2016-05-22


Antunes Ferreira
E
ra uma velha mercearia cujo dono, o senhor Vicente lutava todos os dias para manter a porta aberta. Num bairro de gente pouco abonada, uma classe baixa a descer para a miséria. Na linguagem das agências de notação (dizem que é o raiting que a população, incluindo o Senhor Vicente, não sabe que raio de coisa é) a classificação dos quarteirões e seus habitantes seria BB o que significa “lixo” É óbvio que há que ter muito cuidado quanto à forma cabalística que os financeiros usam a fim de baralhar os indefesos cidadãos. Que não ficam a perceber patavina dela.

Ó Evaristo tens cá disto?


T

odas as manhãs ao correr a porta ondulada que fechava o estabelecimento à moda do antigamente, o senhor Vicente deitava uma vista de olhos pelas prateleiras onde se alinhavam (?) os produtos que vendia e só depois ia à arrecadação/escritório vestir a bata cinzenta com que se apresentava aos clientes. Se fosse no cinema dos anos quarenta seria o senhor Evaristo interpretado pela António Silva e a quem o Vasco Santana chateava com a pergunta provocatória ó Evaristo tens cá disto? Mas isso era no “Pátio das Cantigas”…

N
essa manhã Vicente sobressaltou-se: faltava qualquer coisa; eram as caixas de fósforos familiares e da marca Quinas. Não lhe faltavam todas mas simplesmente uma; ele sabia exactamente as quantidades das mercadorias. Se fosse um quilo de batatas que agora já vinham com preservativos de sacos de plástico era mais fácil dar pela falta, era só subtrair, quem de vinte tira um restam dezanove. Já com as caixas de fósforos dariam um trabalhão: conta-las para ver se nas fileiras faltava uma. Mas para Vicente não era necessário; bastava olhar para a prateleira e dar logo pelo hiato. E o problema era que faltava uma.
...era agora empregado de mesa


N
ão era caso para a Judite que os agentes se rebolariam a  rir de eventual queixa. Mas lá que faltava uma – faltava. O suspeito do crime de furto veio-lhe de imediato à cabeça: tinha de ser o Fagundes marçano militante que o ajudava e que por causa da crise tivera de despedir sem lhe pagar a indemnização devida e contemplada pela lei do trabalho, era ele, sem dúvida. E logo se lembrou de contactar o Calheiros, subchefe da Polícia reformado, a quem ofereceu uma ginjinha na taberna do Miranda mesmo ali ao lado.

D
isse-lhe que lhe pagaria bem se descobrisse o mistério, aí coisa de cem euros por dia, evidentemente sem recibos verdes muito menos IVA. O antigo cívico tentou trava-lo, ó amigo Vicente, tanta preocupação por uma ninharia, uma caixa de fósforos…Mas era minha e aliás era do tamanho familiar: 50 amorfos. Bem tentou Calheiros dissuadi-lo, a malta vai gozar com essa encomenda; mas pensando bem sempre eram no mínimo cem euros / dia. Com despesas de alimentação? Coma o que quiser com algumas excepções: lagosta ou caviar ou peito de faisão.

Palitos de Lorvão


C
alheiros deitou mãos à obra. Chovia e de que maneira. O dilúvio universal do senhor Noé era um niquinho comparado com os cordões de água desse dia. Mesmo assim foi falar com o Manuel Fagundes - que então já era empregado de mesa - que se encheu de gargalhadas, o Vicente é um somítico, tanta verborreia por uma caixa de fósforos. O tipo pôs-me na rua porque deu por conta que lhe tinham bifado umas merdinhas: palitos. Ainda se fossem de Paradela de Lorvão.. . Mas eram apenas chineses feitos de bambu. Nada, ele Fagundes não tinha nada que ver com fósforos mesmo sendo Quinas e de tamanho familiar. E deu-lhe um conselho: vá pregar para outra freguesia,

O
 subchefe reformado da PSP recolheu a penates um tanto cansado, desanimado e muito ensopado.  A dona Etelvina – sábia esposa – disse-lhe que ele estava a criar uma gripalhada. Se viesse com uma carraspana não seria pior. Já não comeu a sopa de alho porro e carregado de espirros, A mulher meteu-o entre lençóis e receitou-lhe a mezinha  clássica, abafa-te, avinha-te e abifa-te e preparou um grogue com muito chá de limão, mel e dois decilitros de medronheira vinda directamente do produtor, o pai dele era de Paderne, que lixe a ASAE. Meteu-lhe duas aspirinas no buxo e fez-lhe um bife do lombo com todos os matadores, sal, pimenta e alho à farta que o obrigou a comer. Durante a noite a febre que chegara aos 39,7 baixou à custa duma tal suadeira que levou a Etelvina a mudar-lhe o pijama.

