2016-11-18

A SAGA DA ALZIRA – 4


Um funeral à maneira


Antunes Ferreira


H

avia uma explicação para a ausência das tertulianas do Retiro do Meio Chão aquando da visitinha do Pintarolas, aliás frustrada (visitinha que poderia ter tido consequências muito mais graves, mas não tivera felizmente para o rapazola). Às três componentes efectivas juntara-se uma quarta ad hoc, a saber: a Dona Alzira, a Dona Ester e a Menina Hortênsia  a Dona Leocádia – que ainda não conheciam, mas que por vezes aparecia; era porteira do 28 da Rua de Baixo, já tendo completado 72 anos e considerava-se solteirona militante – tinham ido ao funeral dum compadre da Dona Ester.



“F
oi um enterro muito bonito, não foi?” perguntava no dia seguinte, já no Meio Chão, a Dona Ester, que apesar de ver aproximarem-se os 94 anos adorava tudo o que metesse urnas, paramentos, gatos-pingados e etc. “Foi sim senhoras”, acudiu a Dona Filomena que acabava de lavar panelas, tachos e restantes itens da parafernália instrumentista-culinária e que também participara nas cerimónias funerárias pois era prima afastada da irmã duma tia da madrinha da prima duma comadre da prima-irmã da viúva do falecido, todos oriundos do falecidíssimo Estado Português da Índia. A Dona Filomena não era goesa, era apenas por amizade.


A
 única chatice fora a partidela da roda da carreta, o caixão e o morto estiveram à biquinha de cair, não fora o gato-pingado que lhe deitou a mão, o Zé Marreco que fazia de Mestre das Cerimónias, cagou-se todo que eu bem o cheirei, regougou a Dona Ester, o Chico da peixaria comentou entre dentes “aqui há peixe com fénico”, e a Dona Ernestina do Salão de Estética Unissexo sacou o abanico da mala a tiracolo, “aqui perto deve haver uma retrete cheia de merda.” O Marreco disfarçou, tirou do bolso do colete um canivetinho e voltando-se para a Dona Ernestina disse na brincadeira “Ai, qu’eu capo-a…” A coisa, felizmente, ficou por ali.  


Melquior, Baltasar e Gaspar


O
 Segismundo ficara no Retiro, alguém tinha de trabalhar, para o ripanço já bastavam os das obras, incluindo o campomaiorense que ainda pensara ir fazer uma perninha no cemitério, no meio da molhada nem se notaria, mas para concretizar tal desiderato seria preciso ir a casa mudar de fatiota, o que seria uma ganda merda. Portanto, não foi. A igreja estava a abarrotar, quase a rebentar pelas costuras se as houvera. O celebrante suava as estopinhas, o sacristão também e dos assistentes nem é bom falar. Todo o incenso, mirra, água de colónia Printemps, perfumes Women & Men, desodorizantes diversos e sabonetes Lifeboy que ali fossem vertidos não conseguiriam anular o odor corporal que da multidão evolava. Nem mesmo a água benta se safava. Alzira: “Era como os três Reis Magos a chegarem ao Perzépio cagados de areia e similares até aos cotovelos. O Segismundo atrás do balcão “Presépio”…


O
 padre “falara mui bem, porra! Até parecia um Bispo!” dissera a Dona Alzira que ainda acrescentara que “nem fora necessário o coiro para encomendar o corpo…” ao que o Segismundo corrigiu “não é coiro, é coro, e isto de encomendar lembra-me os Figueiredos do 4º Esquerdo que encomendam sempre o almoço para que seja levado a casa”. A Menina Hortênsia não gostou “ó home alembre-se – graças a Deus muitas; graças com Deus nenhumas!”

De muito alimento...


F
oi a Dona Ester que deitou mais umas achas para a fogueira: “Além do mais, o prior era lindo! Um homem perfeito. E a irmã dele que estava na primeira fila comia-o com os olhos…” A Dona Leocádia acrescentou “Quem a comia era ele e não era com os olhos. Uma boazona como ela era de muito alimento. E as meninas não podem esquecer-se de que um padre é um homem que tem a braguilha até ao pescoço. A Menina Hortênsia começou a abrir a boca, mas depois calou-se. Graças…





“E
 as flores? Um monte delas, cada um mais bonita do que as outras" sublinhou a Dona Ester, "repararam "na coroa da Companhia onde ele tinha trabalhado, e era apenas porteiro, um mimo, bem como a do Sindicato de que era tesoureiro, uma maravilha, para não falar das que a família tinha trazido (como era sua obrigação)” A Dona Ester voltava à carga “aquele ramo de rosas brancas não dizia de quem era. Seria que o morto teria uma mão esquerda?” E a Dona Filomena que já tinha tirado o avental “mas as Senhoras foram ao funeral ou foram cortar na casaca do falecido?”

