2016-10-12

Uma nova versão


  
Antunes Ferreira

W
enceslau – com W, como o pai impusera que ficasse registado na Conservatória do Registo Civil (o que não fora fácil) e no registo do baptizado na igreja de Santo Ulpiano (onde a disputa com o pároco quase chegara a vias de facto, mas, enfim, acabou-se em paz santa – andava a ler o “Triunfo dos Porcos” em inglês “Animal Farm” que o mister George Orwell tinha escrito no Reino Unido, hoje (des)Unido e publicado em 1945. (Wiwa a Vikipédia! Olá, parece-me que estou a trocar os W pelos V)

O
 nosso herói – porque Wenceslau Martinho Sequeira Samuel e Santos era sapador bombeiro e já salvara das chamas dois velhos/idosos, duas idosas/velhas, um senhor em cadeirinha de rodas, um cão pequinês pequeno, um gato Burmese (com pedigree, bom para ter em casa, de acordo com o catálogo de animais caseiros) dois canários, um papagaio que dizia olá, croc, está um calor fo..rmidável, croc, um cágado, e um prato que dizia Vista Alegre, talvez o item mais importante. Não admira, portanto, o rótulo que lhe tinha colocado: herói. Ponto.
...a escada Nagirus


P
orém o salvamento mais complexo e mais demorado fora um de uma menininha de 19 anos que vivia num quinto andar à Graça e que no calor ígneo até perdera o pijama, a tadinha. Não fora demorado, fora demoradíssimo descer a Magirus com a Emilinha ao colo, fora ela quem lho disse, e ainda conseguir apontar o número do seu telefone que ela lhe dera (para mais tarde lhe agradecer), muito agarradinha a ele, por ter acrofobia e explicar-lhe que era o medo das alturas   – e por isso já recebera duas medalhas de mérito municipal, Os cauteleiros é que a sabiam toda quando apregoavam há dias de sorte. Uns dias depois comprovou-o quando a Emilinha lhe agradeceu em casa dela. Sem fogo mas calorosamente. Pudera, ele era ou não era sapador-bombeiro? Donde, um herói verdadeiro.
 
O Grande Irmão controla-te
R
etome-se a narrativa inopinadamente interrompida, acontece, o nosso herói Wenceslau andava a ler o livro acima citado. Gostava de letras arrumadas em linhas e doseadas em parágrafos e desde que lera o “1984” apaixonara-se por Orwell e sobretudo pelo “Big Brother is Watching You” que era mais ou menos o Josef Stalin, mais conhecido pelo Zé do Bigodes vigiando toda a malta. Tudo indica que este não gostasse muito nem do livro nem da alcunha. Feitios.

S
amuel e Santos era casado com a dona Ernestina, parteira de profissão (cada vez há menos) e cantora de inspiração, pois fazia parte do coro da igreja onde casara com o Wenceslau, com W (mais um berbicacho com o oficiante, mas os dois centilitros de água benta e os cem escudos da época originaram que a bênção nupcial fora dada para os bons e para os maus momentos) e tinham três filhas. Bem tinham tentado encomendar uma pilinha, até tinham recorrido à bruxa da Arrentela, que não há santa como ela, mas népia.

A
ntes de continuar com a estória do nosso herói abro aqui uma parentética para resumir sinteticamente o “Triunfo dos Porcos”, o que parece tarefa relativamente simples – mas não é. Adiante. O mister Jones, proprietário duma quinta (farm) descuidou-se e deu pouca comida aos animais que lá existiam, o que não era invulgar. Porém desta feita, isto originou uma revolta capitaneada pelos porcos. Quem havia de dizer? Pelos porcos? Era um verdadeiro chiqueiro! Caramba! Os animais ganharam. Logo expulsaram os humanos que juraram vingança. Os bichos marimbaram-se, desataram a laborar grunhindo que nem porcos sem recibos verdes e em breve a quinta estava um brinquinho desses de pôr num altar e até elaboraram os sete mandamentos que passariam a reger a comunidade de todos os animais/condóminos:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais
.

...mas uns são mais iguais...

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O
s humanos tentaram retomar a fazenda, mas falham ignobilmente, face à determinação dos animais. Perante isso estes modificam os sete mandamentos…
4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros.


