PASSO A PASSO

2016-11-12

A SAGA DA ALZIRA - 3




  Dentes para bolo de creme


Antunes Ferreira

J
ota Pintarolas, talvez não se lembrem do gajo mas recorda-se, é aquele ganapo que levou na focinheira uma carga de porrada no Restaurante Bar Retiro do Meio Cheio depois de ter bolsado umas alarvidades sobre a Senhora Dona Alzira. O campomaiorense Chico Passarinho não gostou da coisa e foi o autor da punhada que levou alguns dentes ao primeiro e este ao dentista da rua de Cima à de Baixo.


O
Quiçá com um Black  & Decker
 Dr. Malacueco perante o desdentado nem lhe perguntou como isso lhe acontecera, apenas o inquiriu “tem os dentes todos que lhe tiraram?” O busílis é que não tinha. Pintarolas antevia o dentista armado de Black and Decker a perfura-lo até às solas dos sapatos à procura dos desgraçados molares. Estava fodido. Porque na verdade  e quem fala assim não pode er desmentidotrês tinham ficado no chão, caído para as obras, quiçá na sarjeta e no lamaçal e porque se safara com a rapidez possível só no dia seguinte fora procurar os faltosos. Resultado: zero. O odontologista esfregara as mãos, clientes desses havia um na vida e agora era só aproveitar. Benditas chapadas, bendito campomaiorense.

Ó
 meu amigo (o rapazola teria de voltar tantas vezes ao consultório que dentro em pouco já se tratariam por tu) isso resolve-se, só a morte não tem solução. Jota não gostou da frase, pagar e morrer quanto mais longe melhor, mas apenas falou para os seus botões não fora o doutor amofinar-se. “E então, o meu caro amigo já apresentou queija à PSP?” Pintarolas retorquiu-lhe “para quê? Para levar outro arraial de bofatada? Malacueco tentou botar água na fervura “mas sempre tinha alguma coisa a que se agarrar, os tribunais, os advogados, os juízes, a justiça, enfim…”
Justiça? Qué dela? Coroas?


“J
ustiça? Qué dela? O meu senhorio, por acaso um gajo fixe, anda há cinco anos a tentar pôr na rua o manguelas do terceiro direito que vive exactamente por cima de mim – e o doutor deixe-se de sorrisinhos sacanas qu’eu sou muito homem, ainda há de nascer alguém que me ponha a pila no fim das costas – com mulher e sete filhos (aquilo é só foder, parece uma máquina de repetição) e nada. O advogado dele é só recursos e mais recursos e o processo não anda nem desanda. O meu senhorio já meteu umas coroas no bolso do juiz mas creio que foram poucas…


C
orrupção, claro, mas onde é que ela não anda? perguntou-se o odontologista – gostava mais do termo do que se lhe chamassem dentista - Bom, vamos lá ver essa boca que está num estado lixado. Abra-a bem e diga aaaaaaaaaa. Menina Miquelina dê-me o espelho 24.b, o Hollamback e o escavador e deite nessa tina, essa ali ao lado esquerdo do paciente, a solução aquosa com hipoclorito de sódio enquanto eu lhe coloco o aspirador. “Ai, doutor isso magoa! Está-me a arder!” E impassível Malacueco “o que arde cura, quando se meteu na alhada e lhos partiram não lhe doeu?”


N
ão vale a pena continuar a fazer-se o relato integral e directo da partida para a III Liga, Jota - Malacueco que iria terminar com o resultado de 1 a 32, mais parecia râguebi, e 350 euros para o bolso do distinto clínico. Menina Miquelina para a semana haverá mais (para o Pintarolas haveria menos umas massas). Pode marcar no computador sexta-feira, 13, pelas 17 horas. Miquelina que era toda chicha e trazia a bata pouco abotoada, o suficiente para se dar conta através do decote alambazado
Sexta é com s ou com x
que usava sapatos altos de cor vermelha e não usava (para quê?) sutiã, nem calcinhas, santa ingenuidade, perguntou ao médico se sexta era com um x ou com um s?  Não fora o ditame clínico que o proibira de abrir a boca nas duas horas seguintes, Jota teria dito “para si – à sua vontade…” Mas, tinha a boca fechada.


