2022-11-30

 Golfe, natação e râguebi

 

*Estou certo: já dei o que tinha a dar

 

Antunes Ferreira

Para o que lhe havia de dar… Nunca em tal pensara, confidenciou-me numa esplanada da Avenida enquanto bebericávamos um excelente Black Bushmills que para mim continua a ser o melhor uísque da Irlanda do Norte, melhor dizendo, de toda ela, da Europa, mesmo do Mundo, qu’eu cá só sei dizer o que vai no íntimo e nas pupilas gustativas. Boa malha!

 

Era por uma tarde de Agosto ensolarada, as ruas meio desertas, é assim que gosto da minha cidade pouco entupida apesar dos enxames de turistas como os chupa-chupas, cada cor seu paladar e país de origem. Acabara de ver no ecrã da televisão na CNN/Portugal as Breaking News uma notícia espantosa: Tiger Woods, lenda do golfe internacional, voltou esta quinta-feira à competição no 86.º Masters de Augusta, na Geórgia, mais de 13 meses depois do acidente de viação que quase lhe custou a perda da perna direita. O norte-americano de 46 anos, que venceu 15 majors na carreira, participa assim no primeiro grand slam da temporada, 17 meses após o seu último desafio.”



 

O meu amigo e companheiro de copo, um “furioso” do golfe elucidou-me que  Woods competira pela última vez na edição 2020 desse Masters, adiada para Novembro devido à pandemia de Covid-19: e que agora procura conquistar o torneio pela sexta vez e assim igualar o recorde do seu compatriota Jack Nicklaus, depois de ter ganho em 1997, 2001, 2002, 2005 e 2019.

 

A perna direita de Woods atraiu os olhares dos muitos presentes, que saudaram o regresso do que é provavelmente o melhor jogador da história. Em 23 de Fevereiro de 2021, perto de Los Angeles, um despiste provocou-lhe múltiplas fraturas expostas que obrigaram à colocação de uma haste de metal na tíbia e parafusos para consolidar os ossos do pé e do tornozelo.

 

Woods, que correu o risco de amputação, ficou hospitalizado durante várias semanas e esteve incapaz de andar durante vários meses. "Foi um caminho difícil. Voltar a jogar aqui parecia-me muito improvável naquela época", disse, em conferência de imprensa, na qual revelou que a sua recuperação está a "correr bem" e que tem "melhorado todos os dias".

 


Mário Azevedo Bernardo, chefe reformado da PSP e meu colega nos quatro primeiros anos escolares era quem me acompanhava nessa tarde de Agosto e sendo um grande fã do golfe (passava os dias a jogar num qualquer green disponível, não tinha mais nada para ocupar o ócio) ainda completou a informação sobre o golfista multicampeão: Em 2017, ele fora preso na Flórida por dirigir "sob a influência de drogas".

 

Nos Estados Unidos, esse tipo de caso é relacionado, geralmente, ao consumo de drogas como álcool ou estupefacientes. No entanto, no caso do atleta, o exame toxicológico apontou que seu organismo tinha cinco tipos de medicamentos diferentes. Woods alegou que se auto medicva por conta de problemas nas costas. As dores eram recorrentes e chegaram a tirar o jogador de diversos torneios em 2015.

 

Reservado e carismático, sempre fora um “garoto propaganda” perfeito para as marcas se associarem. Até nos casos extraconjugais de 2009. Marcas como Gatorade e AT&T quebraram os contratos  que tinham com ele. Apena a Nike se manteve fiel ao compromisso.

 

E, antes que eu interviesse, Mário disparou: O golfe é um desporto no qual os jogadores usam diversos tipos de tacos para arremessar uma bola para uma série de buracos numa vasta extensão de terreno, usando o menor número possível de tacadas.

 

É um dos poucos desportos com bola que não exige uma área de jogo normalizada. Em vez disso, o desporto é praticado num campo de g0lfe, o qual geralmente consiste numa progressão de nove ou dezoito buracos. Cada buraco inclui uma área de terreno inicial (tee) e uma área final (green), na qual se encontra o buraco propriamente dito. Entre as duas áreas existem diversos tipos padronizados de terreno e obstáculos, e cada buraco possui uma configuração única.


 

Eu bem tentava atalhar a enxurrada bernardiana mas, com mil macacos, nem a barragem do Castelo do Bode lograria tal feito incomensurável. Ele estava mesmo desgovernado, sem tacos em punho, mas lançado a toda a brida, prego a fundo, sem dar conta dos ténues esforços que eu debalde tentava intercalar. Nem que o Cícero bradasse “Ó tempora, ó mores!”  se extinguiria a verborreia…

 

Azevedo imparável: As competições de golfe são geralmente pontuadas em função do menor número de tacadas individuais, ou stroke play, ou a pontuação mais baixa em cada buraco individual durante uma ronda completa de um jogador ou de uma equipe, ou jogo por buraco. O formato jogo por buracos, no entanto, é o mais comum em todas as competições.

