2016-09-15







PENSAMENTOS DE UM MÉDICO – 2


As novas gerações têm de pagar...?

Francisco Crespo
(*)

F
iquei a pensar numa afirmação que oiço frequentemente, mais ou menos… "as novas gerações terão de pagar o que a dos velhos consumiu". De facto, a minha geração deixa um legado deveras importante; por um lado conseguiu com muita dificuldade lutar contra uma ditadura (muito forte...), adquirir o hábito do debate, a exigência da qualificação, o espírito de investigação; criámos em Medicina a obrigatoriedade de dois anos de prática médica tutelada por mais velhos, para sermos licenciados, a par de sobrevivemos com ordenados baixíssimos (eu paguei sempre as contas de energia e água com multas, por atrasos durante anos).

Cem Escudos - foram à vida...



L
embro-me que pagava 1110 escudos de renda e ganhava 750 escudos. Trabalhava no Hospital Sta. Maria com horário das 9 às 13 e fazia 24 horas de urgência semanal de borla e sem descanso, para refazer o horário. Mas como não conseguia fazer o trabalho e investigação, saía sempre depois das cinco da tarde (eu é que fechava o Serviço, pois os
técnicos saíam às cinco) e quando fiz investigação sobre as plaquetas ia, alguns dias depois disso, a Santarém buscar um coelho e passava a noite na Farmacologia até às oito da manhã, ia a casa tomar duche e voltava ao hospital e não tinha nenhuma bolsa, mas um prazer enorme.


A
ssim publiquei o primeiro trabalho mundial, clínico/laboratorial sobre uso de baixas doses de AAS na profilaxia das tromboses arteriais. A nossa geração deu a volta a uma paz cinzenta, podre e agrilhoada, mudámos muito a sociedade e nunca ficámos à espera de soluções caídas do céu. Tive a sorte de nunca ser preso, mas houve muitos que foram presos e mortos. Tudo o que tive foi do meu trabalho, excepto a casa de Torres - que fiz com o dinheiro que meu pai me legou por morte.


T
ive de ir trabalhar com meu pai no consultório e vender análises tipo supermercado, pois o ordenado do hospital não dava para educar as quatro filhas. Não deixei nenhuns encargos aos mais novos. Vivi com muito gosto. Relembrar estes factos, é porque a minha geração não era diferente das juventudes de sempre, incluindo as de hoje (os jovens é que mudam o mundo), mas os tempos foram difíceis, criámos as carreiras médicas, fizemos investigação cientifica, o SNS, reduzimos o analfabetismo, conquistámos a liberdade, o respeito solidário com todos, isso não foi obra de milagre, foi de quem trabalhou e mudou radicalmente o curso da ditadura.

Reunião da JUC


Q
uando casei, nunca me vou esquecer das palavras do Bispo (que me fez chorar): "eu conheço o Francisco, que nunca pactuará com a mediocridade". Hoje sou ateu. Mas essa exigência (nunca mais esqueço), foi ele que ma transmitiu e a todos os que passaram na Juventude Universitária Católica... não foi de geração espontânea ou mérito meu. Durante a Faculdade, fui em simultaneidade presidente da JUC de Medicina - dois anos, redactor do Jornal Encontro, durante três anos, dirigente do Centro Cultural de Cinema, um dos responsáveis pela secção pedagógica da PRÓ Associação de Medicina, responsável pelo Ninho contra a prostituição…- até ter uma ulcera por não dormir...
 
Sem legenda...

O
 drama são os encargos que certos corruptos políticos nos deixaram a todos velhos e jovens e de todos os partidos (Sócrates, Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Isaltino, Duarte Lima, Cavaco, PR da Áustria, Sarkozi, por esse mundo fora ...); estamos lixados, mais o legado do ditador Salazar que não sendo corrupto nos deixou o analfabetismo, a incultura, a guerra colonial evitável com o diálogo e independências, que teriam permitido o convívio mantido com todos brancos e pretos. Quanto não perdemos todos com a guerra, vidas, economia, dinheiro em armas, para nada?


