2023-04-08

 Depressão e bipolaridade

*Um clique no interruptor cerebral

 


Antunes Ferreira

Hoje, sexta-feira, 7 de Abril de 2023, em que começo a escrever este texto tenho forçosamente de avisar e simultaneamente pedir desculpa a quem ainda me lê porque se trata de assunto pessoal e como tal sem interesse. Mas trata-se de um desabafo que deixo aqui para que fique registado e dele seja dado conhecimento àqueles que são minhas Amigas e meus Amigos.

 

Infelizmente e como julgo que sabem – não o tenho escondido – sou bipolar, o que quer dizer sujeito a alterações de humor e sensibilidade sem razões justificativas por causas intrínsecas. É como se fosse um interruptor que serve para ligar – e desligar obviamente – a disposição de um individuo, para o caso eu.

 

Num dia estou bem disposto escrevendo estórias com algum interesse e ironia q.b. (julgo eu e avalisadas pelos comentários que suscitam…) e de repente caio numa negação onde tudo se torna complicado e emaranhado sem ponta por onde se lhe pegue. É triste, mas infelizmente é assim!

 

Poderão perguntar o que têm a ver com este texto e a única resposta que posso dar já a escrevi acima: é tão só um desabafo que resolvi partilhar convosco e simultaneamente um teste que faço a mim próprio: serei ou não capaz de escrever sobre o assunto. Pelos vistos ainda sou mesmo que sem grandes rasgos de criatividade.

 

Mas, afinal, o que é a bipolaridade? Para tentar compreender o que ela é recorro a definições médicas. De outra maneira nem eu (portador dela) nem quem se der ao trabalho de ainda me ler entenderá minimamente o que acontece comigo e com todos os que sofrem da bipolaridade.




 

A doença bipolar, tradicionalmente designada doença maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises repetidas de depressão e «mania». Qualquer dos dois tipos de crise pode predominar numa mesma pessoa sendo a sua frequência bastante variável. As crises podem ser graves, moderadas ou leves.


As alterações do humor, num sentido ou noutro têm importante repercussão nas sensações, nas emoções, nas ideias e no comportamento da pessoa, com uma perda importante da saúde e da autonomia da personalidade. Não é, portanto, uma situação agradável bem pelo contrário. Perturbação afetiva bipolar (PAB) ) ou transtorno afetivo bipolar (TAB) (é uma perturbação mental caracterizada pela alternância entre períodos de depressão e períodos de ânimo intenso. O ânimo intenso é denominado mania ou hipomania, dependendo da gravidade ou se estão ou não presentes sintomas de psicose. Durante o período de mania a pessoa comporta-se ou sente-se anormalmente enérgica, contente ou irritável



 

Os doentes geralmente realizam decisões irrefletidas ou sem noção das consequências. Durante as fases maníacas a necessidade de sono tende a ser menor. Durante as fases depressivas a pessoa pode chorar, encarar a vida de forma negativa e evitar o contacto ocular com outras pessoas. O risco de suicídio entre as pessoas com a doença é elevado, sendo superior a 6% no prazo de vinte anos. Entre 30 e 40% das pessoas com a condição praticam automutilação.] Estão geralmente associados à perturbação bipolar outros problemas mentais, como perturbação de ansiedade e perturbação por abuso de substâncias.

 

As causas ainda não são totalmente compreendidas, mas tanto fatores ambientais como genéticos têm influência. Muitos genes de pequeno efeito contribuem para aumentar o risco. Os fatores ambientais incluem antecedentes de abuso infantil e setresse de longa duração.[ A doença divide-se em "perturbação bipolar do tipo 1", quando existe pelo menos um episódio maníaco, e "distúrbio bipolar do tipo 2", quando existe pelo menos um episódio hipomaníaco e um episódio depressivo maior. Em pessoas com sintomas menos graves e de longa duração pode-se estar na presença de ciclotimia.