 


A palavra golfe em português tem origem no inglês golf, que por sua vez provém do alemão kolbe, significando taco. Considerado um desporto de elite por muitas pessoas, sua real origem é bastante discutida, sendo que a mais aceita é a sua criação pelos escoceses que já o praticavam por volta de 1400. Em 1457, o parlamento escocês, por ordem do rei Jaime II da Escócia, proibia a prática do golfe por considerá-lo um divertimento que afetava os interesses do país.

 

Era chegada a altura do desengano. Recordei ao meu ex-colega da escola Mouzinho da Silveira, ali à Praça de Espanha onde cumpríramos os quatro anos da primária que no concernente ao desporto a minha praia era a natação e o râguebi e como forma de entretenimento o toque de campainhas de portão de prédios no mínimo de três andares.

 

Porém, quanto a uma tal prática desportiva que metia paus e bolas – ná!  E acrescentei: “Com a minha (nossa) idade já dei o que tinha a dar…”







Desilusão à portuguesa

mas também à brasileira

                                                                           

Finalmente quem ficou com os olhos em bico fomos nós os portuguesinhos que pensávamos que a partida com a Coreia do Sul eram favas contadas. E afinal com as festas natalícias já ali â esquina e os bolos reis nas pastelarias quem apanhou a fava foi a selecção das quinas. No restaurante que funciona na antiga cave do prédio onde moro o dono estava, minutos depois de acabar o desastre nipónico, a afixar um menu num cavalete junto à porta: DESILUSÃO À PORTUGUESA (COM TODOS). Valha-nos esse espírito…

 

A expressão do Cristiano Ronaldo, sentado no banco, depois de ter sido substituído era bem a imagem do espanto misturada com o desapontamento, o desencanto, a tristeza, a desilusão – tudo q.b. Recordar que fora ele quem dissera que penduraria as chuteiras se Portugal ganhasse o Mundial 2022. Por este andar o que temos de ganhar é bom senso e paciência porque a jogar assim temos de esperar pelo próximo Mundial…

 

Ainda há muito campeonato pela frente e tudo pode acontecer – incluindo à equipa nacional – mas pelo andar da carruagem não me parece fiável vaticinar quem será o vencedor deste singular Mundial no Qatar. Por isso e pela minha parte resta-me aguardar para ver em que vão parar as coisas. E, claro, onde vai ficar a “equipa de todos nós” frase feita mas que as mais das vezes nos causa uma verdadeira… desfeita.

 

Mas há quem diga que todo o mal acaba de certa maneira por servir de exemplo para que quem o sofra não volte a cair na mesma, Não é bem assim, infelizmente. Tentava acalmar o sistema nervoso quando me chama a minha esposa: ia começar o Brasil – Camarões. Tite, o patrão da lancha canarinha aliviava o escrete e até punha na direita os 39 anos do lendário “barcelonense” Dani Alves. Que tinha dito aos media que se fora convocado para “tocar pandeireta” a selecção tinha o melhor tocador de… pandeireta do Mundo. Tudo numa boa.

 


O mau foi ter havido – o raio dos árbitros deste Qatar 2022 não se cansam de aditar minutos, muitos, aos noventa regulamentares… - mais um prolongamento, e logo aos 46 depois de mais um ataque em massa dos brasileiros, os camaronenses reagem rapidamente através duma vertiginosa corrida pelo flanco direito. Cruzamento perfeito, cabeça do veterano Aboubakar: golo, vitória dos Camarões, mesmo assim eliminados. Mas – ganharam ao Brasil! Ainda estive para descer ao restaurante para dizer ao Pereirinha, seu proprietário e dono do balcão que escrevesse uma linha no cardápio com um prato africano, sei lá, uma muamba, Porém o meu sofá era tão confortável…

Sexta-feira para esquecer? Não. Para recordar que vitórias antecipadas nem no Monopólio…


PORTUGAL - 6 SUÍÇA - 1

Na devida altura abordarei a mmaravilhosa vitória por 6-1 sobre a Suíça coisa que encheu de alegria (quase) todos os portugueses. No sábado, depois do confronto com Marrocos - que não  é uma pera doce - aqui estarei para dar conta do que acontecer.
Infelizmente acabo de assistir à eliminação do Brasil pela Crácia em penáltis. Senti-me frustrado pois, queiram ou não somos sangue do mesmo sangue,falamos a mesma língua,somos, em resumo, pai e filho e eu tenho muito orgulho em sê-lo. Caros brasileiros não desesperem: o futuro será, estou certo, melhor!