F
oi para mim muito útil estudar em casa dos meus pais com colegas de engenharia, económicas, direito, arquitectura ..., o que gerou reflexões e conversas nos intervalos do lanche. Foi assim surgindo no meu pensamento a ideia alargada do conhecimento sem limites e do que é minha Pátria, o mundo inteiro, mas a com a nossa língua o português. Ao verificar em Sta. Maria que não podia fazer investigação sem recurso a equipamentos ausentes, pensei ir para arquitectura, não era aos 50 anos que iria fazer investigação! Surgiu nessa altura um convite para o Hospital Santa Cruz.

Hospital Santa Cruz


A

í com uma equipa espantosa que criei (ninguém deve ser chefe sem criar equipa que tenha liberdade criativa, que perdure para além da nossa reforma) organizei "o melhor Serviço de Patologia Clínica do país", (disse a Ministra da Saúde).  Nunca mais larguei esta arte/ciência da medicina que adoro e só tenho pena de já não conseguir acabar nos anos que me restam, os projectos que no dia a dia me obrigam a acertos da minha ignorância perante a diferença das certezas, que tinha aos quinze anos.

C
om este acerto permanente do pensamento que nunca podemos ignorar, reflectindo sobre as muitas matrizes que a história dos pensadores nos legaram, mas que têm que ser recentradas dia a dia, com inteligência. Se não estivermos abertos às inovações diárias, ficamos como o Velho do Restelo... Para este caminhar muito contribuiu a família que me deu formação e sentido da vida, queridos avós, pais, tios, irmãos e primos. Acresce os excelentes professores e colegas do liceu Camões, com quem continuei a conviver. (em casa da antiga professora de português, com José Régio, Branquinho da Fonseca, Hernâni Cidade, Vitorino Nemésio,
Miguel Torga (busto)
Miguel Torga...) e o distinto pedagogo, matemático, democrata Dr. António Lobo Vilela, meu professor e amigo. E ainda o Dr. António Reis Rodrigues, depois Bispo, que me casou.


D
eixámos problemas às novas gerações? Com certeza, mas para elas continuarem a renovar. Eles que se interroguem com o que mudámos. Eles que sejam os juízes.


(Médico)


1/10/2013


2016-09-08




Antunes Ferreira

C
orria o ano de 1952. Cassiano Furtado trabalhava numa agência de publicidade ali ao Bairro Alto quase ao lado da primeira sede do “Diário de Notícias na Rua dos Calafates. Nada de propaganda que isso era do foro do SNI. Era redactor de primeira, fazia equipa com o desenhador Marques Monteiro e o chefe chamava-se Joaquim Olegário também proprietário da empresa que começara a dar os primeiros passos por volta dos anos quarentas.


C
omo morava na rua dos Fanqueiros palmilhava da casa até aos Restauradores onde apanha o elevador da Glória que passava em frente da Casa do Ardina. Depois era tudo à pata, que segundo ele, era um bom exercício de “ginástica”, pois durante quase todo o dia apenas gastava o fundo da cadeira de sumapau… Ali, começava logo a dar ao dedo porque as coisas não caíam do céu aos trambolhões e também porque o Senhor Olegário não era para graças muito menos para madraços.


Lajos Biro e a sua caneta



O
 caso, se assim se podia chamar, ocorreu no dia em que comprara uma caneta esferográfica Biro, coisa maravilhosa descoberta por um revisor húngaro com o mesmo nome e que recentemente chegara a Portugal. Levara-a para a agência e a malta rodeara-o, parecia a adoração do menino Jesus no presépio pelos pastores, suas ovelhas e os três Reis Magos - mas sem estrela. Na verdade, não se pode ter tudo.


A
 primeira colega do ”posso experimentar?” foi a Matilde, uma morena de pôr os olhos em bico a um cidadão integrado no regime, repudiando o comunismo e bom chefe de família. Era toda ela chicha distribuída em conformidade, com as curvas no seu devido lugar – e que lugar! Comparável à Vénus de Milo, mas com braços. Obviamente podia - “com todo o prazer” Mal fizera uns riscos, “é giro, a tinta não faz borrões”, foi uma catadupa de experimentadores, “vocês dão-me cabo da tinta que está no tubinho!” Deram.  Mas aplaudiram.
es fe ro grá fi ca...