 

Quando esta condição tem origem em problemas médicos é classificada à parte.] Podem também estar presentes outras condições, incluindo perturbação da hiperactividade com défice de atenção, perturbações de personalidade,, perturbação por abuso de substâncias e uma série de condições médicas.

 

Com estas transcrições julgo ter alcançado o propósito que aqui me trouxe. Espero não cair na pior hipótese ou seja agravar a situação e continuar a escrever – pelo menos como terapêutica ocupacional.

 

 

 

 



2023-04-02



A neve no Quebeque

 

*Um Parlamento com poucos temperos

 

Antunes Ferreira

Nunca tinha visto tanta neve mas ela ali estava por toda a parte ominosa, um manto branco sujo cobrindo ruas, passeios, edifícios de apartamentos, vivendas e até cemitérios onde me desloquei com um amigo que ali fora em homenagem a um ente querido e me explicou que durante o pior período do Inverno não havia enterramentos devido à neve.

 

Estávamos  em Montreal para visitar o pai e duas irmãs da Raquel que para lá tinham emigrado e estavam felizmente bem e em pleno Inverno (não havia forma de arranjar oportunidade para outro tempo de férias) e por isso a realidade era a neve. E, naturalmente o frio que a acompanhava e que levava a fenómenos também inéditos para quem como nós ali caíamos sem paraquedas.

 


Um exemplo apenas: as casas estavam permanentemente aquecidas e ai de que deixasse uma janela aberta. Era um verdadeiro “crime” passível de sanções cuja gravidade nem é bom referir. Os automóveis ficavam guardados nas garagens que cada prédio possuía. E ligados por ficha à electricidade pois se tal não acontecesse de manhã não arrancariam.

 

De resto era um verdadeiro espectáculo ver os carros circular com os tejadilhos carregados por camadas de neve. Isto quando as ruas o permitia depois dos limpa-neves municipais terem afastado para os passeios essas montanhas de branco sujo. Isto significava que os peões eram verdadeiros malabaristas..

 

Eu pensava para com os meus botões ao vê-los que mediavam entre os loucos e o heróis que todos os dias arriscavam a vida em tais “procelas pedestres”. No entanto eram relativamente poucos. Mas foi quando um dos meus cunhados me explicou que Montreal era duas cidades: a da superfície e subterrânea.

 

No dia seguinte a esta elucidação ele levou-me a conhecer a cidade que existia por baixo da terra. Com ruas e estabelecimentos ligadas à rede do metropolitano aliás excelente com estações amplas pejadas de gente de todas as cores, origens e vestuários. A cidade era bem o exemplo do multirracial e pluricultural.

 

Estávamos na década de oitenta e decorria a questão entre a francofonia e a anglofonia. Montreal aparentemente inclinava-se para a primeira e por toda a parte incluindo nos sinais do trânsito em vez do STOP via-se o ARRET. Uma velha questão que não havia de ser solucionada e que motivara um referendo que não dera resultados concretos.

 


Vem de longe a questão que se arrasta sem qualquer fim à vista. O Canadá não espera que ela se resolva de um momento para o outro. Creio mesmo que nunca se resolverá. A História regista nos seus anais as diferenças entres os anglófonos e os francófonos. Desde a chegada do genovês Giovani Caboto (em inglês John Cabot) ao serviço da Inglaterra que aportou em 1497 ou 1498 à Terra Nova. Alguns historiadores defendem que terá sido um português João Vaz Corte Real o primeiro a chegar ali mas nada está provado.

 

Quem me forneceu estes dados em primeira mão foi o jornalista Charles /Charlie) Petit Martinont do “Journal de Montréal” o maior quotidiano em língua francesa publicado na América que eu visitei por curiosidade profissional e que de imediato se estabeleceu uma emparia entre nós que levaria a que dois dias depois jantássemos a Raquel  e eu em sua casa.

