2016-12-18




Antunes Ferreira

S
exta-feira, 13, era um dia aziago, pelo menos diziam os entendidos. Em que matéria? Para se obter uma resposta, dizia a Dona Alzira havia que consultar o padre António Fontes, mentor e fundador do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que tivera a sua XXIX edição e que tinha “coisas”
Sem legenda
e mezinhas para tudo desde emplastros para dores nas cruzes até póses para desencontros de amor, rezas em cruzes destinados a divórcios não desejados, traições maritais e mulherais, e tercenas a Santo Ifigénio d’Alfarrobeira para encontrar  objectos perdidos e não achados.
Padre Fontes


D
esde já há que esclarecer que o padre Fontes era figura de monta no concelho de Montalegre e em especial na freguesia de Vilar de Perdizes. O Congresso fora-se transformando durante os seus 29 anos numa feira onde se podia comprar tudo o que acima consta; as diversas barracas tinham os apetrechos mais apetecidos para datas especiais. Havia bruxas e fadas e até se comemorava o Halloween – que era o dia delas. Era uma festa com grupos regionais, harmónios, bombos e bimbos.


N
aquela sexta-feira, 13, resmoneava o Segismundo sobre o raio do tempo, nem chuva, nem sol, uma merda. O rapaz mantinha-se solteiro, até se dizia que era panilas, mas era boato ignóbil, até gostava de fêmeas, mas de passatempo, porque alianças na mão esquerda eram sinónimo de prisão e ele não estava para aí caído. Ver o Sol aos quadradinhos matrimoniais não o entusiasmava e ele lá tinha as suas razões, com o desespero da dona Filomena que não sossegava enquanto não tivesse neto, bastava-lhe um, mas se viessem mais… onde se cria um criam-se sete… E o filho “moita-carrasco…”

Um desafio à ASAE


C
omo sempre o balconista viera abrir o estaminé pelas seis da manhã, a freguesia chegava cedo para o mata-bicho. Os trabalhadores emborcavam o desjejum, um cálice avantajado de bagaço rijo especial da terra em garrafa sem rótulo – uma aventura e um desafio à ASAE. A Dona Filomena bem avisava o herdeiro “talvez te lixes, nos lixemos, se os fiscais aparecem, levamos pelas trombas com uma multa de fazer chorar as pedrinhas da calçada, senão mesmo nos fecham o ‘stabelecimento”.


E
ram quase sete da matina quando surgiu a Dona Alzira com um diário em punho, esbaforida, cabelos desgrenhados, mas eufórica, vociferando “vocês já leram o jornal?!” A resposta foi quase um coro como o da igreja da Senhora da Azorela “Não! A gente quase nem tem tempo para tirar as ramelas quanto mais para ler jornais!!!” E como se fosse um fagote de coreto, outro sanfonou “e o sacana do metro rebentava pelas costuras. Não havia espaço nem para uma folha de papel para limpar o cu…”


O
 Segismundo ainda arriscou um tímido “mas, senhora, que faz vossemecê aqui por estas madrugadas? Caiu da cama quando ia fazer xixi? Está doente? A farmácia de serviço não é esta, é a Monteiro Costa, ali para os lados d…” Os decibéis abafaram a informação que o rapaz começara a dar um tanto irónica como se podia ver. Alzira de bigode assanhado avisou o atendedor “deixa-te graçolas parvas que o caso é mesmo muito sério!” “ E voltando-se para os das gargalhadas “e vocês, silêncio, se querem ouvir o que vou ler. Nem um pio!"


A
ssentou os óculos de ver ao perto na cana do nariz e começou na primeira página em letras grandíssimas:

ÚLTIMA HORA!
ASSALTO A ATM e depois em mais pequenas e logo em baixo
Meliantes foram presos pela PSP
 Judiciária já tomou conta do caso
Tudo sobre o crime em rigoroso exclusivo nas páginas 8 e 9

O silêncio era de cortar à faca. Suspensso, um verdadeiro suspensso, e o Segismundo, suspense e a Dona Alzira de viés e sem mexer os lábios, a gente já acerta as contas… Nas páginas 8 e 9 com muitas gravuras

ÚLTIMA HORA!
Presos assaltantes de ATM

O
ntem, pelas 22 horas e poucos minutos na rua Xisto Benevides, junto ao supermercado “Pague três leve dois”, o ATM que ali existe foi assaltado com recurso a dinamite. A enorme detonação foi ouvida em toda a vizinhança, tendo-se verificado vidros partidos e outros prejuízos. Felizmente não se registaram vítimas humanas.

