2023-01-13

 

Um tempo muito danado

 

*Pezinhos de coentrada com branco de Pias

 

Antunes Ferreira

De acordo com um senhor chamado Bruno Café a semana ia ser muito fria; ele era meteorologista do IPMA, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera e entrava na casa das pessoas (sem pedir licença) através da caixa que revolucionou o Mundo – a televisão.  A bica arrefecia, esquecida, em cima da mesa, enquanto Maurício mudou com o comando manual o programa para a CNN Portugal.



 

Esbugalhou os olhos, ele e os restantes fregueses do restaurante-bar perante o espectáculo degradante que se lhes deparava de Brasília: o assalto duma turba enlouquecida à Praça dos Três Poderes:  uma gentalha  radical de apoiantes do ex-presidente Jair Bolsonaro invadia e depredava o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, perante forças policiais que pouco ou nada faziam ou até parecia que apoiavam a selvajaria. Um tempo muito danado.

 

Um déjà vu surgiu de imediato na maioria dos assistentes: o assalto ao Congresso norte-americano por apoiantes do despeitado ex-presidente Donald Trump derrotado nas urnas pelo candidato democrata Joe Biden, actual presidente dos EUA. E (mais uma singular coincidência?) encontrava-se nos Estados Unidos Bolsonaro que contra toda a tradição política brasileira não assistira à posse do seu sucessor e por isso não lhe transmitira a faixa presidencial.

 

Quer um (Trump) quer o outro (Bolsonaro) se consideravam (e continuam a considerar) espoliados nos actos eleitorais. Estão no seu direito, pois em democracia discordar não só é permitido, mas também é exigido. Mas daí ao terrorismo vai um salto tamanho que só pode ser severamente punido nos termos da lei – e só neles. Portanto, à estranheza motivada pelas imagens vindas da capital brasileira juntou-se imediatamente o sentimento de revolta tão característico dos portugueses.

 

Entrementes lá fora a rua era um caudal de água e lama. Às reportagens das televisões juntavam-se as imagens colhidas pelos smartfones de cidadãos mostrando automóveis semi-submersos, crateras abertas nos pavimentos das ruas e dos passeios. Vagas alterosas junto às costas lambendo inexoráveis as praias desnudas, árvores e postes diversos derrubados. Gente de vassouras, baldes e rodos em punho, calças arregaçadas, botas de borracha. E muitos bombeiros desde os sapadores até aos voluntários das mais diversas corporações, com barcos de salvamento etc.



 Maurício viu que tão cedo não voltaria ao quarto alugado que tinha ali à Morais Soares e por conseguinte pediu a ementa para comer qualquer coisa. Era um cliente habitual e o Semedo, um empregado logo na fundação da casa (a servir os clientes desde 1959, dizia-se debaixo do nome no menu a seguir ao nome do estabelecimento O Tacho de Arraiolos) sugeriu-lhe uma coisa levezinha, uns pés de porco de coentrada, que estavam uma delícia, especialidade da dona Alice, coproprietária e cozinheira alentejana de truz. Com um jarrinho de tinto de Pias…

 

Seja, que viessem os pezinhos com muitos coentros e, entretanto, umas azeitonas calhavam bem. “Ó sôr Maurício, atão não havera de ser, elas já aqui ‘’stão, acabadinhas de sair do tarro, temperadas à nossa manêra!”  No ecrã passara a crise do governo. Com a confusão da TAP e das demissões de ministros e secretários de Estado. Na mesa ao lado, um brincalhão dizia para o senhor que o acompanhava que agora já percebia a razão de serem autorizadas cinco substituições nas equipas de futebol: é só metade do time e saltava uma gargalhada.

 


Pelo que ouvia o primeiro-ministro parecia passar um salvo conduto ao ex-seleccionador-treinador nacional Fernando Santos de quem se dissera (e ainda se dizia) cobras e lagartos. E a corroborar essa mistela entre a política e o futebol logo no televisor surgia a novidade: o novo responsável pela equipa das quinas era um… espanhol. Roberto Martinez. Vindo de tomar conta (?) da selecção belga.