A menina dos cinco olhos


E
 foram falando do caixão em mogno, dos acompanhantes, muita gente fina, até políticos e ministros, ele era muito bem visto“, da oração do sacerdote junto à câmbra – campa, emendou mais uma vez Segismundo – “vossemecê até parece a dona Adozinda a minha setôra da escola primária númaro 127, só lhe falta a menina dos cinco olhos qu’ela tinha, a cadeirinha e o içópe” – e de novo o atendedor “o número, a caldeirinha e o hissope” e o gajo zarpou para a cozinha antes de levar com uma cadeira pelas trombas – que o ameaçou a Menina Hortênsia.


P
ara funeral já bastava. Estava quase tudo dito. Ainda havia um tema para abordar: o padre e a moçoila oficialmente sua "irmã" que um dia depois de uma trovoada  tramada tinha comentado para as vizinhas "E eu, se não me agarro ao meu "mano" António tinha caído da nossa cama..." E quando ainda estavam nestes preparos entrou o campomaiorense “Sabem quem esteve por cá? O Pintarolas. Mas, foi uma rapidinha. E então o velório?” E a Alzira “Não fomos. Era muita cera para só um defundo.” E O Segismundo da cozinha “defunto…” E a Menina Hortênsia “Ai levas, levas!” E levantou a cadeira.





2016-11-12

A SAGA DA ALZIRA - 3




  Dentes para bolo de creme


Antunes Ferreira

J
ota Pintarolas, talvez não se lembrem do gajo mas recorda-se, é aquele ganapo que levou na focinheira uma carga de porrada no Restaurante Bar Retiro do Meio Cheio depois de ter bolsado umas alarvidades sobre a Senhora Dona Alzira. O campomaiorense Chico Passarinho não gostou da coisa e foi o autor da punhada que levou alguns dentes ao primeiro e este ao dentista da rua de Cima à de Baixo.


O
Quiçá com um Black  & Decker
 Dr. Malacueco perante o desdentado nem lhe perguntou como isso lhe acontecera, apenas o inquiriu “tem os dentes todos que lhe tiraram?” O busílis é que não tinha. Pintarolas antevia o dentista armado de Black and Decker a perfura-lo até às solas dos sapatos à procura dos desgraçados molares. Estava fodido. Porque na verdade  e quem fala assim não pode er desmentidotrês tinham ficado no chão, caído para as obras, quiçá na sarjeta e no lamaçal e porque se safara com a rapidez possível só no dia seguinte fora procurar os faltosos. Resultado: zero. O odontologista esfregara as mãos, clientes desses havia um na vida e agora era só aproveitar. Benditas chapadas, bendito campomaiorense.

Ó
 meu amigo (o rapazola teria de voltar tantas vezes ao consultório que dentro em pouco já se tratariam por tu) isso resolve-se, só a morte não tem solução. Jota não gostou da frase, pagar e morrer quanto mais longe melhor, mas apenas falou para os seus botões não fora o doutor amofinar-se. “E então, o meu caro amigo já apresentou queija à PSP?” Pintarolas retorquiu-lhe “para quê? Para levar outro arraial de bofatada? Malacueco tentou botar água na fervura “mas sempre tinha alguma coisa a que se agarrar, os tribunais, os advogados, os juízes, a justiça, enfim…”
Justiça? Qué dela? Coroas?