Preso pela PSP


O
s três assaltantes foram presos pela PSP que acorreu de imediato ao local, dois imediatamente e terceiro, que se pôs em fuga, cerca de cinco minutos foi também capturado com a ajuda de populares que tinham conseguido agarrá-lo na esquina com a travessa de Boliqueime. Um quarto que conduzia uma carrinha estacionada perto destinada à fuga dos meliantes foi ainda aprisionado e a viatura, apreendida, deu entrada na garagem da Policia.   

T
odos os quatro desceram aos calabouços da PSP. Foram deviamente identificados: Joaquim Sinfrónio que dá pelo nome de Jaquim Braboleta, Jorge Mascarenhas, o Jota Pintarolas, o Zé Palhinha, aliás José Maurício e o condutor Fernando Costa, o Chico Volante. Um guarda da PSP que parece estar implicado na ocorrência, cuja identificação não se revela por motivos da investigação, mas que tudo indica que será familiar de um dos meliantes também foi preso. O assunto já passou para as mãos da Polícia Judiciária. O nosso jornal, que é o primeiro e em rigoroso exclusivo a dar a notícia, acompanhará, passo e passo todas as diligências que forem sendo efectuadas pelas entidades policiais. E, sempre em cima da hora, delas dará conhecimento atempado aos nossos leitores, através do nosso site www.notnot.pt na Internet.


P
rimeiro foi um espanto em que nem se ouvia o zumbir duma varejeira; depois um aahhh sussurrado, finalmente um coro misto de palmas e gargalhadas, desafinadas q.b., mas entusiásticas. Houve até quem propusesse levar a Dona Alzira em ombros, “como si ella fuera el grande Manolete salindo de la Maestranza después de una faena divina”. A intenção e a corresponde afirmação era, claro, do Paco Rodríguez. electricista natural de Merida que viera para a cidade portuga há mais de 20 anos por mor de uma empreitada e por cá casara com uma portuguesa a quem fizera quatro filhas e um filho e onde ficara, integradíssimo na vida lusitana.


Batalha de Aljubarrota em cinema aos copos 



S
ó se chateava quando lhe perguntavam por Aljubarrota… ¿Pero, qué Aljubarrota es esa? ¿Qué porras és? ¿Donde queda? ¿Qué pasó por alli?” Do Santo Contestável, oops, Condestável – nunca existira, ou, pelo menos, nunca ouvira nada a respeito dele…  Para a malta portuguesa, em esmagadora maioria, o eemplo mais frisante era o do Fernando Santos depois de ganhar o Europeu e não era preciso dizer mais nada. Batalhas, mosteiros, reis, generais e santos aparte, os ânimos aqueceram e por uns milímetros quase chegaram a vias de facto.


D
ona Filomena saiu da cozinha e veio deitar água na fervura “Rapazes não estão a ver? A notícia trazida pela Dona Alzira é a prisão dessa gentinha que tentava assaltar a mánicamáquina minha mãe) que distribuí as massas. E entre eles, o Jota e o Braboleta… que tanto nos têm chateado os filhos da mãe. E o pessoal “das mãezinhas deles…)

À Dona Filomena


F
oi o bom e o bonito! A plebe até revirou os olhos! Bem alimbrado (e o Segismundo em sotto voce lembrado) uma salva de palmas uns bravos, vivá Dona Filomena! Viváaa!!! Uma estátua, uma estátua para a Dona Filomena com uma panela em punho! Ou quiçá um tacho. E porque não uma frigideira? As ideias dividiam-se porque a gentil senhora ficaria bem com qualquer utensílio gastronómico e mesmo se ele sairia a preceito.  O Cristiano Ronaldo, o Camões e o Eça tinham. Por que bulas não havia de a ter a dona Filomena? E já agora a Dona Alzira que bem a merecia, Também.



2016-12-07

A SAGA DA ALZIRA – 5


Dinamite
assalto
e dentadura






Antunes Ferreira

N
unca tinha pensado nisso, a sua especialidade era outra, mas a verdade é que o homem põe e Deus dispõe. Não é que Deus estivesse muito interessado no “negócio”, apesar de ser omnipresente e por isso estar atento a tudo. E além do mais não dormia. No entanto o Jaquim Braboleta tinha quase a certeza que Ele não dormia mas de vez em quando passava pelas brasas... Isto dizia o Quim, embora o forte dele não fosse teologia – era mais batota.
O Braboleta, ai, ai...