 

“Olha-me pra estes figurões da Federação, a começar pelo Fernando Gomes que é um pau mandado do Pinto da Costa! Já não lhes bastavam os Filipes e mandam vir agora um perro castelhano! Grandessíssimos filhos das putas!”  O espanhol vai botando faladura que assim, que assado, que vem para vencer (pudera, havia de dizer que vinha para levar no…) e que a partir do momento a camisola dele era a de Portugal e patati-patata. Aljubarrota já foi.

 

Vieram os pezinhos de coentrada com migas enroladas (o acompanhamento é uma ideia da dona Alicinha, explicou o sôr Semedo normalmente elas vêm com lombo de porco assado,ou costeletas fritas, mas o sôr Maurício vai gostar do miminho, têm muito alho picadinho e também coentros). Na pantalha – como dizem os espanhóis que agora parece que vão estar em moda – aparece o presidente Zelensky.

 


Fala da guerra e a CNN Portugal vai entremeando as imagens das cidades, vilas, escolas, hospitais tudo destruído, com o papa Francisco declarando que a agressão russa é um crime hediondo e Vladimir Putin, declarando que a indústria militar russa está de parabéns pois desenvolveu a “arma total” que mais nenhum país possui e que permite à Rússia defender-se de qualquer ataque venha ele de onde vier.

 

Os pezinhos estão uma maravilha e o tinto de Pias é uma obra de arte vinícola, um néctar divino. “Ó Semedo hás de dizer à dona Alice ou ao sôr Albano para me arranjarem uma dúzia de garrafas deste Pias que eu compro-as para as guardar para quando me casar…”  Semedo nem precisa de tomar nota, são muitos anos de servir à mesa e de conhecer os comensais.

 

“Pode estar descansadinho, sôr Maurício. ‘Tá feito. Vou arranjar uma caixa de cartão forte e depois é só levá-las.”  Faz-se agora um silêncio quase religioso na sala. É o Enzo Fernández que vai jogar contra o Varzim para a Taça de Portugal e o tipo da SporTV diz que o negócio com o Chelsea está em banho-maria porque os ingleses não querem pagar os 120 milhões de euros da cláusula exigida pelo Benfica,

 

Não haja dúvidas que o futebol é qu’induca e a porca da política é que não instrói. E o tinto de Pias é o máximo. Maurício vai pensando enquanto o sôr Semedo lhe põe na frente um copo e uma garrafa sem rótulo a fazer companhia a nova bica cheia. “É a bagaceira da casa, do monte dos patrões, uma oferta para rebater os pezinhos. E que tal estavam os bichos?”   Não é demorada a resposta, acompanhada dum arroto disfarçado: “De comer e chorar por mais. Divinais. A dona Alice tem garantido um lugar no Céu à direita de Deus Pai para quem entra! Ah, ah, ah!...”

 


Parou de chover. Maurício pagou, enrolou o chapéu de chuva, educadamente deu as boas noites ao restante pessoal, deitou uma espreitadela pela cozinha para felicitar a Alicinha “Ó menina, que esplendor, que magnificência, não há nada que chegue aos calcanhares da nossa cozinha alentejana. Estava tudo óptimo. Adeusinho, Até amanhã.”  E foi-se.

 

Chegado a casa da senhora dona Efigénia Sebastião, viúva do engenheiro Alcides Moreira Sebastião, que lhe alugava o quarto com serventia para a casa de banho (os tempos não iam fáceis) verificou primeiro que as cordas de água não tinham causado danos no prédio construído depois da estafa das notas do Banco Angola e Metrópole da autoria de Alves dos Reis e depois que a digna senhora não recusara a oferta duma garrafa das de Pias.

 

E foi assim que Maurício Saraiva e Melo não se afogou no dilúvio da chuvada tsunâmica: afogou-se, sim, no tinto piasanco terminando na bagaceira da garrafa sem rótulo.

 



Quo vadis Brasil?

 

Antunes Ferreira

Uma nota prévia é importante para quem se der ao cuidado de ler este texto: não tenho nada contra Jair Bolsonaro pessoalmente – só não gosto dele. Conheci pessoalmente Luiz Inácio Lula da Silva num almoço convidado por Mário Soares aqui em Lisboa, O político não renegava o operário metalúrgico e isso era o que, para mim, lhe conferia, um encanto e um carisma muito especial. Almoçaria uns tempos depois com Fernando Color de Melo, sem Mário Soares, num encontro promovido pelo Diário de Notícias. Deste tenho fotos. Do primeiro – não. Não se pode ter tudo.

