2017-10-17


O mistério da escada
do Cintra

Antunes Ferreira
Corria Antunes Ferreira o ano de 1957 quando nasceu um pimpolho ao casal Sintra que vivia na Musgueira. Os pais, não sendo católicos praticantes, decidiram batiza-lo. A cerimónia ocorreu na igreja de São João. Aquando da água benta, todos os assistentes, excluindo naturalmente o neófilo, deram-se conta de alguma indecisão do prior da paróquia. Adiante.


Pia baptismal


Como era habitual, o registo religioso decorreu na sacristia e aí se deram conta os presentes que o digno sacerdote  teria abusado do vinho de missa. Eu bem dia que ali havia coisa segredo na coisa, sussurrou a Hermínia peixeira na praça da Ribeira ao ouvido da Irene vendedora de roupas num estabelecimento da Baixa que a mandou calar.

Desta feita foi o sacristão Maurício que procedeu ao registo. Ora Maurício tinha apenas a segunda classe sem qualquer especialidade, e ali começou a saga do nome do crianço. Pais e padrinhos apuseram o dedo na página por ambos serem analfabrutos; o puto nada apôs, apenas berrava como uma vitela desmamada. O nome escolhido era Xavier Carvalho Sintra.

E o sacristão, cuidadosamente para não haver rasuras no documento, escrevinhou Chavier Cravalho Cinta. E foi um par por um olho, podia ser pior quanto ao primeiro apelido que podia ter originado comentários mês conformes aos bons costumes. Ele há coisas que por aí correm e o que não faltam são maliciosas

.  
Esticadores para os colarinhos
      

Aos seis anos via-se que o gaiato tinha queda para os negócios: vendia esticadores para os colarinhos e atacadores para sapatos e botas, na esquina dos Restauradores com a rua do Regedor. Um ano depois era ardina, etc. Faz o autor um hiato para não cansar os leitores (ainda os haverá?) Assim vamos encontra-lo como grume no hotel Avis onde vivia o Senhor Gulbenkian. Tinha 15 aninhos.

Aconteceu que o doutor Perdigão achou piada ao gajo e levou-o para a Fundação que entretanto fora criada. Chavier com ch decidiu pelo estudo nocturno na Veiga Beirão donde passou para o Instituto Comercial e para o Instituto Superior de Enconomia e Finanças; terminou com um 16, uma nota excelente. Era doutor.

Um império multiempresarial 

Entretanto disse adeus ao presidente e abriu um escritório próprio para assuntos do seu ramo. Depois foi papelaria e mais umas quantas, transportes de toda a espécie, hotéis e restaurantes, turismo e quejandos. Em suma, milionatizou. Construiu um império multiempresarial.

Vai daí casou com a Maria Alzira Silva que para não destoar tirou as Novas Oportunidades. Ainda foi para a faculdade, mas no segundo ano desistiu. Estava farta de compêndios e livros. Tiveram dois filhos e uma filha, malta fixe, cena porreira. Do andar nas Avenidas Novas passaram para uma moradia,
Moradia Chavier
na Alta de Lisboa, três andares, a cave ginásio fitness duas piscinas, uma com água quente para o Inverno, sauna e minudências diversas e outras vivendas uma na Aroeira, outra no Algarve. Estava como queria.

Todos os milionários têm uma ou mais gajas. Obviamente o Senhor Doutor Chavier com ch tinha uma a Lurdes, Luluzinha, a quem pôs um andar de cinco assoalhas no Restelo e outras mordomias consentâneas com o seu estatuto. Visitava-a todas as quartas e sextas pois tinha horário nocturno por mor do muito trabalho. A Alzira que no entretanto passara a ser a Senhora Doutora Dona Alzira, que não acreditava nem um biquinho nas justificações do querido esposo, também arranjou um namorido que era o jardineiro dos jardins do palacete e por singular coincidência se chamava Xavier mas com x e sempre ficava mais à mão de semear. Uma felicidade perene.

