2018-03-31



Um exemplo de jornalismo
Ó Gonçalo
anda daí

Antunes Ferreira
Um gajo bué fixe. Modernice que define bem – na modestíssima opinião de quem se atreve a usá-la – o cidadão em causa que é o Gonçalo Pereira Rosa um Homem que, salvo as devidas proporções e situações é comparável ao bacalhau pois em vez das mil e uma maneiras de preparar este, ele usa e abusa dos ofícios e correlativos. É um fartote.

Conhecemo-nos no ano passado e encontrámo-nos na “Flor do Lumiar”, uma pastelaria/padaria, a duzentos/trezentos metros de minha casa, o convite fora do Gonçalo pois dissera-me por telefonema que gostaria de me entrevistar sobre uma conversa/entrevista que eu tivera com o Lech Walesa em Gdansk quando ali me deslocara em serviço ao Diário de Notícias de Lisboa de que era então o Chefe da Redacção adjunto.

Mal nos sentámos senti que tinha sido “vítima de uma faísca eléctrica” e que, na verdade era o imediato e instantâneo começo de uma empatia que logo depois se transformava em Amizade, entre o Gonçalo e eu. Não eramos, claro, irmãos gémeos, mas eramos almas fémeas (se é que as almas existem…, dúvida essa que também com partilhamos, porra, que é demais!)
 
Sem legenda
A entrevista correu muitíssimo bem, antes dela eu estava um tanto abismado pois normalmente quem as fazia era eu, e só por duas vezes sujeitos impolutos (uma dos quais “sujeita”) tinham tido a pachorra de me aturar durante umas horas para esmiuçar um episódio de um passado mais ou menos intraduzível. No final, o rapaz não esteve com meias medidas: prantou-a no seu livro intitulado O Inspector da PIDE que Morreu Duas Vezes.

De resto o meu amigo Pereira Rosa já tinha publicado em 2015 Parem as Máquinas e em 2016 A Gripe e o Naufrágio. Ora muito bem, chegou a altura de contar um tanto resumidamente quem é este Senhor de seu nome Gonçalo Pereira da Rosa, jornalista dos quatro costados, também escritor, pesquisador, professor universitário, director da edição portuguesa da National Geographic e não sei que mais… Daí a comparação espúria inicial com o bacalhau.

Começou a ser jornalista em 1994 em jornais desportivos, revistas semanais e mensais e como acima se menciona desde 2001 na National Geographic. Diz com um ar de chalaça que comprovou aquilo que Raul Brandão disse em tempos: as Redacções atraem os doidos como a luz atrai as falenas, irremediavelmente. Aliás cita o Baptista-Bastos que escreveu em Os Deuses Absurdos que as redacções são armazéns de loucos donos de um império consumido todos os dias, cabouqueiros de um edifício que todos os dias colapsa.

 
Com Baptista-Bastos
O rapaz como também antes apontei é catedrático de Jornalismo na Universidade Católica desde 2008 e diz ele “ensina os meninos e meninas a respeitarem os jornalistas que os precederam. Gente como António Enes, Emídio Navarro e Mariano de Carvalho no século XIX, um esgrimia com o floreste, o outro com o varapau e o terceiro a soco ou a pontapé. Gente como Artur Portela, Joaquim Manso, Norberto Lopes ou Norberto Araújo, que esgravataram ideias e prosa apesar da Censura. Ou gente como eu (sem modéstia agradeço a referência), o António Valdemar ou o Luís Alberto Ferreira que ousaram bater-se por exclusivos quando as administrações só queriam saber de contas.

Abri aqui um parênteses para mencionar outros excelentes jornalistas com os quais tive o prazer e a honra de trabalhar desde o inigualável Mário Zambujal (que criou um estilo muito próprio na literatura portuguesa actual a partir do espantoso e delicioso Crónica dos Bons Malandros) até aos Já falecidos Raul Rêgo e Cunha Rêgo, passando pelo também desaparecido Càceres Monteiro, Ferreira Fernandes, Adelino Gomes Joaquim Furtado Manuel António Pina (Falecido) e tantos outros, entre os quais ainda acrescento as minhas queridas Alice Vieira e Maria Antónia Pala, o Carlos Pinto Coelho, o João Aguiar, ambos também também incluídos no número dos mortos e o Fernando Dacosta.
 