 

Por isso gostei logo à partida dele, Habituado que estava de contactar personalidades internacionais do mundo da política, com os sus tiques, as suas prepotências, as suas más educações, as sus pesporrências, (numa esporádica situação de casos, felizmente nem todos) a bonomia de Lula deitavam abaixo quaisquer preconceitos que eu levasse na algibeira.  

 

Segui com atenção a reportagem da CNN Portugal (finalmente um canal televisivo a sério) a tomada de posse do 39.º Presidente d República Federativa do Brasil. Espectáculo empolgante, com  a participação maciça do povo e principalmente com  intervenção dos representantes das minorias ostracizadas pelo ex-mandatário Bolsonaro. Que, feliz ou infelizmente não esteva presente.

 

Numa participação premonitória do que se passaria logo a seguir à imposição da faixa presidencial a Lula da Silva, Bolsonaro partira para os Estados Unidos quiçá para se encontrar com o seu homólogo Donald Trump, unidos ambos na mesa contestação aos resultados eleitorais em que tinham sido derrotados, mas que não queriam aceitar,

 


E, inopinadamente, um déjà vu: o que acontecera meses antes com a dramática invasão e destruição do Congresso em Washington repetia-se agora em Brasília com  tumultuosa e criminosa devastação por uma multidão enlouquecida da Praça dos Três Poderes: o Palácio Presidencial, sede do Executivo Federal, o Palácio da Justiça, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Congresso Nacional, local da origem da Legislação Federal.

 

Uma vez mais a CNN Portugal transmitia em directo essa selvajaria com a massa popular destruindo tudo o que encontrava dentro dos edifícios na maioria do caso perante os olhares impávidos das autoridades (?) policiais que esporadicamente noutros empregavam mangueiras de água sem resultados visíveis.

 

Um Lula visivelmente abatido e simultaneamente amarfanhado veio falar ao povo brasileiro garantindo que os responsáveis seriam severamente punidos. Mas quais? E quando? Com que meios? Quem são os governadores dos Estados? De que lado estão? Quais estão a ”contar as espingardas”? Os desmandos da capital federal não foram, ao que parece, isolados. O Brasil é muito grande. Diz-se num espírito (que neste contexto será estupidamente utilizado) que quando o Brasil espirra a América do Sul apanha uma gripe, talvez até uma pneumonia.

 

Quem punirá quem? O que farão os militares? Jair Bolsonaro (que acabou de dizer que para ele a “democracia” é o mais importante na política e que ele no seu governo sempre praticou…) apoiou-se nos generis – ou pelo menos em muitos deles – para governar como governou (ou se governou?) e por isso com quais poderá contar Lula da Silva?

 

Fui muitas vezes ao Brasil, tenho uma boa parte da minha formação académica obtida lá e penso conhecer razoavelmente o país que considero também um pouco meu. Quando Stefan Zweig escreveu o “Brasil – o país do Futuro” lançou uma anatomia sobre ele. Era só o que lhe faltava – uma guerra civil. Quo vadis Brasil?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2023-01-06

 

As maçãs do milionário

 

*Mário Soares de bochechas jornalísticas

 

Antunes Ferreira

Desembarcara em Nova Iorque e tudo lhe causara um espanto desmedido. Já Lisboa o embrulhara em pânico com tantos prédios altos, ruas cheias de automóveis, autocarros, camiões, motas, bicicletas e gente nos passeios e, sobretudo, nas lojas. E que lojas, Senhor Deus! E que moçoilas! Sem lenços nas cabeças, decotes de pôr as mamas à mostra e rolar as cabeças de cima e de baixo.

 Justino Mendes Santos tinha vinte e oito anos, cumprira uma comissão de serviço militar na Guiné, regressara à sua terra natal a aldeia de Caveias do distrito de Viseu Com os pais já falecidos e onde viera descobrir que a sua namorada e madrinha de guerra se entregara ao sacana do Zé do talho e com ele já vivia de cama e bucha.

