2016-11-09



Um pedido

de desculpas

N
em sei como o fiz – mas fiz. E não fora a minha Anja da Guarda, a Fê ainda hoje estava a chorar lágrimas amargas (quiçá de crocodilo?) Já vos tinha dito que a Fê Blue Bird me tem ajudado em imensas situações qual delas a mais complexa. É uma querida a nossa Fê. E uma menina cheia de pachorra – sempre disposta a aturar-me (coisa difícil…), a elucidar-me (ainda mais…) e a resolver-me os imbróglios que origino dia sim, dia sim.

D
esta feita, (e juro que nem sei como…) cometi mais uma burrada: dei-me ao luxo de apagar o post Alzira – vida e obras. Em desespero, recorri à Fê. E num instante a minha Anja resolveu o quiproquó. Só não se safaram os comentários e as respectivas respostas. Que isto me sirva de lição (o que aqui para nós não creio que aconteça) para não voltar a dar mais barracas, tantas como se fora um acampamento de um regimento.
D
aqui, muito envergonhado (podem crer), peço muitas desculpas aos que foram afectados por esta minha estupidez. E espero não voltar a incomodar-vos.

Antunes Ferreira



2016-11-07






Antunes Ferreira

É
 caso raro que isto aconteça por aqui; mas mesmo eles têm as suas excepções que, sendo também raras, surdem à socapa e por motivos que têm de ser, não fortes. Mas fortíssimos. É o caso vertente e quem o fez explodir foi a nossa querida Gabrielamiga quando em post anterior perguntou, quase ansiosa, pela sequência da estória da Dona Alzira. Tinha-se ficado na oferta feita pelo campomaiorense dum pastel de nata – com açúcar e canela – à digna Senhora. Mas não é aí que se retoma a acção. Ela é muito mais anterior.



E
stava-se na cena em que Senhor Doutor Deputado (que alguns mal-intencionados diziam Deputedo… credo, t’arrenego Satanás!) tirava os três vinténs à jovem Alzira. Tudo indica que ambos gostaram da cegada, pois a heroína – a Alzira, que não a droga -  prosseguia a revelação em bom ritmo sob o olhar atento mas um pouco esgazeado das comparsas e do Segismundo que fingia seguir a telenovela “Benvindos a Louriçais”, mas estava de orelha em riste.

Camisa sem mangas para não ter filhos



D
ê-se, por conseguinte, a primeira pessoa à Senhora Dona Alzira. “E assim vivemos muito felizes durante dois anos ou quase até a malvada da desgraça cair sobre nós os dois. O Chico – chamava-se Francisco o Senhor Doutor Deputedo, porra!, Deputado, tinha-me alugado um quarto com águas correntes quentes e frias, ali à Engraça na Rua Não Digo o Nome, quarto andar sem alivador. E usava sempre o que ele chamava camiza- de-vénus, um tubo em borracha ou lá o que era que enfiava no coiso – para a gente não termos filhos. Faça-se aqui uma breve explicação: Alzira fora à escola, tirara a quarta classe com especialidade - uma ganda cunha do protector, mas dava erros de palmatória. E dá, até hoje.



P
orém um dia o meu Chico que tinha estado três semanas de cama com uma maleita nos pulmões, uma pulmografia ou coisa assim, vinha com tal vontade, logo que se levantou, de dar uma queca que deu duas, três ou quatro esquecendo-se da tal camiza sem mangas. Foi o Mafarrico, juro mesmo que foi o Demo que nos armou a armadilha. Resultado, engravidei e quando se começou a notar a barriga a crescer a Senhora Dona Adosinda, arquitecta e esposa do meu Chico deu conta (pois já tinha sido emprenhada pelos ouvidos pela Laurinda a cozinheira que e estava cheia de inveja de mim pois queria também trucar com o patrão e ele só tinha olhos e pau para mim,) armou uma saralho do carilho e eu fui para a rua.
Ou entra na linha...



Q
uarto com águas correntes quentes  e frias -  idem; sem alivador - aspas. A exigência fora da arquitecta que encostara o marido à parede, ou ela, ou eu! E nunca mais quero ouvir falar dessa gaja com falinhas mansas. Nem sequer respirar. Ou entras na linha, ou volto para casa dos meus pais e vou à Assembleia Nacional descobrir-te a careca e então é que vais ver o que é que são elas. E a partir de agora, camas separadas! Pensando bem, quartos separados – o que não falta praí é espaço. E o pandeleiro do Senhor Doutor Deputedo, o ex-meu Chico, acagaçou-se cumpriu indescrupolozamente as ordas da Senhora gaja e deu-me com os pés. Nunca mais lhe pus o olho em cima.