 

A sua esposa Céline, também jornalista especializada em gastronomia confessou-se espantada com aquele “amor à primeira vista” pois o Charlie era um introvertido que não cultivava amizades e por isso o elo que se estabelecera entre nós era um facto raro. Foi durante essa refeição que a Céline nos propôs uma ida à cidade de Quebeque para assistir a uma sessão do Parlamento.

 

Claro que aceitámos e ficou de imediato acordado que iríamos de comboio porque com a neve e o gelo as estradas eram um tanto perigosas e além disso o seu automóvel já tinha uns anitos… Não havia problema e nessa noite dormimos em casa deles para apanharmos no dia seguinte o primeiro comboio.

 

Dormimos é um termo convencional pois o Charlie e eu conversámos toda a noite sobre os temas mais variados sobretudo a independência das antigas colónias portuguesas. Ele tinha sido padre e abandonara a sotaina quando encontrara a Céline e bastante conservador longe do meu ponto de vista socialista o que não impediu uma troca de ideias frontal e salutar.

 


Foi ali que me contou a história do primeiro-ministro René Lévesque um defensor da ideia da independência do Quebeque, ideia que Charlie não aceitava. Um Quebeque independente para ele não tinha futuro, não tinha condições para sobreviver. Nem mesmo a teoria da associação-soberania que muitos defendiam tinha pés para andar.

 

Mas eu poderia aperceber-me do que se passava assistindo à sessão do Parlamento. E ficámos por ali, eu com os sentidos aguçados pelo que dali a pouco assistiria. Charlie com a convicção de que eu não arredaria pé das minhas ideias – mas com a certeza de que havíamos conquistado pontos que cimentavam uma Amizade acabada de plantar e que daria frutos de cores diversas e sabores distintos.

 

E no dia seguinte lá fomos num comboio aquecido, usando parkas volumosas que tínhamos comprado no Walmart para usarmos, pois a roupa que tínhamos trazido de Não era a mais indicada face à temperatura que sabíamos através do canal de Meteorologia que dava ininterruptamente na televisão.

 


Entrámos no edifício da Assembleia Legislativa do Quebeque num corredor formado por neve acumulada e continuava a nevar. São verdadeiras paredes brancas sujas que limitam a entrada do edifício. Vamos para a galeria que fica atrás das filas dos deputados. Discute-se o Orçamento, nos moldes habituais em qualquer Parlamento.

 

O primeiro-ministro usa da palavra, e percebo de imediato que se trata de um político batido, um profissional. Recordo os dados que me tinham sido fornecidos pelo Charlie Petit Martinont. Lévesque tinha iniciado a sua carreira como repórter e apresentador de rádio e televisão, e mais tarde  tornou-se conhecido pelo seu papel eminente na nacionalização da energia hidrelétrica do Quebeque e  como um defensor ardente da soberania desse mesmo Quebeque.

 

Foi um ministro liberal no governo de Jean Lesage de 1960 a 1966 e o ​​primeiro líder político quebequense desde a Confederação a tentar, por meio de um referendo, negociar a independência política do Quebeque. Mas não conseguiu alcançar os objectivos pois a margem do SIM foi diminuta, umas poucas décimas em relação ao NÃO.

 

O sonho alimentado ao longo dos tempos que teria um momento muito especial aquando da última visita de De Gaulle altura em que o general e presidente da República de França fez a célebre afirmação: “Vive le Québec libre!” caíra para jamais se levantar. O sonho não passaria disso mesmo: um sonho!

 

Para apanhar o comboio de regresso a Montreal saímos antes de terminar a sessão. E já instalados na carruagem a Céline comentou com um sorriso quase angelical: “Oxalá tenham gostado, ainda que os temperos não fossem grande coisa…”

2023-03-25

 

O estranho ornitorrinco

*A Austrália é a pátria deste animal

 

Antunes Ferreira

No avião que nos leva a Melbourne Onde residem primos da Raquel as assistentes de bordo e os comissário distribuem una impressos para ser preenchidos com os dados de cada passageiro, número do passaporte, duração da estada na Austrália, local onde ficar, etc. e um item sublinhado: aviso que é absolutamente proibido trazer para o país qualquer tipo de alimentos sob pena que pode chegar a prisão.