 Por isso abalara para a capital depois de vender a courela de vinho que herdara dos pais e estes dos avós e com os poucos escudos, juntos com as economias que fizera na tropa abrira uma taberna ali a Alcântara, a Estrela de Viseu onde conseguira atrair camaradas do seu batalhão, patrícios e outros mais.

 Contudo depressa se apercebera que não tinha queda para o negócio ou, pelo menos, pensava assim. Passavam os meses e as contas aumentavam. Os fornecedores que, ao princípio eram todos falinhas mansas, pancadinhas nas costas e dá cá o meu, passaram a perguntar-lhe quando é que saldava as dívidas que se iam acumulando que não eram a santa casa da misericórdia, muito menos o montepio, etc. e tal.

 


e um momento para o outro deu uma cabeçada na puta da vida: trespassou o estaminé, perdendo uma bolada de massa mas pagando tudo a quem devia. Depois meteu-se no autocarro para Viseu dali alugou um táxi só para ir a Caveias e entrar no talho e dar um enxurro de porrada no cabrão do Zé Manel Carvalho, um caralho que o atraiçoara estando ele debaixo de fogo do PAIGC na bolanha próxima de Mansoa.

 Voltara então à cidade das sete colinas (nome bem posto, andava-se sempre a subir e a descer…) mas as poucas notas do Pedro Nunes (isto é de cem escudos) voavam com tamanha rapidez que em pouco tempo quase diariamente recorria às sopas da Mitra para enganar a tripa. Raio de vida. Foi numa bicha para a “sopa do Sidónio” que se encontrou com o Formosinho, primeiro-cabo n.º 8765/63 seu camarada de guerra e de pelotão.

 O gajo ia emigrar para a América, mais precisamente para os Estados Unidos onde havia dólares à fartazana. Estava a tratar da papelada. Se calhar também ele, Justino, podia aventurar-se, o sonho americano estava ali era só atravessar o Atlântico. E, voltas e reviravoltas, passaporte, vacinas, documentos aos montes, aplications, visas, ele –  talvez por caturrice –  andara a tirar um curso de inglês e não se safara mal, donde nos serviços da imigração dos EUA a coisa correra muito bem, não enjoou no oceano, chegou e foi-se ameraquizando.

 Decorreram anos, decénios acumularam-se e no Estado de Washington um grande Empório tinha-se instalado na base do cultivo intensivo das maçãs especialmente da variedade Gala.  À frente do gigantesco empreendimento encontrava-se um… português de seu nome Justino Mendes Santos. A marca JUSTIN’S percorria os USA de lés a lés transportada em camiões gigantes com atrelados, comboios, navios, aviões cargueiros em frotas inumeráveis cujo logótipo se tornara conhecido pelo Mundo inteiro.

 

O JUSTIN’S APPLE JUICE ganhara a alforria mundial e quase todas as companhias de transportes aéreos o incluíam nos seus cardápios, aliás gratuitos. Havia a JUSTIN’S CIDER com vários teores alcoólicos e até a zero %, tendo mesmo um «champanhe». A JUSTIN’S APPLE PIE era considerada ao mesmo nível que a McDonald’s e esta já a incluía nas suas happie hours bem como a Pizza Hut e a KFC.

 Uma pergunta recorrente nos Estados Unidos e não apenas no país, era saber como chegara a uma tamanha posição o Mr. Justino Mendes Santos, “caído de para-quedas-sem-rede” em Nova Iorque nos idos dos sessenta. Um dos mais interessados na solução do mistério era o director do The Seattle Times, Rudolph D. Simpson. Desde que assumira o cargo, o ex-senador e agora jornalista não deixava passar um dia que fosse sem matutar na forma de dar à estampa a estória do Império JUSTIN.

 


A sua terceira filha Margarida (Margareth para uso local) namorava com um tipo estranho, vejam lá um portuga radicado em terras americanas ia para cinco anos e a quem o Mister Simpson arranjara trabalho como faz-tudo no periódico, um cidadão desenrascado, pronto para o que desse e viesse e que, não fosse o diabo tecê-las, estava ali à mão, pois por mais liberal que o republicano fosse (até votara no Trump) ainda pensava ter o controlo da caçula.