Neandertal
Gonçalo define-se: é esquerdista incorrigível, sportinguista sem remissão (daí a a segunda entrevista que acaba de me fazer sobre o grande presidente que foi João Rocha cujo nome foi dado ao pavilhão velha aspiração de nós, os leões), ateu e casado. E para finalizar a conversa que durou até quase ao jantar e durante a qual cometi um gravíssimo pecado (não lhe ofereci algo para beber!), mea culpa, Gonçalo ainda somou que segundo um teste de ADN do National Geographic, descobriu que tem 1,9% de material genético comum com os Neandertais. E remata com uma bomba. A sua mulher, quando sabe das figuras que ele faz no futebol diz que deve ser engano: é capaz de ser mais!

2018-03-18




De Luto
Durante três dias suspendo a publicação d’ A Nossa Travessa pelo motivo de eu e a minha família estarmos de luto, pois faleceu no sábado o meu irmão Braz Manuel Antunes Ferreira, com 72 anos, vitima de um cancro na próstata que se tinha expandido a vários órgãos através de metáteses.
Hoje pelas 11 horas será cremado no cemitério de Barcarena.

Henrique Antunes Ferreira 



2018-03-05



Crime no Hipermercado

Antunes Ferreira

Na fila à minha frente estavam cinco pessoas a primeira das quais, um senhor gordo, de barriga proeminente de cerveja, acabava de meter dois euros na ranhura da máquina distribuidora de alimentos, plin, baixou e apanhou na gaveta principal uma garrafa de Água das Pedras e trins o troco na gaveta mais pequena. Seguiu-se uma jovem que transportava um carrinho de bebé com a pequena cobertura levantada, lá fora chovia, um rapaz preto de capuz, uma senhora já entradote com óculos e eu.

Era uma média-superfície Continente de Telheiras onde habitualmente a Raquel e eu íamos às sextas-feiras fazer as compras semanais. Mas dessa feita tínhamos ido ao domingo, era o terceiro dia antes do Natal e naturalmente o que motivava eram… grinaldas, muitos anúncios coloridos, e saldos natalícios, toneladas de brinquedos, muitos dos quais electrónicos,
Sem legenda
Pais Natais insufláveis etc. não faltavam numa policrómica eufórica. Até as meninas e os rapazes das caixas (tchac, tchac, tchac das registadoras de etiquetas de barras) usavam os tradicionais barretes do Pai Natal. Nos corredores diante da frente das caixas havia uns marmanjos disfarçados de Pai Natal, com barbas de fios de plástico e barrigas de almofadas…
A algazarra tinha-se estabelecido around the clock misturando-se o ruido das pessoas com os sons díspares das campainhas, sinetas, e peques badaladas dos instrumentos mais diversos que por ali havia. Uma cacofonia álacre(*) envolve a massa dos cidadãos sejam vendedores sejam compradores, novos ou velhos, adultos ou crianças, enquanto o assalto às gôndolas onde estão colocados os mais diversos produtos tentam ser descarnadas sem sucesso, pois os repositores numa roda-viva vão preenchendo esse tentativa  desanimada.   

Sem legenda

Como música de fundo soa o clássico
Jingle bells, jingle bells, jingle all the way
Oh, what fun it is to ride in a one horse open sleigh
Ladies and gentlemen
I give you the jingle bass
Merry Christmas!!!!!!

á temos o carrinho (devia ser chamado 
carrão tal era o “recheio” dele) com um montão de compras e 
algum brinquedo, mas sobretudo vales de compras para a 
descendência, os netos já têm, o João, 12, o Rodrigo e o Xavier, 9, 
o Vicente 6 e a Madalena, 4, os pais vão receber livros quer eles quer as respectivas mulheres gostam de ler e para mim e para a Raquel… o segredo é a alma do negócio…

Quando cheguei caixa, há duas senhoras à minha frente que vão tagarelando em voz baixa mas suficiente para ser ouvida. 
Dizia uma para a outra, Senhora dona  Matilde soube daquela 
desgraça que aqui aconteceu há duas semanas? A outra senhora,
por certo alentejana respondeu-lhe: Atão nã havera de saberi? Foi 
uma pobrezinha duma menina
Caixa 
 duma caixa que levou um tiro mesmo no mêo do pêto dado por
um filho da puta que trazia na na mão esquerda trazia uma garrafa de uísque daquelas das mais caras e ainda por cima fanada! 

