2023-08-19

 


Uma doença complicada

*Do Alzheimer ao HIV venha o diabo do Diabo

 

Antunes Ferreira

«O senhor doutor Manuel Mateus Gonçalves Nobre, médico de família, ficou preocupado, depois da consulta ao senhor Carlos Manuel Vicente Marques, 78 anos, casado, segundo a ficha (pasme-se, actualizada) com Isabel Maria Gomes Vicente Marques, reformado da Companhia de Armazenagem/silagem de cereais «Grão a Grão». Por isso, tomou-s dos sus cuidados, chamou a enfermeira Adelaide e pediu-lhe, por favor, para dizer às senhoras da Recepção que ligassem para casa do paciente que acabava de sair. Depois, ligou, no computador, a edição on-line d'«A Bola» e esperou não muito tempo. «Está lá? Quem fala?» «Aqui é a casa do Vicente Maques. Se faz favor, identifique-se e diga-me o motivo desta chamada.»

«Eu sou o drº. Gonçalves Nobre, vosso médico de família e...» Dona isabel Maria interrompeu-o: «Sei bem quem é o senhor doutor; mas, que aconteceu para me estar a telefonar quase à meia noite? O meu marido foi hoje consultá-lo, tem alguma cisa grave?» Gonçalves Nobre pigarreou e falou com a tranquilidade possível: «Minha Senhora não entre em pânico, trata-se apenas de uma dúvida com que fiquei durante a consulta do seu esposo, nada de grave, mas, enfim, creio que a senhora deve marcar uma consulta com um neurologista.

Sem legenda


 Até lhe posso indicar um que andou comigo na Faculdade, mas é somente uma sugestão, podem procurar outro, o Google da Internet está cheio deles...»

«Ó senhor vou já tratar disso, diga-me o nome, a morada, o telefone e/ou o telemóvel desse su amigo. Pelo que me diz, não posso perder tempo!» «Victor Constâncio Mendes da Silva. Os restantes elementos identificadores encontra-os na Internet. Muito boa tarde e boa sorte.»  Meu dito, meu feito, Isabel Maria, depois de ter efectuado as pesquisas necessárias, telefonou para o consultório do neurologista indicado pelo seu (e pelo seu marido também). «Está? É do consultório do drº. Mendes da Silva?» «É sim, senhora. Em que posso ajudá-la? - eu sou a recepecionista e...» «Preciso de falar URGENTEMENTE com ele  e diga-lhe por favor que venho da parte do colega dele, Gonçalves Nobre.»  


Sem legenda

 

«O senhor doutor está com uma doente, e não quer ser interrompido. Diga-me  de que assunto se trata, passarei à assistente dele, ela informo-la-rá  e lá pela noite ele lhe telefonará. Concorda?» Isabel resignou-se e disse um sim meio macambuzio, mas nessa altura entrou o marido: «Então que temos para o pequeno-almoço?» A esposa du uma risada: «Isto são horas de jantar. Tenho aí uma pescada à marinheiro, de que tanto gostas, e uma sopa de espargos, mas esse é de pacote.»

E vamos ao restaurante onde já nos conhecem por sermos clientes habituais, o "Trevo das Quatro Folhas?"» «Nada disso, meu querido,º o "nosso" é o "Os Belos Montes" do transmontano Chico Frutuoso, nascido e criado na aldeia de Codeçais, antes de vir para Lisboa.» «E vamos  a pé, está um dia tão bonito, mas não te esqueças, leva os óculos escuros de ver ao longe que comprámos no  "Óscar Bravo"» Isabel Maria Gomes Vicente Marques estava estarrecida: «Amor, fica para, o jantar, que fiz pensando em ti, é só meter dois minutos no microndas e pronto.»


Isabel atendeu Mendes da Silva

Nisto tocou o telefone, Isabel atendeu. «Está? Falla o doutor Mendes da  Silva. Em que posso ser-lhe útil?» Belinha (assim era tratada pela família mais chegada e por alguns, poucas amigas e amigos) respondeu-lhe: «Só um momento, vou atender su chamada na extensão que temos no escritório.» Entrementes, o Carlos Manuel entretinha-se a ir da sala de jantar à cozinha e vice-versa, não ligando patavina o telefonema. Ela fechou  porta, pegou no auscultador e contou ao médico o que  acontecia e a sua preocupação. Mendes da Silva, mesmo da sua casa e, dado o que ela dizia, marcou uma consulta para o dia seguinte, quando o último doente tivesse acabado o seu atendimento.