 

Se por acaso for portador de tais coisas ao longo dos corredores que levam aos controles de passaportes e aduaneiros existem recipiente onde podem ser deitados os mesmos. E repete-se ameaçador o aviso: sob pena de prisão. Ora a Raquel levava no seu anoraque diversos pitéus de comida goesa para ofertar aos familiares e decidiu ignorar o folheto e a consequente ameaça!

 

Chegados aos guichês da polícia de fronteiras, cobarde, eu dirigir-me a um, enquanto a minha esposa foi para outro. Passei sem quaisquer problemas e fiquei siderado pois ela demorava-se em conversa com o agente que era, após um cenho franzido, todo sorridos. A fila que aguardava a sua vez de ser entrevistada já se impacientava e surgiam alguns comentários mais críticos.


E eis que a boa da minha cara metade, depois de entregar ao funcionário um cartão de visita seguiu impoluta e segura a recolher a bagagem sem quaisquer problemas. Eu, pasmado nem queria acreditar em tal milagre. Claro que ali não a inquiri sobre o que s tinha passado embora estivesse carregado de dúvidas. Que mistério acontecera? Como atravessara ela não o cabo da Tormentas mas o guichê fatal?




 

Cá fora, na rua, aguardavam-nos os primos que eu não conhecia mas cuja simpatia era mais do que evidente. A caminho da casa a Raquel contou as peripécias que tinham rodeado a passagem pelo controle na fronteira e informou das chamuças e outros manjares que trazia com ela para regalo da família. Foi um espanto geral.

 

Chegados a casa e depois de uns uísques retemperadores ela contou com pormenores o que tinha passado. O oficial começara por lhe perguntar face ao visto de turista se tinha familiares na Austrália ao que ela respondera que não, que vinha apenas como turista gozando do privilégio de ser empregada da TAP – coisa que ele não conhecia – e mostrou-lhe o cartão da companhia explicando-lhe que era a transportadora aérea portuguesa.

 

Depois informou-o de que era amiga do embaixador australiano em Lisboa, por isso tinha aquele visto muito especial e fora ele que lhe indicara os melhores alojamentos quer em Melbourne quer em Sidney, mostrando também uma carta da embaixada assinada pelo próprio diplomata. A conversa surtira o efeito pretendido e o agente desejara-lhe uma boa estadia e carimbara o salvo conduto, tendo ainda a Raquel deixado-lhe um cartão de visita para ele usar no caso de ir a Portugal.

 

A estória foi motivo de conversas durante os dias que passámos em Melbourne que não tinha grandes motivos para dissertações. Os transportes colectivos estavam em greve, com autocarros e eléctricos estacionados nos principais cruzamentos com o pessoal sentado calmamente lendo os jornais do dia, fumando  e até jogando às cartas.

 

Foi aí que me apercebi dum fenómeno que me deixou profundamente admirado. Na Austrália eram proibidos artigos para eliminar moscas, as cattle flies. Ou seja as moscas do gado. Sendo um grande produtor de carne as moscas eram “sagradas”. Um dia quando nos deslocávamos à praia assisti a um fenómeno espantoso que, infelizmente por não ter connosco máquina fotográfica não registei.

 


Um primo da Raquel usava uma camisa de manga branca de curta. Por incrível que pareça as costas eram negras tantas as moscas que nela estavam pousadas. Explicaram-me depois que os tradicionais chapéus usados no campo (e também nas cidades) de aba larga, tipo cauboi tinham pendurados rolhas de cortiça para com o movimento da cabeça afastar as moscas.

 

Por mim sentia-me quase um palhaço ao andar n rua e a agitar constantemente os braços e as mãos perante os olhares profundamente admirados dos restantes cidadãos habituados às moscas. Mas não foi a tais insectos a que aqui vim, mas sim â fauna muito especial da Austrália. Num passeio que fizemos ao Zoológico tive a oportunidade de ver espécies características do continente australiano.