N
essa manhã, recuperado de boa parte da dentadura imolada aos punhos do campomaiorense (que aliás e como atrás se disse dava pelo nome de Chico Passarinho), estava o Jota no Retiro do Meio Chão tomando o pequeno-almoço – café com leite, mais carregado o primeiro, e uma sandes mista de queijo e fiambre com muita manteiga – quando entrou o Braboleta. O nome dele era Sinfrónio, mas como parecia que era mais pra lá do que pra cá era sempre o Braboleta, ai meninos, parecia mesmo uma braboleta a dar a dar… ai, ai.


A
ssentou-se ao pé dele, pediu ao Segismundo uma bica cheia em chávena escaldada e, de repente, perguntou-lhe se sabia o porquê do café se chamar bica… “Porra! Que sacana de prégunta! Sei lá, eu não sou muito de geografia… “ E o Braboleta “Tu o que és é uma besta-quadrada!” e riu-se. O Segismundo, homem prevenido vale, pelo menos, por dois ou mesmo três, quiçá quatro, retirou os copos vazios do balcão, por causa das moscas, e avisou que não queria ali merdas.

A maternidade das bicas...


C
ompanheiro está sossegado, estamos só a falar; e já agora sabes tu porque se chama bica? O balconista também não sabia. Vai daí o Braboleta explicou que o senhor Adriano Telles, que vivera anos no Brasil, em mil novecentos e troca o passo abriu um café “A Brasileira do Chiado” e mandou vir uns sacos de café moído, pois era moda no Paris da França beber café e como vira fazer nas terras brasileiras diluíra o pó em auga quente, passara-o por um saco de pano como filtro (tinham-lhe também dito que uma peúga sem ser lavada ainda era melhor, dava-lhe um gosto especial talvez do chulé…) e servira-o aos clientes, recomendando-lhes que provassem a nova bebida que era porreira e…


O
uça lá ó sôr Telles, porreira – o caralho. Vá-se foder com ela que é amarga como um quilo de fel!!! Adriano, desanimado, falou com o filho que lhe explicou que era preciso botar açúcar para o café se beber. E fez-lhe uns cartões para pôr em cada mesa: BEBA ISTO COM AÇÚCAR. B I C A. Por isso ficou bica. O homem ficou muito agartecido ao filho. E mais ainda ficaram os clientes. Segismundo ainda pensou em emendá-los. Mas, com malta desse tipo era melhor estar caladinho e deixar-se de ensinadelas. Por isso correu o fecho ecler dos lábios. 

Uma golpada em tamanho grande...


N
a rua as obras prosseguiam apesar da chuva que viera para ficar. Bátegas varriam homens e máquinas, e o barulho atormentava aqueles mais audazes que arrostavam com o temporal. No Meio Chão tirando os dois comparsas, o Segismundo e a Dona Filomena gerindo as suas panelas não havia vivalma. Ambiente propício para conspirar. “Jota já pensaste numa golpada em tamanho grande?” Pintarolas não tinha pensado, aliás pensar cansava muito e dava cabo da mioleira e portanto não pensava. Mas, mesmo assim, préguntou “golpada em grande? Homessa?!”


B
raboleta olhou em volta, ninguém!, com dizia o gajo das barbas no filme portuga que volta não volta passava na televisão. “ Tenho mais dois compinchas que já alinham…” Jota, intrigado “mas alinham em quê?” Quim respondeu-lhe “schiu, fala baixo, estamos a preparar um assalto à noite a uma caixa do Multibanco, não digas nada, e precisamos de mais um gajo; lembrei-me logo de ti. E os outros estão de acordo.”


J
á temos todo o material preparado. Primeiro pensámos num tractor, mas dava muito nas vistas. Escolhemos então o dinamite. Broboquins, brocas, martelos, alicrates e esses aviamentos está tudo nos trinques e capuchos para as cabeças bem como luvas por causa das impressões degitais. E uma carrinha para nos pormos ao fresco depois de termos o pilim. Vai ser um sucesso, menino, um sucesso!”
Desconhecem-se os autores...
E entusiasmava-se "E depois a TV, a rádio, os jornais: foi assaltada mais uma caixa de Multibanco, etc, etc, os assaltantes puseram-se em fuga, bla, bla, bla, desconhecem-se os autores, o caso foi entregue à Polícia Judiciária e etc, etc." Já viste? 