Dois degraus da escadaria


Mas, inopinadamente aconteceu um drama, uma grande chatice, não há rosas sem espinhos. Quando ia a entrar no seu Rolls Royce para ir para o escritório, o mordomo Serafim veio comunicar ao Senhor doutor Chavier com ch que durante a noite, sem ninguém dar conta e com o alarme desligado  tinham desaparecido dois degraus da escadaria em lioz mais branco e puro que dava do rés-do-chão ao terceiro andar. Porra! Que merda vem a ser esta, tantos cuidados e ninguém dá conta desta sacanice. Se apanho o filho da puta agarro-o pelos colhões e adjacente e dou-lhe uma carga de porrada, que o fodo! Se me der na veneta até o capo!  

O Senhor Doutor Chavier com ch era adepto da trampa, ops, do Trump e para acrescentar, quando jovem tinha andado pelo Cais do Sodré com elas, como as iscas e pelo Intendente e pela feira popular, ó jeitoso dá (-e) um tiririnho, por vezes lembrava-se do linguajar mais desbocado. Porém o pior ainda estava para vir. Três noites depois tinham-se sumido mais quatro degraus: Pêjota ao barulho.

Com a águia vitória II


Esta descobriu que o bandalho que roubava os degraus era o Xavier com x que era benfiquista dos que até cantam as papoilas saltitantes do falecido Piçarra. Andava a juntar os degraus em lioz para substituir na estátua do Marquês este com o leão pelo Orelhas com a águia. Se fosse a águia II tudo bem; mas o emblema do Benfas, vá lá, também servia.

Pelo contrário o Senhor doutor Chavier com ch era lagarto, lagarto, lagarto. Podia perdoar os devaneios da Senha Doutora Dona Alzira – e perdoou; mas ao pulha que tem na alma a chama imensa (Ver nota anterior) nem pensar! E tudo acabou em bem salvo para o ex jardineiro: o Xavier com x foi à vida, seguiu para o presídio. O que o autor não sabe se - como se passou com o Sócrates, - foi ao Pinheiro da Cruz


NOTAS
A Este textículo não tem nada que ver com «O mistério da estrada de Sintra» da autoria dos Senhores Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão. Se assim fora, isso significava que o autor era uma besta quadrada
B Muito menos tem qualquer malévola intenção de se pensar que tem semelhança com o ex rei das Águas e x presidente do Sporting clube de Portugal (SCP).
C De repente, sem saber porquê estava o autor no domingo passado refastela no sofá preferido assistindo às aventuras do Morse e deu por si com vontade de voltar a escrever. Parece, portanto que vou melhorando da maldita bipolar. Creio que o escrito acima origina um pedido de desculpas aos que há quase um ano não se esqueceram dele



Malditos fogos!
O autor tem obrigatoriamente de se referir aos catastróficos incêndios que já causaram muitas vidas, localidades perdidas e instalações industriais e comerciais. A todos aqui fica registada a minha solidariedade que se dirigem a todos que têm combatido essa calamidade.


2017-04-06

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Uma informação
sobre o motivo 
por que ainda não escrevo

Ainda não será por agora que retomo os textos que tinha programado. Isto porque as coisas de saúde ainda não estão, infelizmente, a correr como esperava. Depois de ter ido à consulta, na sexta-feira passada, da dr.ª Alice Nobre, a minha psiquiatra, que alterou as doses da medicação, continuo à espera de que as condições melhorem.
Apenas sinta que posso escrever com alguma correcção – o que desejo que seja o mais breve possível - voltarei a tentar fazê-lo.

Os leitores e comentadores merecem que lhes dê conhecimento desta situação e simultaneamente quero agradecer-lhes as atenções que me têm dispensado, aliás como sempre.

Antunes Ferreira



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2016-12-31

O velho

e o novo


Antunes Ferreira

O

 miúdo era muito especial: usava fraldas descartáveis trazia uma chupeta – mas andava em pé e falava “fluentemente”. Tinha um ar de quem vinha a chegar e pelos vistos chegava mesmo. Mas estava perplexo. Na parede frontal havia um calendário pendurado com a última página prestes a ser arrancada. Era um modelo já velhote, fora uma oferta das festas do ano anterior dum restaurante chinês.


P
or isso ostentava um dragão pintado a vermelho. Daqueles típicos do Império do Meio, com colinas nevadas ao fundo e dizeres que não se entendiam, salvo naturalmente pela gente que trabalhava no restaurante. Porque, como se podia ver o que estava escrito era em chinês e um dia um cliente que ali fora pela primeira vez comentara que obviamente não se entendia nada daquilo, nem usando a tradicional paciência… chinesa.