V
eio ver o motivo da balbúrdia e das salvas de palmas o Senhor Olegário “que se passa aqui? Temos revolução contra o Salazar ou saiu o primeiro prémio da lotaria ao Senhor Cassiano?” Este explicou que fora por mor da sua caneta esferográfica acabada de comprar e acabada a tinta. “Que raio de merda é uma caneta insfográfica?” Não era bem assim. Furtado: “Senhor Olegário, com as minhas desculpas, mas é – e silabando – es fe ro grá fi ca…”   O chefão resfolegou qual locomotiva a vapor. “P’stá claro esfero coisa” E retirou-se para o seu gabinete com o ar digno que utilizava quotidianamente.


C
assiano deu um saltinho à Baixa e, pelo sim pelo não, comprou um tubinho (com tinta) ao que o empregado da papelaria o informou “e uma recarga e é melhor levar duas; são dois mil e quinhentos” Obviamente comprou duas, nunca fiando na gente da agência que por gastar tanta tinta, mais parecia uma agência funerária, salvo seja, do que publicitária.


A Força do Destino estúdio da Rádio Graça 



A
s campanhas em que trabalhavam – o texto já está pronto? Olhe que a impressora está à espera – estavam distribuídas por três redactores com outros dois a jogar nas reservas, dois fotógrafos, quatro desenhadores e dois revisores, mais três dactilografas e o groom Pinguinhas, além do Senhor Olegário. Os clientes eram muitos e diversos; pudera, era a melhor no mercado… E ainda havia a rádio mas isso eram outros quinhentos mal réis. Cassiano, em frente do Telefunken não faltava a uma audição da “Força do Destino” a que os brincalhões chamavam a “Força do Intestino” onde a heroína era coxinha, mas só no microfone… Um dia quando os fãs a esperavam à porta do Rádio Graça para a conhecerem e pedirem autógrafos, deram-lhe um enxurro de porrada porque a moça afinal não mancava…
Sem legenda



O
 Rodrigues tinha a seu cargo o Omo lava mais branco, a Singer e o leite Milo; o Assumpção (ele escrevia assim com a sua caneta de tinta permanente) debruçava-se sobre a Binaca põe os seus dentes a brilhar, o Palmolive, a Regina e a Tabaqueira; por seu turno o Fosquinhas (embora fosse Vicente toda a gente o tratava assim…) amantizava-se com o sabonete Lux, que tinha a Amália Rodrigues a afirmar convictamente eu uso o sabonete Lux, a Mocar com o Peugeot 203 cabriolet e o detergente Rinso, a alegria do lar.


D
e reserva estavam o Guedes e o Inácio, para quando fossem necessários em futuras campanhas para a Farinha 33 – a Amparo era da concorrência bem como os Rebuçados Peitorais do Dr. Centazzi e o Vick Vaporub – o yoghurt Veneza, a saúde à sua mesa, o Vim para lavar melhor, o Sveltor que emagrecia sem regimes especiais, sem tomar nada pela boca”, os fogões da Fábrica Portugal e os cafés da Mariazinha, lotes para todos os gostos.


P
orém na agência havia um desejo comum, ansioso e, muito pior, constante. Era uma ansiedade; o “inimigo” abichara o Fiat 128, o Toyota acabado de chegar do Japão e que vinha para ficar, o Tide, a brancura no seu lar, o não se estafe compre um DAF o primeiro carro com mudanças automáticas, a Lambretta, até choras para andar de Lambretta a pasta medicinal Couto, o Gibson o frigorífico de bom tom, que dura toda a vida e o mais cobiçado e invejado: a Mocar com o Volkswagen, o carro da família. Porém nunca mais chegava o ditoso dia em se verificariam as mudanças. Safa!
Brasileira do Rossio



C
assiano, nos curtos intervalos da labuta ia à Brasileira do Rossio tomar uma bica com cheirinho de Mosca e ver as meninas que passeavam mirando e farejando as montras da Rua Augusta. E foi então que ali conheceu a Madalena com quem veio a casar na igreja de São Sebastião da Pedreira. Ela vinha esplendorosa, com vestido de noiva alvo, bouquet de flores de laranjeira e com uma barriga de sete meses. Sem qualquer publicidade.  Evidentemente.