R
ecorri outra vez ao primo; a minha mãe já tinha entregado a alma ao Criador com um fleimão de caixão à cova e a rapaziada à minha volta pareciam abelhas em roda de uma flor. Estou práqui a roubar-vos tempo; ó Senhora não rouba nada, somos todas reformadas. Segue-se que passei por mais umas casas e um dia fui parar à Farmácia Boa Seringa, cujo proprietário era o Senhor Doutor Farmacêutico Ângelo das Neves que estava quase a bater a bota e tinha como ajudante um rapaz meio enfezado, o Manel Jimbrinhas que aviava algumas receitas e dava as injecções. Era para lá da Cruz de Pau, quase no Alentejo.
Tira o pé do tubo do oxigénio



O
 ancião, aliás muito contrariado, que eu bem vi, resolveu passar-se para o outro lado. Ninguém gosta de velórios, especialmente do seu, mas dali não e pode fugir é inivultável.  Houve até uma cena muito comovente. Com o velho já a despedir-se deste Mundo cruel e impiedoso, o Jimbrinhas (que afinal era seu sobrinho em segunda mão e por isso seu herdeiro) chegou-se à beira do moribundo para recolher as suas últimas palavras que foram estas, muito baixinho, mas eu ouvia-as: ó meu grande filho da puta tira o pé de cima do tubo do oxigénio.  



R
esumindo e concluindo: casei com o Manel Jimbrinhas nas Noivas de Santo Antoino (o sonso andava atrás de mim, vamos ser muito felizes etc. e tal) tive quatro filhas, cinco filhos e seis desmanchos e enviuvei à oito anos e já tenho cinco netos: três putos e duas pu…,chiça! miúdas. Não tenho vivido mal até à três semanas; mas a Cambra veio dar-me cabo da mona, que o Segismundo e Dona Filomena bem sabem; vivemos na mesma rua. Homessa!? Atirou a Menina Hortênsia. E a Dona Ester acrescentou, que se passa, há gatunagem? Drogados a dar por um pau?
Fazemos ou não os ninhos?



N
ada disso, minhas amigas. Eu conto, mas termino já, que tenho de ir acabar de fazer a janta. São as obras, foda-se, são as putas das obras! Mas, quais obras? A Cambra Municipal decidiu que estava na hora de mudar as canalizações da rua que aliás não é grande. E logo na época em que começam as chuvas. Ou deviam começar, que o tempo está como o resto, uma ganda merda. Até as andorinhas andam tresloucadas: fazemos ou não fazemos os ninhos?



P
rimeiro plantaram uns cartazes a dizer que pediam muitas desculpas pelos incomódos que causavam aos tenentes, a dona Esperança da Loja da Fruta diz que o que lá está prantado são os utentes. Mas que prometiam demorar pouco para não sacrificar os tais sargentos/utentes. Quero lá saber! Que se lixe a Cambra, que se lixem os cartazes! Depois vieram espetar nos passeios e no asfalto uns taipais em rede metálica cheio de mariquices – sinais de é proibido passar e outras frioleiras. Depois, bom, depois, descansaram ainda que não fosse o sétimo dia. 



B
em lá para o fim da semana seguinte chegaram uns Senhores de capacetes coloridos e uns instrumentos tipo binóculos a que chamaram tios de litros com os quais começaram a fazer observações e medições gastronómicas, foi o que me pareceu ouvir. Astronómicas, mulher astronómicas. Mas para quê? Ainda não estamos na Lua; na rua, sim, mas na Lua… Pois. Descansaram mais uns bocadinhos. Caramba, que gente mais cansada!... E finalmente vieram uns camiões, umas mánicas de escavar a terra outras de levantar os tubos que la estavam dentro, afastar os cabos que também ali se encontravam.
O Inferno no Inverno



F

ogo! Nunca pensei que debaixo de uma ruazita houvesse tanta confusão. E sobretudo lama. E para ajudar cortes de água e para ainda ajudar mais e mais tubos grandes em cimento, em plástico, em todos os materiais possíveis e imagináveis. O Inferno no Inverno como é o caso deve ser o Paraíso. E antes que me vá. O horário de trabalho é simples: de segunda à sexta – das nove da manhã à uma da tarde e das duas da tarde às cinco da tarde. Aos sábados e aos domingos: um bom fim-de-semana. Se isto não é produtividade… E a Dona Alzira foi-se. Fazer a sopa de feijão encarnado. Para a janta.