 

Quando o Mário Soares – por incrível que parecesse era esse o nome do
 mancebo – entrou no sanctum sanctuorum, o gabinete do director, e o informou
 que tinha uma entrevista marcada com o Mr. Justino Mendes Santos, Rudolph 
esbugalhou os olhos, Apontou-lhe um dedo da mão direita, o do meio, e
 vociferou: “You're kidding me! Get out there! Consider yourself fired! This newspaper 
is a serious house, I myself do not tolerate rude jokes. Get out!

 Porém o tal Mário Soares (por sinal com bochechas muito parecidas com as do falecido original) não se encolheu e avançou intimorato para a enorme secretária de mogno e apresentou ao perplexo ex-senador o passe-convite para o encontro que iri acontecer justamente naquela tarde pelas seis horas (TMG) acrescentando que lhe parecia conveniente ser acompanhado de repórter fotográfico.

 

“Certainly. You can deal directly with the subject with the photo cabinet. And good luck!” Soares partiu para a entrevista com o fotógrafo a reboque e já no escritório de Mr. Justino começou por perguntar-lhe como começara com o ciclópico negócio das maçãs. “Foi por acaso, mas muito simples. Resumo. Três dias chegaram para esgotar os magros dólares que tinha conseguido arranjar no mercado negro em Lisboa e já comera uma sopa deslavada no Exército de Salvação quando dei por mim sentado na beira dum passeio no qual havia um senhor de chapéu de palha e avental às riscas azuis, vermelhas e brancas que vendia comida, sobretudo maçãs, num carrinho estacionado com um toldo estendido.”

 


“Reparei que caída junto a uma sarjeta estava uma maçã talvez do carrinho do tal senhor. Mas tinha fome; por isso apanhei-a e quando ia dar-lhe a primeira dentada decidi limpá-la do pó e fi-lo cuidadosamente com o meu lenço. Ficou a brilhar. Um sujeito que passava ao vê-la perguntou-me «How much?» Hesitei. O homem do carrinho tinha o preço marcado por maçã: $05. Eu disse: $04. O tipo passou-me a moeda e levou o fruto.”

 “Começou assim. Juntei mais uns míseros trocos que ainda tinha nos bolsos e comprei meia dúzia de maçãs; comi uma e vendi cinco. Finalmente as coisas começavam a correr-me satisfatoriamente…” Mário Soares (o das bochechas jornalísticas) não se conteve: “E foi seguindo sempre assim que chegou a multimilionário?


 Justino soltou uma sonora gargalhada, deitou fora o caroço duma azeitona de Elvas que comia enquanto falava e disse, folgazão: “Quando ia nas 2.064 maçãs e pensava comprar uma lojeca, morreu em Caracas um tio milionário que emigrara para a Venezuela e enriquecera a vender comida e bebida para os exploradores do petróleo e deixou-me toda a sua fortuna em herança!”


 

 


Curiosidades

          O saber não ocupa lugar!

 

Esta lista foi-me enviada por um bom Amigo com quem não me encontro há vários anos que é o Coronel Dr. José Magalhães Pequito. Trabalhámos juntos na Ordem dos Revisores Oficiais de Contas e somos ambos sportinguistas – o que é uma honra. É realmente um rol de curiosidades que A NOSSA TRAVESSA regista, com um abração de amizade e agradecimento ao remetente.

 *O vidro demora um milhão de anos para se decompor, o que significa que nunca se desgasta e pode ser reciclado um número infinito de vezes!

*O ouro é o único metal que não enferruja, mesmo estando enterrado no solo por milhares de anos.

* A língua é o único músculo do corpo que está ligado apenas a uma extremidade.

* Se parar de ficar com sede, precisa beber mais água. Quando o corpo humano está desidratado, o mecanismo de sede é desligado.

* Zero é o único algarismo que não pode ser representado por algarismos romanos.

 * Beber água depois de comer reduz 61 por cento do ácido na boca.



* O óleo de amendoim é usado para cozinhar em submarinos, porque não deita fumo a menos que seja aquecido acima de 450 F ou 232 C.

* O barulho que ouvimos quando colocamos uma concha junto ao nosso ouvido não é o oceano, mas sim o som do sangue correndo nas veias da orelha.