C
aramba! Pintarolas quase saltou da cadeira e ia entornando o café com leite “tu estás choné da cuca! A bófia deita-nos a luva, vai tudo pró xilindró, estamos fodidos, apanhamos uma porrada de anos à sombra, nem acabo de arranjar a puta da boca. É tudo prejuízo! Nem pó!” Braboleta não desarmou “tenho um primo que é polícia na esquadra da zona da ATM que escolhemos ou lá como se chama essa porra, o gajo está de serviço na altura do golpe, faz orelhas moucas e já está. Pensa bem. É uma porrada de caroço! ”Respondes-me amanhã, tá certo?”

A
 cheta roubada, a corrupção convencem muito “boa  gente”, principalmente banqueiros padres e políticos, e o Jota Pintarolas, depois de muito matutar na proposta, decidiu ir no golpe. Se fosse acabar a ver o Sol aos quadradinhos não seria de todo mau: casa, cama, morfos e saídas aos fins-de-semana por bom comportamento não lhe soava muito mal. De resto, quando saísse temporariamente ainda podia dar umas pinocadas com a Jaquina e durante as visitas ela iria trazer-lhe uns maços de cigarros, uns chocolates e talvez uns bocados de erva. Nada mau. Isto, claro, se as coisas dessem para o azar…

... que nem um veado do Marão


S
e o “negócio” corresse bem entrava-lhe um rico cacau no  bolso, nos bancos nada, estavam mais tesos do que um carapau frito ou do que ele… Na parte da tarde do dia seguinte voltou ao Meio Chão e ficou à espera do Braboleta. Entretanto vieram a Alzira e as outras que o olharam de viés. Começaram a cortar na casaca de uma porrada de malta, o costume. “Já sabem que a mulher do coronel Sarzedas pôs-lhe uma armadura de cornos que nem um veado do Marão?” E a menina Hortênsia “é no que dá um velhadas casar com uma gaja nova… “Não senhora, ajuntou a Dona Alzira, “diz o ditado que homem velho com mulher moça dá filhos até à poça…” Carrada de putas. Não era ele que voltaria a meter-se com elas, poderia chegar o Passarinho e adeus dentadura nova.



2016-11-30



Antunes Ferreira

P
ode acreditar senhor Ezequiel é ouro de lei, 19,2 quilates como manda a lei portuguesa. O que está propor é uma ninharia. Se eu não precisasse, não vinha à sua casa pôr este cordão no prego. Foi-me dado pela minha madrinha de Viana…


Ó
 mulher cala-se praí, estou farto de a ouvir! É pegar ou largar, o preço que lhe ofereço é absolutamente justo e os juros até são baixos. Se quer consultar outro meu colega vá ter com ele. Casas de penhores são o que não falta, mais do que uma em cada bairro. A guerra deu cabo da economia e ainda que não tivéssemos entrado nela, as coisas ressentiram-se. É ver as estrangeiras que fugiram dela e vieram para cá mostrar as pernas na pastelaria Suiça do Rossio… 
Senhas do racionamento



E
rmelinda recolheu o cordão de ouro de lei oferecido pela sua madrinha de Viana do Castelo, sentou-se num banco da avenida e ficou a pensar no que tinha dito o Ezequiel dos penhores. Portugal salvara-se dos horrores da guerra porque o homem do leme era o Senhor Presidente do Conselho com o auxílio de Nossa Senhora de Fátima. Havia, é claro, bichas para o pão, para o açúcar para o petróleo, para o azeite, para o carvão, mas mesmo assim, graças a Deus, a gente ia vivendo.


E
rmelinda dos Santos Gomes era mulher a dias em quatro casas, mãe de dois casais tinha por marido Manuel Gomes assentador de tacos de madeira para soalhos, que ganhava à hora para o patrão João Gonçalves, o Maneta, que por isso mesmo já não exercia a profissão. Fora ele que ensinara o Gomes a arte e hoje do salário deste último comia uma percentagem, coisa para não deitar fora ou aventar pois era alentejano.