Logo que descemos à garagem e saímos com destino a casa no rádio a cantando  o  Manuel Freire a Pedra Filosofal que adoramos:
 Eles não sabem que o sonho 
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
Manuel Freire
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre (*)e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

(*) Palavra que também consta da "Pedra Filosofal" 





2018-03-04

Minha querida Terezinha

Passou um ano e eu sem te te ver, uma tristeza se me apossou e não me deixa que a largue. Eu não acredito em nenhum Deus, mas sim na Amizade e ela uniu-nos. Basta isso para neste dia te recordar
Henrique

2018-02-18

A Roda dos carretos





Antunes Ferreira


O cajado de sobreiro 

seguro pelas mãos nodosas serve-

lhe de apoio  enquanto sentado 

num bando de madeira, mirando o

horizonte infindo  e pensando 

nos ciclistas. Mestre Jacinto tem 83

anos, foi  corticeiro, hoje não faz nada, apenas recebe um auxílio 

da Misericórdia de Beja, uns míseros quinhentos paus, tudo o que 

lhe resta é a memória. Como esta agora, a dos ciclistas. Já não tem

pernas para os ver passar à bêra da estrada por isso fica pensando

que os está vendo curvados cobre o volante dobrando a curva da

Cortegaça que é sempre a subir. 


E vai recordando. Vai práí uns bons cinquentas e tais anos, tinha 

ele vinte e seis, ou seriam vinte e sete? e já tinha quatro catraias e 

dois moços tinha ido vê-los  passar exactamente naquela curva, o 

Trindade um lagartão de merda ia à frente do pelotão, de resto o 

gajo ia ganhara volta era o ano de mil novecentos e trinta e

quatro, uma porra, pois ele, Jacinto Marques Milhariço era, sempre

fora do Benfica,  valia-lhe o Nicolau, águia dos quatro costados, 

um gigante que ganhara três voltas, enquanto o magricelas do 
Nicolau e Trindade eram amigos

Trindade só ganhara duas! Mas, valias-

lhes isso: eram da mesma terra, o Cartaxo 

eram amigos.


Ah, bons tempos eram aqueles, os anos trintas, a sua Guida, 

dera-he oito rebentos, cinco miúdas e três ganapos, agora todos 

fora do monte, menos a Judite que ali ficara para tia solteirona para 

o acompanhar, não fazia cá falta nenhuma. O Maneli fora-se à tropa

para Lisboa e por lá ficara diziam-lhe que era padêro, nunca mais 

voltara, o Jacinto viera só três vezes, estava estabelecido de

 merceeiro em Mafra, que ele nem sabia onde ficava, e os outros 

andavam por aí espalhados, só soubera que a Lurdes estava de 

porteira em Paris da França e a Maria da Luz era criada na Suíça.  


O padre Francisco prior da freguesia de Beringel (ele não 

gostava mesmo nada de padres nem de igrejas até de papas e

quejandos) mas o gajo contava-lhe  estórias do arco-da-velha que o

entretinham por exemplo sobre o ciclismo. Para o que lhe havia de 

dar. O padreca sentado ao borralho (vinha visitá-lo pela entrada da 

noite e ele mais a Judie ficavam a ouvi-lo) e começa normalmente 

assim: que tinha lido na biblioteca e explicava que a bicicleta era 

um “bicho” que alguns escritores diziam que tinha sido inventado

por um senhor italiano, Leonardo da Vinci,
Leonardo da Vinci
um 

homem dos sete-ofícios, que vivera nos anos 

de 1440 a 1500 mais coisa menos coisa e que 

pintara um quadro chamado Gioconda.