 

Diversos tipos de cangurus, de cores e tamanhos diferentes, coalas, emas, tudo integrado um zonas tão próximas dos respectivos habitats quanto possível. É forçoso que diga que nesse contexto a Austrália é um continente que ao mesmo tempo é um país e pode orgulhar-se do tratamento ambiental – pelo menos na década de oitenta que foi quando ali estive.

 

Também fomos a Sidney mas isso é outra estória que em devido tempo – se tiver pachorra e sobretudo saúde tenciono abordar – porque hoje fico-me por aqui dedicando as últimas linhas a um animal estranho que é o ornitorrinco. Observei-o e procurei depois documentar-me sobre ele, Uma vez mais recorri à Wikipédia. Aqui fica o essencial do que encontrei.




 

O ornitorrinco (nome científicoOrnithorhynchus anatinus, do gregoornitho, ave + rhynchus, bico; e do latimanati, pato + inus, semelhante a: "com bico de ave, semelhante a pato") é um mamífero semiaquático natural da Austrália e da Tasmânia. É o único representante vivo da família Omithorhynchidae, e a única espécie do gênero Ornithorhynchus. Juntamente com as equidnas, formam o grupo dos monotrematos, os únicos mamíferos ovíparos existentes. A espécie é monotípica, ou seja, não tem subespécies ou variedades reconhecidas.

 

O ornitorrinco possui hábito crepuscular e/ou noturno. Preferencialmente carnívoro, a sua dieta baseia-se em crustáceos de água doce, insectos e vermes. Possui diversas adaptações para a vida em rios e lagoas, entre elas as membranas interdigitais, mais proeminentes nas patas dianteiras. É um animal ovíparo, cuja fêmea põe cerca de dois ovos, que incuba por aproximadamente dez dias num ninho especialmente construído. Os monotremados recém-eclodidos apresentam um dente similar ao das aves (um carúnculo), utilizado na abertura da casca; os adultos não têm dentes. A fêmea não possui mamas, e o leite é diretamente lambido dos poros e sulcos abdominais. Os machos têm esporões venenosos nas patas, que são utilizados principalmente para defesa territorial e contra predadores. Possui uma cauda similar à de um castor.”

E por aqui me fico por hoje. Palavra que não trouxe da Austrália nenhum ornitorrinco. Nem a Raquel o conseguiria fazer mesmo com um oficial de fronteira simpático…

 

 

 

2023-03-18

 



Um remate fenomenal

 

*Sporting eliminou o Arsenal em Londres

 

Antunes Ferreira

Sentado no meu sofá preparei-me para uma verdadeira “degola de inocentes” porque no habitual derrotismo português o meu sportinguismo estava pelas ruas da amargura depois do empate de 2-2 no estádio de Alvalade frente ao Arsenal – o líder da lPremier League inglesa, considerada a melhor do Mundo.

 

Como não posso beber o meu uísque preferido, o Bushmills – nem qualquer outro por via dos medicamentos que tomo quotidianamente, muni-me de um ice. Tea sem açúcar, estendi as pernas e só não me benzi pois como costumo dizer e escrever fui católico, mas curei-me. Os dados estavam lançados e veríamos o que “aquilo” ia dar. Felicidade – nem pensar.




 

O jogo começou com o Arsenal – aliás como lhe competia – a tentar resolver a partida tão depressa quanto possível, mas pelo que estava a ver, o meu Sporting estava no relvado do Emirates Stadium decidido a vender cara a possível. E previsível derrota. Os comandados de Ruben Amorim traziam bem estudada a tática para dificultar ao máximo os gunners (para quem não saiba é o nome no jargão futebolístico dado aos jogadores arsenalistas).

