2016-07-31




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Concurso está a chegar

Vem aí o concurso prometido há uns tempos. Para a semana que vem ele cá está, ainda que, por agora, não diga a data. É fácil, grátis e dá prémios. Estes também serão divulgados aquando da apresentação. Entretanto as Amigas e os Amigos podem continuar a fazer comentários referentes ao textículo A miúda queria ser manequim de montra

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2016-07-21

A menina
queria ser
manequim

de montra 


Antunes Ferreira
E
specada em frente da montra de um estabelecimento de roupa interior de senhora, Alberta mira com ar pensativo os manequins, entre eles um de uma mulher com um biquíni obscenamente pequeno. Feito em tiras pouco largas de cores amarela torrado e azul marinho duas cobrem-lhe os mamilos duns seios moldados e empinados. Quase lhe deixam mostrar as auréolas, e estendem-se pelo tronco.

À
 cintura mais uma fita das mesmas cores de onde partem mais duas que se cruzam entre as pernas fazendo adivinhar a zona púdica para passando por baixo do sexo para seguirem para as costas. O manequim está de frente virado para quem passa. Alberta advinha-lhe um fio dental, embora não o veja. Uma senhora cinquentona ao lado dela comenta que lhe parece uma mulher verdadeira, que não deviam fazer estas coisas para atrair as compradoras e – quem sabe? – os compradores, certamente para oferta. Tenho a certeza, prossegue a dama, que é para a secretária ninguém daria uma prenda destas à mulher legítima.

Alguém devia proibir estas "exibições


A
liás não é só aqui que se pode ver esta desvergonha. Também há meninas com tudo à mostra nos placares publicitários espalhados por Lisboa… por Lisboa? Por todo o país. Os condutores se reparam neles ainda dão com a lata no carro da frente. “Alguém” devia proibir estas “exibições”. No meu tempo não era nada disto. As Senhoras eram Senhoras e as meninas eram meninas! Até penso que é necessário fazer uma marcha pela avenida da República com cartazes a dizer: Abaixo a devassidão! Abaixo os maus costumes!

U
m pouco atrás um cavalheiro, a caminhar para sexagenário, ou talvez já seja, está pensando: os homens hoje em dia aperaltam-se bem, vão ao ginásio (para ver as moças em calções e ti shirts), fazem plásticas, rapam os pelos mais incómodos, tentam alindar-se senão mesmo assexoar-se á maneira de mulher. E há ainda os pane… homossexuais e as fuf…lésbicas, os travestis e os transgénicos, valha-nos Deus!  Discorda da que deve ser a esposa, mas em silêncio não vá ela... No entanto Alberta adivinha-lhe o pensamento bastante pornográfico.

Obras na Av. da República


O
 cidadão que parece um tanto distraído – mas não está – acrescenta à proposta da cara-metade: na avenida da República não, está toda cheia de tratores e trabalhadores das nove da manhã às cinco da tarde, não fazem horas extraordinárias nem trabalho nocturno o que é típico dos portugueses: Além disso há os mamarrachos às listas brancas e vermelhas que só entopem a circulação; ah e também o Saldanha e a Fontes Pereira de Melo obstruídos pelos mesmos coisos plásticos das mesmas cores, para abrir o tal corredor…  Que está a Câmara a fazer? Dizem que é para circular melhor. Uma ova! Se de três faixas tiraram uma o resultado tem de ser uma merda!  A dama por uma só vez concorda. Raro.

A
lberta está num supermercado grande que fica entre o hipermercado e o centro comercial, mais maneirinho do que ambos, mas com umas quantas lojas em frente das caixas que registam os produtos depois da máquina ler os códigos de barras. Ao lado dum balcão de café de várias qualidades mas da mesma marca, fica a loja de roupa sensual para senhoras, transparente e reveladora. Outro manequim usa um baby-doll cor de rosa com rendinhas salmão. Outro ainda veste um fato de banho tão cavado que de cima se pode ver que tem as unhas dos pés pintadas. Ou devia ter.

U
m dia o pai, depois o tio Manel em seguida as mulheres, uma com os sete filhos e outra com seis abalaram da  aldeia em que viviam, Pardieiros, do concelho de Viseu em busca de uma vida melhor, faltos de pão de centeio e azeitonas. Tinham como objectivo no fim da viagem do Reboredo, em Torre de Moncorvo onde havia uma mina de ferro que diziam ter a maior reserva do metal em toda a Europa.