Um calendário chinês


R
eparou o menino que o calendário lhe ficava à mão e por isso agarrou-o; mas não, não o agarrou, porque ele subiu um pouco e “fugiu”. Franziu o cenho o gaiato, mas o que é que se passava? Embora fosse criança era muito especial, como logo no princípio se disse, racionava perfeitamente, não havia hiatos na sua linha de pensamentos, mau, ali havia marosca um calendário não andava muito menos subia por uma parede, capaz disso só as osgas. 


P
or isso foi buscar um banco para tentar chegar ao calendário. Mas quando lhe ia deitar a mão o danado fugia. Era portanto um calendário foleiro, e o puto tinha de o agarrar para o deitar fora porque estava fora do prazo de validade. Mas nem com o banco o agarrava. Seguiu-se uma mesa, depois um escadote e o miserável sempre a subir e a fugir.

David e Golias


F
inalmente o ganapo descobriu o truque: não era uma parede, era um muro, no alto do qual escarranchado estava um velho carregado de rugas, ou um monte de rugas a fingir de velho que puxava o calendário com um fio de náilon que lhe estava atado e ria-se às gargalhadas desdentadas. O jovem lembrou-se da estória do David e do Golias, mas não tinha ali uma funda. Mas tinha um smartfone que tirou da fralda e emitiu com ele um som ultra.


O

 velho retorceu-se, não estava preparado para modernices, desequilibrou-se e caiu do outro lado do muro com o calendário. O garoto sem oposição subiu ao cimo do muro e pôde ver que desse outro lado só havia o nada. Nem Velho, nem calendário nem nada. Desceu e tirou da fralda um calendário super sofisticado com antena própria que o fazia mover pelo sol e colocou-o no muro, muito satisfeito. Ao longe um sino qualquer começou a bater doze badaladas. E o catraio, muito prevenido, tirou da fralda doze passas de uva e foi-as comendo ao som do sino. Bendita fralda que trazia tudo e que pertencia ao ano novo – 2017.

2016-12-21


Os Magos e o Menino

Antunes Ferreira


B
elchior virou-se para Baltazar do alto dos seus camelos e de Gaspar nada. E o gajo que tinha dito “vou ali num instantinho e volto já; tenho um amortecedor em baixo. Passámos agora mesmo por um palácio que até tinha uma  oficina na zona das lojas” E logo lhe respondera o Baltazar. “Ó pá despacha-te, temos de chegar a horas, a Maria ainda tem o Menino e nós sem estarmos lá. Pior, Ele ainda vai para a tropa e nós aqui parados à espera dum amortecedor se calhar com IVA. Podíamos ter vindo de
...e até com sidecar
Vespa e já tínhamos chegado!” E o Belchior “até com sidecar."



O


s Magos não eram magos coisíssima nenhuma. Aliás até tinham fácies de políticos, o que era uma pouca sorte para eles, magos. Havia até quem dissesse que seriam mentirosos. Homens a esforçar-se para salvar a Pária e a Pátria não queria ser salva. Só desgraças…Quando muito seriam astrónomos, dedicavam-se a olhar para as estrelas através de um telescópio rudimentar importado de um zigurate mesopotâmico gerido por um tal Zoroastro de quem diziam que Jesus Cristo seria um plagiador. É claro, só muito mais tarde apareceria a Associação Portuguesa de Escritores, APE, mas com âmbito só para Portugal, que muito justamente odiava e perseguia os plágios.



F
ossem eles magos, e nem chegariam aos calcanhares do Harry Potter e não se importavam nada com isso. De resto este último nem sequer ainda fora inventado, muito menos os seus livros. Já no que toca à Maga Patalójica
Harry Potter


nem é bom falar. Só o Mister Walt Disney se lembraria de criar uma tal pata que habitualmente contracenava com a Madame Min, cada uma delas procurando o feiço para roubar os triliões o tio Patinhas Neste particular não passariam de meros estagiários de ajudantes de auxiliares de praticantes. E a Maya? Era só revistas e cartas de adivinhação… E televisão e até cinema. Adiante, que se fazia tarde.



