2016-07-08

À noite mata



ATENÇÃO: Esta é uma estória verídica que
tem como protagonistas exclusivos
o autor e dois dos seus netos e aconteceu
 em minha casa aqui ao Lumiar em Lisboa
. Não querendo enfatizar a importância dos dois
malandros que formam o par com
 que me defrontei (e eles merecem que não
 os ignore), tenho de confessar que um deles
 foi o actor principal foi enredo acompanhado
 do outro; o infeliz fui eu. Muito obrigado




Antunes Ferreira

H

á quem diga que há tempo para tudo: trabalhar (coisa que cansa muito), estudar (que não cansa menos) brincar, namorar, amar, comprar e vender, ler e escrever; mas não se pode ignorar que também o há para comer. Aliás este verbo transitório tem muito que se lhe diga. Comer é essencial para a vida de um qualquer animal incluindo, claro, o inteligente. Come-se quase tudo. Os chineses dizem que uma coisa com quatro patas e que não seja uma mesa, eles comem e uma coisa que voa, exceptuando um avião, também eles comem



C
oncluindo: a laranja obviamente come-se; depois de descascada, os gomos são uma 
delícia. Eu, pelo menos penso assim; mas tenho a certeza que muito boa gente-esta comigo neste particular, ou seja comer laranjas. No entanto também existe muito pessoal que não participa nesta posição; por exemplo os que não gostam delas, e os que até as odeiam. Costumo dizer que toda a regra tem excepções.

O descasque prévio



D
epois destes prolegómenos, o motivo que me traz aqui a estacada é justamente o comer laranjas. Explico: estava eu, depois de um jantar opíparo de malga de sopa de legumes, sem batata, os dietistas e os naturalistas são cada vez mais perigosíssimos, acompanhado de meia fatia de pão integral, preparando-me para comer uma laranja. A preparação inclui naturalmente o descasque prévio; porém já o fizera e estava prestes  a engorgitar o primeiro gomo quando chegaram o Rodrigo e o Vicente que como habitualmente estavam na nossa casa o que a Raquel e eu adoramos.


C
omeçou então um drama existencial que feliz e obviamente não meteu agressões muito menos armas brancas ou pretas, não sou adepto de quaisquer apartaides. Apenas um impositivo, avô não faça isso! E o primo e companheiro de pleiseteichões, Vicente, mirava-me com ar suspeito embora complacente. Essa gora, por que bulas não hei-de comer tranquilamente uma laranja? Pois se até a Dona Amélia dietista ma aconselhou, disse-me que o posso e devo fazer porque contém fibras poucas calorias, a volta de cinquenta e…

À noite mata...



R
odrigo interrompeu-me: avô não se trata disso, eu bem sei os benefícios da laranja (o tipo já fez o segundo ano da Faculdade de Motricidade Humana e não sei mais quê que no antigamente era o INEF e que depois escolheu a especialidade de treinador de futebol (argolada: é coisa que há mais do que advogados no inferno...) E o moço explicou todo impante: de manhã a laranja é ouro; à tarde é prata e à noite mata! Abri a boca – sem meter o gomo, pelo sim, pelo não – e perguntei-lhe onde é que ele aprendera isso. Em Estremoz em casa do avô Parreira. (que é o pai da Margarida casado com o meu primogénito Miguel, logo avô do Rodrigo e do João e por isso meu compadre, aliás muito fixe)   


J
á não se pode confiar em ninguém nem na própria sombra, assim vai o mundo. A nomeação do Senhor Dr. Durão Barroso para presidente não executivo do banco que manda no Mundo, ou seja o Goldman Sachs, é disso exemplo flagrante.  No caso vertente não podia dizer que não confiava no meu compadre Parreira, pois ele podia melindrar-se, embora não creia nesse melindre. Perante o dilema como ou não como retirei-me para a cozinha onde muitas vezes tomamos as refeições e regalei-me com a laranja da Bahia (sem grainhas) que é uma falsidade pois ela vem do Algarve.