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E
nquanto os cabecilhas comemoravam a vitória da revolução, os outros animais trabalhavam arduamente em troca de míseras rações. Ao que se assistia era um arremedo grotesco da sociedade humana, pois os agricultores vizinhos passaram a integrar as comemorações. E assim nesta visão confusa, os animais já não conseguiam distinguir os porcos dos homens. (Fim da parentética). Uma breve anotação: há especialistas que referem que isto também se aplica aos políticos, aos banqueiros e aos eclesiásticos numa promiscuidade intolerável, mas que infelizmente existe. O autor, qual Pôncio Pilatos, lava daí as suas níveas mãos e diz que que nem sim não, muito menos talvez, antes pelo contrário, quem sabe se.
 
E foi pescar

W
enceslau estava a meio da obra e também já não sabia com quantos andava se com dois pés, se com quatro. De uma coisa tinha a certeza: não estava bêbado. Nem sequer bebera uma chávena de chá verde que na publicidade dizem que emagrece; emagrece o tanas. O pobre, desanimado, deixou-se de tais leituras e das consequentes confusões. Comprou uma cana de pesca com carreto – cinco estrelas - que lhe custou a bagatela de 147 euros e 7 cêntimos c/IVA, mais linha, anzois, iscos e saco para o material bem como rede para apanhar o pescado o que resultou em mais 38, 79 € igualmente c/IVA: Morra Marta, morra farta. E foi para a Zambujeira do Mar,

C
om a Ernestina, está claro; as três raparigas para condizer, deram-lhe três negas. Porque uma tinha combinado ir com o namorado ao Oceanário (pois?) a outra tinha de fazer um trabalho para a faculdade (tá bem, dêxa???) e a terceira ia a casa duma colega para ver uns vídeos muto fixes (ora bem?!?) Na Zambujeira, diga-se, não pescou nem um mísero cachucho. Nem sequer um jaquinzinho. Entretanto a caríssima metade ia lendo a Caras onde vinha que o Mexia voltara a voltar à cama com a Guta e outros dramas existenciais que lhe originaram uma pena do caraças e até alguns soluços. Pior só a Inês de Castro. Cruel. O Pedro.
 
Venha mais outra...
D

ecidiram então ir até ao bar emborcar umas bejecas (ele) e uma coca cola Zero (ela). Como o tempo aconselhava já ia na sexta quando a mulher disse para parar, “olha que ainda apanhas a GêNêRê e tens de soprar no balão e levas uns pontos a descontar na carta...” “Qual quê? Eu não estou bêbado. Ó amigo, venha mais outra estupidamente gelada!”  Como dizia o outro para o irmão encharcado em álcool até ao tutano “tu é que bebes e eu é que tremo”. Não digam nada: o tipo não sabia que tinha Parkinson… 

2016-10-06

A Távola Redonda
e justas medievais


Na Idade Média, o rei Arthur mandou
fazer a Távola Redonda porque as
outras eram rectangulares ou quadradas…

Antunes Ferreira
T
ranscorria o anno de 1469 (mais coisa, menos coisa, pois nesses tempos medievais havia apenas o calendário gregoriano mas outros subsistiam, tal como  o lunar o que orijinava uma comfuson lichada) o mister Thomas Malory que estava engaiolado em Londres, ao que se sabe o homem era inglez, farto de contar os passos da cela onde transitoriamente murava – esperava elle – decidiu escrever uma estória a que deu o nome de
O raio da Távola Redonda
“El Rei Arthur e a Távola Redonda”. Não sabia o Malory em que traballos se meteria; certo é que pellos sécullos fora nunca mais deixaram de xingá-lo. Caramba!

A
 admissom a tal clube era muito difícil, com papéis e certidons e  documentos e athestados de bõ comportamento moral e oitros que deviam ser aprezentados asinha até tantos de tal do mez de e do ano da graça de. Mais uma vez se tem de usar a theoria do arredondamento como no futuro se utilizaria para calcular o valor do euro para cada um dos paiizes que, por mal dos seus pecados, seriam os seus fundadores. A todala hora e correspondentes minutos e segundos há desgraças que são depois muito difíceis de corrijir. Vêja-se o Brexit. Que, felizmente, não é para aqui chamado.