B
elchior de mão em pala sobre os olhos ”ó Baltasar, lá vem ele e o camelo vem fino, já dever comprado um novo amortecedor” E outro king que obviamente era preto “comprar, ele, Gaspar?; o que ele sabe fazer é roubar as massas a todos incluindo aos reformados…” O homem chegou com a coroa à banda e explicou que o dono do castelo e por inerência da oficina também era um rei e, por acaso um gajo porreiro.




E
 foi explicando que o monarca de seu nome Herodes,  para além de lhe oferecer o amortecedor ainda o convidara para beber uns copos. E quando ele lhe dissera que iam adorar um Menino que tinha nascido e ia ser o rei de todos os judeus e arredores, lhe pedira que, quando voltasse juntamente com os compinchas lhe indicasse onde poderia ele, Herodes, ir também em adoração. Comentou o Belchior: “já ouvi falar desse Herodes, tem uma fama tramada, por isso ou te calas ou te f…ou podes passar por lélé da cuca.
A companhia de Jesus...



F

oram seguindo viagem até que encontraram s pastorinhos que além das suas ovelhas venciam em part time sprays de neve artificial pois na Judeia fazia um calor do caraças e os presépios são sempre nevados. Lá compraram uns quantos e chegados à cabana viram o Menino deitado numa manjedoura ladeado por um burro e uma vaca. Não se contiveram e o king Gaspar, coçando a carapinha, comentou em voz alta “E é isto a companhia de Jesus…” Até hoje, para atem de cada Natal, os jesuítas continuam a não gostar do dito…


2016-12-18




Antunes Ferreira

S
exta-feira, 13, era um dia aziago, pelo menos diziam os entendidos. Em que matéria? Para se obter uma resposta, dizia a Dona Alzira havia que consultar o padre António Fontes, mentor e fundador do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que tivera a sua XXIX edição e que tinha “coisas”
Sem legenda
e mezinhas para tudo desde emplastros para dores nas cruzes até póses para desencontros de amor, rezas em cruzes destinados a divórcios não desejados, traições maritais e mulherais, e tercenas a Santo Ifigénio d’Alfarrobeira para encontrar  objectos perdidos e não achados.
Padre Fontes


D
esde já há que esclarecer que o padre Fontes era figura de monta no concelho de Montalegre e em especial na freguesia de Vilar de Perdizes. O Congresso fora-se transformando durante os seus 29 anos numa feira onde se podia comprar tudo o que acima consta; as diversas barracas tinham os apetrechos mais apetecidos para datas especiais. Havia bruxas e fadas e até se comemorava o Halloween – que era o dia delas. Era uma festa com grupos regionais, harmónios, bombos e bimbos.


N
aquela sexta-feira, 13, resmoneava o Segismundo sobre o raio do tempo, nem chuva, nem sol, uma merda. O rapaz mantinha-se solteiro, até se dizia que era panilas, mas era boato ignóbil, até gostava de fêmeas, mas de passatempo, porque alianças na mão esquerda eram sinónimo de prisão e ele não estava para aí caído. Ver o Sol aos quadradinhos matrimoniais não o entusiasmava e ele lá tinha as suas razões, com o desespero da dona Filomena que não sossegava enquanto não tivesse neto, bastava-lhe um, mas se viessem mais… onde se cria um criam-se sete… E o filho “moita-carrasco…”

Um desafio à ASAE


C
omo sempre o balconista viera abrir o estaminé pelas seis da manhã, a freguesia chegava cedo para o mata-bicho. Os trabalhadores emborcavam o desjejum, um cálice avantajado de bagaço rijo especial da terra em garrafa sem rótulo – uma aventura e um desafio à ASAE. A Dona Filomena bem avisava o herdeiro “talvez te lixes, nos lixemos, se os fiscais aparecem, levamos pelas trombas com uma multa de fazer chorar as pedrinhas da calçada, senão mesmo nos fecham o ‘stabelecimento”.


