedade e perturbação por abuso de substâncias.

 

As causas ainda não são totalmente compreendidas, mas tanto fatores ambientais como genéticos têm influência. Muitos genes de pequeno efeito contribuem para aumentar o risco. Os fatores ambientais incluem antecedentes de abuso infantil e setresse de longa duração.[ A doença divide-se em "perturbação bipolar do tipo 1", quando existe pelo menos um episódio maníaco, e "distúrbio bipolar do tipo 2", quando existe pelo menos um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo maior. Em pessoas com sintomas menos graves e de longa duração pode-se estar na presença de ciclotimia.

 

Quando esta condição tem origem em problemas médicos é classificada à parte.] Podem também estar presentes outras condições, incluindo perturbação da hiperactividade com défice de atenção, perturbações de personalidade,, perturbação por abuso de substâncias e uma série de condições médicas.

 

Com estas transcrições julgo ter alcançado o propósito que aqui me trouxe. Espero não cair na pior hipótese ou seja agravar a situação e continuar a escrever – pelo menos como terapêutica ocupacional.