“J
ustiça? Qué dela? O meu senhorio, por acaso um gajo fixe, anda há cinco anos a tentar pôr na rua o manguelas do terceiro direito que vive exactamente por cima de mim – e o doutor deixe-se de sorrisinhos sacanas qu’eu sou muito homem, ainda há de nascer alguém que me ponha a pila no fim das costas – com mulher e sete filhos (aquilo é só foder, parece uma máquina de repetição) e nada. O advogado dele é só recursos e mais recursos e o processo não anda nem desanda. O meu senhorio já meteu umas coroas no bolso do juiz mas creio que foram poucas…


C
orrupção, claro, mas onde é que ela não anda? perguntou-se o odontologista – gostava mais do termo do que se lhe chamassem dentista - Bom, vamos lá ver essa boca que está num estado lixado. Abra-a bem e diga aaaaaaaaaa. Menina Miquelina dê-me o espelho 24.b, o Hollamback e o escavador e deite nessa tina, essa ali ao lado esquerdo do paciente, a solução aquosa com hipoclorito de sódio enquanto eu lhe coloco o aspirador. “Ai, doutor isso magoa! Está-me a arder!” E impassível Malacueco “o que arde cura, quando se meteu na alhada e lhos partiram não lhe doeu?”


N
ão vale a pena continuar a fazer-se o relato integral e directo da partida para a III Liga, Jota - Malacueco que iria terminar com o resultado de 1 a 32, mais parecia râguebi, e 350 euros para o bolso do distinto clínico. Menina Miquelina para a semana haverá mais (para o Pintarolas haveria menos umas massas). Pode marcar no computador sexta-feira, 13, pelas 17 horas. Miquelina que era toda chicha e trazia a bata pouco abotoada, o suficiente para se dar conta através do decote alambazado
Sexta é com s ou com x
que usava sapatos altos de cor vermelha e não usava (para quê?) sutiã, nem calcinhas, santa ingenuidade, perguntou ao médico se sexta era com um x ou com um s?  Não fora o ditame clínico que o proibira de abrir a boca nas duas horas seguintes, Jota teria dito “para si – à sua vontade…” Mas, tinha a boca fechada.


P
assou uma noite lixada, às voltas com os dentes, às voltas sem os dentes, apesar dos comprimidos que o malandro do doutor lhe receitara – vá lá ainda eram participados – e pela manhã que para ele era um quarto para a uma da tarde, decidira ir muito à sorrelfa, não fosse o diabo tecê-las – ao Retiro do Meio Cheio para ver em que paravam as modas e chupar por uma palhinha um copo de leite gelado recomendado pelo dentista, ao que um homem chegara, leite gelado, pffff!... E, já então, deitar um olhar assassino sobre a Alzira, um destes dias pagas-mas, ai pagas, pagas. E como último propósito avaliar como iam as famosas obras para encanar a água local.



N
o que concerne às obras verificou com muita satisfação que tinham progredido aí uns 38 centímetros de comprimento e 29,7 de largura. Boa média para quatro dias de trabalho insano, mais a mais dentro do horário previsto e rigorosamente cumprido. Na esplanada (ilegal) do Meio Cheio encontrava-se repimpado o fiscal dos trabalhos acompanhado por umas cervejolas vazias e uma quase cheia que empunhava, a quem perguntou como iam elas, ao que o homem respondeu “no papo”. Explicou-lhe que “elas” eram as obras não as bejecas. “Vão bem e recomendam-se.
Há cartazes muito mentirosos... 
Esperamos tê-las concluídas lá para os fins de Agosto, se não Setembro…” “Mas o cartaz diz…” “Há cartazes muito mentirosos; já o mandei tirar – serve perfeitamente para acarretar canos mais leves, tipo padiola…”


E
ntrou, sentou-se à mesa do fundo, da Alzira zero, logo nada de olhares assassinos; pediu ao Segismundo um leite gelado o que deixou este de olhos em bico, "O quê?”, “Porra, já disse, um penalti de leite gelado, tás a ouvir ou queres que faça um boneco?”  E deitou os olhos pelo balcão-frigorífico. O atendedor saíra para dar um saltinho à Leitaria Gonçalves, o leite na chafarica tinha-se acabado; e o Jota afinou a pontaria para um pastel de creme que parecia convidá-lo, chega-te cá, chega-te cá qu’eu sou todo açúcar e para não sujar as mãos pegou na pinça para os bolos e avançou, denodado. Mas, uma desgraça nunca vem só. De novo não tinha reparado que entrara o campomaiorense.

O creme não com pinça...


E
ste deitou-lhe a mão ao cachaço enquanto o diabo esfrega um olho. “Olha lá, nunca te disseram que o creme não com pinça? E põe-te a milhas antes que te acabe com os dentes que te ficaram…”  Jota aceitou a sugestão… E saiu como entrara – de mansinho. Nem deitou uma vista de olhos pelo “Correio da Manha”.  Com til.