A
rthur era o tal que seria Sua Alteza el Rei despois de arrancar de uma rocha a espada Excalibur o que ninguém conseguia fazer pois estava colada com Patex e o que o que realizasse sentar-se-ia no trono e que ninguém conseguiria fazelo até hà data. O jovem, um tanto lingrinhas, com o auxíllio do treinador coevo um tal mago
Um tal Mago Merlin
Merlin, mais conhecido pelo Jota Jota daquelie tempo, sacou o espadallão e tornou-se Sua Majestade el Rei da Inglaterra que ainda não era a cabeça do Reyno (des)Unido. Ora o dito cujo teve a lembrança de reunir um grupo de fidalgos, os sirs, para discutir as técnicas e as táticas para futuros torneios ou justas sob a sua presidência, mas com a orientação do Jot
…, oops, do Merlin. E para abreviar o cunho histórico-dramático os sirs/cavaleiros ficaram-se pelos doze. Mais tarde seriom aogmentados, dizendo-se que tinham chegado aos 150, numero este nom comfirmado officialmente.

P or esses remotos tempos tinha um rapaz de seu nome Aiwwa que deu em seu pensar escruver um libro. Ideia pemsada. Ideia reallizada. Com a pena de pato foi escrevinhando y escrevinhando y escrevinhando y quando o concluyu arrajou editour que o imprimiu em letra gótica: Era um livro mui porco, mui escarrado, tratava da vida particular e da secsual de nobres mui importantes e que até puña a falar os mortos. Uu veerdaddeiro fillo da putta.

N
on contente com a merdda que fizera convidou para apresentar a obra que obrara uu tal fidalgote arruinado y ensimesmado, chamado Dom Pedro o qual disse que mesmo não tendo lido o pasquim iria apresentalo porque tinha grã considerason pelo autor que cuñecia bem. Instado sobre se iris mesmo pois o livreco era endemoinhado, reafirmou que iria mesmo porque nunca voltara com a sua pallavra atraz. Mas voltou. Dom Pedro estvera quatro anos na toca como
Bõ Coello que se preze
bõ Coello que se preze, mas dspois fora quase cassado e voltara a dar bitaites contra os que estaom no poleiro. Ua grã chatice. Logo intentou mudar de vida e resolveu Sir  ser.




H
á que dizêr que para se chegar a cavaleiro, primeiro que tudo tinha de avêr camdidatos que tinham de s’inscrevêr devidamente para despois fazer o curso para cavaleiro. Dizia-se que aquello era curso fod..., oops, lichado, com provas noturnas, sobe frio de raxar pedregulhos, ao sol a mais de 44,5 graus, em rios e ribeiros, com bestas e frechas respectivas acarretadas ao lombo dos imstroendos, e outras bestas, estas como instructores, provas de duzentas e cimcuemta milhas e a pees descalsos, curso tão duro que atee por vezes morrion alguns dos instroendos y desistiam muis. Dos sevrissos de saúde nem ee bõ falar.. 
Dos Servissos de saúde nem ee bõ falar...


N
um dia de trovoada e de chuva a caes e gatos (estava-se na Inglaterra, não se pode esquecer) o jovem Aiwwa que era peão à pata do exército do cavaleiro Nittendwe que intentara ser besteiro mas fora chumbado por falta de pontaria, pois tinha acusado estrabismo, ou mosso de estrebbaria, mas tinha mêdo de égoas, alabardeiro, mas não gosta de albardas que erom prós burros, Curioza aliteraciom. Perante tantas neggas, decidiu comandar, ser Sir Aiwwa e para tal dirijiuse ao postigo de inscrissons para os cavaleiros da tal Távola que democratticamente, o monarca decidira (por unanimmidade delle só) que seria Redonda e com lugares marcados. Mas ó ignominia, ó vitupera, ó desgraça, ó calamidade! O postigo estava fechado. Do apozento onde o postigo se achava vinha a sair um senhor de gibão verde-acinzentado com ar de tesoureiro das Finanças. O jovem Aiwwa inquiriu-o sobolo horário de funcionamento do servisso ao que o postigueiro retorquiu secammente: “Depende”. “De quê?” insistiu Aiwwa. “De mim; e agora põe-te a milhas e vai chatear oitro!”

C
omo não havia em mais de cem pés ao redor qualquer oitro pra chatear, o rapazotte regreçou a penates, ele próprio assaz chateado. Pelo caminho mui enxarcado começou a resmonear para os seus botons “ay ele é isso; vou fornicá-lo! Vou encontrar o Santo Graal!l.
O Santo Graa
O que era um objetivo muito complicado (ainda que menor do que o de Guimarães, Deus seja louvado) pois abrira a época da caça ao cályce onde fora guardado o sangue real de Nosso Señor Jesus Cristo, Ámen, obviamente depois de morto na cruz,

M
as nem isso o “Sir” Aiwwa conseguiu. Perante a arruínada sorte tentou recoller-se a um convento. Mas, porra, estte tinha um letreiro à porta que dizia lotaçom esgottada!...  