P
assou uma noite lixada, às voltas com os dentes, às voltas sem os dentes, apesar dos comprimidos que o malandro do doutor lhe receitara – vá lá ainda eram participados – e pela manhã que para ele era um quarto para a uma da tarde, decidira ir muito à sorrelfa, não fosse o diabo tecê-las – ao Retiro do Meio Cheio para ver em que paravam as modas e chupar por uma palhinha um copo de leite gelado recomendado pelo dentista, ao que um homem chegara, leite gelado, pffff!... E, já então, deitar um olhar assassino sobre a Alzira, um destes dias pagas-mas, ai pagas, pagas. E como último propósito avaliar como iam as famosas obras para encanar a água local.



N
o que concerne às obras verificou com muita satisfação que tinham progredido aí uns 38 centímetros de comprimento e 29,7 de largura. Boa média para quatro dias de trabalho insano, mais a mais dentro do horário previsto e rigorosamente cumprido. Na esplanada (ilegal) do Meio Cheio encontrava-se repimpado o fiscal dos trabalhos acompanhado por umas cervejolas vazias e uma quase cheia que empunhava, a quem perguntou como iam elas, ao que o homem respondeu “no papo”. Explicou-lhe que “elas” eram as obras não as bejecas. “Vão bem e recomendam-se.
Há cartazes muito mentirosos... 
Esperamos tê-las concluídas lá para os fins de Agosto, se não Setembro…” “Mas o cartaz diz…” “Há cartazes muito mentirosos; já o mandei tirar – serve perfeitamente para acarretar canos mais leves, tipo padiola…”


E
ntrou, sentou-se à mesa do fundo, da Alzira zero, logo nada de olhares assassinos; pediu ao Segismundo um leite gelado o que deixou este de olhos em bico, "O quê?”, “Porra, já disse, um penalti de leite gelado, tás a ouvir ou queres que faça um boneco?”  E deitou os olhos pelo balcão-frigorífico. O atendedor saíra para dar um saltinho à Leitaria Gonçalves, o leite na chafarica tinha-se acabado; e o Jota afinou a pontaria para um pastel de creme que parecia convidá-lo, chega-te cá, chega-te cá qu’eu sou todo açúcar e para não sujar as mãos pegou na pinça para os bolos e avançou, denodado. Mas, uma desgraça nunca vem só. De novo não tinha reparado que entrara o campomaiorense.

O creme não com pinça...


E
ste deitou-lhe a mão ao cachaço enquanto o diabo esfrega um olho. “Olha lá, nunca te disseram que o creme não com pinça? E põe-te a milhas antes que te acabe com os dentes que te ficaram…”  Jota aceitou a sugestão… E saiu como entrara – de mansinho. Nem deitou uma vista de olhos pelo “Correio da Manha”.  Com til.

    

20 comentários:

  1. Bem me parecia que a procissão ainda ainda não ia no adro. Já viste o meu comentário uns degraus abaixo?
    O que eu não imaginava era o finório ir ao dentista, nem as dúvidas da assistente e muito menos uma pinça nas mãos do dito.
    Trata de escrever o currículo da D. Alzira. A gente fica á espera.
    Abraço, Leãozão.

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  2. Caro Agostinhamigo (II)

    "As gatas apressadas parem filhos cegos... Longe de mim fazer a comparação entre as tuas sábias palavras e as justas inquietações que colocas e um ditado mais do que parvo. Foi tão-só um lapsus scriberus e nada mais do que te peço milhões de desculpas.

    As coisas vão decorrendo (melhor do que as famosas obras) e o próximo mete um funeral. E mais não digo porque... não posso nem quero dizer.