    

2016-11-09



Um pedido

de desculpas

N
em sei como o fiz – mas fiz. E não fora a minha Anja da Guarda, a Fê ainda hoje estava a chorar lágrimas amargas (quiçá de crocodilo?) Já vos tinha dito que a Fê Blue Bird me tem ajudado em imensas situações qual delas a mais complexa. É uma querida a nossa Fê. E uma menina cheia de pachorra – sempre disposta a aturar-me (coisa difícil…), a elucidar-me (ainda mais…) e a resolver-me os imbróglios que origino dia sim, dia sim.

D
esta feita, (e juro que nem sei como…) cometi mais uma burrada: dei-me ao luxo de apagar o post Alzira – vida e obras. Em desespero, recorri à Fê. E num instante a minha Anja resolveu o quiproquó. Só não se safaram os comentários e as respectivas respostas. Que isto me sirva de lição (o que aqui para nós não creio que aconteça) para não voltar a dar mais barracas, tantas como se fora um acampamento de um regimento.
D
aqui, muito envergonhado (podem crer), peço muitas desculpas aos que foram afectados por esta minha estupidez. E espero não voltar a incomodar-vos.

Antunes Ferreira



2016-11-07






Antunes Ferreira

É
 caso raro que isto aconteça por aqui; mas mesmo eles têm as suas excepções que, sendo também raras, surdem à socapa e por motivos que têm de ser, não fortes. Mas fortíssimos. É o caso vertente e quem o fez explodir foi a nossa querida Gabrielamiga quando em post anterior perguntou, quase ansiosa, pela sequência da estória da Dona Alzira. Tinha-se ficado na oferta feita pelo campomaiorense dum pastel de nata – com açúcar e canela – à digna Senhora. Mas não é aí que se retoma a acção. Ela é muito mais anterior.



E
stava-se na cena em que Senhor Doutor Deputado (que alguns mal-intencionados diziam Deputedo… credo, t’arrenego Satanás!) tirava os três vinténs à jovem Alzira. Tudo indica que ambos gostaram da cegada, pois a heroína – a Alzira, que não a droga -  prosseguia a revelação em bom ritmo sob o olhar atento mas um pouco esgazeado das comparsas e do Segismundo que fingia seguir a telenovela “Benvindos a Louriçais”, mas estava de orelha em riste.

Camisa sem mangas para não ter filhos



D
ê-se, por conseguinte, a primeira pessoa à Senhora Dona Alzira. “E assim vivemos muito felizes durante dois anos ou quase até a malvada da desgraça cair sobre nós os dois. O Chico – chamava-se Francisco o Senhor Doutor Deputedo, porra!, Deputado, tinha-me alugado um quarto com águas correntes quentes e frias, ali à Engraça na Rua Não Digo o Nome, quarto andar sem alivador. E usava sempre o que ele chamava camiza- de-vénus, um tubo em borracha ou lá o que era que enfiava no coiso – para a gente não termos filhos. Faça-se aqui uma breve explicação: Alzira fora à escola, tirara a quarta classe com especialidade - uma ganda cunha do protector, mas dava erros de palmatória. E dá, até hoje.



P
orém um dia o meu Chico que tinha estado três semanas de cama com uma maleita nos pulmões, uma pulmografia ou coisa assim, vinha com tal vontade, logo que se levantou, de dar uma queca que deu duas, três ou quatro esquecendo-se da tal camiza sem mangas. Foi o Mafarrico, juro mesmo que foi o Demo que nos armou a armadilha. Resultado, engravidei e quando se começou a notar a barriga a crescer a Senhora Dona Adosinda, arquitecta e esposa do meu Chico deu conta (pois já tinha sido emprenhada pelos ouvidos pela Laurinda a cozinheira que e estava cheia de inveja de mim pois queria também trucar com o patrão e ele só tinha olhos e pau para mim,) armou uma saralho do carilho e eu fui para a rua.
Ou entra na linha...



Q
uarto com águas correntes quentes  e frias -  idem; sem alivador - aspas. A exigência fora da arquitecta que encostara o marido à parede, ou ela, ou eu! E nunca mais quero ouvir falar dessa gaja com falinhas mansas. Nem sequer respirar. Ou entras na linha, ou volto para casa dos meus pais e vou à Assembleia Nacional descobrir-te a careca e então é que vais ver o que é que são elas. E a partir de agora, camas separadas! Pensando bem, quartos separados – o que não falta praí é espaço. E o pandeleiro do Senhor Doutor Deputedo, o ex-meu Chico, acagaçou-se cumpriu indescrupolozamente as ordas da Senhora gaja e deu-me com os pés. Nunca mais lhe pus o olho em cima.



