2023-04-26

 



É mesmo muito velho

 

*Deixai vir a mim as crianças

 

Antunes Ferreira

Cinco. Quatro miúdos e uma menina: os meus netos. Por ordem de idades e de progenitores – o João e o Rodrigo (do meu primogénito Miguel), o Xavier, o Vicente e a Madalena (do segundo, o Paulo); o caçula Luís Carlos ainda que bem casado, tal como os irmãos, não tinha filhos. Opção dele e da esposa Estela.

 


Aproximava-se o Natal, estávamos nos princípios de Dezembro de 2006, eu já completara os 61 e com a  “escadinha” da malta miúda ia dos nove aos quatro anos; acabara de ver (diga-se de passagem fartíssimo mas netos são netos) o vídeo do Rei Leão perante o qual  opiniões se dividiam mas pendiam um pouquinho para o Hakuna Matata, quando nos sentámos na sal de estar para democraticamente trocarmos uma outra vez ideias sobre o filme do Walt Disney.


 

Os pais das “criaturas” estavam nos respectivos empregos e os avós tentavam domesticar o bando – o que aliás não era tarefa difícil pois era pessoal na generalidade e na especialidade (para usar linguagem parlamentar)  bastante bem comportado. Era o meu dia de folga no DN e por isso tinha todo-o-tempo-do-Mundo para me dedicar à prole; e além disso adorava fazê-lo.

 

Chegara a hora do lanche e todos fomos para a mesa. Como d costume a Raquel tinha preparado um “banquete” próprio para infantes, No meio de sanduiches, leite com chocolate, pãezinhos, bolachas, limonadas, etc., tocaram à porta. “É do jornal… Mas está lá o Fernando Pires…Só se foi uma bronca no Internacional (era o meu violino de Ingres)…”

 

Não era. O padre Alberto Neto em pessoa, coadjutor do prior Felicidade Alves, ambos de costas viradas para o “Estado Novo”. Falara para o jornal e sabendo que eu estava em casa vinha falar connosco – a Raquel também gostava e muito de politica internacional – sobre um incidente que parecia grave junto ao   Checkpoint Charlie,  um posto militar entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental durante a Guerra Fria, onde, de resto, eu e a Raquel já estivéramos aquando duma visita oficial à então RDA.

 

Mas, perante a festarola para os meus netos ~e porque o “barulho” Intra alemão parecia não ter dado nada – Neto ficaria um pouco mais para também participar na confraternização espontânea porque sem motivo aparente; festa é festa. A dada altura não se conteve e perguntou-lhes se sabiam o que pensava Jesus sobre as crianças .O João tinha uma vaga ideia; e o sacerdote citou de memória:



“(….)levaram crianças para que Jesus tocasse nelas. Mas os discípulos repreenderam-nos. Vendo isso, Jesus entristeceu-se e disse: “Deixem as crianças virem a mim. Não as proíbam, porque o Reino de Deus pertence a elas. Eu vos garanto: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele. Então, Jesus abraçou as crianças e abençoou-as, pondo a mão sobre elas”. Meus amigos isto consta do Evangelho de São Mateus. Momentos depois o padre foi-se embora.

 

Terminado o lanche fomos sentar-nos n sala e antes que ocorresse a reprise do malfadado vídeo, lembrei-me de lhes perguntar, para desanuviar o ambiente um tanto carregado pela ausência leonina: “Por certo vocês não sabem mas vou contar-lhes umas coisas antigas que eu mesmo vivi. Por exemplo ainda andei m eléctricos abertos aos lados.” “Como assim, avô?” “Não tinham paredes laterais e sim banco corridos; entrava-se, sentava-se e vinha o cobrador vender os respectivos bilhetes.”

 

“Contaram-me uma anedota que vos digo agora: uma senhora bem vestida com chapéu de plumas ao entrar tropeçou e caiu no col dum magala (era assim que então se chamava aos soldados); protestou energicamente e o magala retorquiu: «Por dois tostões (era o preço do bilhete) se calhar queria cair no colo dum general…»



 

Gargalhadas em catadupa, mas prossegui: “Igualmente usei aqueles telefones de parede em que era preciso dar à manivela que tinham ouvir por um auscultador preso por um fio ao aparelho e pedir à menina telefonista na central para ligar para outra cidade ou para o estrangeiro. Uma vez esperei duas horas para conseguir falar com um amigo em… Sintra!