2016-06-30


A farmácia

e a prostiputa



Antunes Ferreira

C
á fora há uma cruz verde iluminada e piscando onde passam GLICEMIA, TRIGLICÉRIDOS E COLESTEROL indicando as análises que ali se fazem. Depois o nome da farmácia, a data, a hora e a temperatura. Era uma das maiores que o Justino via, e ao entrar descobriu que abarrotava de gente. Um sujeito disse-lhe que era preciso tirar uma senha com o número que lhe anunciava o atendimento. Indicou-lhe a maquineta e explicou-lhe como funcionava, é só carregar no botão…


Felgueiras - Moncorvo



J
ustino Silva Gonçalves era transmontano natural da aldeia de Felgueiras junto a Moncorvo, onde também vivera toda a vida, 22 anos de idade, solteiro e as vizinhas consideravam-no um bom rapaz, temente a Deus, missa semanal. Terra curiosa, dentro dela não se apanham as chamadas do telemóvel...: ali vive o último cerieiro de Portugal. Pela primeira vez vinha a Lisboa. Para ele era tudo uma novidade, sentia-se como um boi a olhar para um palácio, era tudo enorme.



C
omo tinha combinado foi ao Bairro Alto para ver o primo Manel natural de Maçores, um bagaço de estalar e porque torna e porque deixa, puseram a escrita em dia. O primo indicou-lhe que devia ver a turística
Sem legenda

travessa do Cunhal das Bolas (Seria da família do chefe dos comunistas?) que até tinha tabuleta na parede e era pequena como tudo no bairro, Iria, tá claro, mas só na próxima visita à Capital.

Q
uando vinha embora Manel explicou-lhe que o Bairro Alto do antigamente era o que se chamava um antro de perdição, porque tinha muitas pegas e casas de passe juntamente com tascos e restaurantes onde as rameiras cantavam o fado, acompanhadas à guitarra pelo Zé Falcão e à viola pelo Chico Aventureiro. Porém muito desses “inconvenientes” estavam a desaparecer.


R
ameiras? São as mulheres da vida respondeu o Manel, e o Jaquim, com uns pontos de interrogação, o que é isso? São as protisputas como lhes chamam as pessoas finas e nós dizemos putas. Se galares alguma lembra-te do que te digo; toma cuidado e atenção.
Uma senhora dos seus...
E foi precisamente quando chegava à travessa da Queimada onde o Manel lhe tinha dito que era a Redacção da BOLA, que uma senhora dos seus cinquenta e muitos o convidara para dar uma queca.




P
orém em Felgueiras o Jaquim Gomes avisara-o que sem camisa-de-vénus não podia fazer nada e por isso fora à farmácia para comprar uma. Possa! A velhota a caminho dos cinquenta e muitos, carregada de pó de arroz e de outra porcaria que na televisão diziam que era meique âpe, as beiçolas pintadas de vermelho forte e pestanas postiças, dissera-lhe que não era preciso, que era muito cuidadosa e limpinha, lavava-se por baixo todos dias. Duvidoso, fora-se pelo Jaquim Gomes que era da aldeia e barbeiro, homem de saberes e sobretudo amigo. Mas ficou a ruminar: como era tão grande a desgraça, a austeridade, o desemprego e a fome que levavam uma gaja já muito fanada a prostiputar-se…


Estamos cá para isso



N
a farmácia coubera-lhe um papel saído da mánica  com o númaro 0169 e no mostrador na parede ainda ia o 0032. Safa, eram mais de cem númaros de diferença. Três horas e meia depois uma Senhora com ar de duquesa ou coisa assim que tinha o 0165, raio de lotaria, amanhã é que anda à roda, chegou-se ao balcão e disse ao empregado que queria comprar um batom mais primeiro precisava de experimentar para ver a cor exacta que costumava usar. Mas não queria abusar do tempo que lhe roubava. A atendedora, minha Senhora estamos cá para isso…





E
ntretanto aproximavam-se em alta velocidade as sete da tarde hora em que fechava o estabelecimento, o que aconteceu num instante. Pelo altifalante, uma voz maviosa informou: as senhas restantes ficam para amanhã respeitando a ordem deste dia. Por favor têm de trazer as senhas. Chiça! logo lhe havia de acontecer uma tal coisa, e a camioneta para Moncorvo saía às sete e meia. Estava perdido e estava perdida a camioneta. Telefonou ao primo Manel dando-lhe conta da chatice que tivera, ao que ele lhe respondeu: antes isso do ter partido uma perna. Dormes cá em casa, vestes um dos meus pijamas, escova de dentes e pasta há e mais, depois xixi e cama no quarto das visitas que agora não há nenhuma.