 

Mas – há sempre uma miserável adversativa para dar cabo da ilusão que se apossara do assistente cada vez mais admirado da prestação dos leões – eis que ao minuto 19 um tal Granit Xhaka, um suíço de má memória para as equipas lusitanas arrancou um remate indefensável em recarga com a baliza aberta depois de Adán ter rechaçado um primeiro remate. Estamos feitos pensei para com os meus botões. O resultado “agregated” entre Lisboa e Londres era 3-2.

 

O futebolista comemorou o tento com um gesto de escárnio agitando os dedos da mão direita apoiados no nariz como que gozando antecipadamente com os lusos irremediavelmente eliminados. E, na verdade tudo indicava que assim iria acontecer. O Arsenal estava na mó de cima e o Sporting parecia muito abalado. Mas não era bem assim. Os verde-e-brancos não atiraram com a toalha ao chão.

 

O intervalo chegou e eu mudei de canal para ver um pouco de policial e desanuviar. No fundo, não me restava uma esperança fundada, mas às vezes, enquanto o diabo esfrega um olho… Regresso à transmissão da partida e noto – ou penso notar – que os jogadores leoninos vêm com um ânimo de antes quebrar que torcer. Boa, penso, atitude não lhes falta – o que lhes falta são golos...




Batendo-se com denodo e pundonor os leões não davam mostras de inferioridade perante os líderes do campeonato inglês. E de repente, o espanto: do meio-campo, aproveitando um ressalto da bola feito por Paulinho, Pedro Gonçalves entrou para a história do futebol português e quiçá para o europeu. Levantou a cabeça e percebeu que o guarda-redes do Arsenal, Aaron Ramsdale, estava adiantado em relação à baliza e aplicou um remate inacreditável que resultou num golo fantástico! Fenomenal! Estava feito o empate, Da partida e da eliminatória. Eu nem queria acreditar. Mas era mesmo assim.

 

Depois foi o arrastar dos noventa minutos mais uns quatro de ajuste e o resultado não se alterava. Eu sofria, nunca tendo pensado anteriormente que tal me aconteceria. Recorreu-se então ao prolongamento de mais trinta minutos e ninguém conseguia acertar nas balizas. Só restava a lotaria dos penaltis.

 


Cinco para cada lado como estipula a norma. Os quatro primeiros quer do lado do Arsenal – por sorteio o primeiro a rematar – quer do Sporting resultaram em golos. Porém ao quinto, Gabriel Martinelli atirou por forma a permitir a defesa de Adán! Que, de resto, tinha feito um jogo extraordinário defendendo tudo o que era possível e até o “impossível”… Faltava o quinto do Sporting. Eu já estava de pé quando Nuno Santos arrancou para a bola e com um chuto certeiro eliminou o Arsenal no Emirates Stadium! Hurra!  Ultra!! Como escreveu o “Mais futebol” há mais de vinte anos que os ingleses não ganham um troféu europeu.

 

Esta crónica foge ao habitual, mas o meu sportinguismo justifica a alteração. Pelo menos do meu ponto de vista, No momento em que escrevo este texto já se sabe que nas meias finais o Sporting irá defrontar a Juventus. Um novo desafio, um outro obstáculo que terá de ser ultrapassado se os leões quiserem chegar à final e – quem sabe, no desporto-rei tudo é possível? – ganhar a competição europeia.

 

Mas aqui entra um factor que não pode ser ignorado: as previsões. Ninguém – nem mesmo a Pitonisa de Delfos – se atreveria a antever o resultado registado no Emirates Stadium. As apostas iam todas no sentido da vitória do clube treinado por Mikel Arteta. Por isso, depois do empate em Alvalade (2-2), tudo se inclinava para um resultado na segunda mão que ditasse o afastamento dos lisboetas.