(Pesquisa do autor)


2016-09-02





Antunes Ferreira

U
m quarto para as duas da noite (ou da madrugada?) Eugénio e Palmira que tinham ido ao fado com o casal Oliveira vinham para casa. Chuva miudinha caíra sobre a cidade e os passeios escorregadios convidavam às quedas. 23 de Novembro do ano da graça de 1960 os dois tinham ido ao São Jorge, na Avenida da Liberdade (raio de nome quando a PIDE andava à solta e s polícias multavam um cidadão que usava isqueiro – sem licença) ver o Ben Hur com o Charlton Heston a protagonizar o herói judeu e quadriganizando na pista/cenário.

Quadrianizando...



D
ai tinham partido para o Bairro Alto e entraram na Adega Machado onde cantava o Alfredo Marceneiro interpretando o grande sucesso de então A Casa da Mariquinhas. Ali tinham passado um bom bocado, escorripichando um tinto sem marca acompanhando uns pasteis de bacalhau de trás da orelha. Tinham-se despedido dos Oliveiras e como não conseguiram apanhar um táxi tomaram o eléctrico até ao Rato e conseguiram ainda apanhar outro que os levou até ao Saldanha pois moravam na Cazal Ribeiro.


F
ora ali que aconteceu a “coisa”. Inopinadamente esborrachou-se no passeio um homem que tinha caído dum quarto ou quinto andar e quase os atropelara, uma verdadeira tangente. Uma secante e teriam ido num foguete para a próxima paragem – a eternidade. No quinto andar do prédio em frente do qual passavam uma senhora debruçada na varanda gritava “Ai Fernando que te mataste, ai marido que te mataste!!!!” Ambos ficaram aterrorizados, mas Eugénio de imediato bateu palmas para chamar o guarda-nocturno. Entretanto nos diversos prédios da rua acendiam-se luzes, gente chegava às janelas, outros sujeitos e sujeitas em roupões, pijamas e camisas de noite desciam as escadas e rodearam Fernando num mar de sangue, Eugénio e Palmira.
Morreu alguém?


C
aramba, o gajo está feito em fanicos, olha se os apanhavam iam direitinhos para o São Pedro…”  e outros bolsavam diversos comentários mais ou menos parvos.  Uma senhora alentada berrava também para um puto que se chegara à frente dos mirones: “Quinzinho vamos para casa isto não são coisas para a tua idade!” O miúdo fazia orelhas moucas e estava-se marimbando para a progenitora, “olha que eu vou chamar o teu pai, ele prega-te duas galhetas, mafarrico não me obedeces!” E lá em cima na varanda uma voz esganiçada repetia “Ai Fernando deste cabo de ti e de mim!  Maldita a hora em te conheci!!!” O burburinho aumentava quando chegou o guarda-nocturno, de espada à cinta, então o que é que aconteceu para haver tanta barulheira? 
Morreu alguém?


E
 tinha morrido mesmo. Quando se deparou com o cadáver o digno representante nocturno da autoridade, branco como a cal da parede, entrou na gritaria desorquestrada, “chamem a polícia! Chamem os bombeiros!” e de entre a malta ouviu-se “…e a Guarda Republicana, a tropa, a marinha, o cangalheiro, o prior a freguesia e o sacristão… Para quê? O falecido está mesmo morto…” O sereno perguntou “Quem foi o brincalhão? depois fazemos contas?!” Já era uma multidão e o da graça repetiu-se, “Vistas bem as merdas, o gajo já cá não canta, bateu as botas, parece um ovo estrelado sem azeite no passeio…” Foi precisamente quando chegou um polícia, “mas que vem a ser isto?” Mal pôs olhos no espalmado, “vou telefonar para a esquadra isto é chatice para o chefe tratar… Quem tem um telefone?” O Martins da leitaria tinha.