 

 



 

2022-11-24

 

Este testicul..., u+s texticulo é sobre a minha família

E só o publico porque lhe acho graça.

Os tempos eram outros, as mentalidades

 Também não afinavam pelo actual  diapasão.

Enfim ele aqui fica.

 Espero que não me batam…

 

 



Maternidade em Luanda

 

*O bebé ainda não estava pronto

 

Antunes Ferreira

Controvérsia em família moderada. Já tínhamos dois rebentos, o Miguel e Paulo, putos de quatro e quase dois anos, nascidos em Lisboa na Clinica de São Miguel do Professor Doutor Castro Caldas por recomendação do primo da Raquel o goês também Professor Mário Cordeiro e tudo tinha corrido sobre esferas.

 

Agora em Luanda de novo gravidíssima reuniram-se em nossa (alugada) casa as minhas  cunhados e o meu cunhado Mário (o Luís e a Maria Alice estudavam em Lisboa) para discutir o nome  da menina que iria nascer. O único discordante era eu: estava absolutamente convencido que viria mis um moço – o que motivava enérgicos protestos e recriminações da distinta assembleia. A esta só faltavam os auspícios dos deuses romanos familiares os Larae familiriae.

 




Para que não me acusem de partidarismo ou de ocultação de dados que poderiam levar à conclusão de que estava a favorecer a minha posição faço já uma chamada de atenção bipartida. Primeiro: os meus sogros estavam em Moçâmedes onde como funcionário das Alfândegas Ultramarinas fora colocado como director respeitando o Estado a sua posição em Goa e o casal tinha levado consigo a fila mais nova Belinha.

 

Segundo: os árduos defensores da feminilidade da nascitura (???) tinham apoios substanciais à tese deles. Veja-se, A minha mãe, que morava num apartamento na avenida dos Combatentes, tinha um “truque” consistindo numa fórmula misteriosa em que entrava a idade da grávida, a data da concepção (mais ou menos) e mais uns pozinhos; tudo conjugado: tiro e queda – uma menina.

 


A nossa lavadeira Miquelina (mais preta – como então e dizia – não podia ser) invocando um quimbanda que estava em contacto espiritual com um santo semelhante do Brasil pusera-lhe a questão e obtivera umas rezas para o efeito. Resultado: uma moça fora de quaisquer dúvidas. O Ju, meu irmão mis novo, caçador de fim-de-semana na mata, até atirando a elefante recebera do camarada com quem ia atirar outra certeza baseada não sabia em que conhecimento; mas lá que era uma donzela, jurava p’las cinco chagas de Cristo!

 

E quanto ao nome a pôr na pia baptismal? Aí era o busílis. Na moda estavam as Tânias, as Vanessas, as Matildes e claro havia que ter em conta a tradição raqueliana. Portanto, Tânia Raquel,  Vanessa Raquel, até uma Raquel Clotilde saiu a terreiro. Eu – mudo e quedo. Vendo-me assim, insistiram em ouvir  minha opinião. “Já que a querem saber, a menina vai chamar-se… Luís Carlos; Luís por parte do to, vosso irmão e Carlos porque é o nome do vosso Pai.”


 

Foi uma algazarra. Que porque sim, que porque assado. Cada um regressou às suas casas e os dias foram passando até que rebentaram as águas pela madrugada e levei  minha mulher à maternidade de Luanda. Nesse mesmo dia à tarde meti o Miguel e o Paulo no Colt e fui ver como paravam as coisas. Deixei-os no carro, subi e fui encontrar a minha cara-metade muito chateada pois ainda não nascera o bebé e as condições eram péssimas. “Que saudades da Clínica de São Miguel…”

 

Desci e quando entrei no Colt perguntou-me o Miguel “Ó pai então o mano não


vem?”
E o Paulo, sabichão: “Não vês que ele ainda não estava pronto!