 

Olhos esbugalhados, bocas abertas, interrogações aos quilates. “Os automóveis não tinham cintos de segurança. Andei no Morris Minor do meu Pai, no Austin Super, no Triumph Spitfire do irmão do meu tio Jacinto e nenhum tinha cintos de segurança!”

 

E logo do fundo do sofá grande onde estavam os cinco sentados, o Vicente, cinco anos: “O avô é mesmo muito velho!” Engoli em seco. Tinham-se acabado as recordações.

      

2023-04-16


 

Indira Gandhi em pessoa

*Uma entrevista em exclusivo e especial

 

Antunes Ferreira

A entrevista que fiz a Indira Gandhi teve dois momentos especiais e para mim realmente significativos. Ao longo de quase uma hora e a bordo de um avião abordámos muitos aspectos da vida da chefe do Governo da Índia e, naturalmente do próprio país que era considerado a maior democracia do Mundo. Toda a conversa foi muito interessante e a política respondeu a todas as perguntas que lhe coloquei – o que, dada a minha larga experiência nesse campo foi realmente impressionante.

E porquê o avião? Pois muito simplesmente a data marcada para a conversa sofrera um percalço: fora a própria Indira que me telefonara para a embaixada portuguesa para me dizer que tinha de cancelar a entrevista pois ia deslocar-se a Allahabad a cidade natal da família Nerhu onde ia assistir ao funeral dum primo muito chegado.

 

Ora eu tinha vindo de Lisboa com tudo programado para a entrevista e por isso sugeri-lhe que a poderia acompanhar no avião em que ela se deslocaria e nele fazer a entrevista. Um tanto reticente ao inicio ela acabou por aceitar a proposta, mas o problema é que tinha uma agenda preenchidíssima   e por isso fez-me uma contraproposta. Eu poderia dar uma volta pela gigantesca índia  a fim de colher impressões que poderia utilizar na entrevista.

 

Aceitei depois de lhe ter dito que ia obter o aval do “Diário de Notícias” a quem ia apresentar a sugestão, que face ao interesse da entrevista e o seu exclusivo para Portugal, me deu carta branca para o empreendimento. Sendo assim fui posto em contacto com a Directora Geral do Turismo que me atribuiu um intérprete, um goês radicado na Índia, o senhor Francisco (Francis) Xavier de Menezes que falava perfeitamente português e que acompanharia no périplo.

 

 Fomos a diversos


Estados  dos quais destaco o Bihar  onde visitei

Bodh Gaya ou Bodhgaya que é uma cidade do distrito de Gaya. Está localizada a 96 quilômetros da capital do estado, Patna. Historicamente, era conhecida como Bodhimanda. O principal mosteiroo de Bodhgaya era chamado Bodhimanda-vihara. É o local mais sagrado do budismo, pois teria sido o local onde o fundador da religião, Sidarta Gautama, teria criado a doutrina, por volta do século V a.C. A localidade tem muitos templos erigidos por diversos países onde o budismo é praticado com maior ou menor importância.

 

É nela que existe a chamada árvore da vida sob a qual Gautama terá meditado durante 59 dias e 59 noites findos os quais saiu a divulgar a nova religião. A árvores que me garantiram ser a “descendente da original é decorada com muitos fios de diversas cores e é chamada a Árvore da Vida. É considerada sagrada e as suas folhas são oferecidas a visitantes ilustres. Dada a minha qualidade de futuro entrevistador de primeira-ministra tive direito a receber uma…

 

També passei pelo estado de Orisssa tendo ficado dois dias na capital  Bhubaneswar onde visitei um templo decorado com as paredes decoradas em altos relevos de cenas de amor sexual explícitas e assistir a um espectáculo de danças; as mulheres de Orissa são consideradas as mais belas da Índia. Seguimos depois Calcutá onde fiquei apenas uma noite e pouco vida cidade que muito gostaria de ver os bairros de lata onde a Madre Teresa exercia a sua missão.

 


Mas o tempo era curto e por isso fomos de avião até Caxemira onde tive a oportunidade de ficar numa houseboat no lago Lago Dal e fazer uma viagem de ordem militar a Gulmarg no sopé do Himalaia. De resto Srinagar, a capital de Caxemira era praticamente um quartel tantas eram as unidades do exército indiano ali estacionadas. Do outro lado da fronteira fortemente guardada o poder das armas paquistanesas era aparentemente igual. Mas em verdade tenho de dizer que ali não me foi permitido deslocar.