Vindo num táxi


C
hefe, bombeiros, judiciária já estavam no local e um polícia, “vão para casa, são proibidos ajuntamentos de mais de um!” E o malandro das piadas já a retirar ainda atirou “e mais de dois também?” ao que o cívico “Sacana, filho da mãe, vai brincar com o cara… Também tinha vindo num táxi  o jornalista de serviço no quotidiano da avenida da Liberdade – o fotógrafo já dormia a sono solto – “É um suicídio?” e o Inspector da judite, tome cuidado, lembre-se que não há em Portugal suicídios… há acidente mortais. Não se meta em sarilhos, pode vir a PIDE e… O repórter do Diário de Notícias - depois de tirar alguns apontamentos e ouvir alguns cidadãos “eu cá não vi nada, eu nem moro aqui, acabei de chegar e…”  retirou-se resmoneando “Pois; também não existem cancros, são doenças prolongadas e os gajos do Benfica não são vermelhos, são encarnados”. O Salazar mandava, o Estado Novo ajudava à missa.
Na Cazal Ribeiro


N
o dia seguinte saiu a notícia “Ontem na avenida Cazal Ribeiro pelas duas da manhã verificou-se um acidente mortal. Um senhor chamado Fernando Silva Gomes, de 39 anos, casado, debruçou-se demasiado da varanda onde apanha ar e caiu no passeio falecendo imediatamente. O corpo vai ser autopsiado. E na página do Necrotério, acrescentava-se o habitual:  Deixou viúva a Senhora Dona Conceição Gomes e dois órfãos, menores, Jacinto e Ferrando José. Depois da autópsia, seguir-se á o velório na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, donde o funeral sairá para o cemitério da Ajuda. O Diário de Notícias apresenta à família enlutada os mais os mais sentidos pêsames.  



   

2016-08-26



Porra!

Antunes Ferreira

P
orra! Permitam-me um desabafo pessoal mas tenho de descomprimir e contar o pesadelo por que vou passando. Conto, como sempre, com as vossas paciência, benevolência e aceitação. Enquanto que para Cristiano Ronaldo 2016 é o melhor da sua vida profissional, para mim é um ano esfarrapado. Não é, no entanto, o horribilis de Isabel II (que teima em sobreviver), mas realmente é esfarrapado. Se não veja-se o que me tem acontecido desde o dia 1 de Janeiro, o que prova o que anteriormente enunciei: e-s-f-a-r-r-a-p-a-d-o! Não acreditam? Eu conto e depois me dirão se tenho ou não tenho razão. Desculpem-me a chatice que vos dou.

Sem legenda


A

penas chegados a Goa tivemos, a Raquel e eu, a dolorosa noticia dada pelo Miguel, o nosso primogénito, de que a Bebé, a Maria Gabriel, falecera. Estava internada no Pulido Valente com um cancro nos pulmões – fumava mais do que uma chaminé de central a carvão para produzir electricidade. E além disso carregada de metástases por tudo o que era corpo.  Toda a gente a tinha avisado; parava, mas mal o anunciava, já estava a recair no cigarro. 

E
ra muito mais do que nossa irmã; era nossa Amiga. Durante quarenta anos. Em muitas situações, algumas graves, estava sempre presente para nos ajudar e amparar. Comia aos sábados colectivos connosco, era mais uma da nossa família. Viúva aos 26 aos de um Amigo excelente desde os tempos em que jogávamos râguebi nunca voltara a casar. Fora militante do MRPP, mas o tempo “curara-a”. Completara 62 anos.

T
ínhamos ido visita-la antes de partirmos; bem ao contrário de muitos maus dias, estava bem-disposta, não se sentia abafada e o médico aquando da visita diária, dissera-lhe que lhe daria alta. Logo que entrámos no apartamento de Miramar, nossa habitual pousada em Goa, a Raquel telefonara-lhe para saber como passara a noite. Excelente, o médico quer-me amanhã em casa. No dia seguinte foi o telefonema do Miguel: morrera durante a noite, sufocada.

Maldito cancro!