 

Da cara do meu cunhado Mário de onde da sua casa telefonei para Moçâmedes à minha sogra informando-a de que tinha mais um neto que se chamaria Luís Carlos foi de tal modo que justificará outro escrito. Mas tenho de acrescentar que o Mário se tornou o maior amigo do sobrinho que desejara que fosse sobrinha e que na devida altura ainda não estava pronto…      

 




 FUTEBOL - Mundial Qatar 2022

 

 O DIA EM PORTUGUÊS

  

O prometido, pelo menos para mim, é devido e, se possível, cumprido. Esta segunda-feira, 28 e Novembro em que começo a  escrever – são precisamente 22H14 – foi o que quero chamar o DIA EM PORTUGUÊS No Qatar – eu vi no ecrã televisivo, às quatro da tarde – o Brasil bateu a Suíça por uns modestos 1-0, mas passou os oitavos. Pelas sete horas jogou-se o Portugal – Uruguai. Venceu a selecção das quinas por 2-0. E também se qualificou para os oitavos. Mesmo com o Fernando Santos. Quem o diz tem carradas de razão: não gosto nada do homem.

 


Quem conta um conto acrescenta um ponto, diz o povo e geralmente tem razão. Refiro-me ao “velhote funchalense” um tal Cristiano Ronald que, aos 37 ano não quis deixar os seus créditos depositados no banco (Central?) de Montevideu. Meteu a cabecinha d’oiro e enfiou a batata na baliza à guarda de Rochet. Bruno Fernandes (para mim um dos melhores, quiçá mesmo o melhor futebolista lusitano) fechou a eliminatória com um penalti primoroso, confirmado pelo VAR.

 

Os uruguaios foram uma equipa violenta, recorrendo sistematicamente às faltas para travar os nossos. Antes do encontro jogaram na tentativa de amedrontar a nossa selecção relembrando que nos havia, eliminado no Mundial 2018 onde tínhamos feito uma verdadeira figura de urso. Mas essa tentativa que aliás se demonstrou ineficaz além de despropositada ficará para a história do futebol uruguaio como uma mancha negra dificilmente apagável.

 

Na sexta-feira temos a Coreia do Sul para fechar o Grupo 14. Se continuar com saúde espero escrever mais sobre o que entretanto se passar. AF  

2022-11-18



 Nunca mais volto

*A mangueira do bombeiro

 

Antunes Ferreira

Responsável fora o Santo António que até tinha estátua em Lisboa. Do seu casamento? Pois sim, o virtuoso também ajudara ainda que fora a Câmara Municipal quem mexera os cordelinhos. Já iam uns largos anos e para a concretização da  ideia que nascera duma proposta apresentada em sessão mensal pelo vereador Augusto Pinto. Em 15 de Abril de 1958, o Diário Popular anunciava o evento, e declarava-se empenhado em "congregar esforços no sentido de se dar realização a essa tão bela ideia de promover o casamento de jovens dos bairros populares na manhã de Santo António."





Nesse ano de 1958, e nos seguintes, este jornal (entretanto desaparecido, como os restantes nocturnos) foi fundamental para viabilizar a iniciativa do casamento coletivo, mobilizando a sociedade civil, criando uma onda de simpatia, captando e noticiando apoios de particulares, estabelecimentos e marcas comerciais.

 

A angariação de padrinhos, de automóveis para transporte dos noivos, os vestidos e ramos das noivas, os penteados, os fatos e os sapatos dos noivos, as alianças, os produtos para a boda, a lua de mel, e até mesmo o fundamental para um início de vida: cursos de formação, mobílias, eletrodomésticos, bens de primeira necessidade. Em algumas edições, e mediante sorteio, apartamentos.

A cadência quase diária com que nas páginas do jornal se iam somando os apoios, e que culminava com a grande reportagem do dia da cerimónia, "grande acontecimento citadino", em que era consumado o "sonho de raparigas pobres, honestas, boas filhas e boas irmãs", "devido à generosa ternura dos nossos leitores", dá bem o tom de "uma ideia admirável em marcha".

 


O seu casamento, com ou sem o santo a tutelá-lo, dera com os burrinhos na água, o facto de ser sapador bombeiro fora a gota de água que fizer transbordar o copo. O seu Regimento era o de Benfica onde ficava situada a 4.ª Companhia. Os incêndios não eram consultórios médicos: não eram necessárias marcações. Além disso tinham um hábito horrível – em grande parte aconteciam à noite.

 

Maria Clara no inicio da vida conjugal era toda sorrisos, dengosa, terna, boa – na lida doméstica e, principalmente, na cama – amável solicita, excelente cozinheira (como prenda do dia do casório até lhe comprara n Barateira o Livro de Pantagruel); porém tinham sido efémeros uns três, mesmo quatro nos. Uma noite fatídica, um desenvolvimento macabro, um final abracadrabrizante!

 

Houvera o incêndio nas instalações da imobiliária A CASA É SUA  que ocupavam três andares dum prédio de doze Alta de Lisboa e dada a dimensão do fogo (que já se alastrava quase a todo o imóvel) todos o regimentos dos Sapadores tinham sido mobilizados para dar combate o mais eficaz possível às chamas.