(A grafya é tamto quamto possyvel a da hépoca, renegando o ezecráel futuro Acôrdo Hôtugaphyco. Ai Deus y o é!)

2016-09-28









Os homens são comunistas até que enriqueçam,
feministas até que se casem e
ateus até que o avião comece a cair



Antunes Ferreira
G
abriel Jerónimo vivia solitário numa vivenda situada em rua sem movimento apreciável nos arredores duma cidade sem importância com 37.653 habitantes de acordo com o último Censo. Somente tinha a senhora Carlota, que lhe limpava a casa, passava a ferro e fazia uns pratos duas vezes por semana. Coisas triviais que se podiam guardar no frigorífico. A residência que estava ao seu lado esquerdo era habitada por um casal de velhotes reformados: ele fora comandante de um lugre bacalhoeiro, era o Capitão Semedo e a Senhora trabalhara no Ministério da Educação, secretária eterna dos subsecretários de Estado que por lá iam desfilando. De seu nome Dona Ester.



F
eitas as apresentações, correram uns bem agradáveis anos - hoje o rapaz almoçava com eles, depois de umas semanas era ele que os convidava para jantar, um Porto e um jogo de xadrez que o capitão ganhava quase sempre… Segue-se que um dia o Gabriel, (34 anos, apessoado, cabelo em crista à moda, solteiríssimo, ateu, sócio do Belenenses (ainda os havia, como no tempo dos dinossauros), filiado no PAICG, Partido Incontestável dos Compinchas do Garrafão, proto-comunista, trabalhador do Sindicato de Barbeiros, Cabeleireiros, Unissexos & Afins), plantado à janela que dava para a rua, ou melhor para o pequeno jardim onde tinha rosas, malmequeres, jarros, cravos e etc., viu chegar um camião do Galamas em frente da casa adjacente (em boa verdade e correctamente política devia ser região autónoma, mas para uma habitação não dava muito jeito.)

De ferro em punho



D
eixou a janela. voltou-se para a senhora Carlota que de ferro em punho passava cheia de brio uma camisa azul de colarinho branco, olá, temos mudança. E ela, suspendendo a delicada operação, "ouvi dizer no minimercado que eles vão viver pró campo onde têm umas coisitas dos aforros que foram amealhando..." "Boa", retorquiu o Gabriel, que era vagamente comunista, como atrás disse, aliás sem grande convicção, "agora vamos ver quem será o novo inquilino". "Ó senhor doutor (não era, mas ficava-lhe bem) não ponha o carro à frente dos bois. Quem vier virá e verá". Santa filosofia, ainda que um tanto reles e jobiana paciência a da senhora Carlota.



N
em sequer foi uma angústia o que o apoquentou nos dias seguintes; foi apenas um leve desassossego, nada de grave, se o Pessoa tinha escrito um livro com tal título, por que bulas não havia ele, Gabriel, de não o ter? O quem viria, passou para quem virá? No sindicato não confessou o que quer que fosse ainda que o Santos da Contabilidade comentasse com ironia q.b., "aqui anda mosca", ao que ele respondera "nem mosca nem moscardo muito menos varejeira. E ponto final, parágrafo. Vai gozar com a tua tia que não canta mas assobia…"



A
s coisas são o que são e não há volta a dar-lhes; para uns é o destino, para outros o fado. No fundo a mesmíssima merda. Para filosofias ainda por cima ranhosas e baratas já bastava a senhora Carlota, E por Carlota, tenho de lhe dizer que as camisolas interiores estão a ser tão mal passadas que até parecem um bife da Portugália escolhido pelo cliente a solicitação do empregado de mesa: bem, mal ou meio passado? Camisas, calças e casacos – impecáveis. Boxers assim-assim; mas as camisolas interiores…
De novo mudanças



V
oltou para casa a resmonear e zás! De novo um camião de mudanças e uns tipos a acarretar móveis, frigorífico, fogão, esquentador e outras frioleiras e cama de casal. Olá temos parelha quiçá casadinha de fresco, sei lá se em lua de mel, as mobílias são novinhas em folha. Estava Gabriel nestas cogitações quando saiu da casa uma visão estonteante, admirável, fulgurante, espampanante. Uma garota daquelas levava-o ao altar em três fósforos! Era jovem para trezentos e trinta e três assobios, no mínimo. O consorte devia vir atrás – mas não veio. Com sorte estava. Veio sim uma gaja de óculos e aparelho nos dentes com ar desmazelado que se encostou à nova e gentil vizinha, poisando-lhe o braço nos ombros. Suspeito..