Foi o que aconteceu, com grande espanto do Carlos Manuel, que perguntava constantemente à mulher «o que iriam vender num terceiro andar do Jardim da Estrela?» Os outros pacientes, que esperavam, pacientemente, a chamada para a respectiva observação, olhavam-no, desconfiados, parecendo pensar para com os seus botões «Este tem um parafuso a menos...» Cerca das onze da noite, já se tinha raspado  a rcepcionista, a enfermeira/assistente mandou-os entrar. Mendes da Silva andava na casa dos quarenta, era um bonito homem e usava no anelar da mão esquerda uma aliança. Era, portanto, casado. 



«Cu-cu» - na casa da avó Mariana havia um destes

Mesmo antes de nos apresentarmos, o Carlos Manuel apressou-se  a perguntar ao psiquiatra se ele vendia ou comprava relógios de cuco? O médico fez um sorriso amarelo, mandou-nos sentar e respondeu ao meu marido que ali não era um loja era o consultório dele, ao que o meu marido retorquio que não cometera nenhum crime, «por isso íamos embora» e, além do mais, não ia à bola com advogados, os quais eram todos uns burlões «que só sacavam guito aos clientes!» A coisa, sem dúvidas, começava muito bem.

Mendes da Silva tentou sossegar o Carlos com uma voz baixa e tranquilizante e - pasme-se - consegui-o. Depois, voltou-se para a Isabel Maria e pedi-lhe pra lhe contar o que se passara e se se continuava a passar acrescentando «que pergunta estúpida...» olhando significativamente para o meu esposo. Relatei-lhe tudinho, sem uma virgula ou um parenteses, tentando dar uma lógica à ilógica das diversas ocorrências. O médico ouvia-me com a maior atenção e ia tomando notas usando o teclado do computador que estava sobre uma mezinha ao lado da sua secretária. 

Mendes da Silva levantou-se e pegando-me num braço, disse à enfermeira/assistente para tomar conta do paciente, levou-me para a sala ao lado, sentámo-nos e ele disse-me: «O senhor Vicente Marques vai ter de fazer umas análises para despistar o HIV, ou seja o Vírus da Imunodeficiência Humana que é no fundo um lentivírus que está na origem da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, SIDA, uma condição em seres humanos na qual a deterioração progressiva do sistema imunitário propicia o desenvolvimento de infeções oportunistas e cancros potencialmente mortais.»

«Mas eu não tendo a certeza de que o seu esposo é portador do HIV, à cautela e por deontologia medico-profissional, vou pedir essas análises, incluindo uma biopsia. Os senhores têm SNS? Têm. Muito bem. Se ele perguntar o porquê das análises, diga-lhe que (eu de seguida vou auscultá-lo com o estetoscópio) lhe detectei  "alguma pequena coisa nos brônquios". Está perfeitamente clara, ou necessita de mais alguns dados?» Do que eu precisava era sair dali, depois de pagar a consulta, contra recibo (ai o sacana do IRS!) e irmos marcar as análises, se possível para o dia seguinte.

Rodeado de polícias e todo NU!

Durante nove dias, estive à espera do resultado das análises. Contudo, ocorreu, nesse período um evento profundamente lamentável. Explico. Habitamos num vivenda de dois pisos ao Restelo, com uma pequena piscina e vizinhos simpáticos, gentis e generosos. Tanto é assim, que nos dias do pino do calor vêm tomar uns banhos no nosso «tanque d'água...» O Carlos Manuel, cada dia que passava, mais asneiras cometia, mas numa quarta-feira, 13 de Agosto deu-se o pior: alertado pelo senor Venâncio, proprietário da vivenda mais próxima, fui a correr buscar o meu marido que se passeava pelo centro da rua, sorridente, rodeado de uns polícias e todo nu!!!!

Vieram finalmente os resultados - que nem os li, porque logo em seguida retiniu a campainha do telefone: «Estou?! Queria falar com a Senhora dona Isabel Maria, por favor.» «Sou a própria.» «Daqui é o Drº. Arruda, do Laboratório de Análises. Ontem, quando o médico do seu marido enviou a biopsia aqui para o laboratório, chegou também outra biopsia de um outro senhor Marques, o que originou uma grande confusão, e agora não sabemos qual é a do seu marido… e infelizmente, os resultados são ambos maus….»