 


Inclusive vieram os Voluntários do Lumiar e da Ajuda. No meio das mangueiras, escadas Magirus, jipes de comando, ambulâncias do INEM, veículos do SMV, da PSP, da Proteção Civil, podiam encontrar-se responsáveis da empresa enquanto eram assistidos muitos moradores dos restantes apartamentos do prédio. Bom bombeiro, o Justino Domingues Ferrão estava no seu elemento – contentíssimo.

 

Mas quando chegou a casa (eram umas cinco da matina) e se preparava para comer alguma coisa foi direito à cozinha para vistoriar o frigorifico encontrou em cima da mesa um envelope que lhe era dirigido. Reconheceu a letra da cara-metade e abriu-o logo. Dentro jazia um papelinho que rezava só a vermelho

FUI APAGAR OUTRO FOGO NOUTRA FREGUESIA. NÃO CONTES COMIGO, PODES ENROLAR A MANGUEIRA. NUNCA MAIS VOLTO.

 

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2022-11-13

 


Era uma vez…

*Memórias na primeira pessoa

 

Antunes Ferreira

…e eis que de repente um estrondo se me abriu nas volutas cerebrais semelhando um 1755 sem Pombal – com as devidas proporções mais próprias das celulazinhas  cinzentas do Monsieur Hércule Poirot parido pela imortal Agatha Christie– e me fez voltar a este teclado de me tinha auto ostracizado por mais de três anos. Já que estou em módulo de confissão tenho de reconhecer que as teclas não sendo propriamente exemplares da pedra da Roseta também não são caracteres cuneiformes, mas a longa ausência do convívio origina uma pesquisa  táctil a todos os títulos lamentável. Mea culpa, mea maxima culpa!...

 

A verdadeira explosão absolutamente inesperada que me deixara embasbacado atingira, como já dissera todos os que me rodeavam: se tinha dúvidas (o que seria – pelo menos estúpido – aí estava preto no branco a famigerada sociedade). Mas felizmente não havia margem para dúvidas: eu encontrava-me capaz das proezas mais díspares, desde cantar o fado até contar cataratas de anedotas!

 

Pelo sim pelo não, a minha Raquel marcara uma consulta com a minha psiquiatra, a Alice Nobre (que me atura ao longo dos anos e que vem sendo a presidente da Sociedade da Doença Bipolar.) Mais do que médica e paciente tornámo-nos amigos. Após uma larga conversa, na presença da minha cara-metade, a Alice afirmou que eu estava a exagerar na euforia contra o que eu pensava que era o meu estado normal. Depois dela ter feito pequenos ajustes na medicação (que como já sabia terei de tomar até ao forno crematório…) saímos em beleza. Uma correcção; caíam os primeiros pingos de chuva… Como diz o outro: não se pode ter tudo…   

 


Basta de paleio introdutório. Não resiste ainda o escriba a uma citação luso brasileira que aprendeu quando frequentou o COMCurso de Oficiais Milicianos, e o digno instrutor tenente lateiro Oliveira citou esta pérola que endereçou a “porcos”; «No Exército brasileiro o marcar passo diz-se “faz que anda mas não anda…” Pronto, agora é que é. E já que estrou a utilizar terminologia castrense, meia-volta volver, em frente marche!

 

Se ainda subsistirem uns escassos Heróis/pacientes que, levados ao engano, estão a desperdiçar o seu tempo por certo precioso deitando ainda que à sorrelfa olhares enviesados a estas mal-alinhavadas linhas, desde já aqui ficam exaradas em acta as minhas mais sinceras desculpas. Mas, deixem que vos diga – não obriguei ninguém a sujeitar-se a tais despautérios. Este naco de prosa tem apenas a intenção de bradar que voltei a estar vivo – e com os decibéis que dispensam aparelhagem sonora topo de gama (que aliás confesso não saberia, não sei e julgo que nunca serei capaz de utilizar. O rótulo do PRAZO DE VALIDADE é traiçoeiro).

 

Neste primeiro arrazoado que não quero que seja longo – para não ser citada a espada do rei Afonso Henriques – tenho de trazer à sacada mais dois nomes que me «empurraram» ajudando-me a (re)ganhar a fé em mim próprio e, porque não dizê-lo, pois é a verdade, emergir das profundezas em que se encontrava submerso o meu ego.