* Nove em cada 1ez seres vivos vivem no oceano.

 


* A banana não se pode reproduzir por si só. Ela só pode ser reproduzida pela mão do homem.

* Aeroportos em altitudes mais elevadas requerem uma pista mais longa, devido à menor densidade do ar.   

* A Universidade do Alasca abrange quatro fusos horários.

*O dente é a única parte do corpo humano que não se  pode  curar ou regenerar.      

* Na Grécia antiga, atirar uma maçã a uma mulher era uma proposta de casamento. Pegá-la significava aceitar



* A Warner Communications pagou 28.000 mil dólares pelos direitos de autoria da canção “Parabéns a Você”.

* As pessoas inteligentes têm mais zinco e cobre no seu cabelo.    

* A cauda de um cometa aponta sempre para longe do sol.

* A vacina contra a gripe suína em 1976 causou mais mortes e doenças do que a doença pretendia evitar.

* A cafeína aumenta o poder da aspirina e outros analgésicos, é por isso que é encontrada em alguns medicamentos.

* A saudação militar é um gesto que evoluiu desde os tempos medievais, quando os cavaleiros de armadura levantavam suas máscaras para revelar sua identidade.

* Se estiver no fundo de um poço ou abaixo de uma chaminé alta e olhar para cima, verá as estrelas, mesmo estando no meio do dia.



* Quando uma pessoa morre, a audição é o último sentido a desaparecer. O primeiro sentido perdido é a visão.

* Nos tempos antigos, os estranhos apertavam as mãos para mostrar que estavam desarmados.

* Os morangos e o caju são os únicos frutos cujas sementes crescem na parte exterior.

* Os abacates têm calorias mais altas do que qualquer outra fruta: 167 calorias para cada cem gramas.

* A Lua afasta-se da Terra cerca de dois centímetros por ano.

* A Terra fica cem toneladas mais pesada a cada dia devido à queda de poeira espacial.   

* Devido à gravidade da Terra é impossível as montanhas serem mais altas do que 15 mil metros.

* Soldados em formatura não podem marchar quando atravessam pontes, porque poderiam criar vibração suficiente para derrubar essas pontes.     

* Tudo pesa um por cento menos no equador.

* Para cada quilograma adicional de carga num voo espacial, 530 quilogramas adicionais de combustível são necessários para a descolagem.

* A letra J não aparece em qualquer lugar da tabela periódica dos elementos.

  

2022-12-31

 

O cofre e as suspeitas

 

*São Pedro, o Senhor nem vai acreditar

 

Antunes Ferreira

O pior de tudo é quando a suspeita se instala com armas e bagagens e não há ordem de despejo que a faça pôr-se a milhas. Por mais que alguém se auto determine a envergar a couraça da indiferença a suspeição  é uma lapa agarrada à rocha e não há vagas por mais alterosa que a arranquem do local de fixação..

 

Se consultar um qualquer dicionário encontrará um rol de sinónimos que, pelo sim, pelo não, qui se enumeram:  Desconfiança pouco fundamentada: desconfiança, dúvida, cisma, receio, apreensão, suspeição, suposição, hipótese, conjectura, presunção, previsão, pressuposto, longes. Pressentimento leve:  pressentimento, palpite, intuição, sensação, sentimento, feeling, bacorejo, baque.

 

Já quanto ao verbo que a suporta, ou seja, suspeitar, vai encontrar supor, presumir, presumir, recear, desconfiar,  pressupor. entre outros, como, duvidar, temer, pressentir, esperar e até aventar, mas este mais no Alentejo.

 

A estória de hoje decorre entre duas frentes; o Ministério da Saúde e a Rua da Conceição, 23 4.º Esq.º, morada do senhor Mateus Francisco Silva Boaventura, apartamento que adquirira antes de casar com a Judite Maria Fernandes Figueiredo agora Boaventura em regime de comunhão de bens, decisão que reputara de sensata e nada tinha a objectar.

 

O único senão era a falta de, pelo menos, um filho – só um. Mateus, único, gostaria de ter mais, mas a Judite não podia arriscar a pele, pois o ginecologista sentenciara que ela não era apta para engravidar. Consultaram outros obstetras, fizeram análises, os espermatozoides dele eram da melhor qualidade, tinham ido a Londres consultar um guru sobre a proveta – e nothing.