L
ogo como se fora uma rajada, menos de um mês passado, recebia por imeile uma desgraçada informação: falecera também de cancro o meu vogal no Conselho Fiscal da ANACOM, a que presido, e também meu bom Amigo José Vieira dos Reis ex-bastonário da Ordem dos Revisores de Contas que eu ajudara a mudar para de Câmara passar a Ordem, OROC. E que depois do ministério das Finanças (eu estava num dos piores momentos da depressão bipolar) me levou a para a nova Ordem como assessor dele e chefe da informação. Mau! O ano prometia…

E
m Goa tudo corria (e felizmente correu) no melhor dos mundos. Regressámos a Lisboa e logo recomeçaram as chatices. Recebemos a triste notícia de que o Ion Floroiu, antigo embaixador da Roménia em Portugal e outro grande Amigo tinha partido (sei lá para onde) em Bucareste, vítima de mais outro cancro. Antes de partir para Panjim tínhamos ido durante duas semanas à capital da Roménia – coisa que há muito nos “pedia” – para passa-los com a família e estava tudo bem. Agora, reconhecíamos que fora como que uma despedida.

Pela Internet


P
orém, ainda teria de haver mais merdas.  Estávamos em falta na apresentação do IRS em comum, como sempre, porque estávamos em Goa. O Miguel fez-nos a declaração, também como sempre, através da Internet. As Finanças aceitaram-na. Simulação: tínhamos de pagar 747,86 euros. Melhor do que no ano anterior. Parecia que tinham desaparecido as nuvens negras que sobre nós pairavam.

M
as veio carta da Autoridade Tributária: havia qualquer coisa mal e tinha de me deslocar à Repartição de Finanças. Para além da multa, aliás coisa pequena, tínhamos de fazer duas declarações separadas. Resultado 2.867,06 euros!!!! Caiu-me tudo o que tinha pendurado aos pés. Já era pior do que o deus-me-livre. Tinha de pedir que o pagamento fosse em seis prestações sem juros, pois não tinha tais massas disponíveis. Ainda aguardo a decisão, mas parece que a solicitação foi deferida. Vá lá...

AVIS -  Mais uma acha para a fogueira


E
ntrementes, mais uma facada. O Miguel era há 26 anos director financeiro e administrativo da AVIS – Rent a car – e em 2011 fora considerado (e galardoado) o melhor da Europa nas suas funções. Mas os americanos tinham comprado a firma e começaram a moer o espírito do meu filho. Ao fim de quatro anos em que lhe “fizeram” a cabeça para ver se ele se demitia, pois já tinham eliminado quase todos os trabalhadores a começar pelo Director-geral de Lisboa, tinham-no considerado péssimo e sem mais aquelas demitiram-no.

A
os 52 anos um homem (e excelente economista) por cá é considerado “velho”. Ainda anda à procura de emprego sem grandes hipóteses, mesmo com a experiência de quem trabalhou mais de duas décadas e considerado sempre o melhor até virem esses pulhas americanos conluiados com outros pulhas – os espanhóis - que ansiavam fechar Lisboa e passar todo o serviço administrativo para Madrid.

Sem legenda


U
m homem não é de ferro. O meu primogénito anda descoroçoado. E eu como pai também ando. Mais uma machadada que levei. As coisas pareciam ter acalmado. Pura ilusão. O que viria a seguir – e veio – por inesperado, fez-me ter medo o que não me é vulgar até que... Nas picadas angolanas como oficial miliciano tive-o; um homem também não é de pau e não nasci para ser herói. Porra! Estou farto de 2016!

E
 agora vejo-me metido numa grande “alhada”.  Mais uma. Resumo: há umas semanas fui à minha médica de família que, depois de me ter observado cuidadosa e minuciosamente, pelos sintomas que eu apresentava disse-me que poderia ter Parkinson. Caramba! Como devem compreender, fiquei muito abananado, quase perdi a cabeça, enchi-me de receios e até pensei em abandonar a escrita – o que para mim seria fatal!

Medo...


A
té escrevi um imeile à Maltamiga a contar o que se passava, mas sem mencionar o nome da doença, o que motivou centenas – exactamente centenas – de resposta desejando-me as melhoras e solidarizando-se comigo. E proibindo-me de deixar de escrever! Malta bué da fixe!!!! Entretanto, com a ajuda de dois médicos meus amigos durante os primeiros cinco anos do Camões fui-me acalmando. Novos medicamentos tinham aparecido durante os últimos anos; com eles iria passar sem problemas até ao fim da vida. E indicaram-me neurologistas, para tirar dúvidas.