 

Para ambas poderia percorrer a Wikipédia ou o Manual de Berros do Manuel de Barros e ficar-me-ei por apenas uma singela oftalmologista, a Dr.ª Alcina Granate, que há mais de vinte anos me trata dos olhos e que se tornou uma Amiga quem ainda por cima se confessa minha fã. Há neste Mundo gente capaz de tudo…

 

A outra é uma brasileira que me pôs a andar; explico: Os cerca de três anos de imobilidade forçada a que referi deixaram sequelas complicadíssimas. Quase não me movia sempre dentro de casa, cheguei aos 120 quilos, além de estar intratável. A Raquel e o meu segundo filho Paulo trataram de arranjar uma fisioterapeuta, a Maria Elena Pappalardo. Bendita hora,

 

Seria canalhice ocultar que quando a dita cuja chegou aqui a casa para a primeira sessão que eu antevia de tortura imaginando-a um Savonarola de saias o sorriso que trazia afivelado estoqueou-me de golpe! Conquistara-me. Um verdadeiro coup de foudre. Daí e diante foi pé no acelerador. Persisto em não acreditar em milagres; mas a Lena é uma verdadeira Santa da Agrela – não há terapeuta e amiga melhor do que ela. Hoje já tenho uma meta (???) à vista: correr a maratona… E as sessões são entremeadas com anedotas, comentários das mais diversas ordens, e até canto o fado e canções brasileiras. Num à parte que julgo pertinente e essencial decidimos que o Lula da Siva ia ganhar as eleições a m cafajeste do mais alto coturno um tal Bolsonaro. E não é que acertámos! E mais não digo, se me alongasse ainda acabaria a tentar vender de porta em porta, como nos tempos salazarentos, enciclopédias a prestações.

 

  

  

2019-03-09


Um juiz desembargador ameaçador


Fazer parte dos processados

 Antunes Ferreira
Nunca pensara que me podia sentir frustrado em Goa – mas infelizmente estou a sentir-me. Com mil diabos que raio me havia de acontecer! Não pensem os que ainda me conseguem ler – e julgo que se ainda os houver serão muito poucos – que estou mais ou menos louco ainda que de médico e louco todos tenhamos um pouco de acordo com rifão popular bem conhecido. (Aliás em terra em que famílias católicas numerosas um filho ia para padre outro para médico…)

Então, que se passa? Pois o motivo é simples: eu também quero ser processado pelo meritíssimo Neto de Moura. E pelos vistos estando aqui a mais de oito mil quilómetros do magistrado o seu braço (leia-se da lei dele) é provável que não chegue cá. No entanto a publicação deste modesto contributo para a sanha persecutória do togado que se julga afrontado na sua honra, dignidade, honestidade, profissionalismo, competência e outras qualidades talvez baste para que, mesmo à distância me saia a sorte grande. Uma simples carta precatória…

Só as moscas... (Gravura retirada da "
«ESQUERDA.NET»)

Dois  casos trouxeram para a ribalta o desembargador que entretanto foi desviado do julgamento dos crimes de violência doméstica para o cível. Facto de que aliás já anunciou irá recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça. Os casos são conhecidos e têm sido comentados e criticados ad nauseam e dizem respeito realmente a agressões violentas a nível doméstico contra mulheres. O mais aberrante é que posteriormente  o togado declarou que os casos que deram polémica não eram "particularmente graves". Ou seja fez o mal e a caramunha. Bendito seja… Pode ainda dar-se o caso do ilustre desembargador nas suas sentenças seguir à justa o ditado «Quanto mais me bates, mais gosto de ti!» Porém aqui reside o busílis da questão: as vítimas segundo as queixas que apresentaram não gostaram de levar porrada. Muito antes pelo contrário...  

Houve um tempo em que estive proibido de assinar textos em órgãos da comunicação social e aliás duplamente: pela PIDE/DGS e pelas autoridades militares. Era a negra época da velha senhora que e estávamos em 1966. Por mor dos meus “pecados” políticos e ao fim de três anos de serviço em Portugal fui mobilizado para Angola onde cumpri mais dois, tendo chegado a tenente miliciano. Embora oposicionista do regime salazarento enquanto vesti a farda do Exército Português cumpri tão bem quanto me foi possível os meus deveres militares e de cidadão. E sem me pôr em bicos dos pés (seria um espectáculo degradante ver um «elefante» como eu em tais preparos). Honro-me disso.

Só que não podia escrever – o que me deixava muitíssimo cacimbado (termo retintamente angolano que se refere a cacimbo, chuva miudinha, chata…) e, como tinha ou julgava ter algum jeito para gatafunhar dediquei-me a pseudo cartunes que assinava como Rico 66 Rico 67 e por aí adiante. Isto porque houve quem me aceitasse e publicasse. Depois, voltando à normalidade já pude assinar Antunes Ferreira e voltar a ser cortado amiudadas vezes pelo lápis azul dos censores normalmente mais estúpidos do que um triângulo obtuso.