Um antro de perdição ou de salvação?



T
Iro e queda, assim aconteceu, ainda jantou umas postas de pescada frita com arroz de tomate que estava de lamber os dedos. No quarto das visitas deu consigo a fazer trabalhar a cachola. E resmoneou que não comprara o persebatibo, não comera a gaja e arranjara casa e comida. Lisboa era mesmo um antro de perdição, o Jaquim Gomes bem lhe dissera. Mas também de salvação, o primo Manel ? – não a capital.

  

2016-06-23



Os elefantes
do Maiombe

Antunes Ferreira
O
 Maiombe era uma atração para caçadores a sério daqueles que atiram aos elefantes e algumas vezes matam-nos. O que pode dizer-se que é que ela é muito perigosa para os caçadores mas sobretudo para os paquidermes. Sendo uma das maiores florestas do Mundo, a segunda segundo alguns também representa outro perigo: perder-se dentro dela. Em Angola parte do Maiombe fica em Cabinda e confina com os dois Congos.

B
exiga cirurgião dentista de profissão e caçador de militância decidiu partir de Luanda e chegar à enorme floresta seguindo por aquela província angolana. Levava consigo o seu filho Malaquias para ver ao vivo o que eram os elefantes; mas também para lhe dar umas lições de como abater um proboscídeo; ó pai que raio de coisa é essa, um automóvel, um submarino como os do Portas ou uma cegonha daquelas que trazem os bebés de Paris? Que raio de pergunta; respondeu-lhe o pai, é um elefante.

...ainda acredita no Pai Natal?


O
 dentista interrogou-se sem mexer sequer os lábios: será que o rapaz quase a fazer os dezassete ainda acredita no Pai Natal? Bom. Depois logo se verá, a ser assim tenho de dar-lhe umas lições sobre esses mistérios da natureza incluindo obviamente a origem das playstations que lhe dou no dia 25 de Dezembro e que não uso barba branca nem me visto de vermelho, eu até sou do Sporting. E enquanto pensava assim iam entrando na mata e o Malaquias moita-carrasco.

Com árvores tsunâmicas de grandeza


E
 de repente deram por eles completa, radical e abissalmente perdidos; com uma agravante não tinham trazido qualquer tipo de comida pois contavam que a primeira “peregrinação” exploratória na floresta fosse no máximo umas seis horas. Em resumo, se gastassem a água do cantil dele estavam f…oops, feitos, o do Malaquias se comparado com o Sará ainda estava mais seco. Por isso foram andando aos trancos e barrancos entre as árvores que eram tsunâmicas de grandeza, nem permitiam entrar a luz, mesmo que o Sol lhes pedisse por obséquio. E assim palmilharam durante três dias…

... como esqueletos


U
ma clareira! Estamos safos! Outro pai e outro filho, apresentaram-se era o Eng.º Boticas e o rapazote Simão obviamente Boticas. Nem respiraram, foram logo perguntando: há aqui qualquer coisa que se coma? O ar dos cidadãos recém encontrados dizia tudo ou melhor dizia nada: nem morfos, nem bóbidas, enfim nadíssima. Despediram-se os Bexigas esfomeados como se já fossem esqueletos dos Boticas igualmente. Os segundos perfeitamente desanimados deixaram-se ficar aparvalhados, enquanto os primeiros prosseguiam.

M
as para onde Deus do Céu? Não havia semáforos, nem placas indicativas do destino, muito menos polícias sinaleiros. E com os estômagos colados com Pattex aos intestinos por onde não passaria sequer um bago de arroz; daí que se fossem lembrando da parábola do rico, do pobre e do buraco duma agulha. Estavam desgraçados, iam morrer de fome e de sede. E o Bexiga era viúvo só tinha o Malaquias como herdeiro. Com ambos definitivamente falecidos, os bens que o dentista tinha iriam parar à Santa Casa da Misericórdia com o Santana Lopes a sorrir embevecido.

Extinto há milénios


R
aio de merda! clamava o cirurgião e o Malaquias juntava-lhe porra! Foi nesse instante que ouviram um restolhar. Seria um elefante quiçá um mamute, mas este estava extinto há uma porrada de anos… Era o Bexiga júnior que vinha pelo capim ofegando. O puto parou, respirou fundo e falou: o meu pai manda perguntar-vos se gostam de ovos mexidos com chouriço?