 

Finalmente de volta a Nova Deli tomei enfim o avião onde iria entrevistar Indira Gandhi. A aeronave era dividida em duas partes: na frente iam as pessoas que integravam a comitiva da primeira-ministra e a segunda, atrás encontrava-se Indira o Seu filho Rajiv e a mulher deste Sónia.

 

Fiquei sentado ao lado dum sique, o chefe da segurança da primeira-ministra e logo ali o meu espanto: ele provava a comida e a bebida antes de ambas serem levadas para Indira e os seus acompanhantes lá atrás comer. Mal sabia eu, para além da admiração inicial que tempos depois seria ele que dispararia os primeiros tiros que matariam Indira. Foi este o primeiro momento que achei realmente especial.

 

Quando me indicaram que me deslocaria à zona onde Indira se encontrava ia um tanto de pé atrás. Era conhecida a má relação que tinha com a comunicação social. Mas tudo se modificou com a conversa que tivemos de cerca de uma hora. Logo de começo ela disse-me que sabia que eu era mais fluente em francês e nessa língua decorreria a entrevista.

 

Abordei os temas mais diversos a que ela respondeu com toda a franqueza. Só houve um momento mais difícil quando abordei a morte do seu filho primogénito Sanjey num desastre de planador. Como visse que o assunto a incomodava mudei rapidamente o rumo das perguntas. Finda a entrevista ela apresentou-me o filho e a nora. Rajiv ficou muito interessado ao saber que a minha mulher era goesa e trabalha na companhia aérea portuguesa.

 


Disse-me que na verdade era um piloto de avião e só a morte do irmão o atirara para a política. E de tal firma se estabeleceu uma corrente de empatia que me convidou a jantar com ele e a sua mulher nessa noite pois no dia seguinte eu regressaria a Portugal, o que aceitei naturalmente.

 

Regressado ao meu lugar momentos depois foram-me dizer que a primeira-ministra ainda me quera falar. Tratava-se de uma sugestão. Por certo que não estaria interessado em assistir a um funeral. Por isso propunha-me que durante durassem as exéquias poderia visitar as casas daa família Nerhu Anand Bhavan Para tal o seu secretário pessoal Vijay Sicrit aguardar-me-ia à saída do avião com uma viatura,

 

Foi aí que aconteceu o segundo momento extraordinário. À chegada da chefe do Governo estava formada na pista uma força militar á qual ela passou revista acompanhada pelo comandante da mesma. Depois retirou-se. Eu fora o último a desembarcar e aguardava a chegada da viatura que me havia de levar. A força militar, provavelmente um batalhão fizera direita volver e o comandante ao ver-me no meu fato europeu e de pasta mão deve ter pensado que eu era um convidado muito especial. E marcialmente deu a ordem de olhar à direita enquanto me fazia a continência. Meio envergonhado fiz um gesto com a mão em jeito de resposta. Entretanto chegar o carro com o senhor Sicrit. E lá fomos conhecer as casas seculares da família Nehru.

 

Como no avião não tinha havido fotógrafo foi na casa oficial do Governo que após um largo tempo de espera e alguma irritação da senhora lá apareceu um jovem muito assustado poi nunca estiver tão perto da primeira-ministra. Enfim lá se fizeram as fotos que nessa noite, durante o jantar com Rajiv e Sónia me foram entregues. Foi a última ocasião duma entrevista muito especial exclusiva pois no dia seguinte regressei a Portugal e ao “Diário de Notícias” onde naturalmente tive honras de primeira página. 

 

 

 

 

 

 

2023-04-08

 Depressão e bipolaridade

*Um clique no interruptor cerebral

 


Antunes Ferreira

Hoje, sexta-feira, 7 de Abril de 2023, em que começo a escrever este texto tenho forçosamente de avisar e simultaneamente pedir desculpa a quem ainda me lê porque se trata de assunto pessoal e como tal sem interesse. Mas trata-se de um desabafo que deixo aqui para que fique registado e dele seja dado conhecimento àqueles que são minhas Amigas e meus Amigos.

 

Infelizmente e como julgo que sabem – não o tenho escondido – sou bipolar, o que quer dizer sujeito a alterações de humor e sensibilidade sem razões justificativas por causas intrínsecas. É como se fosse um interruptor que serve para ligar – e desligar obviamente – a disposição de um individuo, para o caso eu.