2016-11-02


Drogado
jovem
ou jovem
drogado

Antunes Ferreira


O
rgulhosamente usa no toldo e na parede o nome oficial registado em tudo o que é sitio e papel municipal e da freguesia Retiro do Meio Cheio (num bold corpo 260 bold) –Restaurante – Bar (num itálico corpo 150 bold).Como se vai tornando obrigatório a entrada de cães no estabelecimento é rigorosamente proibida; o mesmo já não acontece com a caca canídea que se conserva per omnia secula seculorum à frente da sua porta de acesso. Quem sabe destas coisas de negritos e cursivos é o Viriato Malaquias, antigo tipógrafo no “Jornal da Tarde”; e a malta que por lá abanca, reformados, desempregados, biscateiros ou trabalhadores diversos na hora do almoço e cidadãos inócuos que vêm pela bica, com cheirinho, ouve-o dissertar sobre composições, tipos, corpos, tituleiras, chumbos e até sangue-de-cristo; para além do offset. E aqui para no limiar da fronteira da desconhecida informática. Assim a modos como o cabo das Tormentas. E o Viriato não é o Bartolomeu; tem dias.


L
inguagem um tanto a dar para o arrevesado, hermética como dizem na televisão quando falam economistas e financeiros, além do Jorge Jesus, lá está o Malaquias para passar tudo a Português. Boa! Entretanto é preciso que se diga que tão pomposo nome traduz-se facilmente: é um tasco – mas onde se come muito bem. A Dona Filomena é mãe e cozinheira o Segismundo é o filho e atende os clientes quer dentro do balcão quer fora do mesmo. Enfim, para usar a língua Asaeana uma pme familiar. Sem subsídios. Na parede do fundo há um local especial para anúncios: HOJE HÁ CARACÓIS;
Sem legenda
AMANHÃ COZIDO À PORTUGUESA; 6. FEIRA BACALHAU COM GRÃO
etc. Menus diversos para todos os gostos e paladares.



A
 Dona Filomena na classificação geral dos cozinhados está muitos furos acima da santa do mesmo nome que, de resto, deu origem a uma tremenda controvérsia chegando mesmo a dizer-se que “a Filomena já não é santa”. Ironias do destino? Sabe-se lá. O que é certo é a santa afinal venceu a final e para mal dos seus detractores continuou na primeira liga celestial. No entanto, no que toca a refogados, rissóis e empadões nada consta a seu respeito. Que foi virgem – parece-me sim, o que, aliás, não é grande feito pois todas as mulheres o foram, mesmo Maria de Nazaré, ainda que subsistam umas pequenas dúvidas sobre um tal Espírito Santo. Até hoje não esclarecidas.


C
om isto se quer dizer que a insigne Dona Filomena, (viúva e dona de buço que qualquer guarda republicano invejaria) faz parte no mínimo o top ten das chef’’as lusitanas, para não dizer mesmo do top five. O seu cozido à portuguesa, a sua feijoada à transmontana, o seu bacalhau espiritual, as suas cabidelas, os seus pezinhos de porco com coentrada, os seus botelos com couves cozidas e os seus doces elevam-na à enésima essência, à vigésima segunda nuvem gastronómica-celestial, à direita de quem entra no portão guardado pelo São Pedro. E, se alguém de lá saísse (o que não consta de qualquer registo ou acta) seria à esquerda. Curioso.


P
elas quatro da tarde, abandonado pelo maralhal o local gastronomicamente abençoado, reúne-se ali uma tertúlia de três senhoras idosas, por vezes quatro. Ouvi-las conversar, recordar momentos passados, bons e maus, é um verdadeiro refrigério, dir-se-ia mesmo um privilégio, para os atrasados consumidores de sandes e minis ou tinto gelado. Que, por vezes, aceites pelas tertulianas, também metem umas buchas da autoria deles, pensando que com tal procedimento enriquecem a temática do dia. O que não corresponde à esperança dos recém metedores de colheres; cortar nas casacas tem que se lhe diga. E especialistas são… especialistas.
Para quê legenda? O texto diz tudo


O
ntem a Dona Alzira que tem uma voz de baixo-baixíssimo, 78, e é também viúva contava a sua história numa linguagem mais do vernácula, com o calão à mistura, informando as comparsas que com ela eram nove irmãos, a mais velha com catorze anos e o mais novo com quatro meses. Viviam num palheiro, ali a Carviçais, aldeia de Moncorvo, onde era preciso ir buscar água à fonte que ficava a dois quilómetros mais coisa menos coisa; no Inverno e descalços era fodido. Ela por essas alturas devia andar pelos seus sete/oito anos e nunca fora à escola.