Caretos


L
á chegados fora uma desilusão, a mina estava prestes a fechar porque os filões já tinham acabado. Um senhor explicou aos que tinham chegado o que era a Festa dos Rapazes, que decorre do Natal ao Ano Novo e que é uma marca nordestina. Tudo bem, na altura iriam ver os “caretas” vestidos <b>a rigor</b> que percorrem bastantes aldeias. Tinham de provar os botelos e as alheiras outra classe de enchidos locais. O pai, de seu nome ti Chico, ouvia tudo com muita atenção e então decidira ficar porque dizia que a fé move montanhas ao que o ti Manel respondia: sim senhor, mas eu prefiro a dinamite…

A
ssentaram em Freixo de Espada à Cinta e logo o povo gozara com a sua maneira de falar tipicamente beirã. Mas continuaram a falar achim. O Chico Monteiro abrira um estabelecimento de sapateiro, um buraco de uma escada, alugaram dois quartos com serventia da casa de banho colectiva no fim do corredor e uma cozinha onde cabia o fogão. Assim todos ficaram a falar ao jeito das Beiras. A coisa não correu mal e tempos depois tornara-se sapataria com modelos para toda a gente, incluindo o padre cura que ainda calçava botinas.E a coisa ia andando bem.


Freixo de Espada
à Cinta


R
ecorda que quando era miúda lá em Freixo de Espada à Chinta o Cenhor Augusto alfaiate abrira uma montra onde pujera dois manequins. Nada como estes de agora: tinham um pau com rodas em bez de pés para ele os mober de um lado para o ouitro. Debiam cher em papelão ou coisa que o balha, as caras feias como um burro e muito pintadas que o merceeiro Senhor Jaquim até dijia que os póseches eram para disfrachar a feiura. As mulheres trocheram o nariz mas o Cenhor Augusto estebe-che nas tintas e continuou com os manequins na montra.

U
m dia dichera ao pai que quando foche grande queria cher manequim de montra. O pai, de pelos nas bentas chamara-lhe parba e chem chequer a ameachar dera-lhe duas galhetas daquelas de mão atrás para dar balancho. A mãe Mariana enxugara-lhe as lágrimas: tá queda Berta, olha que o teu pai te dá mais duas. Calara-che. - Como iam longe os tempos em que trocava os esses pelos ches,  os vês pelos bês e os zês pelos jotas… - mas metera na cabecha a ideia de cher manequim de montra.

E
 com qualquer bestimenta, até mesmo com aquelas que lhes davam o aspecto de terem acabado de ter chido dadas ao Mundo, tal era a diminuta porchão de fajenda que quaje nem cherbiria para dar lustro aos chapatos. O ti Manel, por parte da mãe, abijara-a que che deixache de mariquichs, tás a ber, tira echa ideia maluca da cabecha. As gajas nem se mexem e além do mais não chão bibas. Mas também dijia que ela para tirar alguma coija da cabecha era precijo cortar-lhe a… dita cuja cabecha.

Trancam o automóvel, rebocam-o...


V
iera para Lisboa, tirara o curcho (às vezes ainda resmoneava: maldito sotaque) de Economia, casara, divorciara-se e voltara a casar, dois filhos, um do primeiro, outro do segundo. E voltara a divorciar-se e hoje tinha um namorado, a amiga Eduarda que era muito brincalhona chamava-lhe… namorido. Tem o carro no estacionamento pago; olha o relógio, meu Deus já passam mais de quinze minutos da hora limite indicada no parquímetro. Ainda vem o tipo da EMEL, tranca-lhe o automóvel e a grua reboca-o - e estou fo…rnicada. Vira-se e acelera o passo. Ainda está para dar um adeus com a mão ao manequim - mas não dá. Uma economista, três vezes casada, três vezes divorciada, com dois filhos e um namorido não deve dizer adeus a um manequim. Mesmo sendo de Freixo de Espada à Cinta.



2016-07-15






Antunes Ferreira


C
laro que é impossível pôr um polícia, um gendarme ou um soldado atrás de cada cidadão. Poderá dizer-se que as armas oficiais são um elemento de dissuasão, o que efectivamente é verdade, mas em muitos casos não chega. Depois da brutalidade criminosa que se passou em Nice, mais precisamente na Promenade des Anglais, e que saldou (até à data em que escrevo este texto) por mais de oitenta mortos e duzentos feridos, cinquenta em estado grave a França, naturalmente, vive em estado de choque.

A França é forte...