    Abç do Henrique, o Leãozão

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  3. Isto há gente que não aprende, FerreirAmigo.
    Nem desdentados ganham juízo.
    Aquele abraço para ti, beijinhos para a Raquel, boa semana

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    1. Caro Coimbramigo

      Poizé. Mas por outro lado, há gente que esfrega as mãos: o Dr. Malacueco. Tem dias...

      Tribjs & triqjs e abç para tu Henrique, o Leãozão

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  4. Confesso que me diverti imenso a ler esta sua crónica meu querido amigo. Você tem mesmo talento para isto...
    Uma boa semana.
    Beijos.

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    1. Querida Gracitamiga (I)

      Vindo de quem vem (uma dona da Poesia) este comentário deixa-me babado, vou já comprar um babete. Talento? Teatro tentando ser um Gil Vacante...

      Mts qjs do Henrique, o Leãozão

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  5. Coitado ficar sem os dentes, sem o pastel de nata,
    é muito azar para uma pessoa.
    E o amigo como vai de saúde?
    Desejo que melhor.
    Bjs. para si e sua mulher-4
    Irene Alves

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    1. Querida Irenamiga

      Há dias em que um homem não pode sair de casa à noite. Mas como tristezas não pagam dúvidas, i.e., dívidas e apesar da falta da dentadura ele lá vai rindo...

      Vou... indo - um pouco melhorzinho: muito obrigado

      A Raquel agradece mas pergunta kéiço de mulher-4??????

      Qjs do Henrique, o Leãozão

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  6. Quanta coisa boa pra comer(mas om dentes,rs) e te ler sempre é bom! Obrigadão pelo carinho sempre lá no sementinhas e desde já desejo um NATAL muiiiito feliz.Em 2017 nos veremos, nos outros blogs,tnho tantos! abração,chica

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    1. Querida Chiquinhamiga

      Vais-me dizer JÁAAAAAAAAAAAAAAAAAA qual é o blogue para onde devo ir e escrever. Quanto ao NATAL quando for a altura logo falamos :-))))))

      Qjs Henrique, o Leãozão

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  7. Então, mas foi logo voltar ao local do crime?

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    1. Querida Luisinhamiga

      O Jota é completa e originalmente lélé da cuca!

      Bjs da Raquel e qjs do Henrique, o Leãozão

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  8. Já tinha lido o texto e pensava ter comentado. Mas ou me distraí e não o fiz, ou então saí antes de clicar no publicar.
    Coitado do Jota, além de ter perdido os dentes vai ficar sem uma pipa de massa com o dentista.
    Um abraço

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    1. Querida Elvirinhamiga

      Nã t'amofines mulheri. Uma côse é pensarí ôtra é fazêri. Atão nã haver de seri. O Jota como atrás disse é completa e originalmente lélé da cuca

      Qêjs do Henrique, o Leãozão

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  9. Olá, estimado Henrique!

    Como está? Como estão?

    Mas que textos! Mas que Saga! Mas que talento! Mas que linguagem tão natural, tão sua! Chega de adversativas, pke temos de pensar nas outras, tb, coordenadas.

    Logicamente que para entender este seu fabuloso texto, tive de ler os anteriores e para além de me rir muito, tenho de lhe dar os meus sinceros parabéns pela boa disposição k apresenta, pelo seu espírito sadio, pelo à-vontade linguístico (já o conhecemos), pela sua fabulosa imaginação e pelo prazer k lhe dá escrever. Todo prosa e de que qualidade!

    Pois, a Saga da D. Alzirinha está o máximo, mas a capacidade do Henrique é inesgotável, ao contrário das antigas minas e portanto, muita coisa, pode ainda acontecer.

    O Jota que tenha cuidado com a língua e já agora com os dentes, pke o "alantejano" não é pra graças, embora nós sejamos bem pacíficos, mas em narrativa, tudo pode acontecer.