O
 pai, farto da esmola que ganhava nas minas, cavara a salto para Paris da França, depois de ter emprenhado a mulher mais uma vez; hábitos. Côdea - pouca. Couves tronchudas – poucas. Chouriças – duas por ano. Caldo – quase todos os dias. Mal por mal a mãe Deolinda decidira ir para Lisboa, terra da perdição, mas também do mel e dos bifes. Ouçam meninas (a assistente mais velha ostenta sem aparato 92, quase 93 que vai fazer no princípio de Dezembro) foram nove dias à pata, felizmente que era Verão, dormindo ao relento, onde e quando calhava.


A
 minha mãe tinha um tio que morava numa rua chamada Filipe da Mata que deixou a gente ficar no pátio que havia nas traseiras e aos poucos fomos saindo para lugares que o tio e os primos seus filhos nos arranjavam. Eu, que já tinha fito nove anos, fui parar à casa de um Senhor Doutor Deputado, para cuidar das duas filhinhas e dos dois filhinhos que ele e a sua mulher tinham. Tudo gente muito católica, todos os domingos iam à missa e comungavam. E eu passei a ir com eles.
Entre mil beijos e carícias....


T
inham passado uns quatro anos, já me haviam aparecido as regras e crescido as mamas, estava uma mulherzinha, já me olhava ao espelho, não era bonita mas bem feitinha, fora promovida a criada de fora e preparava-me para ser ajudanta de cozinheira, quando uma noite, ouvi que de mansinho  abriam a porta do meu pequeno quarto no vão da escada. Era o patrão que me disse chiu e despiu o pijama mostrando-me uma coisa enorme e tesa que tinha entre as pernas e… entre mil beijos e carícias tirou-me os três vinténs.


E
ntretanto tinham entrado no tasco uns fulanos que pelos fatos que usavam carregados de tintas e de pó de cimento e de tijolos deviam ser pedreiros, pintores, estucadores ou coisas assim da construção civil (que aos poucos ia ressuscitando), que tinham pedido umas imperiais e uns tremoços.  Nesse momento um jovem desempregado profissional, drogado até dizer chega não, que por ali entretinha os seus ócios lendo o Correio da Manhã ou jogando no seu Smartfone, soltou, lá do fundo da pequena sala uma gargalhadinhas sacana: “Ó Alzirinha, nessa altura ainda havia os três?...” E um dos que acabavam de chegar, no mais puro alentejanês: “Havia, mê cabrão que te parto os cornos! Havia e há!” O puto drogado (a ordem dos factores é arbitrária), levantou-se, empertigou-se “É pá, se és homem, repete lá essa merda!” E avançou de punhos em riste! O campomaiorense fez-lhe uma chicuelina, e ferrou-lhe três murros nas trombas
Acabou-se - a festa e o gandulo
que o gajo até saiu de gatas. Nem apanhou os dentes partidos, muitos e espalhados pelo chão, e ainda rosnou “isto não fica assimmm…” O matulão de Castro Maior “pois nã, mê filho duma carrada de putas!” E foi-se a ele, levantou-o deu-lhe um enxurro de porrada que acabou com um pontapé ao fundo das calças, depois de outro mesmo em cima da braguilha. Acabou-se – a festa e o gandulo. À esquina a autoridade fardada de polícia, impávida e serena, falava pelo telélé quiçá para a namorada, ou para o namorado. 



“O
brigado meu Senhor…” disse a Dona Alzira com a voz entaramelada. “Nã tem de quê minha Senhora.” E voltando-se para o Segismundo: “Sai mais um pastel de nata para a Senhora Dona Alzira. Com açúcar e canela.”