R
ecorri outra vez ao primo; a minha mãe já tinha entregado a alma ao Criador com um fleimão de caixão à cova e a rapaziada à minha volta pareciam abelhas em roda de uma flor. Estou práqui a roubar-vos tempo; ó Senhora não rouba nada, somos todas reformadas. Segue-se que passei por mais umas casas e um dia fui parar à Farmácia Boa Seringa, cujo proprietário era o Senhor Doutor Farmacêutico Ângelo das Neves que estava quase a bater a bota e tinha como ajudante um rapaz meio enfezado, o Manel Jimbrinhas que aviava algumas receitas e dava as injecções. Era para lá da Cruz de Pau, quase no Alentejo.
Tira o pé do tubo do oxigénio



O
 ancião, aliás muito contrariado, que eu bem vi, resolveu passar-se para o outro lado. Ninguém gosta de velórios, especialmente do seu, mas dali não e pode fugir é inivultável.  Houve até uma cena muito comovente. Com o velho já a despedir-se deste Mundo cruel e impiedoso, o Jimbrinhas (que afinal era seu sobrinho em segunda mão e por isso seu herdeiro) chegou-se à beira do moribundo para recolher as suas últimas palavras que foram estas, muito baixinho, mas eu ouvia-as: ó meu grande filho da puta tira o pé de cima do tubo do oxigénio.  



R
esumindo e concluindo: casei com o Manel Jimbrinhas nas Noivas de Santo Antoino (o sonso andava atrás de mim, vamos ser muito felizes etc. e tal) tive quatro filhas, cinco filhos e seis desmanchos e enviuvei à oito anos e já tenho cinco netos: três putos e duas pu…,chiça! miúdas. Não tenho vivido mal até à três semanas; mas a Cambra veio dar-me cabo da mona, que o Segismundo e Dona Filomena bem sabem; vivemos na mesma rua. Homessa!? Atirou a Menina Hortênsia. E a Dona Ester acrescentou, que se passa, há gatunagem? Drogados a dar por um pau?
Fazemos ou não os ninhos?



N
ada disso, minhas amigas. Eu conto, mas termino já, que tenho de ir acabar de fazer a janta. São as obras, foda-se, são as putas das obras! Mas, quais obras? A Cambra Municipal decidiu que estava na hora de mudar as canalizações da rua que aliás não é grande. E logo na época em que começam as chuvas. Ou deviam começar, que o tempo está como o resto, uma ganda merda. Até as andorinhas andam tresloucadas: fazemos ou não fazemos os ninhos?



P
rimeiro plantaram uns cartazes a dizer que pediam muitas desculpas pelos incomódos que causavam aos tenentes, a dona Esperança da Loja da Fruta diz que o que lá está prantado são os utentes. Mas que prometiam demorar pouco para não sacrificar os tais sargentos/utentes. Quero lá saber! Que se lixe a Cambra, que se lixem os cartazes! Depois vieram espetar nos passeios e no asfalto uns taipais em rede metálica cheio de mariquices – sinais de é proibido passar e outras frioleiras. Depois, bom, depois, descansaram ainda que não fosse o sétimo dia. 



B
em lá para o fim da semana seguinte chegaram uns Senhores de capacetes coloridos e uns instrumentos tipo binóculos a que chamaram tios de litros com os quais começaram a fazer observações e medições gastronómicas, foi o que me pareceu ouvir. Astronómicas, mulher astronómicas. Mas para quê? Ainda não estamos na Lua; na rua, sim, mas na Lua… Pois. Descansaram mais uns bocadinhos. Caramba, que gente mais cansada!... E finalmente vieram uns camiões, umas mánicas de escavar a terra outras de levantar os tubos que la estavam dentro, afastar os cabos que também ali se encontravam.
O Inferno no Inverno



F

ogo! Nunca pensei que debaixo de uma ruazita houvesse tanta confusão. E sobretudo lama. E para ajudar cortes de água e para ainda ajudar mais e mais tubos grandes em cimento, em plástico, em todos os materiais possíveis e imagináveis. O Inferno no Inverno como é o caso deve ser o Paraíso. E antes que me vá. O horário de trabalho é simples: de segunda à sexta – das nove da manhã à uma da tarde e das duas da tarde às cinco da tarde. Aos sábados e aos domingos: um bom fim-de-semana. Se isto não é produtividade… E a Dona Alzira foi-se. Fazer a sopa de feijão encarnado. Para a janta.