 

Num dia estou bem disposto escrevendo estórias com algum interesse e ironia q.b. (julgo eu e avalisadas pelos comentários que suscitam…) e de repente caio numa negação onde tudo se torna complicado e emaranhado sem ponta por onde se lhe pegue. É triste, mas infelizmente é assim!

 

Poderão perguntar o que têm a ver com este texto e a única resposta que posso dar já a escrevi acima: é tão só um desabafo que resolvi partilhar convosco e simultaneamente um teste que faço a mim próprio: serei ou não capaz de escrever sobre o assunto. Pelos vistos ainda sou mesmo que sem grandes rasgos de criatividade.

 

Mas, afinal, o que é a bipolaridade? Para tentar compreender o que ela é recorro a definições médicas. De outra maneira nem eu (portador dela) nem quem se der ao trabalho de ainda me ler entenderá minimamente o que acontece comigo e com todos os que sofrem da bipolaridade.




 

A doença bipolar, tradicionalmente designada doença maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e «mania». Qualquer dos dois tipos de crise pode predominar numa mesma pessoa sendo a sua frequência bastante variável. As crises podem ser graves, moderadas ou leves.


As alterações do humor, num sentido ou noutro têm importante repercussão nas sensações, nas emoções, nas ideias e no comportamento da pessoa, com uma perda importante da saúde e da autonomia da personalidade. Não é, portanto, uma situação agradável bem pelo contrário. Perturbação afetiva bipolar (PAB) ) ou transtorno afetivo bipolar (TAB) (é uma perturbação mental caracterizada pela alternância entre períodos de depressão e períodos de ânimo intenso. O ânimo intenso é denominado mania ou hipomania, dependendo da gravidade ou se estão ou não presentes sintomas de psicose. Durante o período de mania a pessoa comporta-se ou sente-se anormalmente enérgica, contente ou irritável



. 

 

Os doentes geralmente realizam decisões irrefletidas ou sem noção das consequências. Durante as fases maníacas a necessidade de sono tende a ser menor. Durante as fases depressivas a pessoa pode chorar, encarar a vida de forma negativa e evitar o contacto ocular com outras pessoas. O risco de suicídio entre as pessoas com a doença é elevado, sendo superior a 6% no prazo de vinte anos. Entre 30 e 40% das pessoas com a condição praticam automutilação.] Estão geralmente associados à perturbação bipolar outros problemas mentais, como perturbação de ansiedade e perturbação por abuso de substâncias.

 

As causas ainda não são totalmente compreendidas, mas tanto fatores ambientais como genéticos têm influência. Muitos genes de pequeno efeito contribuem para aumentar o risco. Os fatores ambientais incluem antecedentes de abuso infantil e setresse de longa duração.[ A doença divide-se em "perturbação bipolar do tipo 1", quando existe pelo menos um episódio maníaco, e "distúrbio bipolar do tipo 2", quando existe pelo menos um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo maior. Em pessoas com sintomas menos graves e de longa duração pode-se estar na presença de ciclotimia.

 

Quando esta condição tem origem em problemas médicos é classificada à parte.] Podem também estar presentes outras condições, incluindo perturbação da hiperactividade com défice de atenção, perturbações de personalidade,, perturbação por abuso de substâncias e uma série de condições médicas.

 

Com estas transcrições julgo ter alcançado o propósito que aqui me trouxe. Espero não cair na pior hipótese ou seja agravar a situação e continuar a escrever – pelo menos como terapêutica ocupacional.

 

 

 

 



2023-04-02



A neve no Quebeque

 

*Um Parlamento com poucos temperos

 

Antunes Ferreira

Nunca tinha visto tanta neve mas ela ali estava por toda a parte ominosa, um manto branco sujo cobrindo ruas, passeios, edifícios de apartamentos, vivendas e até cemitérios onde me desloquei com um amigo que ali fora em homenagem a um ente querido e me explicou que durante o pior período do Inverno não havia enterramentos devido à neve.

 

Estávamos  em Montreal para visitar o pai e duas irmãs da Raquel que para lá tinham emigrado e estavam felizmente bem e em pleno Inverno (não havia forma de arranjar oportunidade para outro tempo de férias) e por isso a realidade era a neve. E, naturalmente o frio que a acompanhava e que levava a fenómenos também inéditos para quem como nós ali caíamos sem paraquedas.