E
ram quase sete da matina quando surgiu a Dona Alzira com um diário em punho, esbaforida, cabelos desgrenhados, mas eufórica, vociferando “vocês já leram o jornal?!” A resposta foi quase um coro como o da igreja da Senhora da Azorela “Não! A gente quase nem tem tempo para tirar as ramelas quanto mais para ler jornais!!!” E como se fosse um fagote de coreto, outro sanfonou “e o sacana do metro rebentava pelas costuras. Não havia espaço nem para uma folha de papel para limpar o cu…”


O
 Segismundo ainda arriscou um tímido “mas, senhora, que faz vossemecê aqui por estas madrugadas? Caiu da cama quando ia fazer xixi? Está doente? A farmácia de serviço não é esta, é a Monteiro Costa, ali para os lados d…” Os decibéis abafaram a informação que o rapaz começara a dar um tanto irónica como se podia ver. Alzira de bigode assanhado avisou o atendedor “deixa-te graçolas parvas que o caso é mesmo muito sério!” “ E voltando-se para os das gargalhadas “e vocês, silêncio, se querem ouvir o que vou ler. Nem um pio!"


A
ssentou os óculos de ver ao perto na cana do nariz e começou na primeira página em letras grandíssimas:

ÚLTIMA HORA!
ASSALTO A ATM e depois em mais pequenas e logo em baixo
Meliantes foram presos pela PSP
 Judiciária já tomou conta do caso
Tudo sobre o crime em rigoroso exclusivo nas páginas 8 e 9

O silêncio era de cortar à faca. Suspensso, um verdadeiro suspensso, e o Segismundo, suspense e a Dona Alzira de viés e sem mexer os lábios, a gente já acerta as contas… Nas páginas 8 e 9 com muitas gravuras

ÚLTIMA HORA!
Presos assaltantes de ATM

O
ntem, pelas 22 horas e poucos minutos na rua Xisto Benevides, junto ao supermercado “Pague três leve dois”, o ATM que ali existe foi assaltado com recurso a dinamite. A enorme detonação foi ouvida em toda a vizinhança, tendo-se verificado vidros partidos e outros prejuízos. Felizmente não se registaram vítimas humanas.

Preso pela PSP


O
s três assaltantes foram presos pela PSP que acorreu de imediato ao local, dois imediatamente e terceiro, que se pôs em fuga, cerca de cinco minutos foi também capturado com a ajuda de populares que tinham conseguido agarrá-lo na esquina com a travessa de Boliqueime. Um quarto que conduzia uma carrinha estacionada perto destinada à fuga dos meliantes foi ainda aprisionado e a viatura, apreendida, deu entrada na garagem da Policia.   

T
odos os quatro desceram aos calabouços da PSP. Foram deviamente identificados: Joaquim Sinfrónio que dá pelo nome de Jaquim Braboleta, Jorge Mascarenhas, o Jota Pintarolas, o Zé Palhinha, aliás José Maurício e o condutor Fernando Costa, o Chico Volante. Um guarda da PSP que parece estar implicado na ocorrência, cuja identificação não se revela por motivos da investigação, mas que tudo indica que será familiar de um dos meliantes também foi preso. O assunto já passou para as mãos da Polícia Judiciária. O nosso jornal, que é o primeiro e em rigoroso exclusivo a dar a notícia, acompanhará, passo e passo todas as diligências que forem sendo efectuadas pelas entidades policiais. E, sempre em cima da hora, delas dará conhecimento atempado aos nossos leitores, através do nosso site www.notnot.pt na Internet.


P
rimeiro foi um espanto em que nem se ouvia o zumbir duma varejeira; depois um aahhh sussurrado, finalmente um coro misto de palmas e gargalhadas, desafinadas q.b., mas entusiásticas. Houve até quem propusesse levar a Dona Alzira em ombros, “como si ella fuera el grande Manolete salindo de la Maestranza después de una faena divina”. A intenção e a corresponde afirmação era, claro, do Paco Rodríguez. electricista natural de Merida que viera para a cidade portuga há mais de 20 anos por mor de uma empreitada e por cá casara com uma portuguesa a quem fizera quatro filhas e um filho e onde ficara, integradíssimo na vida lusitana.


Batalha de Aljubarrota em cinema aos copos 



S
ó se chateava quando lhe perguntavam por Aljubarrota… ¿Pero, qué Aljubarrota es esa? ¿Qué porras és? ¿Donde queda? ¿Qué pasó por alli?” Do Santo Contestável, oops, Condestável – nunca existira, ou, pelo menos, nunca ouvira nada a respeito dele…  Para a malta portuguesa, em esmagadora maioria, o eemplo mais frisante era o do Fernando Santos depois de ganhar o Europeu e não era preciso dizer mais nada. Batalhas, mosteiros, reis, generais e santos aparte, os ânimos aqueceram e por uns milímetros quase chegaram a vias de facto.