O
lá menina, penso que é a minha nova vizinha, estou encantado de a ver e conhecer, o meu nome é Gabriel, sou solteiro e…, o meu é Julieta, o prazer é todo meu, vivo com a minha Gracinha, sabe, amamo-nos e muito, somos mulheres, chamam-nos fufas mas não ligamos e vamo-nos carsar. Oxalá sejamos boas vizinhas, os homens só atrapalham... Com certeza, não seja por isso, se precisarem de alguma coisa, sei lá um raminho de salsa, é só baterem à minha porta…

O pecado mora ao lado


E

 Gabriel entrou em casa - descoroçado. Caramba, que situação. Ele a pensar num sim e afinal saíra-lhe um não. Pior do que o Euromilhões. Ele jogava todas as semanas e saiam-lhe sempre cruzinhas, O Ezequiel da tabacaria, jornais diários e revistas nacionais e estrangeiras sempre actualizadas incluindo a Hola que a malta tuga dizia Ola e não Olá que era a forma correcta usada pelos espanhóis. Ganda galo, ao lado com duas galinhas. Boas amigas, na cama. Só fêmeas. Até a senhora Carlota. Ainda se fosse a Marilyn Monroe; mas não era. O pecado morava ao lado, mas era outro – o pecado.


2016-09-23

Parabéns

ao de lá?

Antunes Ferreira

F
ora num quartel em Luanda que se tinham encontrado. Os dois eram oficiais milicianos, um tenente outro alferes, e no dia-a-dia dessa unidade militar (cujo nome não interessa para o escrito, diz o escriba) tornaram-se amigos. Só amigos, pois não há amigos bons e amigos maus, amigos do peito e amigos da onça. Amigos. Ponto.




O
s dias foram correndo – e que pressa eles levavam – e a Amizade reforçando-se (se é possível a Amizade reforçar-se) e as coisas iam decorrendo com a normalidade possível embora no mato continuasse a guerra. Todas as guerras são estúpidas e criminosas. A mata, ali à porta da cidade parecia não dar grande tristeza aos cidadãos brancos e até mesmo aos pretos. A guerra era lá longe e os gajos que andavam aos tiros que se desenrascassem. Aliás o desenrascanço é uma palavra tipicamente portuguesa. Os enciclopédicos ingleses andam há 27 anos a estuda-la e ainda conseguiram traduzi-la…


U
m dia veio uma onda enorme e preta que mudou tudo. Caro que um dia teria de chegar – e chegou mesmo. A malta das cidades pôs-se a cavar tão depressa quanto pôde. Foi uma enorme confusão; era a independência para a qual os autóctones não estavam preparados – que diabo…
A imagem diz tudo...
Na verdade os tugas tinham embarcado naquela do "Portugal do Minho a Timor" e foi o que viu: tiveram de embarcar - mas para o Puto e outros locais. Os dois amigos também desandaram, mas cada um para o seu lado. Um foi para a aventura americana, o outro ficou pela capital do falso Império.



P
orém, a Amizade teimava em persistir, por vezes encontravam-se ou cá ou lá; aliás muito mais cá do que lá. As famílias de ambos tinham-se tornado… amigas. E a Amizade não se compra nem se vende, nem sequer se empresta: vive-se. Chegou a altura para identificar os dois casais; o de cá tinha o apelido Pereira e o de lá tinha o segundo nome: Guião. Os primeiros eram o Honório e a Rosa, os segundos eram o Francisco e curiosamente a Francisca. Via-se logo que um tinha sido feito para a outra. Feitios.