Ora bem hoje se a tal me ousasse ser-me-ia fácil caracterizar o juiz Neto de Moura recorrendo à Pré-História. Desenhá-lo-ia como um homo sapiens (???) arrastando puxando-a pelos cabelos uma qualquer mulher, uma fêmea que se a dar-se ao luxo de recalcitrar a outro macho já trazia os dois braços e uma perna partidos. Para aqueles que defendem que a História não se repete aqui deixo esta sugestão a quem saiba desenhar. Talvez com ela e ainda que a mais de oito mil quilómetros de distância do meritíssimo Neto de Moura eu consiga ter a taluda do falecido Carnaval ou da vindoura Quaresma: fazer parte dos processados.
(1 -Como sempre este blogue está em absoluto 
desacordo com o famigerado “Acordo”)

(2 -Creio que desta feita o texto já está mais legível...)

2019-02-17




SANGUE EM GOA

Xit Coddi (Caril goês)

Antunes Ferreira
Tudo viria a correr sobre esferas. A viagem em primeira classe com todas as mordomias, as assistentes um encanto, os chefes de cabine excelentes (embora o primeiro me parecesse um tanto amaricado… o que é relativamente vulgar) resumindo, um verdadeiro mimo quer na Emirates quer na Air India. O terminal de Dabolim para mim foi uma agradável surpresa. Claro que sorridentíssimo o primo Salviano lá estava de braços abertos para me dar as boas vindas e me explicar que o aeroporto era militar e já vinha do tempo dos portugueses, mas que também era usado para os voos comerciais aliás o seu fim principal.

Sem legenda


Era pouco mais das onze da noite, alguém se encarregou de recolher a minha bagagem, o meu recém-primo devia ser pessoa importante e bem relacionada pois as questões aduaneiras e fronteiriças decorreram rapidamente, ainda que se tivessem formado longas filas, a que Salviano continuava a chamar bichas. Constituídas sobretudo por turistas – e algumas delas que turistas! – o primo ia-me elucidando sobre o boom do turismo no estado que sendo o mais pequeno da India tinha no maior PIB. Quando lhe falei do motivo que nos levava a utilizar  o termo filas ele soltou uma gargalhada: “Sigo toda a RTPI!...” Começava a estar em casa.

Aliás foi em casa dele que fiquei alojado. Tenho de abrir aqui uma parentética. Qual casa qual quê? Um palácio! Ou seja uma casa apalaçada , um casarão tipicamente colonial com doze quartos – leram bem doze – um dos quais com casa de banho privativa me fora destinado. “O primo Diogo fará o obséquio de me desculpar mas nós aqui não costumamos usar banheira, sim duche, no resto é tudo como na Europa…” No quarto com uma cama de dossel podia dar-se uma pequena festa e os guarda fatos em boa madeira bem como as mesinhas de cabeceira tudo torneado. Sentia-me como um vilão em casa do seu sogro longe vá a comparação.

A Senhora Dona Maria de Fátima, minha prima era uma mulher sorridente um tanto anafada, mãe de três filhos e três filhas, foi-me logo explicando a organização do lar, ao mesmo tempo que me sugeria uma xícara de chá. Adorei ouvir xícara, lembrando que no Brasil também a palavra (que caíra um tanto em Portugal) também era utilizada. E a digna Senhora citou de imediato: “Malhas que o Império tece” e acentuou do nosso Fernando Pessoa no poema “O menino da sua Mãe”. Um espanto.

Em síntese: Um dos filhos era médico, outro padre – tradição nas famílias católicas goesas – o terceiro advogado e o quarto economista e ambos ajudavam o pater familiae na administração dos bens e dos negócios que constituíam o património dos Noronha e Braganza e que realmente era muito grande e diversificado. Os dois primeiros tinham casa própria e os outros viviam ali com os pais e respectivas mulheres e crianças. Curiosa situação. Viria naturalmente a conhecê-las e a saber que ambas eram licenciadas que tinham trabalhado, mas que depois dos respectivos casamentos e da ida para a casa dos maridos e sobretudo após os primeiros filhos ficavam em casa. E em famílias ricas como eram estas tinham aias para cuidar das crianças permanentemente incluindo dormida em casa dos patrões.

Outra curiosidade era o uso do patrão no meio do concanim, Estes dirigiam-se aos motoristas sempre na língua oficial da terra ainda que muitos condutores falassem inglês. As diferenças entre as castas marcavam e de maneira os contactos sociais e o distanciamento entre as pessoas, Claro que depois vim a descobrir que a coexistência entre hindus e muçulmanos (que do tempo dos portugueses ficara a maneira de serem tratados por mouros) já conhecera melhores dias. Porque nessa altura segundo me diriam pessoas da terceira idade o convívio entre as diversas comunidades – cristãos, hindus, judeus, mouros, sikhs e outros – era pacífico e normal. Preferiria acreditar na boa fé dos que assim me informariam.