Alzheimer é um puzzler  a quem fala uma peça


Preocupadíssima, inquiri:  «E o que é que o doutor quer dizer exactamente com isso?» Ele respondeu: «Um dos exames deu positivo para Alzheimer e o outro deu positivo para HIV. E nós não sabemos qual é o do seu marido.»Fiquei apavorada: «Que horror! E vocês não podem repetir os exames?» O sacrista retorquiu-me:«Não, o SNS só paga estes exames caros uma única vez por paciente.»Face a tal contrariedade perguntei-lhe «Bem, o que é que o senhor me aconselha a fazer?»
Consultada a sede do Serviço Nacional da Saúde, o director-geral (dada a complexidade da questão) sugeriu que a senhora leve o seu marido para um lugar bem longe de casa e o deixe por lá. Se ele encontrar o caminho de volta… não faça mais sexo com ele!..

Com a contribuição grátis do Amigo de Angola e para sempre Alberto Guimarães


                        



2023-08-15

 

Um puto muito especial

*Do «Marco do Correio» à degolação

Antunes Ferreira

Querem que vos conte uma estória? Se me disserem que não, estou-me marimbando pois vou contá-la – sem espinhas. Sem favor, têm de se ir habituando, porque foi assim que, entre lençóis, os meus pais me produziram sem licença industrial. Chamo-me Henrique Armando Antunes Ferreira e a origem deste onomástico resulta da agregação do nome dos meus falecidos pai e padrinho: Henrique Silva Ferreira e Armando Antunes (irmão da minha mãe, Glória). Portanto Henrique Armando Antunes Ferreira. Donde, o «nome de guerra»: Antunes Ferreira. Meia-volta, volver, em frente, marche! – berra os oficiais e sargentos para os soldados devidamente organizados; nesta estória, eu sou um pelotão com um puto só. Vigarice.


O Telefunken comprado na Alemanha

Andava eu entre os seis e os dez anos, frequentava a escola Mouzinho da Silveira (1) desde a primeira até à quarta classes, era considerado um bom aluno – mas tinha o meu «violino de Ingres»: adorava música, e, em especial, cantar. Sem falsos ou petulâncias, as pessoas diziam que eu tinha uma bela voz e um ouvido sensível; e eu concordava e quase aos 82 anos (comemoro-os a 20 de Setembro) continuo a concordar… Pois, logo aos sete anos, ouvia com redobrada atenção tudo o que tinha o timbre musical num radiotelefonia Telefunken que o meu progenitor tinha comprado na Alemanha Ocidental, quando ali se deslocara em serviço profissional, pago pela FNPT (Federação Nacional dos Produtores de Trigo) empresa corporativa onde ele trabalhava.




Alberto Ribeiro - brilhantina e bigode tira-linhas

Esse Telefunken teve par mim uma enorme influência. Era com ele que eu passava os meus tempos livres (que eram bastantes e bons…) a ouvir todas as espécies de cantigas e canções, das quais, não sei porquê, me caiu no goto: o «Marco do Correio» interpretada por um cantor chamado Alberto Ribeiro, que tinha atrás dele um ror de miúdas. Era um tipo bem alinhavado, todo brilhantina e bigode tira-linhas. Nos espectáculos ao vivo, usava um smoking branco e sapatos de verniz. Donde, a multidão de jovens que, mais do que o aplaudiam, o adoravam! [(Dizia o meu padrinho que o «devoravam»); a propósito do primeiro-sargento Armando Antunes, foi ele que me inoculou o sportinguismo!]

Nesta altura, é absolutamente necessário divulgar-vos que de tanto ouvir a deliciosa canção, até a memorizei. E com tinham surgido dúvidas, na antevéspera do Natal, que sempre se comemorava  n nossa casa, eu, todo aperaltado, blazer azul de malha tricotado pela minha mãe, empertigadíssimo, disparei: 


... de portinha ao centro...

«Marco do Correio / De portinha ao centro / Não sabes, eu creio / O que tens lá dentro / Quantas raivas e desejos / Mil respostas e perguntas / Quantas saudades e beijos / E quantas lágrimas juntas / Marco do correio / Deixa-me espreitar / Deixa que eu não leio / Nem vou divulgar / Vá lá, não fiques zangado / Deixa-me ver por favor / A carta que tens ao lado / A carta do meu amor…» Foi um sucesso! A família bateu palmas (excepto as «madamas» que estavam na cozinha a preparar o peru, as massas para as filhoses e a minha tia Lurdes (Que formidável doceira!) a juntar os ingredientes para fazer o bolo-rei.