D
ona Filomena saiu da cozinha e veio deitar água na fervura “Rapazes não estão a ver? A notícia trazida pela Dona Alzira é a prisão dessa gentinha que tentava assaltar a mánicamáquina minha mãe) que distribuí as massas. E entre eles, o Jota e o Braboleta… que tanto nos têm chateado os filhos da mãe. E o pessoal “das mãezinhas deles…)

À Dona Filomena


F
oi o bom e o bonito! A plebe até revirou os olhos! Bem alimbrado (e o Segismundo em sotto voce lembrado) uma salva de palmas uns bravos, vivá Dona Filomena! Viváaa!!! Uma estátua, uma estátua para a Dona Filomena com uma panela em punho! Ou quiçá um tacho. E porque não uma frigideira? As ideias dividiam-se porque a gentil senhora ficaria bem com qualquer utensílio gastronómico e mesmo se ele sairia a preceito.  O Cristiano Ronaldo, o Camões e o Eça tinham. Por que bulas não havia de a ter a dona Filomena? E já agora a Dona Alzira que bem a merecia, Também.



2016-12-07

A SAGA DA ALZIRA – 5


Dinamite
assalto
e dentadura






Antunes Ferreira

N
unca tinha pensado nisso, a sua especialidade era outra, mas a verdade é que o homem põe e Deus dispõe. Não é que Deus estivesse muito interessado no “negócio”, apesar de ser omnipresente e por isso estar atento a tudo. E além do mais não dormia. No entanto o Jaquim Braboleta tinha quase a certeza que Ele não dormia mas de vez em quando passava pelas brasas... Isto dizia o Quim, embora o forte dele não fosse teologia – era mais batota.
O Braboleta, ai, ai...


N
essa manhã, recuperado de boa parte da dentadura imolada aos punhos do campomaiorense (que aliás e como atrás se disse dava pelo nome de Chico Passarinho), estava o Jota no Retiro do Meio Chão tomando o pequeno-almoço – café com leite, mais carregado o primeiro, e uma sandes mista de queijo e fiambre com muita manteiga – quando entrou o Braboleta. O nome dele era Sinfrónio, mas como parecia que era mais pra lá do que pra cá era sempre o Braboleta, ai meninos, parecia mesmo uma braboleta a dar a dar… ai, ai.


A
ssentou-se ao pé dele, pediu ao Segismundo uma bica cheia em chávena escaldada e, de repente, perguntou-lhe se sabia o porquê do café se chamar bica… “Porra! Que sacana de prégunta! Sei lá, eu não sou muito de geografia… “ E o Braboleta “Tu o que és é uma besta-quadrada!” e riu-se. O Segismundo, homem prevenido vale, pelo menos, por dois ou mesmo três, quiçá quatro, retirou os copos vazios do balcão, por causa das moscas, e avisou que não queria ali merdas.

A maternidade das bicas...


C
ompanheiro está sossegado, estamos só a falar; e já agora sabes tu porque se chama bica? O balconista também não sabia. Vai daí o Braboleta explicou que o senhor Adriano Telles, que vivera anos no Brasil, em mil novecentos e troca o passo abriu um café “A Brasileira do Chiado” e mandou vir uns sacos de café moído, pois era moda no Paris da França beber café e como vira fazer nas terras brasileiras diluíra o pó em auga quente, passara-o por um saco de pano como filtro (tinham-lhe também dito que uma peúga sem ser lavada ainda era melhor, dava-lhe um gosto especial talvez do chulé…) e servira-o aos clientes, recomendando-lhes que provassem a nova bebida que era porreira e…


O
uça lá ó sôr Telles, porreira – o caralho. Vá-se foder com ela que é amarga como um quilo de fel!!! Adriano, desanimado, falou com o filho que lhe explicou que era preciso botar açúcar para o café se beber. E fez-lhe uns cartões para pôr em cada mesa: BEBA ISTO COM AÇÚCAR. B I C A. Por isso ficou bica. O homem ficou muito agartecido ao filho. E mais ainda ficaram os clientes. Segismundo ainda pensou em emendá-los. Mas, com malta desse tipo era melhor estar caladinho e deixar-se de ensinadelas. Por isso correu o fecho ecler dos lábios. 