Enfim, o sacerdote sabia muito e perante o espanto dele e da 

filha, de boca aberta, o cura dissera que voltaria no dia seguinte 

para explicar tudo, o que, de facto,  acontecera. Acrescentara, que 

outras pessoas estavam envolvidas na história do ciclismo. Na 

Alemanha, em 1680, o senhor Stephan Farffler, construtor de

relógios, projectou e construiu umas cadeiras de rodas que 

avançavam com manivelas mexidas às mãos e depois um  tal barão

von Drais, também alemão, foi considerado o verdadeiro inventor

da bicicleta.  O padre Francisco contava a história “a galope”

noite apos noite e eles escutavam-no percebendo-o cada vez

melhor.

Celerífero


Desenhou e construiu um brinquedo a que chamou 

celerífero, que depois foi desenvolvido pelo Conde de Sivrac em 

1780. O celerífero fora construído em madeira com duas rodas e 

destinava-se apenas a tracção utilizando-se apenas os pés enquanto

“velocipedista” se colocava na viga de madeira. Drais instalou

nele um sistema de direcção – o guidão – que permitia fazer curvas

e com isto manter o equilíbrio da bicicleta quando em movimento

 e também um rudimentar sistema de travagem.


O sucesso foi enorme, Drais fez a patente do invento; mas, 

todo o bem se acaba. Depois de ter apresentado o seu invento em 

Paris e outras capitais europeias e de ter completado o trajecto 

Baden-Paris, o produto não consegui tornar-se popular e o barão 

foi ridicularizado e faliu. Mas estava-se em pleno século das 

revoluções industriais e científicas como foi o século XIX, e por 

melhorada. Poucos anos se passaram, após o registo de Drais, e 

veículo foi apresentado com uma estrutura de ferro e também 

recebeu uma sela, melhorando em resistência e conforto. No dia 20 

de Abril de 1829 aconteceu a primeira  competição que se tem 

conhecimento utilizando-se o veículo de duas rodas da época. 

Neste dia, competiram 26 draisianas percorrendo 5 quilómetros 

dentro da cidade de Munique.

Rodas desiguais


Note-se que os velocípedes do início 

da segunda metade do século XIX tinham 

os pedais fixos ao eixo da roda da frente 

que era, portanto,  simultaneamente motora

 e directriz. A velocidade de deslocamento dependia 

exclusivamente da aceleração rotativa dos pedais e o desejo de 

obter maior rendimento levou os construtores procurar um 

recurso que favorecesse a acção  mecânica do velocipedista. A 

solução mais fácil foi o aumento do diâmetro da roda motora,

levando ao aparecimento, em 1874, da "grande bi" ou "biciclo", 

com rodas desiguais, ou seja, uma que atingia um diâmetro de um 

metro e meio e a de trás reduzida ao mínimo necessário para 

garantir o equilíbrio.


A partir da década de 1870, os progressos foram rápidos e 

consecutivos. Em 1877 os pedais passaram a funcionar na base do 

quadro, presos a uma engrenagem dentada que uma corrente ligava 

ao eixo da roda traseira por intermédio doutra engrenagem de 

menor número de dentes (um sistema on-line de transmissão), 

assegurando assim, a multiplicação variável conforme as 

dimensões relativas das duas engrenagens, a roda de carretos..


Em 1890 aparecia, na Inglaterra, um aparelho chamado 

"cripto", cujas principais alterações consistiam na presença de 

rolamentos sobre esferas nos pedais e na aplicação de câmaras-de-

ar às rodas, pois antes, as rodas dos velocípedes não passavam de 

aro metálico ou de madeira, recoberto, em sua periferia, de 

borracha maciça destinada a amortecer os choques e ressaltos nos 

acidentes do caminho. A roda tubular em borracha com uma 

"alma" contendo ar comprimido foi uma invenção do 

veterinário escocês Dunlop.