Numa estória há que localizar onde acontece. Morávamos na rua Filipe da Mata (2), 122, 2º. Esqd. No Dtº. morava a família Pombo: o seu chefe era o tenente bacalhoeiro, imediato do lugre «Santa Maria». A sua esposa, donda Lucinda Adélia Melo Pombo e duas filhas, a Alice Maria Melo Pombo e a Genoveva «Veva» Melo Pombo. A Alice, dada a excelente vizinhança entre nós e eles, fora minha madrinha e eu, quando começara a tentar falar, chamei-lhe (por que bulas?) Cáquica. E assim ficou. Para a Cáquica eu era o suprassumo, o Menino Jesus ressonando nas palhinhas. Fazia-me tudo o que eu que eu queria, desde os passeios ao Campo Grande até às visitas ao Jardim Zoológico. Eu era, então, o «menino nas mãos da bruxa» (salvo seja, que de feiticeira, Cáquica era um zero…)

O nosso prédio tinha cave, rés-do-chão dois andares com esquerdo e direito,  no terceiro havia só um apartamento onde habitava o capitão de Engenharia, retirado, Francisco Figueiredo Albuquerque  de Gouveia Mascarenhas y Constâncio, tinha pinta de nobre de ascendência espanhola e de pertencer aos quadros da PIDE... Perante tais insinuações, ele ficava de boca calada e sorri melifluamente. Comentva-se pela rua que era a «maneira sacana» de responder «sim». Também corria à boca pequena: «Cuidado, muito cuidado, que ele é, pelo menos, informador, pois quando sai da casa é para  escutar o que dizemos. Portanto, nada de falatórios!



Um gira-discos com rádio...

Eu gozava as Férias de Verão, longuíssimas; o meu irmão Braz era um miúdo maroto, mas de feitio bom; era dois nos mais novo do que eu. Pregava partidas com piada, mas inocentes. Com ele não podia alargar o clube de fãs do «Marco do Correio». Por isso, quando o capitão Albuquerque (nome pelo qual era o nome mais conhecido), tocou a campainha da nossa casa, eu, que estava sozinho a abri, deparei com ele que me sorriu e me propôs: («Menino Rico, siei que gosta de música e até de cantar. Por isso, venho convidá-lo a subir ao meu apartamento, pois tenho lá uma grande colecção de discos e o gira-discos-com-rádio, a fim de poder escolher e ouvir os seus preferidos. E como sei da sua predisposição pelo «Marco do Correio» tenho-o interpretado pelo Alberto Ribeiro que autografou a capa do disco, pois somos amigos.)

Convite aceite subimos ao apartamento do oficial e logo ele pôs o gira-discos a tocar o «Marco do Correio»; mas, eis senão quando eu senti que o Albuquerque tentava meter a mão dele na minha braguilha. Dei um salto e (porque aprenda na escola tudo no calão e nas asneiras pornográficas) gritei-lhe: «Ó seu cabrão, julga que isto é o-da-joana! Não me abuse! Vou contar em todo o prédio esta tentativa de merda!!!» Ele tentou ameaçar-me, dizendo que me metia numa grande alhada e que tomasse cuidado, pois ele era da PIDE!



Hospital de São José onde trabalha a Drª. Frederica 

Já nem o ouvia quando desci a quatro e quatro degraus, emocionadíssimo, com lágrimas a correrem-me pelas faces, vermelho como um pimentão, enfim, totalmente fod… ups, lixado! Parei à porta dos vizinhos de baixo (ele, o major Luís Rebelo Cartaxo, a esposa, médica generalista no Hospital de São José, de seu nome Frederica Lúcia da Costa Cartaxo e o filho, Aníbal João da Costa Cartaxo, estudante universitário de energia eólica) em casados quais tinha deixado, por uma tarde, o meu irmão Braz e toquei na campainha. Quem me atendeu foi a Drª. Frederica, que, ao ver-me naquele estado me mandou entrar, sentar-me num sofá, tentar descontrair-me e depois foi buscar-me um copo de água bem gelada, tirada do frigorifico, e trazia na mão uma embalagem individual com uma cápsula.

A custo sosseguei-me e a doutora, vendo-me, mais ou menos acalmado, perguntou-me qual seria o motivo da excitação que me trouxera à casa dela e dos seus familiares. Contei-lhe tintim-por-tintim o que se passara no aparamento do Albuquerque, inclusive o teor da minha resposta. A doutora Frederica abri os olhos e a boca, tal foi o espanto sobre o que eu acabara de contar. Porém, acrescentou: «Já me tinham chegado «coisas» de que ele recebia, com alguma frequência, diversos sujeitos e que, por isso devia ser «invertido»; agora «pedófilo» para mim é um espanto!!!