Igreja de Bom Jesus


Também acabaria por entender que muito boa gente e não apenas católicos mas também hindus fazia comparações com o tempo dos portugueses que para eles era melhor e mesmo muito melhor. De resto, também teria a oportunidade de ouvir em tom de lamento a um médico analista hindu que “infelizmente dentro de duas ou três gerações dos portugueses o que restará em Goa serão pedras: igrejas e fortalezas…” Nunca me quis meter nessas questões, pois podia ser rotulado de neocolonialista, mas o que é facto incontroverso é que fazia tais comparações não se coibia de o fazer perante mim. Mas bastava de considerandos sobre apontamentos sobre o tom local e passei a entrar no motivo que levara o primo Salviana a chamar-me a Goa.

Depois de uma noite quase perfeita – e disse quase e explico logo o por quê – pelas quatro da matinha fui acordo pelo altaneiro cantar de um galo, ocorrência que já não me acontecia há uma data de anos. Pensei levantar-me e ir dar um nó no pescoço do sacana do galináceo, mas logo constatei que o desgraçado era o ponta de lança de um gangue de capangas aos quais logo se seguiu um coro ecuménico de gralhas. Não havia solução à vista nem mastro real para, qual gajeiro de Catrineta, pudesse subir para descobrir outros animais sem penas e menos ruidosos; por isso virei-me para o lado e voltei a adormecer, aliás e em abono da verdade sem grande dificuldade.

No dia seguinte começaram realmente as operações que tinham motivado a minha descoberta do caminho aéreo para a India, mais precisamente para Goa, embora não me sentisse de todo um Gama hodierno e nem sequer nascera em Sines. Mas a História tem estórias por vezes tão destrambelhadas… Depois do pequeno almoço demos uma volta pela cidade cujo trânsito constatei ser muito pior do que… caótico. Só vira exemplos em vídeos, mas ao natural era de dar um pacífico cidadão recém chegado num estado de híper esquizofrenia. Automóveis, autocarros (pré-históricos? ) motorizadas, camiões, carrinhas, bicicletas, secuteres, riquexós, muitos, muitíssimos, pretos e amarelos e no meio desta catástrofe trafegueana os cidadãos verdadeiros resistentes, imunes, tranquilos.

Sem legenda mas com barulho...


E toda a gente buzina . Palavra de honra que buzina. De resto nas traseiras das caixas dos camiões, dos autocarros e até das carrinhas está pintado um conselho/ordem HORN PLEASE! Ou seja APITA POR FAVOR! Mas, se ainda pior pudera haver via-se este abracadabrante BLOW UP! – que tive forçosamente de entender por EXPLODE PORRA! Só vendo, ou melhor, só ouvindo! A cidade velha está quase na mesma como a que os portugueses deixaram e quando depois a percorri a pé descobri imensas coisas que em tem irei contando, mas agora, voltando a casa sentámo-nos à mesa para almoçar e foi aí que conheci mais uns quantos membros da família e um convidado, aliás habitual, um sacerdote, que o Diogo me apresento como sendo o padre Manuel da Cruz Xavier, um jovem a rondar os 25/30 anos – é difícil avaliar a idade desta gente mesmo dos velhos – de excelente aspecto, musculado, garboso, escanhoado, cabelo à moda e camisa aberta de colarinho um tanto arredondado que me foi dito que se chamava curtá. A camisa, claro. Quase uma estrela de Bollywood…

O repasto para apresentação ao novo primo, ou seja eu, foi um xit coddi (o clássico caril goês com muito arroz branco basmati – longo e perfumado – cozido e temperado apenas com sal, caril de camarão, na realidade gambas, e uns ratinhos de acompanhamentos que se chamam tocabocas: pará – peixe seco e salgado frito, picles picantes de manga e/ou de limão (miscut) achares (peixe temperado cozido e desfiado) picante, lutas pequenas fritas, pedaços de carne de porco marinadas e fritas e outros. Enfim, uma mesa linda, colorida e apetitosa. Para sobremesa bebinca, doce de grão e pudim de ovos à boa maneira portuguesa. Só faltou a bica.

Foi depois, já refastelados em cadeirões de mobília indo-portuguesa, tomando um uísque Signature produzido em Goa e muito aceitável, que se entrou no tal mistério.
(Continua)