Trindade

Ti Jacinto levanta-se, está na hora da janta,

na aldeia, ouvem- se na aldeia os sinos a dobrar, 

encaminha-se a passos pesados para a casa térrea e 

continua a recordar aquela vez em que Trindade 

teve um furo e ao descer da bicicleta para tirar a bomba para 

encher o pneu, os outros que o perseguiam caíram todos em cima 

dele e da bicicleta e os papalvos que assistiam à chegada na meta 

desataram a rir em gargalhadas altas, loucas e roucas! Os 

parvalhões! As bestas! Os filhos da puta!!!. Quem dera que fossem

eles a levar com os ciclistas em cima e que lhes partissem os 

cornos! Felizmente não houve vítimas.   



2018-02-09






Antunes Ferreira

Inédita situação, um ordenhador de vacas e simultaneamente um especialista em sexo, mais especificamente em onanismo. Era o caso de Sebastião Silvestre Nicolau de Peninha, a quem quando era puto, os outros para o chatearem chamavam-lhe SSNazi. Sebastião engalinhava com a sacanice e era-lhe difícil responder-lhes. Isto porque era bem-educado, provinha de família nobre, os Nicolau de Peninha tinham brasão e palácio no Alentejo, um tanto remendado mas no entanto era um palácio. Os pais dele tinham ido á escola que frequentava acusando os gaiatos de bullying, o que era, infelizmente, verdade.

Fora precisamente na herdade da Peninha (donde viera parte do nome da família) que Sebastião tomara pela primeira vez tomara contacto com a ordenha de uma vaca leiteira de que se encarregava o feitor Jaquim Pardal. Sentara-se num banquinho de três pés a que chamavam tripé (o que também era novidade, menino da cidade quando vai ao campo é tudo “novo”, quando lhe tinham dito que o bicho que andava sobre duas patas, tinha penas e fazia cócócorócó era uma galinha ou um frango ou até um galo, ele dissera que só os conhecia “despidos e vestidos em plástico” nos supermercados…)

Ordenha manual



Era muito fixe. O Jaquim também sentado num tripé puxava uma de cada vez, uma teta da vaca e dela saia um jacto de leite, apanhado num balde de madeira. O feitor repetia a cena três vezes porque a vaca tem quatro tetas. O nosso morgadinho inquiriu qual a quantidade de leite que o Pardal tirava. Ele corrigiu que não era tirava, era ordenhava e como de cada teta saía um quarto de litro ordenhava um litro. E dói muito? E o Jaquim na brincadeira: “a mim?” E o gaiato: “não, à vaca?” “Menino, as vitelas e os vitelos quando mama não causam dor à mãe deles. Daí que…” Silvestre percebeu. E à noite, ao serão, junto à lareira, os pais sempre o autorizavam e às manas Rosário e Margarida a ficar mais tarde do que em Lisboa, ele parecia o comboio foguete a desbobinar o que aprendera sobre a ordenha.  

Os pais acharam que ele tinha muita piada ao contar o que lhe acontecera e por isso tinham prolongado a hora de ir para a cama. De manha quando acordaram e tomarem o pequeno-almoço, enquanto as manas ficavam a brincar comas bonecas barbie, Silvestre (não gostava mesmo nada do primeiro nome, lembrava-lhe sempre o sebastião papa a sopa, sem colher e depois dá tareia na mulher e depois fica todo barrigudo) foi de novo até ao pé do Pardal e da vaca.


“Ora muito bom dia; pelos vistos gostos do “espectáculo”…”Se gostei!. E estive a pensar antes de adormecer, será que a vaca gosta de ser ordenhada, desse movimento de baixo para cima e de cima para baixo?” “O menino pensa em cada uma… Claro que gosta, quem não havia de gostar… É como se lhe estivesse a fazer uma pívia…” E o Jaquim Pardal lambia-se. “Mas... o que quer dizer isso? E por que se faz? E quando se faz?” (Silvestre estava na idade dos ses. Para terminá-los só havia uma solução: …terminá-los) E o feitor espetando o dedo indicador da mão esquerda e agarrando-do-o com quatro da mão direita fez com andar para cima e para baixo com esse
Gozoooo...
esquema e pouco tempo depois, simulou que saía qualquer coisa do dedo indicador e disse ao puto que era branco.