E continuou: «O meu marido está colocado no Quartel-Geral da Sub-região de Lisboa; vou relatar-lhe a tua odisseia para que ele possa tomar as diligências necessárias e URGENTES a fim de ser levantado um auto de corpo-de-delito contra o capitão que, embora esteja na reserva, continua a ser militar!» Deixei o Braz (que dormia a sua sesta) com ela e preparei-me par começar a minha via sacra, que seria dar conhecimento da sacanice a todo o prédio, tal como afirmara ao delinquente. Esperei na nossa casa pelos meus pais que, quase pela primeira vez, me chatearam: «Nós te tínhamos ordenado para não sair de casa ou da escola com estranhos!  Etc., etc.» Nos outros vizinhos, as tónicas eram a indignação, o nojo e   revolta. O senhor Renato, reformado dum ministério chegou a sugerir um enxurro de porrada ao filho da puta!

 

Bem vestido mas... sem cabeça

Passaram-se dois das, e, do Albuquerque népia.  O sôr Alfredo, que era o nosso porteiro não o tinha visto sair. Estaria doente no apartamento? Mais 24 horas, o relógio de cuco fez cucu-cucu, e o porteiro, que já tocara à campainha e batera energicamente na porta, decidiu chamar um guarda da PSP para que esse testemunhasse que iriam arrombar a maldita porta. E quando entraram de supetão (o polícia, o Alfredo e o Renato) estacaram perante um quadro horripilante: o capitão Francisco Figueiredo Albuquerque de Gouveia Mascarenhas y Constâncio, bem vestido e barbeado, estava sentado, mas… SEM CABEÇA!!!!!!!!! Esta encontrava-se no chão, o meio de uma larga poça de sangue já seco, cheio de vermes e de moscas! Só enão repararam que na parede em frente do cadáver, (já em decomposição, e daí o cheiro nauseabundo que empestava a sala) estava colado um papel A4 onde, a caneta de ponta de feltro gorda, se podia ler: ASSIM MORREM OS TRAIDORES!!!!

O agente da PSP, face à horrível cena, afirmou: «Isto agora já não é comigo, é com a judite. Vou-me embora, mas antes telefonarei para a Pêjota.» Como no prédio havia pucos telefones e o senhor Renato tinha um, foi da casa dele e o tipo da PSP relatou à Judiciária a ocorrência, após o que saiu a assobiar o «Marco do Correio». Eu fui para a cama, no dia seguinte tinha escola. O que se passo, contou-me o sôr Alfredo, enquanto me acompanhava é à Mouzinho da Silveira (1). Umas boas horas depois do telefonema apareceram dois cidadãos eu se identificaram como agentes da Polícia Judiciária, a quem competia (e continua a competir) a averiguação de crimes e mais outras delinquências.

Apresentaram-se: Horácio Fagundes, inspector e António Ramalho, subinspector, antigo sargento de Cavalaria.  O busílis da questão era encontrar os «visitantes» do degolado. Bem procuraram e por todo o apartamento e nada encontravam. Aí entrou na cena o Ramalho: «Como podem ver está ali ao canto, um cofre antigo; pode ser que lá encontremos alguma coisa…» O Horácio Fagundes retorquiu: «Pois, a merda é abri-lo.» De novo o subinspector: «Já lá vão uns anos prendi um tal Manel da Mana, (especialista em cofres). Se o gajo ainda está vivo, pode ser que com uns €€€…»


«Tenho encontrado pior...»

Chamou-se o homem que estava vivíssimo-da-costa – que veio. Trazia uma maleta metálica, onde, certamente guardava as suas ferramentas. O cenário mereceu-lhe um abanar de cabeça negativo «Que negócio! Tenho visto muitas porras, mas, como esta, é a primeira!» Perante o desditoso cofre comentou «Tenho encontrado pior, mas este não é mau; preciso de ficar sozinho para não me distraírem, desculpem-me.»

Três horas depois abriu a porta onde se encontrava o cofre já de porta aberta. «Não foi fácil, nem difícil, é todo vosso!» «Quanto nos custou a sua intervenção miraculosa?» «Pilim, nenhum, mas um uísque simples só com duas padras de gelo caía bem» o «malandro» não gastara tanto na abertura do cofre, também dera uma volta por parte da casa a farejar o que daria de encontrar, e que, futuramente, talvez pudesse «levar». Descobrira uma garrafa de Black Bushmills recém encetada e estava tudo dito. Mas não estava. Bebido e feito.

O recheio do cofre revelou-se a caverna do Ali Babá. No meio de papéis bem arrumados, o Fagundes gritou «Eureca!!» Estava um caderninho de capa preta onde, no seu interior, o ex-capitão organizara três colunas: NOME, MORADAS e CIFRÕES. Estava ali tudo o necessário. Horácio Fagundes, secundado pelo experiente António Ramalho andou a convocar, nome atrás de nome os que constavam do caderninho. Atingiam o desespero, quando chegou, finalmente um advogado, o dr. Martins Henriques, que lhes conta dum «parceiro» chamado Óscar Viana, confesso apaixonado pelo capitão.