A
 intervenção do Presidente François Hollande foi uma tentativa de aliviar a tensão em que se encontram os seus compatriotas  e não só. Mas, infelizmente não trouxe na verdade nada de novo; de resto, que se esperaria mais? O prolongamento do estado de emergência por mais três meses e o reforço dos elementos de segurança, e a continuação do país através da Força Aérea no combate ao Daesh no Iraque e na Síria. Apenas um pormenor se destaca entre estas medidas: a convocação de cidadãos antigos militares para participar nessa enorme tentativa de assegurar a segurança. Caso semelhante só é possível encontrar aquando das guerras mundiais.


O
ra, esta mortandade horrível aconteceu quando vigorava o estado de emergência e quando os serviços de segurança estavam na rua preparados para possíveis ataques terroristas como os que se verificaram no Charlie Hedbo, no ataque ao supermercado judeu e na carnificina do Bataclan. Sendo assim, o apelo à calma e à serenidade de Hollande é muito importante, mas não impede que permaneça, aliás justificadamente, o medo dos cidadãos que se perguntam quando será que um novo ataque terrorista se verificará? Ao fim de três dias o auto-denominado "Estado Islâmico" através das redes sociais reivindicou a autoria do mortífero,  chamando a Mohamed Lahouaiej Bouhlel um "soldado". Pode assim dizer-se que fazem o mal e a caramunha!


D
esde a eliminação maciça dos judeus, ciganos, membros das oposições e mais, que o Holocausto tem sido exemplo do que o homem pode fazer no domínio do crime organizado. Auschwitz era o nome alemão dado a Oswiecim, localidade na Baixa Polónia invadida pelos nazis. No campo que teve o seu nome, terão sido gazeados e cremados mais de um milhão e seiscentos mil prisioneiros, em especial judeus. Era a solução final como Hitler tinha determinado.


O trabalho traz a felicidade...




A
o longo de setenta e cinco anos tem vindo a ser classificado como o maior crime cometido pelos homens. Tive a oportunidade de visitar o campo de concentração e de extermínio. E no local senti-me revoltado, asfixiado, quase desmaiei, as lágrimas chegaram-me aos olhos e compreendi o horror que o arame farpado, as minas, as salas de gazeamentos, os crematórios representavam em confronto com a liberdade. Ironicamente no portão do diabo estava escrito ARBEIT MACHT FREI, ou seja, O TRABALHO TRAZ A LIBERDADE..



J
ulguei que a hecatombe criminosa e a loucura que a acompanhava não podiam ter coisa semelhante. Mas, teve, infelizmente teve, como se viu no massacre de Srebenica, no cerco de Sarajevo, nos bombardeamentos, nos fuzilamentos e nos novos campos de concentração as atrocidades cometidas durante a guerra civil na antiga Jugoslávia já nos nossos tempos. Tal como o Kosovo as lutas eram raciais, mas, ironia macabra, também fraternais.


O desnorte das pessoas




E
m Nice, face a momentos hediondos como este, que o desnorte das pessoas é mais evidente. Já se sabe quem foi o assassino, já se sabem as nacionalidades de muitos dos mortos e dos feridos, incluindo que entre estes últimos há um Português. Perdoem-me a afirmação: este último pormenor pode ser considerado peanuts, quando comparado com a dimensão da tragédia. Com isto não quero dizer que a preocupação com a vida de compatriota é de somenos importância; nada disso. O contrário seria renegar a Pátria que vinha de uma vitória precisamente contra a França no Europeu 2016. O que é que se diga que um não tem nada a ver com outro. Infelizmente as coisas coincidiram, nada mais.
  

Entretanto dou por mim a inquirir-me por que bulas perante os ataques terroristas a (des)União Europeia declara estar aterrorizada, mas não faz nada. Não foi para isto que Jean Monet e Robert Schumann criaram os fundamentos do Comecon, da CE, depois, CEE e finalmente (des)União Europeia. A realidade é bem diferente: a Europa, continente velho, está amarrada e amordaçada, perante o poder de uma Alemanha que no tempo de Hitler e da sua Wehrmacht falhou a conquista da Europa e hoje ajoelha perante Frau Angela Merkel e Her Wolfgang Schäuble que o conseguiram através das finanças e da economia o que significa o poder do dinheiro. Curiosamente a mesma Alemanha não foi vítima de qualquer ataque; porque será que isso acontece?