2016-11-02


Drogado
jovem
ou jovem
drogado

Antunes Ferreira


O
rgulhosamente usa no toldo e na parede o nome oficial registado em tudo o que é sitio e papel municipal e da freguesia Retiro do Meio Cheio (num bold corpo 260 bold) –Restaurante – Bar (num itálico corpo 150 bold).Como se vai tornando obrigatório a entrada de cães no estabelecimento é rigorosamente proibida; o mesmo já não acontece com a caca canídea que se conserva per omnia secula seculorum à frente da sua porta de acesso. Quem sabe destas coisas de negritos e cursivos é o Viriato Malaquias, antigo tipógrafo no “Jornal da Tarde”; e a malta que por lá abanca, reformados, desempregados, biscateiros ou trabalhadores diversos na hora do almoço e cidadãos inócuos que vêm pela bica, com cheirinho, ouve-o dissertar sobre composições, tipos, corpos, tituleiras, chumbos e até sangue-de-cristo; para além do offset. E aqui para no limiar da fronteira da desconhecida informática. Assim a modos como o cabo das Tormentas. E o Viriato não é o Bartolomeu; tem dias.


L
inguagem um tanto a dar para o arrevesado, hermética como dizem na televisão quando falam economistas e financeiros, além do Jorge Jesus, lá está o Malaquias para passar tudo a Português. Boa! Entretanto é preciso que se diga que tão pomposo nome traduz-se facilmente: é um tasco – mas onde se come muito bem. A Dona Filomena é mãe e cozinheira o Segismundo é o filho e atende os clientes quer dentro do balcão quer fora do mesmo. Enfim, para usar a língua Asaeana uma pme familiar. Sem subsídios. Na parede do fundo há um local especial para anúncios: HOJE HÁ CARACÓIS;
Sem legenda
AMANHÃ COZIDO À PORTUGUESA; 6. FEIRA BACALHAU COM GRÃO
etc. Menus diversos para todos os gostos e paladares.



A
 Dona Filomena na classificação geral dos cozinhados está muitos furos acima da santa do mesmo nome que, de resto, deu origem a uma tremenda controvérsia chegando mesmo a dizer-se que “a Filomena já não é santa”. Ironias do destino? Sabe-se lá. O que é certo é a santa afinal venceu a final e para mal dos seus detractores continuou na primeira liga celestial. No entanto, no que toca a refogados, rissóis e empadões nada consta a seu respeito. Que foi virgem – parece-me sim, o que, aliás, não é grande feito pois todas as mulheres o foram, mesmo Maria de Nazaré, ainda que subsistam umas pequenas dúvidas sobre um tal Espírito Santo. Até hoje não esclarecidas.


C
om isto se quer dizer que a insigne Dona Filomena, (viúva e dona de buço que qualquer guarda republicano invejaria) faz parte no mínimo o top ten das chef’’as lusitanas, para não dizer mesmo do top five. O seu cozido à portuguesa, a sua feijoada à transmontana, o seu bacalhau espiritual, as suas cabidelas, os seus pezinhos de porco com coentrada, os seus botelos com couves cozidas e os seus doces elevam-na à enésima essência, à vigésima segunda nuvem gastronómica-celestial, à direita de quem entra no portão guardado pelo São Pedro. E, se alguém de lá saísse (o que não consta de qualquer registo ou acta) seria à esquerda. Curioso.