 


Um exemplo apenas: as casas estavam permanentemente aquecidas e ai de que deixasse uma janela aberta. Era um verdadeiro “crime” passível de sanções cuja gravidade nem é bom referir. Os automóveis ficavam guardados nas garagens que cada prédio possuía. E ligados por ficha à electricidade pois se tal não acontecesse de manhã não arrancariam.

 

De resto era um verdadeiro espectáculo ver os carros circular com os tejadilhos carregados por camadas de neve. Isto quando as ruas o permitia depois dos limpa-neves municipais terem afastado para os passeios essas montanhas de branco sujo. Isto significava que os peões eram verdadeiros malabaristas..

 

Eu pensava para com os meus botões ao vê-los que mediavam entre os loucos e o heróis que todos os dias arriscavam a vida em tais “procelas pedestres”. No entanto eram relativamente poucos. Mas foi quando um dos meus cunhados me explicou que Montreal era duas cidades: a da superfície e subterrânea.

 

No dia seguinte a esta elucidação ele levou-me a conhecer a cidade que existia por baixo da terra. Com ruas e estabelecimentos ligadas à rede do metropolitano aliás excelente com estações amplas pejadas de gente de todas as cores, origens e vestuários. A cidade era bem o exemplo do multirracial e pluricultural.

 

Estávamos na década de oitenta e decorria a questão entre a francofonia e a anglofonia. Montreal aparentemente inclinava-se para a primeira e por toda a parte incluindo nos sinais do trânsito em vez do STOP via-se o ARRET. Uma velha questão que não havia de ser solucionada e que motivara um referendo que não dera resultados concretos.

 


Vem de longe a questão que se arrasta sem qualquer fim à vista. O Canadá não espera que ela se resolva de um momento para o outro. Creio mesmo que nunca se resolverá. A História regista nos seus anais as diferenças entres os anglófonos e os francófonos. Desde a chegada do genovês Giovani Caboto (em inglês John Cabot) ao serviço da Inglaterra que aportou em 1497 ou 1498 à Terra Nova. Alguns historiadores defendem que terá sido um português João Vaz Corte Real o primeiro a chegar ali mas nada está provado.

 

Quem me forneceu estes dados em primeira mão foi o jornalista Charles /Charlie) Petit Martinont do “Journal de Montréal” o maior quotidiano em língua francesa publicado na América que eu visitei por curiosidade profissional e que de imediato se estabeleceu uma emparia entre nós que levaria a que dois dias depois jantássemos a Raquel  e eu em sua casa.

 

A sua esposa Céline, também jornalista especializada em gastronomia confessou-se espantada com aquele “amor à primeira vista” pois o Charlie era um introvertido que não cultivava amizades e por isso o elo que se estabelecera entre nós era um facto raro. Foi durante essa refeição que a Céline nos propôs uma ida à cidade de Quebeque para assistir a uma sessão do Parlamento.

 

Claro que aceitámos e ficou de imediato acordado que iríamos de comboio porque com a neve e o gelo as estradas eram um tanto perigosas e além disso o seu automóvel já tinha uns anitos… Não havia problema e nessa noite dormimos em casa deles para apanharmos no dia seguinte o primeiro comboio.

 

Dormimos é um termo convencional pois o Charlie e eu conversámos toda a noite sobre os temas mais variados sobretudo a independência das antigas colónias portuguesas. Ele tinha sido padre e abandonara a sotaina quando encontrara a Céline e bastante conservador longe do meu ponto de vista socialista o que não impediu uma troca de ideias frontal e salutar.

 


Foi ali que me contou a história do primeiro-ministro René Lévesque um defensor da ideia da independência do Quebeque, ideia que Charlie não aceitava. Um Quebeque independente para ele não tinha futuro, não tinha condições para sobreviver. Nem mesmo a teoria da associação-soberania que muitos defendiam tinha pés para andar.

 

Mas eu poderia aperceber-me do que se passava assistindo à sessão do Parlamento. E ficámos por ali, eu com os sentidos aguçados pelo que dali a pouco assistiria. Charlie com a convicção de que eu não arredaria pé das minhas ideias – mas com a certeza de que havíamos conquistado pontos que cimentavam uma Amizade acabada de plantar e que daria frutos de cores diversas e sabores distintos.