 

Ficou célebre nos anais do futebol a frase do jogador João Pinto do Futebol Clube do Porto quando lhe pediram para fazer uma previsão duma determinada partida. “Previsões.. só no fim do jogo…”

 

 

2023-03-11


 

Deste velho cacilheiro

 

*Mas o Tejo é sempre novo

 

Antunes Ferreira

 

Andava eu pelos meus oito anitos quando o meu tio e padrinho Armando Antunes (do lado da minha mãe), primeiro-sargento da Força Aérea – então dizia-se da Aeronáutica –  me inoculou com o vírus leonino o que me causou a “maleita” que continuou até hoje e irá (como costumo dizer) até ao forno crematório. A esse baptismo seguir-se-ia uns bons anos depois, o crisma cujo padrinho foi para mim o melhor presidente que nós leoninos tivemos na minha vida: 



João Rocha. De cor política antagónica mas isso nunca obstou que conservássemos uma óptima Amizade. Reservo-me para outra ocasião para contar a nossa comum “odisseia” sem Homero.

 

Basta de divagações e voltando ao meu tio e padrinho, lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, de no dia em que fiz os já citados oito anitos, além de me dar uma caixa de lápis de cor Faber Castell me te perguntado o que eu queria ser quando fosse grande. Os temas aéreos estavam na berra na família, o meu tio Jacinto Paiva Simões casado com a única irmã da minha mãe, a querida tia Lurdes era capitão aviador reformado.

 

Daí que a resposta fora imediata: “Quando for grande quero ser aviador!” Os meus tios Armando e Virgínia tinham aprazado com os meus pais um almoço num restaurante de Cacilhas. Por isso metemo-nos no Morris Minor HÁ-17-63 (verde-alface) que o meu pai Henrique Silva Ferreira acabara de comprar, tomámos um cacilheiro e ala que se faz tarde rumo a umas ameijoas à Bulhão Pato, qu’eu cá não era disso, por isso enquanto os casais tiravam a barriga de misérias com uns lagostins e duas santolas recheadas fiquei-me por belo bife com um ovo estrelado a cavalo e batatas fritas. No fim houve bolo com oito velas mas o que me deslumbrou (e até hoje isso acontece) foi uma estrondosa musse de chocolate!

 

Os ponteiros do relógio do tempo são uns maganos: não param; antes era porque não se dava corda ao instrumento; hoje é que a pilha deu o berro. Nunca mais dera por mim a pensar na viagem no cacilheiro. Mas a Raquel e eu fomos à revista no Maria Vitória e eis senão quando apareceu em cena o meu amigo Zé Viana vestido de marujo que cantou o Fado do Cacilheiro que eu sussurrei entre dentes para não incomodar a plateia: 

 


«Quando eu era rapazote
Levei comigo no bote
Uma varina atrevida
Manobrei e gostei dela
E lá me atraquei a ela
Pro resto da minha vida.

 

Às vezes numa pessoa
A idade não perdoa
Faz bater o coração
Mas tenho grande vaidade
Em viver a mocidade
Dentro desta geração.

 

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro
Dedicado companheiro
Pequeno berço do povo.


E navegando
A idade foi chegando
Ai… O cabelo branqueando
Mas o Tejo é sempre novo.

 

Todos moram numa rua
A que chamam sempre sua
Mas eu cá não os invejo
O meu bairro é sobre as águas
Que cantam as suas mágoas
E minha rua é o Tejo.

 

Certa noite de luar
Vinha eu a navegar
E de pé junto da proa
Eu vi ou então sonhei
Que os braços do Cristo-Rei
Estavam a abraçar Lisboa.

 

Sou marinheiro
Deste velho cacilheiro
Dedicado companheiro
Pequeno berço do povo.


E navegando
A idade foi chegando
Ai… O cabelo branqueando
Mas o Tejo é sempre novo
»

 


No final da revista fui aos bastidores onde o Zé não queria acreditar que era eu que ali estava. O abraço que trocámos foi mais um abração. A PIDE, como sempre, andava na sua peugada. “Continuam a ser uns filhos-da-puta! Não sabem ser outra coisa! Imagina tu, Henrique, que quiseram cortar o cacilheiro porque era subversivo!” E soltou uma daquelas suas gargalhadas. Das que até se ouviam na… António Maria Cardoso!