O
s tempos iam apertados, os casais andavam na escola primária, os mais novos e na técnica, os mais velhos. Corria o ano da graça de 1946, a guerra terminara em 45 e o povo olhava para Espanha, ali ao lado, lambendo as feridas da guerra civil que deixara nuestros hermanos a comer pão escuro com cebola e a fumar pitillos de barbas de milho enroladas em papel de jornal. E usavam alpergatas de sola de pano… Ali havia fome e o contrabando para lá era um negócio muito rendoso.
Um eléctrico aberto frente ao Eden


U
m eléctrico aberto descia a avenida da Liberdade (era só o nome…) mesmo em frente do Eden e uns catraios iam pendurados no estribo traseiro até que o pica-bilhetes os viesse enxotar. Aqueles não tinham nem fome nem problemas ou se os tinham já se haviam habituado a eles e nem precisavam de ir pôr no prego o cordão de ouro de lei que a madrinha de Viana do Castelo lhe oferecera como prenda de casamento. Cordão ou arrecada. Para empenhar tanto fazia.


D
escansaria um pouco e em seguida iria ao judeu Jacob Levy que emprestava dinheiro a juros altíssimos e aceitava quaisquer objectos como garantia. Era uma espécie de casa de penhores, mas à socapa, por baixo da mesa não fosse dar-se o caso de um fiscal da Intendência-Geral de Abastecimentos, recém-criada, lhe bater à porta e… estava o caldo entornado. Só que o Levy morava num terceiro andar das Escadinhas do Duque e teria de palmilhar muita calçada para lá chegar.

O dispensário de Alcântara 

M
as, tinha de ser. A mais velha, Rosinha, estava mal, mesmo muito mal, o médico era caro, mandara tirar uma radiografia no dispensário de Alcântara, era mal dos pulmões, o tratamento sairia caríssimo só em medicamentos e talvez fosse necessário ir para o  Sanatório das Penhas de Saúde dos Ferroviários e que ficava na serra da Estrela. Mais despesa, mais abrir os cordões a uma bolsa que só estava cheia de… cotão. Maldita tuberculose, chamada a ceifeira de negro, impiedosa, mortal. Portanto, só os penhores.


E
stava Ermelinda nesta canseira de pensamento quando chegou  o seu homem numa corrida louca a deitar os bofes pela boca. “Credo Manel, vens esbaforido! Senta-te aqui ao é de mim, sossega e diz-me o que se passa! Caiu o Santo António do altar? Quebrou-se-lhe a bilha?” E o marido, ansioso, “Já foste pôr a arrecada no prego?” Ermelinda olhou-o de alto a baixo “ainda não, mas vou de seguida…” O Manel arreganhou a cepa “Porra! Ainda bem! Nem pensar! Não vais!”

Há horas de sorte!!!


E
le devia estar louco, pensou Ermelinda, tinha de ir para Rilhafoles. .. “Mas, que raio de trangalomango te deu? Enlouqueceste?”. Manuel começou a rir à gargalhada “Saiu-me a sorte grande! Saiu-nos a graúda! A graúda!” Entre o espanto e a dúvida ela perguntou-lhe o que estava ele a dizer? E o marido contou-lhe que na manhã desse dia tinha tido uma fezada e com os magros escudos da féria tinha comprado meio bilhete da lotaria ali no Largo da Trindade a um cauteleiro que usava um chapéu-de-chuva carregado de cautelas “há dias de sorte!” E houvera. Fora à Misericórdia ver o sorteio. Depois de andar à roda, ouvira o pregoeiro: “Primeiro prémio - Dois mil setecentos e trinta e oito; e o outro pregoeiro: “Primeiro prémio: Mil contos! Dois mil setecentos e trinta e oito – Mil contos!” Era o seu número: Meio bilhete, metade: 500 contos!


A
 Rosinha ficaria curada custasse o que custasse. Mudariam da barraca para uma casa decente com casa de banho nas Avenidas Novas. Os putos iriam para a universidade. Talvez comprassem um carrito, pequeno, mas em primeira mão. E sonhos, comprariam sonhos que eram baratos como as panelas da Feira Popular E ainda guardariam algum na Caixa. Quinhentos contos! Quinhentos! Era um ror de massa...










2016-11-24

A velha
e o cão


Antunes Ferreira


O
 tamanho do cão era pelo menos duas vezes o da velhinha que o segurava pela trela enquanto ele ia cheirando aqui e ali a fim de encontrar o local ideal para fazer as suas necessidades e marcar o seu território. Tranquilamente, sem esticar a correia, o animal parecia guiar a senhora embiocada de negro. Na mão esquerda trazia um chapéu da chuva e em ambas luvas igualmente pretas. Nunca chegarei a saber porquê mas pareceu-me tirada de uma tela de Henry Jones. E nem sou particularmente adepto da escola inglesa do século XIX

E
u estava numa Repartição das Finanças para pagar um imposto de que me esquecera e por isso acrescido da multa correspondente. O número que tirara da máquina distribuidora de senhas ainda vinha longe, acabara o livro policial que trouxera como entretenimento e agora mirava através da vidraça a cidade a secar. Parara de chover há pouco mais de uma hora, mas de acordo com os meteorologistas as nuvens negras – para eles cúmulo-nimbos – as cargas de água voltariam a qualquer momento.
O que tu queres é ver...