 

Além disso contava a questão da idade. Mateus Francisco tinha 47, era técnico administrativo não passava da cepa torta, tinha (aliás tinham) umas contas bancárias saudavelmente recheadas, dois automóveis, um Hyundai para ele, para ela um Kia Pikante, uma quinta com casa de campo em Armação de Pêra, tudo herdado da avó Ermelinda que criara o miúdo pois os pais tinham morrido num desastre de aviação.  

 


Por seu turno, Judite rondava os trinta, ainda os ia fazer, fora secretária num atelier de arquitectura donde saíra para o casamento, depois de ter sido apresentada na festa do aniversário do chefe do Boaventura, primo em segundo grau mas chegado do pai dela. Para os que acreditassem no Cupido fora uma bela ocasião onde experimentaram as flechas do catraio alado. Amor à primeira vista? Quiçá. Mas com ele também a suspeita.

 

Realmente ela era um pedaço de mulher feito pecado que dava nas vistas, melhor dizendo, nos olhos aguados dos machos mais ou menos latinos. E ela bem sabia disso. Provocante sem provocar, a sua natureza não mentia, os seus encantos não se ocultavam, as pernas longas, os seios empinados, os quadris embolados, os lábios cor de romã e os olhos, ah, os olhos amendoados, uma bisavó macaense, mais o cabelo negro de azeviche – um tsunami animado de carne morena.

 

Aproximava-se o fim do ano, o Natal já enchia as ruas da cidade, os centros comerciais regurgitavam de massas humanas, embrulhos de cores variegadas, laçarotes, livros, perfumes e brinquedos, bolos, pasteis e iguarias diversas, a confusão habitual da época, nas grandes superfícies comerciais reinavam Pais Natais


de opereta, que a troco de uns miseráveis euros deixavam-se fotografar com criancinhas ao colo, “chega aqui Zéquinha, vê se não perdes o lugar, há tanta malta!”

 

Na secção o chefe administrativo, o dr. Vicente de Andrade, despachava os últimos processos para os enviar à Tesouraria a fim de ser pagos. Eram as contas apresentadas pelos juízes à ADSE que tinham de ser conferidas e certificadas e nesse particular os magistrados por vezes julgavam-se acima da lei que interpretavam e aplicavam.

 

Dizia aos amigos o dr. Andrade que nada tinha contra a magistratura mas que “um filho ingrato é mais venenoso do que os dentes de uma cobra,,,” Ele lá sabia o porquê da sentença; tirara o urso de Direito em Coimbra e muitos dos seus colegas tinham seguido a carreira da magistratura. Enfim, cada um sabe as linhas com que se cose.

 

Boaventura fora plantando no mais recôndito do seu ser a semente da insidia; via a cada momento os olhares concupiscentes masculinos assestados sobre a sua mais-que-tudo e, pior ainda, denotava que ela nada fazia para ignora esses dardejares, pelo contrário, parecia incentivá-los com leves arquear de sobrancelhas, meio-sorrisos que eram promessas inconfessáveis, um tormento.

 

Ao fim e ao cabo, nunca encontrava rasto pelo apartamento de outra presença máscula. Judite bem se amofinava; “Homem, para o que te havia de dar! Sabes perfeitamente que sou uma mulher honesta e de um só macho – que és tu! Onde vem essa ciumeira? Como nasceu essa suspeita?” E desfazia-se em lágrimas que Mateus lhe limpava com beijos e terminava tudo no leito matrimonial.

 

Até que no dia 31 de Dezembro, data funesta, de mau agouro, ele desembestou no lar pelas onze horas da manhã e foi encontrar a esposa ainda na cama, quase nua, apenas o negligé negro transparente (prenda de anos dele) que não lhe escondia nada, antes lhe realçava os mamilos arrogantemente erectos e o púbis encaracolado.