A
lém disso pergunto-me uma outra vez que é feito da (des)União Europeia em matéria absolutamente necessária de defesa em ocorrências como esta? Trocas de informações entre os países que ainda estão integrados nela? Forças policiais e militares conjuntas, o que quer dizer europeias? A realidade é que os países europeus, sejam ou não participantes na (des)EU, estão impotentes contra estes morticínios horrendos. 


Marcelo deu condolências




R
estam as condolências e as declarações de solidariedade dos políticos. Até agora na Europa há que registar (e porque oriundos da nossa casa) Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa; Papa Francisco, Theresa May, nova primeira-ministra do Reino (des)Unido, Mariano Rajoy, Charles Michel, primeiro-ministro da Bélgica, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu e outros. Fora da Europa, Barak Obama, presidente dos EUA, Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, Michel Temer, presidente em exercício do Brasil, Juan Carlos Varela, presidente do Panamá etc.


N
o entanto, todas estas declarações não passam disso mesmo – declarações de intenção. Representam, é certo, o pesar e a solidariedade de quem está de fora. Acontece, porém, que no caso vertente não são de todo pieguice ou esmola, que pode servir de alguma consolação para a França, mas não restitui a vida aos mortos nem a saúde aos feridos.

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Texto actualizado




Também publicado no “Sorumbático” e no” A Zorra da Boavista”
 

2016-07-12



Afinal
repetir 
a final?

Antunes Ferreira

N
inguém gosta de perder o que é natural, como se costuma dizer nem a feijões. Mas ter certas afirmações é estar carregado de azia e por isso dizer alarvidades!

S

ão sobejamente conhecidos o chauvinismo e a xenofobia dos franceses, e a vitória de Portugal no Euro 2016 foi uma facada no orgulho de que se ufanam e que até hoje não conseguem engolir. Por outro lado, mesmo nos antípodas  o nosso país teve (e ainda tem) muitas das suas bases culturais vindas de paris – tal como os meninos mas sem cegonha. Bastaria relembrar “A Cidade e as Serras” do nosso Eça.


M
as também é conveniente reler as páginas da nossa História para apresentar uns exemplos suficientes para informar os mais distraídos ou os menos cultos. As três invasões francesas a Portugal por ordem de Napoleão Bonaparte felizmente infrutíferas saldaram-se por uma derrota humilhante de Junot, Massena e Soult e outros. Foi-se o galo dos gauleses, ficou o nosso Galo de Barcelos.


Stade de France

V
em tudo isto à memória dos Portugueses perante num acontecimento que, para além de insólito é hilariante. Ora num país que já foi a capital do Mundo, melhor dizendo do Mundo francófono, está a correr uma petição que segundo a comunicação social já tem mais de 80.000 subscritores: REPETIR A FINAL DO MAIOR TORNEIO FUTEBOLÍSTICO DA EUROPA!!! Para quem ainda tenha algumas duvidas sobre o caso acentuo REPETIR A FINAL DO MAIOR TORNEIO FUTEBOLÍSTICO DA EUROPA!!! No mínimo – incrível!
...só no fim do jogo



M
as a justificação descabelada dos peticionários baseia-se na FRAUDE dos Portugueses!!! No mínimo anedótico, para além de doença de garganta. A garganta com que apregoavam (antes da final…) que ela ia ser ganha, seguramente, pela selecção francesa. Até jogavam em casa… Porém o tiro que antecipavam saiu-lhes pela culatra: ganharam os nossos heróis. Razão tinha o antigo futebolista João Pinto do Futebol Clube do Porto: “Prognósticos só no fim do jogo…


Sem legenda....



E

sta indescritível enormidade não merecia estas linhas, mas é tal a minha revolta, é tamanho o meu desprezo que aconselho os que estão a assinar a petição: vão a um  otorrinolaringologista...


2016-07-10

Campeões!!!!

Antunes Ferreira

O
ntem a Selecção Nacional sagrou-se CAMPEÃO EUROPEU 2016! Foi a primeira vez que isso aconteceu. Um golo à Ronaldo“ do patinho feio” chamado Eder (que já é um herói…) aos 108 minutos pôs Portugal nas nuvens! Mesmo com o nosso Cristiano - agredido por um criminoso denominado (e dominado) Payet - fora do relvado) mostrámos ao Mundo que foi possível vencer os gauleses na sua casa. Fernando Santos e toda a equipa  merecem os nossos parabéns!!!!
Viva Portugal!!!!!!!!!!!!!