Óscar era um do poucos que já fora ouvido, mas apresentara um álibi esfarrapado. De novo presente ante os investigadores, foi-se abaixo: «Sim, fui eu quem o degolou… foi uma traição que ele me fez, amantizando-se com outro, um pasteleiro, vejam só, pasteleiro, pasteleiro, o que o Jorge Costa é, mas é mesmo, um paneleiro. Ir para a cama com um sujeitinho sujo não se faz a um apaixonado, como eu. Levei uma foice bem afiada e deu-me um gozo quando tive de mudar a roupa, pois a primeira estava ensopada de sangue.  E só para terminar este depoimento, não me arrependo do que fiz! Agora, estou, finalmente, feliz.»    

O prometido é devido; o sôr Alfredo foi-me pondo ao corrente de tudo o que se passava. E eu, com dez anos, perguntava-me o que teria a ver una canção como o «Marco do Correio» e uma degolação. Mas tinha. A vida tem cada una, que cada duas são um par...                                                                                                                       

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(1)          José Xavier Mouzinho da Silveira foi um estadista, jurisconsulto e político português e uma das personalidades maiores da revolução liberal, operando, com a sua obra de legislador, algumas das mais profundas modificações institucionais nas áreas da fiscalidade e da justiça. Preso durante a Abrilada, tornou-se intransigente defensor da Carta Constitucional pelo que teve de se exilar em 1828. Regressou ao Parlamento em 1834 para defender a sua obra legislativa, mas exilou-se de novo em 1836. Retirou-se da vida política durante os seus últimos dez anos de vida.       

(2)        Luís Filipe da Mata foi um político republicano, vereador da primeira Câmara Municipal de Lisboa republicana (1908) e deputado e senador no Congresso da República. Também era membro da Maçonaria.

 

2023-08-10

 



Eu matei um branco...

 

*Quando no musseque acontece a maka

 

Antunes Ferreira

Acabei de publicar o post que se segue:

Em Luanda, nos tempos do antigamente, ou seja, no regime colonial (que o salazarismo rotulara de “ultramarino” …) os musseques envolviam a capital, mas dela fazendo parte, tal como os afilhados paupérrimos dependem dos padrinhos riquíssimos. Nesses bairros habitavam maioritariamente pretos (como então se dizia, hoje politicamente correcto negros) quantos (minoritários) brancos moravam lá, especialmente uns poucos donos de comércios gerais, desde a caixa de fósforos até à fuba de yuca (mandioca em dialecto angolano) cuja farinha é utilizada para preparar o funje (massa parecida com a cola de sapateiro, salvo seja…)?

 

Sambizanga um musseque problemático

Era no Sambizanga, que já lá iam uns bons onze ou doze anos (estava-se em 1978, em plena guerra no mato), que o Adão Ngunza, com a ajuda de uns amigos, contruíra a sua casa-de-pau-a-pique, onde vivia com a sua mulher Miquelina – mas, infelizmente, sem filhos. Mas, mesmo assim, davam-se perfeitamente bem. Ele era estucador e com o surto da construção que acontecia em Luanda, não lhe faltava trabalho, enquanto ela era lavadeira de roupa de brancos, médios e ou ricos e até de alguns pretos enriquecidos sabe Deus como… 

 

Quase todas as estórias começam com o tradicional «Era uma vez» e esta não podia passar por tal bordão apenas localizava-la no musseque já referido. Seja-me, agora, o momento asado, para apresentar outra das personagens que têm lugar proeminente no desenrolar do estranhíssimo evento; trata-se do comerciante português Manel Videirinho, 56 anos, viúvo, natural de  

Freixo de espada à cinta; uma vila (melhor dizendo; um município);  onde os homens que não trabalham nas leiras próprias ou nos dos vizinhos; os «patrões», na farmácia «Boa Saúde» do senhor Simplício, que não era farmacêutico, mas desenrascava-se, até dava umas injecções porreiraças, com o ajudante a afiar a agulha numa correia de sapateiro; mas nunca houvera sequer uma inflamação; muito menos uma infecção.  


Brasão de armas do Corpo de 

Intervenção da PSP de Angola

Havia alguns casos problemáticos, e para tentar manter a ordem, se tivesse havido maka, ou prender um qualquer bandido acusado de eventual crime grave, a PSP de Angola só entrava neles em grupo e fortemente armados com automáticas; no que concerne os militares iam de jeep até às bordas dos musseques, seguindo depois a pé armados de G3 em busca de desertores ou de outros crimes militares alegadamente graves. Uma rotina que se repetia quase diariamente. Os moradores olhavam; suspeitosos, tais movimentos das autoridades. Na sua totalidade não compreendiam o porquê que uma ou duas ou mesmo   quantos se contam pelos dedos duma mão levavam ao que consideravam excessos autoritários.