 


“Onde está eleeee????!!!!” Judite, puxando o lençol, o cobertor e o edredom: “Não há ele nenhum! Tu estás louco! Já te disse, aqui em casa, homens só os da EDP para aferir o contador da electricidade ou os da EPAL por mor da água e recentemente dois tipos da NOS por causa dos problemas com a televisão, os telefones e o computador…”

 

Mateus Francisco Silva Boaventura, porém, não estava convencido, longe disso, correu toda a casa, espreitou todos os cantos, deitou-se no chão para inspeccionar debaixo das camas, abriu todos os armários, incluindo os das duas casas de banho e da cozinha e finalmente esbaforido, alagado em suor entrou no seu escritório e abriu a janela que dava para rua a fim de apanhar um pouco de ar pois de momento não chovia, uma aberta na verdadeira tromba de água que não essava de cair.




 

Lá em baixo, saía do porão do prédio um jovem cavalheiro a abrir o chapéu-de-chuva. “É ele! È o filho da puta! É o cabrão que anda a pôr-me os cornos! Já te fodo!” Duplicaram-lhe as forças; agarrou no cofre que ali tinha e atirou-o sobre o desgraçado – morte imediata. Consciente do que acabava de fazer sentou-se à secretária, abriu a gaveta onde tinha um revolver, encostou o cano do meso à têmpora direita e disparou.

 

A cena seguinte passa-se às portas do Céu com São Pedro como protagonista. O santo está metido em grande sarilho pois não para de chover e as inundações são muitas – é um novo dilúvio. Que fazer? Entretanto a fila de candidatos a um lugar nas paragens celestiais ou no fogo eterno do Inferno é maior do que a dum casting para um programa do Goucha. O Guardião das Chaves Celestiais pergunta a um sujeito quem é ele e como é que ele morreu. O homem muito espantado retorque: “Chamo-me Rogério Manuel Batista (segundo o novo Acordo Ortográfico) e nem sei como morri. Vinha a sair de casa para uma entrevista para um novo emprego e depois dei por mim num caixão no meio dum velório.

 


São Pedro benevolente entrega-lhe uma etiqueta e diz-lhe que o local dele no Céu é na 678.904.876.543.141,7.ª nuvem à direita das instalações da Administração -  Santíssima Trindade e volta-se para o seguinte. Este, cabisbaixo: “Resumo. Fruto da minha suspeita de que a Judite (que era a minha mulh…” O Chaveiro celestial  interrompeu: “Nós aqui sabemos; continue.” Boaventura: “Pois fui eu quem atirou o cofre sore aquele infeliz que me antecedeu…” Pedro carregou o semblante: “Ali à esquerda é o elevador que o vai baixar ao Inferno!”

 

Mais um candidato. “Então e você? Conte lá o que lhe aconteceu?” O tipo fez um ar de surpreendido: “São Pedro, o Senhor nem vai acreditar; eu estava escondido dentro dum cofre…”




 

Morreu um ano

e morreu um papa

 

Já estava eu reformado quando no dia 11 de Maio de 2010 Bento XVI aterrou no aeroporto de Lisboa (futuro Humberto Delgado) para visitar a capital, Fátima e o Porto, e a Igreja Católica, Apostólica e Românica vivia uma das sus maiores crises – a do pedorfilato praticado por sacerdotes. Rezam as crónicas da época que o então chamado “Papa Panzer” dissera na tradicional conferência de imprensa realizada a bordo do avião que: “A Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de reaprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça. O perdão não substitui a justiça.”

 

Confesso que até então não simpatizava com o Cardeal Joseph Ratzinger defensor duma ortodoxia dominante no seio da Comunidade Católica. E de certo modo aceitava as criticas que lhe eram feitas sobre o seu passado durante o período nazi, onde pertencera à Juventude Hitleriana.

 

Porém, o Vaticano, após a sua eleição para Papa tudo fez par esclarecer o que rotulou de um “mal-entendido”. Finalmente Ratzinger até fora um opositor (enquanto criança) do nacional-socialismo. Tudo pela verdade – nada contra a verdade. Vaticano dixit.

 

Ao ver agora Francisco da sua janela anunciar ao povo reunido na praça de São Pedro as solenes exéquias do papa emérito fico-me a pensar quem será o próximo a fazer uma tal proclamação. Porque o actual 266.º chefe da Igreja Católica já vai nos 86 anos e ninguém é eterno.