M
édico e filho resplandeceram: claro que gostamos, vamos a eles! E o Simão: ainda não acabei, pois o meu pai ainda manda dizer que nem isso temos… Bexigas entreolharam-se, a coisa estava mesmo preta o que não admirava pois estavam no continente africano. Não enforcaram o mensageiro porque não havia corda.  

______________
(
Esta estória resulta de um lamiré - mas não posso dizer de quem é...)



2016-06-17



Antunes Ferreira
C
oronel (na reserva) Sebastião Lopes Monteiro, viúvo, adorava contar estórias da guerra do Ultramar (continuava a dizer assim, nem pensar em colonial) em particular com ele como protagonista. Aos 82 anos conservava ou julgava que conservava o garbo e o pundonor militares, mas as dioptrias eram um problema, assim como a bengala de castão de prata pois manquejava. Gota, diziam-lhe os médicos, mas Monteiro não aceitava o diagnóstico e à porta fechada insultava-os: grandes pulhas, querem ver-me a fazer tijolo, mas comigo não, no fundo quase que se julgava eterno.

Rendição de Goa


U
sava dizer que os anos passavam por ele mas não o desarmavam. Aí, valente! Se ele tivesse estado em Goa em Dezembro de 91 como alferes (da Escola do Exército) teria derrotado os 54.000 homens do Exército, Marinha e Força Aérea indianas. Sozinho, de Mauser em punho, dizimava aquela soldadesca de pacotilha, e aqueles pan…, digo, maricas dos portugas, a mando dum general (nem queria dizer o nome do gajo) governador-geral tinham-se rendido, contrariando as ordens do Senhor Presidente do Concelho!

E
ra em casa da dr. Joaquina, companheira da sua falecida esposa, Deus a guarde à Sua direita, em Odivelas, que contava as suas estórias durante os chás das quintas-feiras onde também se jogava o king ou a canasta. Compareciam diversas Senhoras, sempre as mesmas, o reverendo padre Francisco, prior da freguesia e o conselheiro Fagundes jubilado. As Senhoras escutavam o coronel (na reserva) de olhos arregalados, nem todos os dias se podia ouvir um herói, e Lopes Monteiro era-o…

Manutenção de Piper militar


P
or uma tarde cacimbada, o aquecimento ligado, a Senhora Dona Celestina – que não fora companheira da sua saudosa cara-metade nem estudara em Odivelas, mas era uma pessoa fina – pediu-lhe que contasse mais uma estória das suas campanhas em África, mas Vossas Excelências já ouviram todas, ou quiçá…, perdoar-me-ão mas mesmo agora me recordei de uma passada em Moçambique numa avioneta que penso que não vos contei…

C
onte Senhor Coronel, que essa não ouvimos, por obséquio conte. Ao grupo de Senhoras chegaram-se o prior e o conselheiro aposentado para ouvir Lopes Monteiro. Sentaram-se todos mas o coronel (na reserva) ficou firmemente em pé apoiado na sua bengala de castão de prata e começou: ia numa Piper (uma avioneta de reconhecimento) militar pilotada por um furriel miliciano da Força Aérea, de seu nome Amável, quando passávamos sobre uma manada de búfalos.

Uma manada de búfalos


O
rdenei ao piloto rapaz faz um rase-motte sobre a manada e ele assim fez; rapei da minha Parabellum (para quem não saiba, Senhoras e cavalheiros, era uma pistola alemã muito fiável e segura), abri a janela da Piper, apontei e dei só um tiro e um búfalo caiu. Aterrámos de seguida numa chana e vi que a bala acertara justamente no olho direito do quadrúpede. Nisto Lopes Monteiro reparou que as Senhoras levantavam pudicamente um pouco das saias e os cavalheiros puxavam as calças ligeiramente.

F
ranziu o cenho e perguntou: fazem o subido obséquio de me explicar o que se passa? E a dr. Joaquina explicou que estavam a meter água. Mas, rebentou algum cano? Não é a água que metemos por mor da estória que Vossa Excelência, Senhor coronel (mas não disse na reforma) nos contou.

Nunca mais...