 

Aqui, para que se entenda o intento desta estória, entro eu no palco e vou elucidar por que o faço; tinha desembarcado do navio «Uíge» No porto de Luanda e fora-me apresentar ao comandante da CCS-QG, unidade onde fora colocado, e recebido pelo comandante, capitão do quadro permanente Ricardo Torres Rosa Ornelas. Este esclareceu-me tudo o que eram as minhas funções na unidade e, dados os meus conhecimentos em matérias jurídicas colocou-me (aliás como acontecera no RI1, na Amadora) no «gabinete de Justiça e Abonos de Família». Pedi-lhe autorização para dar uma volta pela Companhia, para me ambientar, ao que ele prontamente acedeu.

Coluna militar em Nambuangongo 
 

Acompanhado pelo oficial de dia (que em meu entender, devia ser oficial de noite…) visitámos as casernas, muito pouco agradáveis, os quartos pra os oficiais, suficiente e para os sargentos, mais ou menos médios, as cozinhas, as instalações sanitárias e o quarto (se assim se pode chamar) para o oficial de dia e para o oficial de prevenção. E o alferes miliciano, Justino Manuel da Rocha Silva, comentou para mim: «E tens muita sorte, podias ir parar no mato; eu, antes de vir par cá estive onze meses entre Zala e Nambuangongo! Foda-se! Está tudo terminado; como diria um guia duma agência de turismo: «Demos uma visita guiada pela Companhia de Comando e Serviços do Quartel-General de Angola…».

 

Vai daí, perguntei-lhe: «É tudo? Não há prisão?» Justino arregalou os olhos, decerto nunca lhe haviam posto tal pergunta; e meio encabulado: «Temos uma enxovia e só com um preso… creio que não queiras visitá-lo?» No entanto, eu queria, e lá fomos. Era um antro escalavrado, de uma única frincha gravada de barras metálicas enxofradas, no meio de paredes escuras ponteadas de grafites estranhas, a preto, com um chão tão sujo como os muros. E no meio daquela merda estava acocorado no chão, um preto vestindo apenas uns calções (que deveriam ter sido cor de cáqui, mas agora semelhavam trapos de limpar qualquer coisa) Ao ver-nos, levantou-se, devia ter mais dum metro e noventa, sujíssimo, um cabelo e umas barbas patriarcais, e sem dizer palavra fez uma continência certa.

 

Estou preso porque matei um branco...

Ignorando o Justino, perguntei-lhe: «Como te chamas? Qual é a tua unidade? Há quanto tempo estás qui? E por que motivo estás preso?» Respondeu-me de imediato: «Estou preso porque eu matei um branco. A minha unidade era o RIL. Chamo-me Adão Ngunza e estou aqui pra cima de treze meses. O meu tenente quer saber mais alguma maka?» Apenas lhe respondi que ia analisar o caso e iria dar-lhe conhecimento do que se estaria a passar. Porém, ordenei-lhe que saísse dali, fosse tomar muitos banhos, cortar o cabelo e a barba, fosse ao depósito da Intendência, buscar pares de roupa interior, fardas, cinturões, botas e boinas, e só depois de apresentável se apresentaria no meu Gabinete.

 

O Justino, espantadíssimo foi a passo de corrida ao gabinete do capitão Rosa Ornelas com quem esteve reunido mais de uma hora. Entrementes, um novo Ngunza aparecia-me junto à porta do meu estaminé, bateu-me a continência e perguntou: «Meu tenente, apresenta-se o soldado 20789/75, Adão Ngunza. Posso entrar?» Mirei-o de alto a baixo – impecável. Mal podia acreditar. «Podes, sim, faz o favor de entrar.» Assim o fez, mantendo-se num hirto sentido ao que lhe disse «Podes estar à vontade; para já ficas ao serviço, como ordenança, deste gabinete. Quero-te aqui todos os dias da semana, menos aos domingos, às sete horas da manhã que é mais fresquinho. É o que eu faço. Agora, deves ter muitas coisas a tratar, por exemplo com a tua mulher, pois não tens filhos. Vai para o Sambizanga e até amanhã.»