P
elas quatro da tarde, abandonado pelo maralhal o local gastronomicamente abençoado, reúne-se ali uma tertúlia de três senhoras idosas, por vezes quatro. Ouvi-las conversar, recordar momentos passados, bons e maus, é um verdadeiro refrigério, dir-se-ia mesmo um privilégio, para os atrasados consumidores de sandes e minis ou tinto gelado. Que, por vezes, aceites pelas tertulianas, também metem umas buchas da autoria deles, pensando que com tal procedimento enriquecem a temática do dia. O que não corresponde à esperança dos recém metedores de colheres; cortar nas casacas tem que se lhe diga. E especialistas são… especialistas.
Para quê legenda? O texto diz tudo


O
ntem a Dona Alzira que tem uma voz de baixo-baixíssimo, 78, e é também viúva contava a sua história numa linguagem mais do vernácula, com o calão à mistura, informando as comparsas que com ela eram nove irmãos, a mais velha com catorze anos e o mais novo com quatro meses. Viviam num palheiro, ali a Carviçais, aldeia de Moncorvo, onde era preciso ir buscar água à fonte que ficava a dois quilómetros mais coisa menos coisa; no Inverno e descalços era fodido. Ela por essas alturas devia andar pelos seus sete/oito anos e nunca fora à escola.


O
 pai, farto da esmola que ganhava nas minas, cavara a salto para Paris da França, depois de ter emprenhado a mulher mais uma vez; hábitos. Côdea - pouca. Couves tronchudas – poucas. Chouriças – duas por ano. Caldo – quase todos os dias. Mal por mal a mãe Deolinda decidira ir para Lisboa, terra da perdição, mas também do mel e dos bifes. Ouçam meninas (a assistente mais velha ostenta sem aparato 92, quase 93 que vai fazer no princípio de Dezembro) foram nove dias à pata, felizmente que era Verão, dormindo ao relento, onde e quando calhava.


A
 minha mãe tinha um tio que morava numa rua chamada Filipe da Mata que deixou a gente ficar no pátio que havia nas traseiras e aos poucos fomos saindo para lugares que o tio e os primos seus filhos nos arranjavam. Eu, que já tinha fito nove anos, fui parar à casa de um Senhor Doutor Deputado, para cuidar das duas filhinhas e dos dois filhinhos que ele e a sua mulher tinham. Tudo gente muito católica, todos os domingos iam à missa e comungavam. E eu passei a ir com eles.
Entre mil beijos e carícias....


T
inham passado uns quatro anos, já me haviam aparecido as regras e crescido as mamas, estava uma mulherzinha, já me olhava ao espelho, não era bonita mas bem feitinha, fora promovida a criada de fora e preparava-me para ser ajudanta de cozinheira, quando uma noite, ouvi que de mansinho  abriam a porta do meu pequeno quarto no vão da escada. Era o patrão que me disse chiu e despiu o pijama mostrando-me uma coisa enorme e tesa que tinha entre as pernas e… entre mil beijos e carícias tirou-me os três vinténs.


E
ntretanto tinham entrado no tasco uns fulanos que pelos fatos que usavam carregados de tintas e de pó de cimento e de tijolos deviam ser pedreiros, pintores, estucadores ou coisas assim da construção civil (que aos poucos ia ressuscitando), que tinham pedido umas imperiais e uns tremoços.  Nesse momento um jovem desempregado profissional, drogado até dizer chega não, que por ali entretinha os seus ócios lendo o Correio da Manhã ou jogando no seu Smartfone, soltou, lá do fundo da pequena sala uma gargalhadinhas sacana: “Ó Alzirinha, nessa altura ainda havia os três?...” E um dos que acabavam de chegar, no mais puro alentejanês: “Havia, mê cabrão que te parto os cornos! Havia e há!” O puto drogado (a ordem dos factores é arbitrária), levantou-se, empertigou-se “É pá, se és homem, repete lá essa merda!” E avançou de punhos em riste! O campomaiorense fez-lhe uma chicuelina, e ferrou-lhe três murros nas trombas
Acabou-se - a festa e o gandulo
que o gajo até saiu de gatas. Nem apanhou os dentes partidos, muitos e espalhados pelo chão, e ainda rosnou “isto não fica assimmm…” O matulão de Castro Maior “pois nã, mê filho duma carrada de putas!” E foi-se a ele, levantou-o deu-lhe um enxurro de porrada que acabou com um pontapé ao fundo das calças, depois de outro mesmo em cima da braguilha. Acabou-se – a festa e o gandulo. À esquina a autoridade fardada de polícia, impávida e serena, falava pelo telélé quiçá para a namorada, ou para o namorado. 



“O
brigado meu Senhor…” disse a Dona Alzira com a voz entaramelada. “Nã tem de quê minha Senhora.” E voltando-se para o Segismundo: “Sai mais um pastel de nata para a Senhora Dona Alzira. Com açúcar e canela.”