2016-07-08

À noite mata



ATENÇÃO: Esta é uma estória verídica que
tem como protagonistas exclusivos
o autor e dois dos seus netos e aconteceu
 em minha casa aqui ao Lumiar em Lisboa
. Não querendo enfatizar a importância dos dois
malandros que formam o par com
 que me defrontei (e eles merecem que não
 os ignore), tenho de confessar que um deles
 foi o actor principal foi enredo acompanhado
 do outro; o infeliz fui eu. Muito obrigado




Antunes Ferreira

H

á quem diga que há tempo para tudo: trabalhar (coisa que cansa muito), estudar (que não cansa menos) brincar, namorar, amar, comprar e vender, ler e escrever; mas não se pode ignorar que também o há para comer. Aliás este verbo transitório tem muito que se lhe diga. Comer é essencial para a vida de um qualquer animal incluindo, claro, o inteligente. Come-se quase tudo. Os chineses dizem que uma coisa com quatro patas e que não seja uma mesa, eles comem e uma coisa que voa, exceptuando um avião, também eles comem



C
oncluindo: a laranja obviamente come-se; depois de descascada, os gomos são uma 
delícia. Eu, pelo menos penso assim; mas tenho a certeza que muito boa gente-esta comigo neste particular, ou seja comer laranjas. No entanto também existe muito pessoal que não participa nesta posição; por exemplo os que não gostam delas, e os que até as odeiam. Costumo dizer que toda a regra tem excepções.

O descasque prévio



D
epois destes prolegómenos, o motivo que me traz aqui a estacada é justamente o comer laranjas. Explico: estava eu, depois de um jantar opíparo de malga de sopa de legumes, sem batata, os dietistas e os naturalistas são cada vez mais perigosíssimos, acompanhado de meia fatia de pão integral, preparando-me para comer uma laranja. A preparação inclui naturalmente o descasque prévio; porém já o fizera e estava prestes  a engorgitar o primeiro gomo quando chegaram o Rodrigo e o Vicente que como habitualmente estavam na nossa casa o que a Raquel e eu adoramos.


C
omeçou então um drama existencial que feliz e obviamente não meteu agressões muito menos armas brancas ou pretas, não sou adepto de quaisquer apartaides. Apenas um impositivo, avô não faça isso! E o primo e companheiro de pleiseteichões, Vicente, mirava-me com ar suspeito embora complacente. Essa gora, por que bulas não hei-de comer tranquilamente uma laranja? Pois se até a Dona Amélia dietista ma aconselhou, disse-me que o posso e devo fazer porque contém fibras poucas calorias, a volta de cinquenta e…

À noite mata...



R
odrigo interrompeu-me: avô não se trata disso, eu bem sei os benefícios da laranja (o tipo já fez o segundo ano da Faculdade de Motricidade Humana e não sei mais quê que no antigamente era o INEF e que depois escolheu a especialidade de treinador de futebol (argolada: é coisa que há mais do que advogados no inferno...) E o moço explicou todo impante: de manhã a laranja é ouro; à tarde é prata e à noite mata! Abri a boca – sem meter o gomo, pelo sim, pelo não – e perguntei-lhe onde é que ele aprendera isso. Em Estremoz em casa do avô Parreira. (que é o pai da Margarida casado com o meu primogénito Miguel, logo avô do Rodrigo e do João e por isso meu compadre, aliás muito fixe)   


J
á não se pode confiar em ninguém nem na própria sombra, assim vai o mundo. A nomeação do Senhor Dr. Durão Barroso para presidente não executivo do banco que manda no Mundo, ou seja o Goldman Sachs, é disso exemplo flagrante.  No caso vertente não podia dizer que não confiava no meu compadre Parreira, pois ele podia melindrar-se, embora não creia nesse melindre. Perante o dilema como ou não como retirei-me para a cozinha onde muitas vezes tomamos as refeições e regalei-me com a laranja da Bahia (sem grainhas) que é uma falsidade pois ela vem do Algarve.






2016-06-30


A farmácia

e a prostiputa



Antunes Ferreira

C
á fora há uma cruz verde iluminada e piscando onde passam GLICEMIA, TRIGLICÉRIDOS E COLESTEROL indicando as análises que ali se fazem. Depois o nome da farmácia, a data, a hora e a temperatura. Era uma das maiores que o Justino via, e ao entrar descobriu que abarrotava de gente. Um sujeito disse-lhe que era preciso tirar uma senha com o número que lhe anunciava o atendimento. Indicou-lhe a maquineta e explicou-lhe como funcionava, é só carregar no botão…


Felgueiras - Moncorvo



J
ustino Silva Gonçalves era transmontano natural da aldeia de Felgueiras junto a Moncorvo, onde também vivera toda a vida, 22 anos de idade, solteiro e as vizinhas consideravam-no um bom rapaz, temente a Deus, missa semanal. Terra curiosa, dentro dela não se apanham as chamadas do telemóvel...: ali vive o último cerieiro de Portugal. Pela primeira vez vinha a Lisboa. Para ele era tudo uma novidade, sentia-se como um boi a olhar para um palácio, era tudo enorme.