M
uito contra vontade dela, ainda apanhas uma pneumonia, anda por aí um andaço nos pulmões, Calheiros levantou-se, gabardina, cachecol e guarda chuva, embora já não chovesse, apenas pingolejava,  e decidiu-se pelas derradeiras diligências: ver se nas contas das caixas de fósforos Quinas, modelo familiar não se dera o caso de Vicente ter-se enganado nas contas. Debalde. Estava vencido, nunca tal lhe acontecera que se recordasse… Mas perseverou. Correu todos os estaminés do bairro inteiro e nicles.
... um par de te... olhos


A
té foi ao salão de beleza unissexo Pluma de Seda da Dona Deolinda. Na verdade não o levara ali a pega da caixa de fósforos. Foi ver a Gigi, uma mulata brasileira que lá trabalhava de manicura e de pedicura e que tinha um par de te…, oops, de olhos que até enfeitiçavam o cego Jeremias, de óculos escuros e que se safava fazendo uns recados com a bengala ás riscas vermelhas e brancas tentando o percurso 

E

ntrou na mercearia e por descargo da consciência foi ao cubículo a que Vicente da Purificação chamava escritório e mal abriu a porta cheirou-lhe a ovos podres. Mirou e remirou e finalmente descobriu o caso. Então informou Vicente que estava encontrado o ladrão: uma ratazana que era inquilina da mercearia, farta de queijo flamengo e de chouriço de Portalegre experimentara os fósforos.  E pum! - dera-lhe o badagaio. Como é que você fez isso? Bem merece os duzentos euros (relembra-se que tinham sido dois dias de pesquisa ingrata, dois dias em que dera o melhor do seu esforço e da sua pituitária…)

A falecida está morta...

O agente reformado respondeu fui dar com ela deitado de pernas para o ar debaixo da prateleira das facturas. Tinha sido envenenado pela ingestão dos amorfos e posso assegurar-lhe que a falecida estava e está devida e definitivamente morta.     

2016-05-17

  

O estranho caso
do colchão de praia

T
Antunes Ferreira
razia um cavalete de pintor conveniente e cuidadosamente dobrado debaixo de um braço cuja mão segurava um banco de lona e pernas metálicas igualmente fechado e na outra mão uma tela enrolada e segura por elásticos que a agarravam. Na mochila, pelo volume que faziam era de certeza uma caixa de tintas e duas ou três paletas bem como espátulas de diversos tamanhos e uma parafernália de lápis de muitos números de grafite preta e outros de cores, canetas de ponta de feltro diversas, esferográficas, apara-lápis, por certo algumas borrachas e claro que também um canivete do exército suíço

E
u estava a picnicar com a Clarissa – a minha namorada – tínhamos estendido no chão uma toalha onde carreiros de formigas tentavam comer umas sandes de presunto com manteiga, uns pastéis de Belém, mais um tigela de salada com muito pepino e pimentos grelhados (há que dizer que os perfeitamente nus fazem-me mal ao fígado). Obviamente duas garrafas de rosé, gelo, uns refrigerantes e umas garrafas de Pedras para rebater.

D
e estranho só se vislumbrava um colchão de praia azul escuro em que a minha querida estava sentada cruzando as pernas mais apetitosas do que as sandochas. Para quê um artefacto próprio para um homem se aventurar nas salsas ondas sem saber nadar naquele local campestre? Pergunta justificada pois a Clarissa e eu estávamos sentados
E descontraídos...
descontraídos no colchão debaixo dum pinheiro bravo cujas agulhas picavam como acontece habitualmente com as agulhas de… coser. Daí que o colchão servia a dada altura do repasto não para dormir a sesta – ainda que modelo casal – mas para praticar ginástica supostamente procriadora ao ar livre.