 

E no dia seguinte lá fomos num comboio aquecido, usando parkas volumosas que tínhamos comprado no Walmart para usarmos, pois a roupa que tínhamos trazido de Não era a mais indicada face à temperatura que sabíamos através do canal de Meteorologia que dava ininterruptamente na televisão.

 


Entrámos no edifício da Assembleia Legislativa do Quebeque num corredor formado por neve acumulada e continuava a nevar. São verdadeiras paredes brancas sujas que limitam a entrada do edifício. Vamos para a galeria que fica atrás das filas dos deputados. Discute-se o Orçamento, nos moldes habituais em qualquer Parlamento.

 

O primeiro-ministro usa da palavra, e percebo de imediato que se trata de um político batido, um profissional. Recordo os dados que me tinham sido fornecidos pelo Charlie Petit Martinont. Lévesque tinha iniciado a sua carreira como repórter e apresentador de rádio e televisão, e mais tarde  tornou-se conhecido pelo seu papel eminente na nacionalização da energia hidrelétrica do Quebeque e  como um defensor ardente da soberania desse mesmo Quebeque.

 

Foi um ministro liberal no governo de Jean Lesage de 1960 a 1966 e o ​​primeiro líder político quebequense desde a Confederação a tentar, por meio de um referendo, negociar a independência política do Quebeque. Mas não conseguiu alcançar os objectivos pois a margem do SIM foi diminuta, umas poucas décimas em relação ao NÃO.

 

O sonho alimentado ao longo dos tempos que teria um momento muito especial aquando da última visita de De Gaulle altura em que o general e presidente da República de França fez a célebre afirmação: “Vive le Québec libre!” caíra para jamais se levantar. O sonho não passaria disso mesmo: um sonho!

 

Para apanhar o comboio de regresso a Montreal saímos antes de terminar a sessão. E já instalados na carruagem a Céline comentou com um sorriso quase angelical: “Oxalá tenham gostado, ainda que os temperos não fossem grande coisa…”

2023-03-25

 

O estranho ornitorrinco

*A Austrália é a pátria deste animal

 

Antunes Ferreira

No avião que nos leva a Melbourne Onde residem primos da Raquel as assistentes de bordo e os comissário distribuem una impressos para ser preenchidos com os dados de cada passageiro, número do passaporte, duração da estada na Austrália, local onde ficar, etc. e um item sublinhado: aviso que é absolutamente proibido trazer para o país qualquer tipo de alimentos sob pena que pode chegar a prisão.

 

Se por acaso for portador de tais coisas ao longo dos corredores que levam aos controles de passaportes e aduaneiros existem recipiente onde podem ser deitados os mesmos. E repete-se ameaçador o aviso: sob pena de prisão. Ora a Raquel levava no seu anoraque diversos pitéus de comida goesa para ofertar aos familiares e decidiu ignorar o folheto e a consequente ameaça!

 

Chegados aos guichês da polícia de fronteiras, cobarde, eu dirigir-me a um, enquanto a minha esposa foi para outro. Passei sem quaisquer problemas e fiquei siderado pois ela demorava-se em conversa com o agente que era, após um cenho franzido, todo sorridos. A fila que aguardava a sua vez de ser entrevistada já se impacientava e surgiam alguns comentários mais críticos.


E eis que a boa da minha cara metade, depois de entregar ao funcionário um cartão de visita seguiu impoluta e segura a recolher a bagagem sem quaisquer problemas. Eu, pasmado nem queria acreditar em tal milagre. Claro que ali não a inquiri sobre o que s tinha passado embora estivesse carregado de dúvidas. Que mistério acontecera? Como atravessara ela não o cabo da Tormentas mas o guichê fatal?




 

Cá fora, na rua, aguardavam-nos os primos que eu não conhecia mas cuja simpatia era mais do que evidente. A caminho da casa a Raquel contou as peripécias que tinham rodeado a passagem pelo controle na fronteira e informou das chamuças e outros manjares que trazia com ela para regalo da família. Foi um espanto geral.

 

Chegados a casa e depois de uns uísques retemperadores ela contou com pormenores o que tinha passado. O oficial começara por lhe perguntar face ao visto de turista se tinha familiares na Austrália ao que ela respondera que não, que vinha apenas como turista gozando do privilégio de ser empregada da TAP – coisa que ele não conhecia – e mostrou-lhe o cartão da companhia explicando-lhe que era a transportadora aérea portuguesa.