C
omo tinha combinado foi ao Bairro Alto para ver o primo Manel natural de Maçores, um bagaço de estalar e porque torna e porque deixa, puseram a escrita em dia. O primo indicou-lhe que devia ver a turística
Sem legenda

travessa do Cunhal das Bolas (Seria da família do chefe dos comunistas?) que até tinha tabuleta na parede e era pequena como tudo no bairro, Iria, tá claro, mas só na próxima visita à Capital.

Q
uando vinha embora Manel explicou-lhe que o Bairro Alto do antigamente era o que se chamava um antro de perdição, porque tinha muitas pegas e casas de passe juntamente com tascos e restaurantes onde as rameiras cantavam o fado, acompanhadas à guitarra pelo Zé Falcão e à viola pelo Chico Aventureiro. Porém muito desses “inconvenientes” estavam a desaparecer.


R
ameiras? São as mulheres da vida respondeu o Manel, e o Jaquim, com uns pontos de interrogação, o que é isso? São as protisputas como lhes chamam as pessoas finas e nós dizemos putas. Se galares alguma lembra-te do que te digo; toma cuidado e atenção.
Uma senhora dos seus...
E foi precisamente quando chegava à travessa da Queimada onde o Manel lhe tinha dito que era a Redacção da BOLA, que uma senhora dos seus cinquenta e muitos o convidara para dar uma queca.




P
orém em Felgueiras o Jaquim Gomes avisara-o que sem camisa-de-vénus não podia fazer nada e por isso fora à farmácia para comprar uma. Possa! A velhota a caminho dos cinquenta e muitos, carregada de pó de arroz e de outra porcaria que na televisão diziam que era meique âpe, as beiçolas pintadas de vermelho forte e pestanas postiças, dissera-lhe que não era preciso, que era muito cuidadosa e limpinha, lavava-se por baixo todos dias. Duvidoso, fora-se pelo Jaquim Gomes que era da aldeia e barbeiro, homem de saberes e sobretudo amigo. Mas ficou a ruminar: como era tão grande a desgraça, a austeridade, o desemprego e a fome que levavam uma gaja já muito fanada a prostiputar-se…


Estamos cá para isso



N
a farmácia coubera-lhe um papel saído da mánica  com o númaro 0169 e no mostrador na parede ainda ia o 0032. Safa, eram mais de cem númaros de diferença. Três horas e meia depois uma Senhora com ar de duquesa ou coisa assim que tinha o 0165, raio de lotaria, amanhã é que anda à roda, chegou-se ao balcão e disse ao empregado que queria comprar um batom mais primeiro precisava de experimentar para ver a cor exacta que costumava usar. Mas não queria abusar do tempo que lhe roubava. A atendedora, minha Senhora estamos cá para isso…





E
ntretanto aproximavam-se em alta velocidade as sete da tarde hora em que fechava o estabelecimento, o que aconteceu num instante. Pelo altifalante, uma voz maviosa informou: as senhas restantes ficam para amanhã respeitando a ordem deste dia. Por favor têm de trazer as senhas. Chiça! logo lhe havia de acontecer uma tal coisa, e a camioneta para Moncorvo saía às sete e meia. Estava perdido e estava perdida a camioneta. Telefonou ao primo Manel dando-lhe conta da chatice que tivera, ao que ele lhe respondeu: antes isso do ter partido uma perna. Dormes cá em casa, vestes um dos meus pijamas, escova de dentes e pasta há e mais, depois xixi e cama no quarto das visitas que agora não há nenhuma.


Um antro de perdição ou de salvação?



T
Iro e queda, assim aconteceu, ainda jantou umas postas de pescada frita com arroz de tomate que estava de lamber os dedos. No quarto das visitas deu consigo a fazer trabalhar a cachola. E resmoneou que não comprara o persebatibo, não comera a gaja e arranjara casa e comida. Lisboa era mesmo um antro de perdição, o Jaquim Gomes bem lhe dissera. Mas também de salvação, o primo Manel ? – não a capital.