“E a única maneira do menino perceber é experimentar, mas tenha cuidado, tem de fazê-lo num sítio resguardado, escondido. Por exemplo na casa de banho e à noite. depois de todos se terem deitado. Voltado a cada Silvestre, passou o dia na maior espectativa que foi disfarçando tanto quanto lhe era possível. Na cama ficou acordado até que qualquer ruído desapareceu, então, em bicos dos pés foi para uma das casas de banho. Trancou a porta e sentou-se na retrete, baixou as calças do pijama e começou a bater a pívia de acordo com o que o que o Pardal lhe ensinara, estava sentado em frente do espelho do armário branco, outro ensinamento do feitor, e podia ver que estava encarnado como um tomates e cheio de gozo, acelerou o movimento e lambeu os lábios freneticamente e de repente – uma explosão!, saiu-lhe um jacto de líquido branco do orifício da piça: era a esporra! Deliciado só então começou a sossegar e voltou à cama. Bendito Jaquim Pardal…

Claro que o puto nobre foi contar ao feitor o que tinha feito e o gozo que tivera e ao longo dos anos fora-lhe também fazendo-lhe o mesmo, com cada vez mais requintes até que foram escasseando. Muito tempo depois tinha o fidalgo 37 anos, tinha casa, dois filhos, as manas também, o pai Silvestre João já tinha falecido e a mãe Maria do Rosário encontra-se num lar, ia de tempos a tempos visitar a herdade. Tinha outras ocupações, como bom fidalgo marialvista tinha uma amante, a Lurdecas, era sócio gerente da Pharmo-Pena, casa com quintalão e galinheiro em Islantilla, na Andaluzia.

Um dia, quando visitava a Peninha deu-lhe na mona ordenhar. Mas não seria como no tempo de antanho, ná, haveria coisa moderna, mecânica, mecanizada, com cinquenta e tais ou sessenta vacas e dois ou três tratadores de gado leiteiro. Meu dito, meu feito. Foi-se a Lisboa para comprar o equipamento e colocar um anúncio nos jornais para procurar os tratadores.

Só ficou descansado quando viu a máquina montada e o pessoal nos seus postos. E o engenheiro da firma onde comprara o equipamento fora-lhe explicando-lhe bem como ao pessoal da ordenha como ela funcionava. A bomba de vácuo é considerada a parte principal do equipamento. As mais utilizadas no mundo, são de duas características ,umas com as bombas em linha, outras são as rotativas
As rotativas
com as bombas de palhetas com rotor excêntrico. A sua função é extrair o ar do sistema de ordenha comprimindo-o e eliminando para a atmosfera pelo escapamento. As bombas variam em capacidade, que deve ser proporcional à quantidade de unidades de ordenha e acessórios que tenha o equipamento. Esta capacidade mede-se em litros/minuto de ar livre que a bomba é capaz de extrair.

A outra questão são os reguladores de vácuo que cumprem a função de manter estável o nível de vácuo de toda a instalação. Permitem entradas de ar exterior ao equipamento e interrompem esta entrada de acordo com as variações no nível de vácuo, que são provocadas por ingressos de ar em outros pontos como unidades de ordenha, pulsadores, descarregadores, etc. Segue-se o reservatório de vácuo tem como função evitar que cheguem líquidos (detergentes, água ou leite) à bomba de vácuo. Este funciona como um sistema de segurança. Deve ser instalado o mais próximo possível da bomba

Estas linhas legais dadas pelo engenheiro serviram para elucidar o pessoal, incluindo, naturalmente o Silvestre; mas para ele não só para o ensino mas também para o “apetite” Pensou ele “Se com a mão funciona bem, com a máquina deve funcionar muito melhor…” Nem pejo teve; à noite, depois da malta deitada e a dormir o sono dos justos, foi-se ao edifício onde estava a ordenha mecânica, meteu o pirilau num dos quatro tubos de sucção e ligou à geringonça à corrente. Ah que bem-estar. A languidez surgia-lhe. Só que de repente apanhou um gigantesco susto! Colado ao suporte da base donde pendiam os outros três tubos de sucção estava um aviso

ATENÇÃO: PÁRA AOS CINCO LITROS!

Claro, nem se deu conta disso, deu o bafo....