    Pois, o homem não paga a renda, porque tem mais que fazer (ora, estou aqui pensando o que rima com fazer), bem, passando à frente, porque atrás vem gente, o seu texto está "de gritos" e dá-nos uma imensa alegria e boa disposição ao lê-lo. Continue, que a gente "grama bué".

    Ai, acho que o creme com pinça ou sem pinça, "compinça" sempre, Falou uma gulosa, pois já se vê.

    Ora, viva a Sra. D. Alzira, Virgem, nascida em finais de agosto, isto sou eu a "inventar", mais a imaginação e talento do nosso querido Henrique.

    Muito obrigada pela sua visita e comentário tão sincero (caramba, um homem não é de ferro)! Pois é, tudo o que é bom acaba, mas se assim não fosse, o nosso coração não resistiria.

    Beijos e abraços para a Raquel e para o Henrique.

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    1. Querida Ceuzitamiga

      Pode e vai acontecer, jura mesmo plo sangue di Cristo. Para já, a primeira cena dos próximos capítulos decorre entre a capela e um cardal, cena essa que tenta justificar o injustificável: a falta das tertulianas no Retiro do Meio Chão. Nestas coisas de livro de ponto ou relógio electrónico com a mesma finalidade não há atestado médico quanto mais de gato pingado que justifique qualquer falta.

      As adversativas com que me bombardeias, aliás exageradas, só podem ter uma resposta – aos abrigos!!! Já na II Guerra era assim e quando soavam as sirenas a malta encafuava-se no underground (que não sei bem o que é, mas penso que não é coisa de comer).

      Portanto e face ao que escreves só me resta a alternativa da bandeira branca. Desencho o peito (e a barriga, principalmente) e, vergonhosamente rendo-me.

      Ler faz bem a tudo ou quase. Vamos pela negativa, que me perdoe o Plano Nacional de Leitura. Não dá o primeiro prémio do Euromilhões. Não faz renascer o cabelo. Não prova quem foi o primeiro, se a galinha, se o ovo. Não origina qualquer tsunami que se preze. Não tira a carta de condução (a quem?). E por ai for uma carrada de nãos.

      Pela positiva já se sabe tudo o que da leitura resulta. Eu próprio sei quase tudo, ainda que com algumas dúvidas, a saber antúrio; assertivo; literacia. Conheço o raio das palavras mas não sei quando e onde as devo (ou tenho de) usar. E até invejo quem as utiliza frequente e honradamente…

      Por isso fico felicíssimo quando me informas que tiveste de ler a Saga já publicada embora o tenhas feito para entender a “coisa”. Mas, para além dos muitos obrigados diversos prepara-te: ainda vêm por aí mais alguns. Caramba!
      Bjs da Raquel e qjs do Henrique, o Leãozão

      E volta mais vezes, keu prometo fazer o mesmo…

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  10. Caríssimo Henrique, meus parabéns por mais um episódio emocionante desta Saga... só nã gostei muito da parte do dentista que também ando necessitado de lá ir... e já sei que de lá venho depenado :) mas é sempre um prazer acompanhar as suas crónicas. Um abraço.

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  11. Caro Manelamigo

    Ir ao odontologista quer dizer que já lá vai o mau-tempo - excepto naturalmente para a carteira e arredores. Daí que só te agradeça as amáveis palavras num quarto com casa de banho porque o restantes três quartos nem vê-los quanto mais senti-los... :-))))))

    Abç do Henrique o Leãozão

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  12. Boa tarde, amigo! mais um belo texto, gostei de ler o inimigo necessário odontologista.
    Bom fim de semana,
    AG

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  13. Caro Gomesamigo

    Os odontologistas não devem ser encarados como inimigos de ninguém. Mas quando se ena num consultório de um deles um cidadão já vai a tremer... Imagina-se como iria a Jota... :-((((((

    Abç do Henrique o Leãozão

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