R
eformaram-se o Honório e o Francisco vivendo sempre a mesma Amizade quando os de lá vinham cá para passar férias era certo e sabido: encontravam-se. O que era mais do que porreiro, porreiríssimo. Os de cá recebiam os de lá com a alegria de sempre; entre uns copos, o Honório contava anedotas (era considerado o campeão mundial delas) os Guiões rebolavam-se a rir e a Rosa admoestava o de cá: “hás de ser sempre um chato a repetir as estórias que os de lá já sabem e deixa-te de tretas!” Isto da fêmea mandar no macho prova que o Deus quando os fabricou estava mesmo distraído… e ainda que nunca durma estava a passar pelas brasas. Por isso entreabriu os olhos e sacou uma costeleta masculina para moldar a Eva

Honório num ginásio fitness



N
o caso vertente é bom que se diga, num aparte, que o Honório começara a frequentar um ginásio fitness, primeiro porque via as miúdas boazonas que se esforçavam para ser ainda mais… boazonas. Depois, porque era gordo que nem um texugo e a família inteira apostrofava-o dia e noite, especialmente a Rosa que sempre dizia que “depois cá estou eu para te empurrar a cadeirinha de rodas por seres um desenfreado a comer e ainda por cima diabético!” Honório, o de cá, tinha contado a cena ao de lá, o Francisco, e – curioso - este tinha apoiado a Rosa com espinhos. Só não batera palmas.


C
erta noite de cá, Rosa entrou no escritório que o Honório tinha em casa e ordenou-lhe “vê se dás os parabéns ao Chico que hoje faz anos!” Era o dia 8 de Setembro e o Pereira não fazia a mínima ideia disso; embora fossem Amigos o de cá não sabia a data do aniversário do de lá, e pensava o escriba, que o inverso era verdadeiro, assim como se fora números primos; mas afinal não eram.

Um Omega Speedmaster


O
 Honório obediente (não o fora e aconteceria um tsunami róseo…) telefonou mesmo. Atendeu de lá a Chica e o de cá: “venho dar um abraço de parabéns ao Chico!”, obviamente depois de perguntar como andavam os de lá. A Chica pareceu atrapalhar-se e disse que ia passar ao Chico. “Porra, Pereira, quem foi que te meteu essa no teu cristalino bestunto? E o de cá: “foi a Rosa. Ela tem tudo apontado num calendário e está sempre certa como um Ómega Speedmaster. Por isso…”

Muito apertado


F
oi um fartote de riso do de cá e do de lá de tal modo que o cabo submarino ameaçou fazer greve se não se calassem. E o Chico, de lá, “eu aniversario a 23 de Outubro. E o Honório, de cá, “pois então dou-te já as mais sentidas cond…, oops, os mais sinceros parabéns com um abraço muito apertado” E quer o de cá quer o de lá gargalharam em decibéis altíssimos e tal modo que um deles alertou: cuidado com o cabo que ainda dá cabo de ti. Referia-se obviamente ao submarino. Sem Portas. E acrescentou: “o cabo ou os vizinhos…”

A
 Rosa, de trombas, pois ficara a ouvir o desbragamento, retirou-se, ao que Honório lhe perguntasse “… e agora a quem vou dar as Boas Festas?” Imaginam o que se passou. Ainda hoje ele traz uma perna ao peito…



(Estória verdadeira ficcionada pelo autor)





2016-09-17

Muito feliz


Antunes Ferreira


F
ui à consulta do Dr. Miguel Coelho por indicação de médicos meus amigos, familiares de doentes que já o conheciam e até doentes que ele vem a tratar. Diagnóstico: NÃO TENHO PARKINSON! Ufff! Tenho sim tremor qualquer coisa que não entendi. Termos médicos.  Mas que se trata e por isso ele receitou-me um medicamento – e adeus até 15 de Dezembro onde volto a ser visto.
Dr. Miguel Coelho



M
as, perguntar-me-ão – quem é o médico? Respondo: Miguel Coelho é Assistente de Neurologia do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, EPE – Hospital de Santa Maria; Unidade Neurológica de Investigação Clínica do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. E creio que chega para o apresentar.






F
iz um resumo da minha vida civil e clínica (não muito resumido pois é sabido que eu a falar sou pior do que o Deus-me-livre). Aturou-me, paciente, ainda que o paciente fosse eu e face à sua pachorra e à gentileza no trato, até lhe ofereci um exemplar do “Crónicas da Minhas Teclas” que, por acaso, levava para ofertar um bom Amigo que infelizmente está num hospital.  A ofereça ficará para depois, ninguém anda a correr atrás de mim… e dele. Obviamente autografado. Merecia.




P
aguei 125 € mas nem foi muito face ao tempo que lhe “roubei”; vão-se os anéis que ficam os dedos. Foi uma oportunidade de conhecer um gajo porreiro. Creio que não vale a pena acrescentar o que quer que seja. O Dr. Miguel Coelho tirara-me do cimo de mim um peso de mil toneladas. Voltei para casa muito feliz…