T
enho andado à procura de um deles, qualquer que seja, para tentar marcar já uma consulta ao que encontrar primeiro. Os meus amigos disseram-me que todos eram competentíssimos. Depois do diagnóstico final, iria saber o resultado. Mas, em Agosto, toda a gente vai de férias.  Devo, pois, de aguardar sem me enervar, não vá de novo aparecer a maldita depressão bipolar, Vade retro Satanás. Foram quatro anos de pesadelo que não posso nem quero repetir!

Péssima doença


E
 hoje (2016/08/24) quando estava a terminar este escrito, telefona-me o meu irmão Braz, (o único que agora tenho, pois o outro, João, há muitos anos dera um tiro na cabeça com a espingarda com que caçava elefantes em Angola…) a comunicar-me chorando, que acabara de saber que tem um cancro na próstata. Ele vive e tem escritório no emirado Ras Al Khaimah (EAU), como engenheiro consultor de cimenteiras. Que posso fazer daqui? Gaita! Claro que, mesmo assim, contactei o Vasquito, primo da Raquel (e meu) que vive no Dubai, e que logo começou a ampara-lo. Boa gente… (Agora (23:17 de 27 deste mês de Agosto chega-me a informação de que o meu irmão já está hospitalizado e já tem metástases no fígado e nos rins. Imagino-o na cama do hospital a pensar como a vida é filha da puta. Já terá dito que nunca mais nos vê, a nós e aos sobrinhos netos...) 

E
 agora digam-me se 2016 não é para mim um ano muito esfarrapado. Já chega. Como dizia um senhor numa telenovela brasileira: que mais me irá acontecer? Porém aqui chegado faço uma reflexão. Diz o ditado que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. E a esperança é a última a morrer. As nuvens negras vão desvanecer-se e o sol brilhará intenso. Tenho de olhar em frente e seguir o meu caminho. Com força e firmeza. Nada de fatalismos; nada de fados. A força da razão vencerá a razão da força (?) É com este espírito tão positivo quanto me é possível que termino esta crónica. Não esquecendo o que disse o marquês de Pombal. "O homem tanto pode que, mesmo depois de morto, ainda são precisos quatro para tira-lo da sua casa.."



(Aproveito o ensejo para agradecer do fundo do coração a todas e todos que me manifestaram a sua preocupação, a sua solidariedade, o seu apoio e a sua amizade; por isso deixo aqui um muitíssimo obrigado!)




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Uma nota, apenas:

Não sou rico, ou mais correctamente, não somos ricos, nunca recebemos heranças, nunca roubei nem especulei, nunca joguei a dinheiro, nunca fui à Bolsa - daí que vos informe que somos remediados – mas contamos os euros no fim de cada mês o que é uma chatice, pois nos fins de meses sobram dias e faltam as ma$$a$...

Por isso a indisponibilidade financeira leva a que nos não possamos ajudar como queremos o meu irmão Braz. As passagens aéreas (no caso de ele querer vir para cá…) são caras e assim não podemos ir lá. Ainda que se ocorrer uma emergência faremos o necessário – deixaremos que nos roubem os anéis, ficarão os dedos; e as poucas reservas de que dispomos têm de chegar para isso. Instalação cá - isso sim; a nossa casa (alugada) tem espaço suficiente.

Quando alguém vem ao nosso apartamento pode pensar que somos milionários e infelizmente não somos; é preciso informar que o recheio dela, aliás bonito, resultou do que ganhámos a Raquel e eu, são fruto do nosso trabalho tão honesto quanto possível. Quase tudo veio de locais diversos, dos países por onde passámos (eu principalmente em serviço; a Raquel era contabilista na TAP e daí os bilhetes “de cão” quase gratuitos que usávamos e algumas vezes por ano…)  Outros são de cá.


Não estou a fazer uma confissão; costumo dizer que fui católico mas curei-me. Estou apenas a dar uma informação que creio conjugar-se com o escrito. Perdoem-me por vos chatear, mas assim fico mais descansado. É uma catarse. Os Amigos também são para os maus momentos. Obrigado

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