2016-10-27


Em busca do filho
 da pauta 

Antunes Ferreira

C
hama-se Luís Fagundes da Silva e é segundo sargento saxofone da banda da Guarda Nacional Republicada, que dizem ser a melhor banda militar do País – e é (e o resto é paisagem…). Tem tocado por tudo o que é sítio – a banda e com ela o Fagundes obviamente – desde os concertos nas ruinas do antigo Convento do Carmo até à colónia de emigrantes em Nework, passando pela Venezuela, Rio de Janeiro, São Paulo, Paris, Berlim, Montreal e pela aldeia da Senhora do Vale de Baixo, porque o cabo Mendonça é de lá e o senhor comandante autorizou, mas só uma parte, a dos instrumentos de sopro, se fossem todos nem em cinquenta coretos caberiam…


P
orém, desta feita, está encarregado de um serviço que não tem nada – nada? Nadíssima!... – com pautas, claves de sol, fusas, semifusas, dós, rés, mis e neste preciso momento faz xixi ao sol. Quem lhe havia de dizer que em três dias consecutivos fora mobilizado para três ocorrências cuja música era outra longe, muito longe, da que estava habituado a tocar. O serviço era muito, os efectivos pouquíssimos, os objectivos lixados e depois de uma palestra a atirar para a psique do tenente-coronel Chicharro, a banda tinha dado corda às botas regimentais e aí foram eles, incluindo o Fagundes.

... das minas de São Domingos



T
ratava-se de procurar um tal filho da puta chamado Pedro Dias, que em Aguiar da Beira assassinara a tiro um guarda, camarada dele e um civil e quase mandara para os anjinhos uma senhora que acompanhava o falecido a tiro. O segundo sargento que não levava o saxofone sente-se nu. O instrumento de nada lhe serviria se topasse com o cabrão, mas à fé de alentejano das minas de São Domingos donde era, se o topasse, mesmo que o gajo viesse de fusca em punho, ia-se a ele e até palitaria os dentes depois de o comer à dentada.


É
 claro que ficara admirado quando o enviaram para uma tal diligência sem estar minimamente preparado. Mas el-rei manda avançar, não manda chover. Os militares da Guarda ficaram assarapantados: nem, ao menos uns coletes anti balas? Nos filmes que a televisão dava, toda a malta com ar de autoridade os usava, aliás de várias cores que até ficavam muito bem nos portadores. Cenas eventualmente chocantes – mas sem bolinha vermelha…



M
as as coisas não tinham ficado por ali. Os homens arrebentados de tantas andanças, para cá e para lá, por matos e pinhais e caminhos escalavrados, tinham recebido ordens para parar com aquela cegarrega. Resultados népia. Depois seria o caso de um puto de dois anos que desaparecera de casa dos avós, um “mistério” que metia por certo grossa mescambilha e umas massas graúdas, pais separados, enfim, o trivial. Quando elas acontecem quem as pagam são os putos. São os gemidos quando se fazem, são os insultos quando se desfazem.



P
orém para ajudar os homens entre eles o Fagundes o pessoal ainda fora a correr tentar caçar outro gabiru que também matara um cidadão. Caramba, é demais, pensa o segundo sargento sem saxofone, enquanto vai mastigando uma sandes de presunto de entre umas quantas que uma senhora compassiva veio ofertar acompanhadas de um tinto de estalo, é da nossa colheita, se quiserem mais é só dizer. Coitados, bem precisam, no estado em que estão… E o senhor é quê? Pelas divisas deve ser general. Muito mal devem estar as coisas pois até um general anda metido nestas embrulhadas…
Sem barba e com barba



F
agundes disfarça, tem vergonha de dizer que é apenas segundo sargento saxofone – mas sem instrumento, quer dizer, saxofone, não vá a benfeitora ficar na dúvida… – da Banda da GNR. Por isso pergunta à benemérita se sabe se há novidades do tal paneleiro, desculpe minha Senhora, queria dizer, do tal Pedro Dias, não tem que pedir desculpa, mulher séria não tem ouvidos e nos dias que correm já ninguém se importa com isso... Mas a televisão diz que o homem a quem chamam Piloto foi visto na Galiza nas aldeias de Sandias e Xinzo de Limia.



E
 quando horas depois um autocarro da Guarda o vem buscar, Fagundes deixa-se adormecer por escassos minutos, ou seja, passa pelas brasas. E continua a cismar em tudo o que aconteceu. A Guarda não está minimamente preparada para crimes daquela dimensão. Está sim para averiguar o motivo que levou um vizinho a matar um outro à sacholada. Divisão de terras, cursos de águas. Ou quando um cidadão dá cabo de outro por suspeita de estar a ser empalitado. E pouco mais.