S
entado num dos bancos pré atendimento um casal tipo provinciano, a senhora tricotando placidamente (um casaco de malha, um cachecol, um suéter?), ele acabando de ler o Correio da Manha que trouxera do táxi (“as gordas, eu não sou de grandes leituras”) e ela pensando enquanto dava às agulhas (“o que tu queres é ver as gajas quase nuas, os homens são todos iguais…”), “Ó mulher, isto ainda demorará muito?” “Está para lavar e durar, temos o 187-D e no quadro ainda vão no 89-B” “Devíamos ter trazido uma bucha, é o que é… homem prevenido vale por dois”



A
 senhora idosa e o cão pararam na beira do passeio, como se na rua em frente houvesse passadeira para peões; mas não havia. O bicho deve ter ganido, apenas o pressupunha, o vidro, a distância e o tráfego impediam-me de o ouvir. E que trânsito! Filas enormes, veículos quase encostados uns aos outros, piso escorregadio em paralelepípedos, uma manteiga, e gente, muita gente anónima numa rua desumana salpicada de charcos acabados de chover.

Uma bizarma carregada de tijolos



F
oi então que reparei que a senhora era cega e o cão o seu guia. E ainda que ela pretendia atravessar a rua sem ser na passadeira, ao que o cão se opunha; mas era teimosa e avançou arrastando o animal que fincava as patas no asfalto. À frente da fila do trânsito – a rua era de sentido único – vinha um camião carregado de tijolos, uma bizarma de cabine cor do Inferno. Sobressaltei-me e corri para a rua: a velha ia ser atropelada. E o cachorro também.

Um gigante de boné vermelho


U
ma chiadeira tonitruante de travões, o condutor saltou da cabina e pegou no braço da senhora levando-a cuidadosamente para o passeio do lado de lá da rua. O cão seguiu-os com a trela de novo lassa. Tudo parecia ter terminado bem não fora o coro de impropérios vindos dos diversos veículos que seguiam o camião “filho da puta, cabrão, tiraste a carta a quem?, bandido quase me matavas!” e por aí fora. O motorista era um gigante com dois metros ou coisa que valesse, boné vermelho, todo músculos, barba de três dias.


D
irigiu-se calmamente ao condutor do primeiro carro que ao vê-lo avançar tentou levantar o vidro da janela, mas o matulão deitou-lhe a mão impedindo-o de o fazer, e sem levantar a voz “ Foi o senhor que chamou qualquer coisa que não ouvi bem à minha falecida mãezinha?” O cavalheiro do carro não disse nada – mas ficou branco. Voltando-se para o resto da fila, repetiu a pergunta. Respondeu-lhe o silêncio.



F
oi na altura que se ouviu uma voz baixinha vinda do passeio “És tu, Alfredinho?” O matulão virou-se e de repente avançou para a velhota “Ó Dona Lurdes, nem a conheci”, abraçou-a carinhosamente e deu-lhe dois sonoros beijos. “Sabes, Alfredinho, depois de tantos anos a tua voz encorpou-se mas continua a mesma…” Em dois minutos combinaram encontrar-se, “minha querida Dona Lurdes, o trânsito está fo…, difícil…”



V

oltou para a cabina. E a Dona Lurdes adiantou-se um pouco para atirar um beijo de despedida; um chico esperto, impaciente, carro modelo top, farto de esperar, acelerou, ultrapassou a fila, acertou na velha, passou-lhe por cima e  fugiu. Ela ficou enrodilhada no asfalto, com um ribeirinho de sangue a correr. Estava morta. Esmagada. O cão uivou. Alfredinho voltou a saltar da cabina,

E antes que cobrissem o corpo...
e antes que cobrissem o corpo, ajoelhou-se junto dela, pegou-lhe na mão que perdera a luva e beijou-a repetidas vezes. Recomeçara a chover e os pingos grossos da chuva misturaram-se com as lágrimas grossas do gigante “Era a minha professora da terceira classe…”