 

Depois informou-o de que era amiga do embaixador australiano em Lisboa, por isso tinha aquele visto muito especial e fora ele que lhe indicara os melhores alojamentos quer em Melbourne quer em Sidney, mostrando também uma carta da embaixada assinada pelo próprio diplomata. A conversa surtira o efeito pretendido e o agente desejara-lhe uma boa estadia e carimbara o salvo conduto, tendo ainda a Raquel deixado-lhe um cartão de visita para ele usar no caso de ir a Portugal.

 

A estória foi motivo de conversas durante os dias que passámos em Melbourne que não tinha grandes motivos para dissertações. Os transportes colectivos estavam em greve, com autocarros e eléctricos estacionados nos principais cruzamentos com o pessoal sentado calmamente lendo os jornais do dia, fumando  e até jogando às cartas.

 

Foi aí que me apercebi dum fenómeno que me deixou profundamente admirado. Na Austrália eram proibidos artigos para eliminar moscas, as cattle flies. Ou seja as moscas do gado. Sendo um grande produtor de carne as moscas eram “sagradas”. Um dia quando nos deslocávamos à praia assisti a um fenómeno espantoso que, infelizmente por não ter connosco máquina fotográfica não registei.

 


Um primo da Raquel usava uma camisa de manga branca de curta. Por incrível que pareça as costas eram negras tantas as moscas que nela estavam pousadas. Explicaram-me depois que os tradicionais chapéus usados no campo (e também nas cidades) de aba larga, tipo cauboi tinham pendurados rolhas de cortiça para com o movimento da cabeça afastar as moscas.

 

Por mim sentia-me quase um palhaço ao andar n rua e a agitar constantemente os braços e as mãos perante os olhares profundamente admirados dos restantes cidadãos habituados às moscas. Mas não foi a tais insectos a que aqui vim, mas sim â fauna muito especial da Austrália. Num passeio que fizemos ao Zoológico tive a oportunidade de ver espécies características do continente australiano.

 

Diversos tipos de cangurus, de cores e tamanhos diferentes, coalas, emas, tudo integrado um zonas tão próximas dos respectivos habitats quanto possível. É forçoso que diga que nesse contexto a Austrália é um continente que ao mesmo tempo é um país e pode orgulhar-se do tratamento ambiental – pelo menos na década de oitenta que foi quando ali estive.

 

Também fomos a Sidney mas isso é outra estória que em devido tempo – se tiver pachorra e sobretudo saúde tenciono abordar – porque hoje fico-me por aqui dedicando as últimas linhas a um animal estranho que é o ornitorrinco. Observei-o e procurei depois documentar-me sobre ele, Uma vez mais recorri à Wikipédia. Aqui fica o essencial do que encontrei.




 

“O ornitorrinco (nome científico: Ornithorhynchus anatinus, do grego: ornitho, ave + rhynchus, bico; e do latim: anati, pato + inus, semelhante a: "com bico de ave, semelhante a pato") é um mamífero semiaquático natural da Austrália e da Tasmânia. É o único representante vivo da família Omithorhynchidae, e a única espécie do gênero Ornithorhynchus. Juntamente com as equidnas, formam o grupo dos monotrematos, os únicos mamíferos ovíparos existentes. A espécie é monotípica, ou seja, não tem subespécies ou variedades reconhecidas.

 

O ornitorrinco possui hábito crepuscular e/ou noturno. Preferencialmente carnívoro, a sua dieta baseia-se em crustáceos de água doce, insectos e vermes. Possui diversas adaptações para a vida em rios e lagoas, entre elas as membranas interdigitais, mais proeminentes nas patas dianteiras. É um animal ovíparo, cuja fêmea põe cerca de dois ovos, que incuba por aproximadamente dez dias num ninho especialmente construído. Os monotremados recém-eclodidos apresentam um dente similar ao das aves (um carúnculo), utilizado na abertura da casca; os adultos não têm dentes. A fêmea não possui mamas, e o leite é diretamente lambido dos poros e sulcos abdominais. Os machos têm esporões venenosos nas patas, que são utilizados principalmente para defesa territorial e contra predadores. Possui uma cauda similar à de um castor.”

E por aqui me fico por hoje. Palavra que não trouxe da Austrália nenhum ornitorrinco. Nem a Raquel o conseguiria fazer mesmo com um oficial de fronteira simpático…