S
ebastião Lopes Monteiro, coronel (na reserva) pigarreou, muito boas noites a todos, saiu da sala manquejando embora apoiado na bengala de castão de prata, vestiu a gabardina pegou no guarda-chuva e zarpou. Enquanto esperava pelo ascensor pareceu-lhe ouvir um coro de gargalhadas vindo do interior do apartamento. Entrou no elevador; velhas filhas da p…, oops, da mãe, juro pela alma da minha Ernestina que nunca mais aqui volto! E carregou no botão do rés-do-chão.
  


2016-06-12

  



Quando eu for grande

Antunes Ferreira
Q
uando cheguei aos sete anos entrei para a escola como era usual naquele tempo, não havia pré-primária nem infantários. O estabelecimento de ensino tinha o nome pomposo Colégio Mouzinho da Silveira (que bastantes anos depois apareceria na nota de quinhentos escudos) e ficava entre a avenida de Berna e a estrada das Laranjeiras com o Horto de Lisboa em frente, onde hoje é praça de Espanha. Os carros eléctricos, uns quantos deles abertos, passavam junto ao passeio e a directora era a Dona Clélia Marques

Manequim e meio...

  
D
ecidi então que quando fosse grande queria ser manequim de montra. Foi uma decisão irrevogável. Porém no ano seguinte o meu primo Jacinto (Bibi para a família e adjacentes que tinha mais seis anos do que eu e já andava no Passos Manuel) alertou-me que os manequins eram muito parados e se persistisse na minha decisão irrevogável tinha de pensar que assim não poderia saltar ao eixo, jogar à macaca, ao toca e foge, atirar o pião à unha e assim por diante.

... com capacete e tudo
  
R
econsiderei e na segunda classe a minha preferência irrevogável mudou-se com armas e bagagens para vir a ser, quando crescido, mergulhador com capacete e tudo à procura duma nau portuguesa carregada de especiarias naufragada em 1608 quando vinha de Goa para Lisboa. Meu dito, meu feito, ou melhor nem meio foi. Votou à carga o Bibi que os mergulhadores usavam botas com sola de chumbo para se poder movimentar na cave do mar, 1º. direito.

M
acacos me mordessem, tinha de pré-arranjar emprego quando fosse crescido, pelo que na terceira classe retirei-me do Mundo para meditação assim a modos que um ano sabático, mas estudando os substantivos, adjectivos, pronomes diversos e predicados e seus complementos, sujeitos e conjugações dos verbos ser, estar e ter, perfeitamente irregulares. A dona Atília, viúva com um buço tamanho que fazia inveja a qualquer guarda- nocturno com espada, era a professora de palmatória sempre disponível para quem cabulasse ou não tivesse feito os TPC.

 
 Só de passeio

C
heguei à quarta classe com prova de admissão ao liceu, que foi o Camões, e antes de me aventurar nas linhas férreas de todo o Portugal continental, rios e seus afluentes, quebrados e outros que tais avancei no propósito de ser calceteiro marítimo. O maldito primo Bibi advertiu-me que dapensava que tal profissão não existia, só havendo os dos passeios, e a existir um homem não tirava os pés da calçada Propus-lhe ser super-homem, e desfazendo na minha nova intenção, também não lhe parecia viável porque o tipo passava a vida a voar e eu tinha vertigens ou seja era acrofóbico. Fiquei na mesma, pelo que consultei o Dicionário Torrinha e vi que era quase a mesma coisa.

Os Cinco Violinos



N
o segundo ano do Camões arrumei a questão quanto ao meu futuro quando fosse grande; cada dia seria assim: de manhã padre, de tarde bombeiro. Os meus pais não acharam graça nenhuma à solução e a minha mãe ameaçou-me com a colher de pau com que administrava a justiça. Estive-me nas tintas (mas não da miserável colher de pau…) Tinha tomado uma decisão irrevogável. Nessa altura, se já existisse – o que felizmente ainda não acontecia - o Portas, batia-o por 7-0, com três golos do Peyroteo e quatro dos outros Cinco Violinos… 

2016-06-07


Da velhice
Antunes Ferreira


S
e mo permitem hoje vou dar uma de filosofia. Espantam-se? Duvidam? Franzem a testa? Deixem-se disso. Sendo assim hoje vou falar sobre a velhice. Temos de tomar em conta a informação estatística que diz que nos nossos países a média etária de um homem é 70 anos; mais do que isso – é tempo emprestado. De resto, a única coisa certa que temos na vida é a morte. O meu Amigo há pouco falecido Nicolau Breyner disse-me um dia que não tinha medo da morte, apenas tinha de não estar vivo…