Uma golpada em tamanho grande...


N
a rua as obras prosseguiam apesar da chuva que viera para ficar. Bátegas varriam homens e máquinas, e o barulho atormentava aqueles mais audazes que arrostavam com o temporal. No Meio Chão tirando os dois comparsas, o Segismundo e a Dona Filomena gerindo as suas panelas não havia vivalma. Ambiente propício para conspirar. “Jota já pensaste numa golpada em tamanho grande?” Pintarolas não tinha pensado, aliás pensar cansava muito e dava cabo da mioleira e portanto não pensava. Mas, mesmo assim, préguntou “golpada em grande? Homessa?!”


B
raboleta olhou em volta, ninguém!, com dizia o gajo das barbas no filme portuga que volta não volta passava na televisão. “ Tenho mais dois compinchas que já alinham…” Jota, intrigado “mas alinham em quê?” Quim respondeu-lhe “schiu, fala baixo, estamos a preparar um assalto à noite a uma caixa do Multibanco, não digas nada, e precisamos de mais um gajo; lembrei-me logo de ti. E os outros estão de acordo.”


J
á temos todo o material preparado. Primeiro pensámos num tractor, mas dava muito nas vistas. Escolhemos então o dinamite. Broboquins, brocas, martelos, alicrates e esses aviamentos está tudo nos trinques e capuchos para as cabeças bem como luvas por causa das impressões degitais. E uma carrinha para nos pormos ao fresco depois de termos o pilim. Vai ser um sucesso, menino, um sucesso!”
Desconhecem-se os autores...
E entusiasmava-se "E depois a TV, a rádio, os jornais: foi assaltada mais uma caixa de Multibanco, etc, etc, os assaltantes puseram-se em fuga, bla, bla, bla, desconhecem-se os autores, o caso foi entregue à Polícia Judiciária e etc, etc." Já viste? 


C
aramba! Pintarolas quase saltou da cadeira e ia entornando o café com leite “tu estás choné da cuca! A bófia deita-nos a luva, vai tudo pró xilindró, estamos fodidos, apanhamos uma porrada de anos à sombra, nem acabo de arranjar a puta da boca. É tudo prejuízo! Nem pó!” Braboleta não desarmou “tenho um primo que é polícia na esquadra da zona da ATM que escolhemos ou lá como se chama essa porra, o gajo está de serviço na altura do golpe, faz orelhas moucas e já está. Pensa bem. É uma porrada de caroço! ”Respondes-me amanhã, tá certo?”

A
 cheta roubada, a corrupção convencem muito “boa  gente”, principalmente banqueiros padres e políticos, e o Jota Pintarolas, depois de muito matutar na proposta, decidiu ir no golpe. Se fosse acabar a ver o Sol aos quadradinhos não seria de todo mau: casa, cama, morfos e saídas aos fins-de-semana por bom comportamento não lhe soava muito mal. De resto, quando saísse temporariamente ainda podia dar umas pinocadas com a Jaquina e durante as visitas ela iria trazer-lhe uns maços de cigarros, uns chocolates e talvez uns bocados de erva. Nada mau. Isto, claro, se as coisas dessem para o azar…

... que nem um veado do Marão


S
e o “negócio” corresse bem entrava-lhe um rico cacau no  bolso, nos bancos nada, estavam mais tesos do que um carapau frito ou do que ele… Na parte da tarde do dia seguinte voltou ao Meio Chão e ficou à espera do Braboleta. Entretanto vieram a Alzira e as outras que o olharam de viés. Começaram a cortar na casaca de uma porrada de malta, o costume. “Já sabem que a mulher do coronel Sarzedas pôs-lhe uma armadura de cornos que nem um veado do Marão?” E a menina Hortênsia “é no que dá um velhadas casar com uma gaja nova… “Não senhora, ajuntou a Dona Alzira, “diz o ditado que homem velho com mulher moça dá filhos até à poça…” Carrada de putas. Não era ele que voltaria a meter-se com elas, poderia chegar o Passarinho e adeus dentadura nova.