O
 homem era mesmo um pintor, armou o cavalete botou-lhe a tela, desenroscou o banco, sentou-se de paleta na mão direita, então o tipo era canhoto, pois fazia tudo (que se visse) com a mão esquerda. E começou a desenhar a carvão um esboço de um casal em vias de facto. Muito devagar. Presumi que estava à espera que lhe surgisse um qualquer modelo, no caso dois porque o estado de criação não avançava ou se avançasse seria a passo de caracol. 

N
ão me contive, cheguei-me a ele, boa tarde, ó senhor pintor vai ter esperar muito porque nós viemos picnicar e somos como são os alentejanos que no fim dum dia de trabalho tiram as mãos dos bolsos… Então para que é o colchão? É só para fazer publicidade aos colchões de praia Hámar . Mas não tem nada escrito… Pois não é uma campanha para cegos.

O
 pintor desfez o que tinha feito e zarpou se sequer se despedir. Saíra-lhe a dar para o torto a ideia e intenção de pincelar. Debaixo dos pés mesmo de um artista na pintura se levantam os trabalhos. E a Clarissa e eu deixámos as formigas no campo de batalha e fomos fazer o programado ou seja batalhar no colchão. De praia – no campo






2016-05-14



Debruado a rugas



AVISO AOS INTERESSADOS E ATÉ AOS DESINTERESSADOS:
Este post tem apenas umas pinceladas políticas; não parece bem
ao modesto autor dele que seja muito saudável bater e rebater
questões que vão dos Panama Paper’s (onde o Senhor Ângelo Correia
nunca participou, segundo declaração do Senhor Ângelo Correia)
até aos erros ou os sucessos deste Governo, e a frenétíca presidência
do Senhor Marcelo Rebelo de Sousa
passando pelo fel destilado pelo Senhor Passos Coelho
em cada discurso ou comentário que faz…


as minhas imagens.jpg
Adicionar legenda

Antunes Ferreira
Comparar o velho debruado a rugas com Noé era exemplo de asneira; o homem da arca vivera até aos 950 anos tornado exímio desengarafador de tinto, branco, rosé ou verde. Se o fizermos com Matusalém, o resultado ainda é pior. De acordo com a Bíblia – Antigo Testamento, citado no Génesis 5:21-27 e transcrevendo a Wikipédia, o nosso personagem terá sido avô de Noé e falecido no ano em que começou o Diluvio Universal a coisa é muito diferente pois este personagem bíblico chegou à bonita idade de 969 anos.
 Matusalém, Metusalém ou Metusalah (do hebraico מְתוּשָׁלַח) foi o homem mais longevo que marcou lugar nas páginas sagradas seguidas especialmente pelos judeus. Pois o velho que quando jovem vendia cautelas, anda hoje à roda, o primeiro prémio é de cinco mil contos, num local próprio, na esquina dos Restauradores com a rua Jardim do Regedor onde ficava a antiga sede dos vermelhuscos encarnados, hoje conta as horas, os dias e quiçá os anos, e vê passar os navios em especial os de cruzeiros sentado à sombra do Adamastor no Largo de Santa Catarina.

Não é preciso perguntar-lhe quantos anos tem – ele sabe-os bem – pois, tal como as damas subtrai-lhes uma quantidade deles. E a cara sulcada por muitos arados, daí as rugas, informa, muda, que o velho tem muitos anos. E os que passam paulatinamente, reformados a quem o Passos e o Portas tiraram uma fatia das pensões, miram o velho mas não se detêm a fim de apanhar lugar nos bancos de madeira e ferro que são poucos. Nos outros – nem pensar.


Um dia vou perguntar-lhe se sabe quem foi o Matusalém e tenho a certeza de que me vai responder que não o conhece mas se calhar é gajo para ter jogado no Oriental. Não se recorda mas tem a certeza que não foi futebolista quando os Grandes incluíam o Belenenses.

APRESENTAÇÃO

Este blogue que hoje se inicia funciona em paralelo com  A Travessa do Ferreira. Isto quer dizer que os textos publicados num e no outro são os mesmos. Parece-me que será mais fácil comentar aqui. Mas, se calhar, a vossa opinião é outra; mas como nos meus blogues a Liberdade e a Democracia são absolutamente uma regra sem excepção poderão expressa-la nas colunas ora iniciadas sem receio de qualquer tipo de censura. Insultos despropositados não; comentários por mais ácidos que sejam, sim Conto como sempre com a vossa colaboração e espero e desejo que gostem desta nova aventura na Blogosfera. Sejam bem vindos