T
odos (ou quase) sabemos quem foi o grande Vasco Santana; a sua figura inolvidável marcava um dos maiores cómicos portugueses. Era gordo – um dia para ir em trabalho ao Reino Unido e outros camaradas reportando a visita do PR Ramalho Eanes tive de alugar uma casaca no guarda-roupa Anahory; por isso no jantar de gala em  Buckingham tive de usar a do Vasco Santana…, mesmo assim com o colete descosido nas costas…
Vasco Santana


O
 Vasco também morreu, como todos os homens e as mulheres. Inevitável. Contou-me o filho Henrique também meu Amigo, que o pai quando já se encontrava nas vascas da morte estava deitado na cama dele, com os cortinados todos corridos dando à habitação um ambiente realmente soturno. O Ribeirinho chegou para o visitar (além de colegas eram também inseparáveis) e entrou no quarto- Pondo a mão em cima da do quase defunto, perguntou-lhe, então Vasco, como vais? E ele respondeu-lhe, de preto e de sapatos de polimento. Humor até na hora da morte.

M
as hoje aquilo que venho tratar é a velhice, não a morte. Muitos sujeitos de importância se pronunciaram sobre a velhice. Por exemplo o chinês (Lin Tu Tang 1895 – 1976) afirmou que “Na juventude a beleza é um acidente da natureza; na velhice é uma obra de arte” André Maurois disse que “A arte de envelhecer consiste em conservar a esperança” enquanto que Victor Hugo sentenciou “Nos olhos dos jovens vêem-se as chamas, mas é nos olhos dos mais velhos onde vemos a luz”. Termino com Stravinsky  “Depois de completar os 80 anos (ou estarmos perto) todo o contemporâneo é uma amigo!.

A
final o que é a velhice? De acordo com o Dicionário
O que é a velhice?
Conceito.de
“velhice á qualidade do que é velho (alguém de idade avançada ou algo antigo e que não é novo nem recente). M. de la Palice não diria melhor… mas continua a obra: A velhice faz referência à senilidade ou idade senil. Embora não exista uma idade exacta que se possa considerar como o começo da velhice, costuma-se dizer que uma pessoa é velha depois de passar a casa dos 70 anos”

B
asta de citações e transcrições: para mim a velhice é um estado de alma (se é que a alma existe, eu não acredito) conluiado com os ponteiros de um relógio analógico – mas também é uma chatice. Pensando bem nem somos (não sou…) assim tão velhos; o que acontece é que muita juventude acumulada. Claro que não temos de subir uma escada, se há elevador – sobretudo quando o nosso objectivo vive no décimo segundo andar, apartamento K esquerdo.

N
um passeio no Parque das Conchas e dos Lilases é que se descobre que a bengala é um artefacto que ajuda muito; pior são as muletas e ainda pior são as cadeirinhas de rodas; melhor só estas últimas motorizadas. Vamos ver: os velhos não podem jogar futebol muitos menos râguebi – nem por vezes assistir por mor dos encontrões e das pisadelas de outros espectadores mais distraídos ou mal-educados. Nem pensar no salto à vara, podem dar um trambolhão do ca… oops dos diabos.
Boa todos os dias


C
hinquilho nem é melhor falar; se tentam, acertam no parceiro que conta as pedras. Já damas, dominó ou xadrez podem desde que seja nos respectivos tabuleiros honny soit qui mal y pense e até o gamão em igual relvado, mas não se pense que se trata de um jogo em que se gama a carteira ou o porta-moedas do adversário e ele não usa bengala. Porém se passar uma mulheraça, boa todos os dias, podem segui-la com o olhar e devem gala-la porque olhar não é pecado. Velhos são os trapos diz a plebe.

T

odavia, todas as regras têm excepções; estou a caminho dos 75 aninhos, mas a cabeça vai pensando, as mãos vão escrevendo, conservo a memória q.b., os lóbulos cerebrais não me atraiçoam; correr é que é mais difícil, sexo já foste, mas já andei de paraceiling em Benaulin e sem temor à vista. Por isso penso que ainda me encontro dentro do prazo de validade. Penso… logo existo.