A
 falta de coordenação entre as diversas forças no tereno, ou seja entre os comandos delas, eles próprios, andaram a apanhar papéis dando como resultado que no terreno o pessoal desamparado tivesse a sensação que andava a apanhar bonés, atrás dos jornalistas o que não deixava de ser verdade. A incrível distribuição de equipamentos, por exemplo, como já tinha referido, a falta dos coletes anti balas. E sabia-se que o fugitivo atirava a matar.

o amado saxofone



E
m resumo, conclui Fagundes, um potpourri carregado de pólvora condimentado pela incompetência, pela incapacidade, pela indecisão e pela descoordenação. Pelo menos. No que lhe toca pessoal e profissionalmente se calhar vai-lhe cair em cima um auto de averiguações, pelo menos, quiçá um corpo de delito; E, naturalmente, a família. Mas, espera também que vai ter à sua espera o seu precioso e amado… saxofone.  





2016-10-20

Governo
está
de rastos…

Antunes Ferreira
A
ndam por aí magotes de especialistas sobre orçamentos e temas que se lhes relacionam, numa demonstração evidente de que Portugal deixou de ser um país de poetas para passar a ser um país de economistas e financeiros – a maioria dos quais, infelizmente, desempregados. E uma significativa parte destes é, como habitualmente se sabe, patrocinadora da desgraça, alertadora de tsunamis económico-financeiros que vêm aí, coveira do Orçamento 2017, em suma defensora do cataclismo universal, disfarçado de democracia. Que, afinal até à data, felizmente não tem chegado

N
ão falo por falar, falo por experiência própria: em 1995 como assessor para a comunicação social do então ministro das Finanças passei 58 horas, sem dormir, no Terreiro do Paço, para acompanhar o processamento da última versão do danado OE. E não participava na elaboração do…documento. Porém, já integrei a equipa do ministro que foi à Assembleia da República entregá-lo na versão (ainda) em pastas. Futuramente teria de esclarecer os jornalistas sobre os pontos fulcrais do OE… E só vendo podia garantir a mim mesmo que depois não meteria o pé n poça…E ai de mim que não fosse capaz des responder às perguntas mais estapafúrdias: seria sujeito às maiores torturas executadas pelo Torquemada ou por um primo muito chegado a ele importado directamente da Opus Dei, sem IVA e direitos aduaneiros Muitas vezes sentiria o meu pescoço (e o resto…) a caminho do cadafalso.

Nesta foto tirada no Parlamento há umas caras...


N
outras ocasiões também gravíssimas igualmente suspeitaria de que um cuidadoso e honesto trabalhador da Camisaria Moderna (cujas camisas não fazem pregas no peito nem rugas no colarinho) já andaria de fita métrica na dextra tirando-me as medidas certas do que ainda era o meu pescoço. De noite e em pleno Estio acordaria pejado de suores frios; pelo contrário no Inverno, mesmo Inverno a sério, os suores quentes eram tão quentes que dariam para fazer uma canja  à maneira: com galinha do campo, claro, ou um cubo Maggy  

D
izem sapientes do alto das suas cátedras e dos ecrãs em que se pavoneiam que “O Governo de António Costa está de rastos, ministros e seus apoiantes parlamentares não há um só dia que não se entendam, arrastando perigosa e penosamente o poder para o precipício!!!...” Aliás, precipício há; poder é que não se deixa arrastar. Valham-nos estas novas pitonisas televisivas, estes comentadores do mais fino trato,
JGF - O Toppo Giggio português 
analistas de inspiração cavaquista “que nunca se enganam e raramente cometem erros”. Daí até à queda do Governo não custaria nada. Segundo esses iluminados seria tiro e queda.

P
orém basta uma pequena reflexão para desmontar esta “gigantesca cabala”. Se o BE e o PCP deliberassem dar cabo do que a direita chamou “gerigonça” (termo que se vai generalizando, mas de que não gosto nada) nunca mais voltariam a ter a oportunidade que hoje têm: apoiar no Parlamento um Governo. De quem? Do PSD? Do CDS? Respondam-me, por favor…      


(Este texto devidamente adaptado foi enviado
 como habitualmente aos blogues onde colaboro
 “Sorumbático” e “A Zorra da Boavista”)