 

«Sem escolta, meu tenente?» «Não te vais pirar, portanto, segue sozinho; como já te disse, até amanhã.» Mal o Ngunza fez meia-volta entrou-me, afobado, o Justino: «O nosso comandante quer falar contigo e já!» Fingi arrumar uns papeis que havia na minha secretária e disse-lhe: «Mas que puta de pressa! Se a mãe dele esperou nove meses para o por no Mundo, bem pode o nosso capitão esperar por mim uns momentos, enquanto eu arrumo esta papelada.» Justino, embasbacado, sem palavras, engoliu em seco: «Tu é que sabes as linhas com que te coses…» e saiu. Tirei-me dos meus cuidados e lá fui ao meu destino.

 

Bati à porta do gabinete do comandante e de dentro veio uma voz autoritária: «Entre!» Entrei e quase me fugiu a língua para lhe atirar «um faz favor caía bem…», mas contive-me. O capitão Rosa Ornelas a quem fiz a continência e me mantive em sentido, não me disse o tradicional «À vontade.» Entrou logo a matar: «Então o tenente Rocha Fernandes, acabado de chegar da metrópole, instala-se aqui, e sem mais nem menos, começa logo a dar ordens sem o meu prévio conhecimento. Mas que raio de oficial da Polícia Judiciária Militar, com responsabilidades a dobrar, julga que pode fazer?»


Se Maomé  não vai à montanha..

Comecei a explicar-lhe o acontecido e, seguindo as minhas palavras, só então me convidou a sentar-me num dos sofás que ali tinha. Quando terminei, «E agora, Rocha Fernandes, qual vai ser a sua próxima diligência? E, entretanto, toma um uísque comigo? Com gelo, sem ou com água com soda?» Parecia-me, com o uísque com soda, que estava enterrado o machado de guerra dos Sioux. E afirmei-lhe, convictamente, que iria reabrir o auto de corpo de delito. «Aí é que está o engulho, o processo parece ter-se perdido…» Retorqui-lhe que se Maomé não vai à montanha…, ao que, se bem entendi, o Rosa Ornelas não percebeu. «Vou ao Tribunal Militar, julgo que ao II, que é mesmo aqui ao lado, tenho lá um amigo de Vila Nova da Cerveira e tento, com a ajuda dele, pescar alguma merda.»

 

«Pois, ó Jacinto, dê cá um abraço, isto foi um mal-entendido, e desejo-lhe a maior sorte do Mundo! E, se faz favor, vá dando-me conta do que acontecer.» Estava lançada a primeira pedra dum edifício. Que se viria a revelar extremamente complicado. Mas no II Tribunal Militar de Luanda, por artes de berliques e berloques e com o auxílio do furriel miliciano Manel Caracol, (um alentejano de Beja) consegui descobrir o malvado do processo «esquecido» no fundo duma gaveta. Por ele pude aperceber-me do que realmente se passara, o qué, aliás, confirmei com as declarações do Ngunza a quem fiz as perguntas a que me respondeu exactamente com os termos do processo.

 

De acordo com o prometido (e o prometido é devido) relatei tudo ao Rosa Ornelas, que não se cansava de me felicitar. E fora assim: «No Sambizanga, o comerciante Manel Videirinho andava a galar a Miquelina, a mulher do Adão Ngunza. Ela dava-lhe com os pés. Contudo, numa tarde de Verão, um mormaço, aproveitando que o Adão estava de serviço no RIL, Videirinho entrou pela casa-d-pau-a-pique e quis-se pôr em cima da Miquelina. Mas, ó sorte bastarda, o Ngunza saíra mais cedo e deu com a cena. O comerciante, apanhado com as calças em baixo, ainda quis revidar, mas o soldado agarrou num banco de pau e deu-lho na cachimónia. O gajo caiu logo, morto, jorrando sangue e miolos. O Adão foi entregar-se na unidade mais próxima, a CCS/QG!» O resto estava tudo dito e escrito.

 

Gabriela e Nacib na telenovela «Gabriela, 

Cravo e Canela». Os deputados da Assembleia 

da República interrompiam os trabalhos 

para assistir a ela...

Resumindo e concluindo: o Adão Ngunza foi a julgamento e dadas as circunstâncias, foi absolvido. Tem hoje um rancho de filhos: duas meninas e três rapagões. Fui padrinho deles todos. Resolvi ficar em Luanda e concorri a um lugar no novíssimo supermercado de Luanda, o Jumbo (Pão de Açúcar), da propriedade da SUPA (Super Mercados de Angola) do português Valentim dos Santos Diniz, radicado há muitos anos no Brasil. Continuo solteiro, mas tenho um «arranjinho» com uma mulata que, como dizia o saudoso Garrincha «a cara faz parar o tráfego!», chama-se ela Gabriela, mas não é a do Jorge Amado, nem tem cravo e canela.